Helena estava sentada no tapete da sala, pernas dobradas de lado, com Mel esticada sobre sua coxa. Os dedos dela deslizavam atrás das orelhas da golden, que fechava os olhos em pura satisfação. Na outra mão, o celular refletia uma imagem recente: ela, Heitor, Jonas e Isaac juntos, sorrindo depois de um dia inteiro na praia. A tarde tinha sido ótima. Mais do que ótima. Um pedacinho de felicidade que parecia simples, mas que para ela era precioso.

Um ruído leve chamou sua atenção. Quando ergueu os olhos, viu Heitor surgindo pelo corredor. Ele usava camiseta justa e bermuda de treino, a mochila já pendurada no ombro. A expressão era tranquila, mas havia uma sombra pensativa nos olhos azuis.

— Vai mesmo malhar? — Helena perguntou, divertida, acariciando a cabeça de Mel.

— Vou. — Ele colocou a garrafa de água na mochila e fechou o zíper com um puxão firme. — Não posso perder o ritmo. Ficar com você é muito sedutor, mas quero me manter inteiro. Quando eu ficar idoso, ainda quero ver você suspirando por mim.

Helena riu, o rosto iluminado.

— Eu sempre vou suspirar, Heitor. Não importa como você esteja.

Ele arqueou uma sobrancelha, meio incrédulo, e se inclinou para roubar um selinho rápido.

— Prefiro não arriscar.

Ela balançou a cabeça, rindo baixinho.

— Talvez na próxima semana eu comece essa vida fitness com você.

O sorriso dele se abriu de vez, malicioso.

— Vai ser ótimo. A gente tira fotos de casal, eu vou te ajudar a fazer os exercícios… — a voz ficou propositalmente sugestiva. — Vou adorar te corrigir a postura.

Helena o empurrou de leve no ombro, rindo.

— Você não presta, Monteiro.

Ele piscou, satisfeito.

— Mas você me ama.

— Infelizmente — respondeu com deboche carinhoso.

Se despediram com mais um beijo rápido. Heitor ajeitou a mochila nas costas e saiu, deixando o perfume dele no ar. Helena permaneceu no tapete, olhando de novo para a foto no celular. Sentia-se feliz… mas também um pouco inquieta, lembrando das palavras da sogra, do olhar de Viviane, e do jeito que Heitor andava mais pensativo desde a praia.

O episódio de Revenge passava na tela da TV, mas Helena já não estava tão concentrada. Mel estava com uma carinha satisfeita no colo, recebendo cafuné preguiçoso enquanto Helena pensava na praia, nas falas da sogra, e no sorriso de Heitor antes de sair para a academia.

O toque do celular a fez sobressaltar. O visor mostrava um número desconhecido, com DDD 21 — Rio de Janeiro. Estranhou; raramente atendia números assim, mas algo a fez deslizar o dedo e atender.

— Alô?

A resposta veio imediata, uma voz feminina, firme, com sotaque carioca limpo:

— Boa tarde, Helena. Desculpe interromper seu final de tarde.

Helena franziu o cenho.

— Tudo bem… quem é?

— Sou Fernanda Lima. Estou na Monteiro Inc. O senhor Monteiro solicitou que ligasse para você e requisitasse a sua presença.

A mão de Helena gelou.

— Ele… não me falou nada. Está tudo bem?

A mulher soou tranquila demais, quase ensaiada:

— Sim, apenas questões administrativas. Consegue chegar em vinte minutos? Estou aguardando no saguão.

Helena respirou fundo, tentando organizar os pensamentos.

— Claro… já estou indo.

Desligou antes de conseguir refletir. O coração disparou. O instinto foi imediato: ligou para Heitor. O celular chamou uma, duas, três vezes… e caiu na caixa postal. Tentou de novo, nada. O silêncio da linha só aumentava a sensação de que algo estava errado.

Levantou num pulo, Mel escorregando do colo e caindo no tapete, e correu para o quarto. Vestiu a primeira roupa social que encontrou no cabide, amarrou o cabelo em um coque apressado e passou um batom claro, quase no reflexo. O coração estava no pescoço.

Pegou a bolsa, conferiu se estava tudo dentro e desceu. Pediu o primeiro carro que apareceu no aplicativo e já estava no portão em menos de cinco minutos.

O motorista a reconheceu pelo crachá de acesso do condomínio e ela entrou no carro.

Enquanto o veículo avançava pelo trânsito ainda carregado, Helena estava inquieta. Mandou mensagens e tentou ligar, ele não visualizava e nem respondia. O coração não parava de repetir a mesma pergunta: “Por que Heitor não atende? E por que me chamaram sem ele avisar nada?”

Sentia-se no limite entre a confiança e o medo, presa ao aperto do cinto de segurança como se fosse a única coisa a segurá-la.

O carro mal parou e Helena já abriu a porta, o salto tocando apressado o chão de granito da entrada. O coração disparava; a mão apertava com força a alça da bolsa enquanto atravessava o saguão.

Ali, de pé como se a esperasse há horas, estava uma mulher. Alta, postura impecável, o cabelo castanho liso caía sobre os ombros em ondas discretas. Vestia um tailleur creme ajustado, salto fino e um colar simples, mas evidentemente caro. A expressão era polida, firme, mas com um sorriso profissional nos lábios.

— Helena? — disse, estendendo a mão com segurança. A voz era serena, mas tinha um peso que impunha respeito. — É um prazer. Sou Fernanda Lima.

O aperto de mão foi firme. Helena, nervosa, retribuiu.

— O que… o que aconteceu? Ele tá bem?

— Está sim. — Fernanda respondeu sem hesitar. — Apenas negócios. Vamos subir? O senhor Monteiro a aguarda. Confie em mim, está tudo bem.

Helena engoliu em seco, o coração ainda pedindo respostas. Mas a segurança na voz da mulher era quase hipnótica. Caminhou ao lado dela até o elevador de aço escovado, os espelhos refletindo a tensão no rosto da jovem.

Enquanto subiam, Helena não parava de mexer no celular. Mais três mensagens enviadas. Nenhuma resposta. O silêncio de Heitor era o que mais a apavorava.

— Fique tranquila — Fernanda disse, notando o nervosismo dela. — O senhor Monteiro aparenta ter grande estima por você. Não se preocupe, vai ficar tudo bem.

“Vai ficar tudo bem?”, pensou Helena. Desde quando Heitor pedia para alguém falar por ele? O estômago revirava.

O visor acima do painel marcava: 37… 38… 39. Helena respirou fundo, esperando que as portas se abrissem no andar da diretoria. Mas o elevador não parou. Continuou subindo.

Helena franziu o cenho, olhando para Fernanda.

— Não é aqui… a sala dele é no 39.

Fernanda apenas manteve o sorriso profissional.

— Ele está no quadragésimo.

Um bip suave, e as portas se abriram.

Helena sentiu o ar gelado bater no rosto.

O andar 40 não parecia um escritório. Era uma cobertura monumental, imponente. Mármore negro polido se estendia pelo chão, refletindo as luzes douradas de lustres modernos que desciam do teto abobadado. O espaço era amplo, silencioso, cada detalhe feito para impressionar: esculturas abstratas de bronze, tapeçarias importadas, estantes envidraçadas exibindo vinhos raros e documentos encadernados em couro.

Uma parede inteira era de vidro, com vista panorâmica da cidade iluminada ao cair da tarde — o Rio parecia um tabuleiro brilhante aos pés deles. O ambiente tinha algo de tribunal e de palácio ao mesmo tempo. Ali não havia calor humano; havia poder.

Helena estremeceu. Sentiu-se pequena, como se tivesse entrado em um lugar em que não deveria estar.

Helena entrou, o salto fazendo eco no mármore. O coração disparou quando seus olhos captaram uma silhueta à frente: ombros largos, terno impecável, o porte inconfundível de Heitor. Ele estava de costas, conversando com outro homem.

O alívio a percorreu como um sopro. Quase correu até ele, ignorando Fernanda, ignorando tudo ao redor. Cada passo era ansioso, apressado — mas quanto mais se aproximava, mais uma estranha sensação apertava o peito. Algo não batia.

O homem se virou.

O mundo de Helena pareceu congelar.

A semelhança era cruel, mas a diferença gritava: não era Heitor.

A estrutura corporal era idêntica, mas os traços eram mais rígidos, cortados a faca. O maxilar largo, as rugas bem demarcadas na pele branca, o cabelo era do mesmo preto. E os olhos — azuis, mas em um tom diferente dos de Heitor — um azul mais gélido, distante, nada acolhedor.

Ele ajeitou o paletó escuro com movimentos firmes e deu passos pesados em direção a ela. O chão parecia tremer a cada passo.

— Finalmente estamos nos conhecendo, Helena. — A voz era grave, profunda, carregada de autoridade. — Eu sou Renato Monteiro, pai de Heitor.

Por um instante, Helena se sentiu perdida. Ele estendeu a mão — e ela, sem pensar, pegou. A palma dele era fria, seca, mas firme, como se cada gesto fosse controlado. O protocolo pedia apenas o aperto de mão, mas o hábito de Helena a traiu novamente: inclinou-se e lhe deu um abraço tímido, incerto, como se buscasse afeto.

Renato estranhou. Seu corpo ficou rígido, mas não a afastou. Retribuiu com um meio abraço desconfortável, seco, sem jeito, antes de soltar.

— Tá… tá tudo bem com o Heitor? — Helena perguntou, a voz quase trêmula.

O olhar dele endureceu ainda mais.

— Acredito que sim. Por que não estaria?

— Ele… ele me chamou aqui.

Um silêncio pesado caiu. Renato ergueu uma sobrancelha, e um leve sorriso — sem humor — se formou nos lábios.

— Não. — disse com uma calma glacial. — Fui eu.

Ele? Mas porque? Era o que passava na cabeça dela..

— Como assim?

— Lamento que tenhamos que nos conhecer em tais circunstâncias. — A voz dele soou firme, definitiva.

Ela tentou perguntar mais, mas ele fez um gesto com a mão, seco, indicando que o seguisse.

Renato caminhou até a ponta de uma mesa retangular de madeira escura, com cadeiras de couro que pareciam mais tronos do que assentos. Sentou-se com postura ereta, dono do ambiente. O outro homem de terno, que até então permanecera em silêncio, ocupou o lugar ao lado dele.

Confusa, Helena acabou se aproximando e se sentou em uma das cadeiras laterais. Fernanda acomodou-se ao lado dela, profissional e calma como se estivesse em uma reunião comum.

Renato voltou-se a ela..

— Helena, antes de entrarmos no mérito, permita-me esclarecer algo. — Ele fez um gesto em direção à advogada ao lado dela. — Eu contratei a doutora Fernanda para lhe oferecer representação exclusiva neste encontro. Pensei que você se sentiria mais à vontade com alguém que não fosse do meu time imediato. Ela é uma das melhores advogadas trabalhistas da praça.

Fernanda sorriu discretamente para Helena, como quem confirma a segurança do espaço.

— E este é Rubens. — Renato inclinou o queixo para o homem de terno cinza e expressão severa. — Um dos advogados mais antigos da Monteiro Inc., alguém que conhece cada linha dos nossos contratos.

Helena assentiu, ainda tensa.

Foi só então que Helena reparou nas pastas espalhadas sobre a mesa. Grossas, pesadas, com o brasão da Monteiro em dourado na capa. Documentos.

Renato respirou fundo, endireitou a postura e começou, a voz firme, pausada, sem permitir interrupções:

— O que está em jogo aqui não é apenas um contrato ou um projeto. É a forma como você será posicionada, daqui em diante, no mercado e… junto a esta família. — Fez uma pausa, deixando o peso da palavra “família” se instalar.

Então ergueu a mão, enumerando com os dedos:

— Primeira proposta. Permaneça na Plano & Forma, mas com vínculo exclusivo de atendimento à Monteiro Inc. Você não responderá a Fort Group em hipótese alguma. Terá autonomia para definir metodologias, mas o selo do seu trabalho virá carimbado pelo nosso nome. É uma forma de manter sua independência formal, mas estar alinhada apenas conosco.

Ele abaixou o primeiro dedo.

— Segunda proposta. Venha trabalhar diretamente para nós. Cargo: Analista Sênior de Riscos. Responderá ao Conselho e a Heitor. Não será apenas funcionária — será responsável por estruturar a área de Risk & Compliance da Monteiro Inc. Do zero. Equipe própria, verba definida, liberdade real. Aqui, seu nome estará na capa dos relatórios, não escondido em rodapés.

Outro dedo abaixado.

— Terceira proposta. Uma via híbrida. Continue formalmente vinculada à Plano & Forma, se assim preferir, mas aceite liderar, em paralelo, um programa estratégico conosco: um Comitê de Risco compartilhado, no qual você terá voz ativa entre nossos executivos. Nesse modelo, não haverá dúvidas de que você é nossa referência em risco e compliance, mesmo mantendo a ponte com a Plano.

Renato recostou-se na cadeira, os olhos fixos nela, penetrantes.

— Não lhe apresento imposições. Não exijo que corte laços de um dia para o outro. O que ofereço são opções. — A voz dele ficou mais lenta, quase grave. — E opções são poder, Helena.

Ele então inclinou o corpo para frente, sem desviar os olhos dela.

— Não podemos ignorar que você é mais que uma analista talentosa. É a mulher que meu filho escolheu. Isso, queira ou não, já a coloca sob o olhar desta família. — Uma pausa calculada. — Então eu lhe dou escolhas. Para que não digam que Helena foi apenas conduzida. Quero que, quando decidir, seja porque você viu onde realmente pertence.

Rubens pigarreou, pegou as três pastas sobre a mesa e, com um gesto discreto, passou-as para Fernanda.

— As propostas estão detalhadas aqui. — disse com neutralidade. — Valores, projeções, termos de cada modelo.

Fernanda ajeitou os óculos, abriu a primeira pasta e virou ligeiramente para Helena, convidando-a a olhar junto.

Helena, ainda confusa, apoiou os cotovelos na mesa. Os olhos corriam pelas linhas, mas não absorviam nada. O coração batia forte demais para que conseguisse se concentrar em cláusulas ou gráficos. O que mais pesava era a presença de Renato à sua frente. A postura dele, o olhar fixo, a calma afiada — aquilo era intimidador. Ali estava um tubarão corporativo em carne e osso.

Respirou fundo, tentou se recompor e perguntou, com a voz que soou menor do que gostaria:

— O senhor está fazendo isso… por eu ser namorada do Heitor?

Renato não respondeu de imediato. Primeiro ajeitou o paletó, depois entrelaçou os dedos novamente. O silêncio estático era parte da resposta.

— Em parte. — disse por fim, a voz grave, firme. — Não vou negar que o nome Monteiro pesa em qualquer decisão. Mas não estaria sentado aqui se fosse apenas por isso.

Ele se inclinou para frente, apoiando os braços na mesa.

— Eu fui até São Paulo ontem. Visitei a sede da Plano & Forma. — Helena piscou surpresa, sem conseguir esconder. — Pedi acesso aos relatórios sobre sua trajetória dentro da empresa. E li cada um deles. — O tom dele não era de elogio, era de uma afirmação. — Seu desempenho, suas entregas, sua evolução.

Os olhos dele estreitaram-se, avaliadores.

— Também fui além. Analisei seu histórico de trabalho. Já foi empacotadora em supermercado. Atendente de balcão em farmácia. Funções simples, repetitivas, que não exigem estudo… mas que exigem algo muito mais raro. Garra.

Helena engoliu em seco. O rosto ardeu. Nunca imaginou ouvir aquilo vindo da boca de Renato Monteiro.

Renato recostou-se outra vez, mas os olhos não suavizaram.

— Garra é um ativo difícil de encontrar no mundo corporativo, Helena. — A palavra soou como sentença. — Técnicos competentes, eu encontro aos montes. Profissionais com MBA, doutorados, certificados internacionais, estão disponíveis em qualquer esquina da Faria Lima. Mas gente que pega peso, que encara fila de farmácia, que rala onde ninguém olha… e depois usa isso como alicerce para crescer? Essa é a espécie que não quebra.

Ele deixou a frase pairar, pesada.

— Por isso as propostas. — completou, mais baixo. — Porque, além de ser a mulher do meu filho, você é, acima de tudo, alguém que eu reconheço como valor.

Helena baixou os olhos para as pastas abertas diante dela. As letras agora pareciam mais nítidas. O nó na garganta, porém, era maior. E todo seu trabalho duro estava sendo notado por alguém muito grande.

Fernanda fechou a pasta com delicadeza, ajustou os óculos e olhou para Renato com aquele profissionalismo impecável.

— Senhor Monteiro, com sua permissão, eu gostaria de discutir as propostas em particular com a minha cliente.

Renato fez um breve aceno, quase imperceptível, mas a autoridade no gesto era inegável.

— Claro. — Ele virou o rosto na direção da sala ao lado, uma porta de madeira escura com vidro fosco. — Fiquem à vontade.

Fernanda se levantou primeiro, recolhendo as pastas. Helena, ainda um pouco atordoada pelo peso daquela conversa, hesitou antes de se erguer. Estava prestes a seguir atrás da advogada quando a voz grave de Renato cortou o ambiente.

— Só mais uma coisa, Helena.

Ela parou. Os olhos se voltaram para ele quase instintivamente. Renato não se levantou, apenas descruzou os dedos e inclinou-se levemente para frente. O olhar dele era frio, mas firme, quase paternal.

— Você tem três propostas diante de você. — Ele enumerou calmamente com a mão, o timbre sem pressa, como se cada palavra fosse um pilar. — Cada uma delas tem méritos, riscos e recompensas.

Fez uma breve pausa, o suficiente para que o silêncio pesasse.

— Mas lembre-se: sempre existe uma quarta opção. — Os olhos dele se fixaram nos dela, cortantes. — Recusar todas elas e continuar exatamente como está.

Por um instante, Helena sentiu que o ar ficou mais denso. Ele não sorria, mas também não soava ameaçador. Era como se estivesse simplesmente lembrando a ela que, naquele tabuleiro, a escolha ainda era dela.

Renato recostou-se de novo, a imponência intacta.

— Pense nisso.

Fernanda pousou a mão de leve no braço de Helena, chamando-a para seguir. E Helena, ainda digerindo o peso daquela “quarta opção”, caminhou em direção à outra sala, com a estranha sensação de que cada passo que dava era observado e calculado por aquele homem.

A porta da sala ao lado se fechou suavemente atrás delas. Fernanda convidou Helena a sentar, abrindo as pastas com gestos certeiros, como quem já havia feito isso centenas de vezes.

— Helena — começou, tirando a caneta do bolso do blazer e ajeitando os papéis — primeiro de tudo, quero que respire. Você está diante de algo grande, sim, mas não é um ultimato. Renato Monteiro é um estrategista. Ele joga com impacto. O que precisamos agora é analisar friamente o que ele colocou na mesa.

Helena assentiu, ajeitando as mãos sobre o colo. O coração ainda estava acelerado, mas o tom seguro da advogada ajudava.

Fernanda abriu a primeira pasta, deslizando-a na direção dela.

— Proposta número um: Exclusividade pela Plano & Forma. Você mantém seu vínculo formal com a consultoria, mas passa a atender somente à Monteiro Inc. Salário em torno de dez mil reais, pagos via Plano & Forma, mantendo todos os benefícios que já tem hoje. Além disso, a Monteiro acrescenta bônus semestrais entre quinze e vinte mil reais, de acordo com sua performance.

Ela fez uma pausa curta.

— Essa opção é a mais confortável. Você mantém a estrutura atual, mas ganha exclusividade e autonomia de metodologia. O foco dela é blindar você contra a Fort Group.

Helena franziu a testa, interessada.

Fernanda então abriu a segunda pasta.

— Agora, a proposta número dois: contratação direta. Você seria Analista Sênior de Riscos, já com trilha definida para Gerência em até dois anos. Salário entre dezoito e vinte mil reais mensais. Bônus anual de até três salários. Benefícios premium — plano de saúde internacional, previdência privada, cartão corporativo, fundo educacional para MBAs, inclusive no exterior.

Fernanda girou a caneta entre os dedos.

— Além disso, existe a possibilidade de equity: participação futura nos resultados da empresa, via stock options ou phantom shares, a partir de três anos de vínculo.

Os olhos de Helena se arregalaram.

— Parece… surreal.

— É a mais agressiva em termos de crescimento — explicou Fernanda. — Mas também a mais exigente. Você teria que estruturar a área de Risk & Compliance do zero, montar equipe, gerenciar verba própria e se reportar diretamente ao Conselho e ao CEO. Estaria no núcleo duro da estratégia da Monteiro Inc. Oportunidade rara, mas que cobra um preço: pressão política e visibilidade constante.

Helena respirou fundo, mordendo o lábio.

Fernanda abriu a terceira pasta e ajeitou um post-it cor de laranja.

— Proposta número três: modelo híbrido. Você continua na Plano & Forma, mas com contrato paralelo de consultoria estratégica com a Monteiro Inc. O salário sobe para doze mil reais — sete pela consultoria, cinco adicionais pagos pela Monteiro. Bônus semestrais de até dois salários.

Ela a olhou com calma.

— Aqui você lideraria um Comitê de Risco compartilhado, teria assento em discussões estratégicas, viajaria para eventos executivos, mas sem se desligar formalmente da consultoria. É uma opção intermediária: menos exposição, mais independência, mas também menos poder real.

Helena coçou a nuca, confusa.

— Então… a primeira me dá estabilidade, a segunda é onde eu cresço de verdade, e a terceira é o meio-termo?

— Exatamente. — Fernanda fechou as três pastas, apoiando a mão sobre elas. — O que está em jogo não é só dinheiro ou benefícios. É onde você quer se posicionar. A primeira é blindagem e segurança. A segunda é ambição pura. A terceira é equilíbrio e tempo para se preparar.

Helena permaneceu em silêncio por alguns segundos, sentindo o peso das escolhas. Era como se cada pasta aberta diante dela fosse uma porta, e todas levassem a vidas completamente diferentes. A vida dela.

Ela levantou-se com a pasta ainda pesada na mão, a cabeça latejando de tanto pensar.

— Preciso de um tempo sozinha, Fernanda. — A voz saiu mais baixa do que pretendia, quase um pedido.

Fernanda ergueu a sobrancelha, compôs o rosto com profissionalismo, mas os olhos suavizaram.

— Claro, Helena. Vai. Irei analisar mais profundamente as propostas.

Helena saiu da sala ao lado com passos apressados, quase tropeçando no salto que Celina tinha insistido que comprasse. A porta de vidro se fechou atrás dela, abafando o som das vozes firmes, e ela se viu de frente para o Rio de Janeiro.

A cobertura tinha uma vista panorâmica absurda: o mar cortando a cidade, os prédios iluminados, o Pão de Açúcar se erguendo ao fundo. Era grandioso demais, sufocante até. Helena apoiou as mãos em um pilar, tentando respirar.

O celular pesava nos dedos. Tremia. Ela fechou os olhos, apertou o aparelho contra o peito por alguns segundos e só então destravou a tela.

As chamadas recentes ainda mostravam o nome de Heitor. Várias vezes. Ele não tinha atendido. Estaria ainda na academia? Talvez nem tivesse visto. Helena mordeu o lábio, os olhos marejando, e digitou rápido uma mensagem curta:

“Está tudo bem, não se preocupe.”

Mentira. Não estava tudo bem. Mas não queria alarmá-lo. Ele já estaria muito preocupado vendo as antigas mensagens e as ligações.

Ela respirou fundo outra vez. Precisava falar com alguém que lhe desse chão. Não um advogado, não um Monteiro, não alguém desse mundo que ainda lhe parecia um campo minado. Precisava de alguém que lembrasse quem ela era.

Seus dedos rolaram pelos contatos até parar em um nome simples, quase esquecido entre tantas reuniões e compromissos: Vóvó.

Apertou chamada de vídeo.

A tela mostrou, primeiro, um close estranho: só a boca enrugada da vó, numa risada abafada. Helena riu sozinha antes mesmo de falar.

— Oi, vó… — limpou os olhos com as costas da mão, sorrindo — não tô vendo a senhora direito, afasta a câmera um pouco.

Do outro lado, ouviu a voz firme e cheia de jeito simples.

— Helena! Peraí, peraí, filha. Cidinha tá aqui, ó, segura pra mim. — Houve um ruído de papel e passos; a câmera se afastou e revelou o rosto de Dona Olívia, os olhos ainda vivos e o cabelo preso num lenço florido. Atrás dela, por um canto, a silhueta calma de Cidinha, ajeitando o celular.

— Oi, minha filha — disse a avó, com aquela entonação do interior que ela não sabia que sentia tanta falta, direta e aconchegante. — Tá bonita hoje, viu? Tá até mais pretinha.

Helena sentiu o peito apertar e sorriu largo.

— Oi, vó. Saudades.

— Eu também, uai. Já chamei o Totó pra cá duas vezes e ele me olhou como quem diz: “petisquinho, petisquinho”. — Dona Olívia murmurou, e Helena imaginou Totó abanando o rabo do outro lado da linha.

Houve uma pausa onde as duas só ficaram olhando — a distância encurtada por uma tela.

— Me conta, menina. E esse tal encontro com a sogra? Foi bom? — A voz dela ganhou brilho de curiosidade mal disfarçada. — Tá parecendo dessas novelas que a gente vê na Globo.

Helena sorriu. Ouvir a voz da avó tornava tudo mais fácil.

— Foi bom, vó. A Celina foi um amor, me levou nas lojas, me deu até um celular novo. Achei que ela gostou de mim, de verdade. Me senti acolhida, sabe? Eu sinto falta de ter alguém assim, uma presença... — respirou.

— Ah, meu Deus do céu, que bom então. Se ela gostou, então tá bom demais. — Dona Olívia sorriu com orgulho, mas um trejeito de melancolia passou pelos olhos. — Sabe que eu gosto desse moço, né? Heitor é homem direito, honesto. Se ele te faz bem, eu tô feliz.

Helena engoliu a emoção.

— Vó… tem mais uma coisa. Hoje me fizeram três propostas. Uma delas é o meu sonho — a voz dela vacilou de leve — é um lugar onde eu vou ser eu mesma, com meu nome nos projetos, com equipe... não seria mais como terceirizada. Posso crescer ali.

Do outro lado, Dona Olívia pegou o fôlego como se fosse encher um balão grande.

— Menina do céu. Tu sempre foi danada de estudiosa. Seu avô sempre tava orgulhoso e agora ele taria mais ainda, viu? — A menção ao Zé trouxe um tremor de saudade que Helena achava que estava superando, mas era um vazio que não se superava. — Eu sempre soube que ocê tinha jeito pra essas coisas. Minha neta é doutora, falei para a Cleonilda.

Helena sentiu a garganta queimar.

— O problema é que eu teria que ficar no Rio, vó. Longe da senhora, longe da casa, longe do Totó… — os olhos dela ficaram pesados só de imaginar.

Dona Olívia largou a resposta de imediato, com aquela mistura de firmeza e ternura de quem criou filha e neta.

— Vive, minha filha. Vive a vida. Ocê não nasceu pra ficar presa nessa casinha até apagar, não. Eu quero que cê vá, que ocê faça. Não vim ao mundo pra segurar ninguém no choco. — Ela riu, seca e doce. — Eu quero é ver cê brilhar. Se ocê for feliz lá no Rio, eu fico aqui feliz também.

Helena respirou aliviada.

— Mas eu podia trazer a senhora pro Rio, vó…

Dona Olívia cortou, rápida, com aquele sotaque simples de Minas:

— Deus me livre! Eu morro é aqui nessa casinha, com a vizinhança, o cafezinho cedo e o pé de manjericão na janela. Quero Rio não, por isso nasci na terra. — Ela fez um biquinho, divertida, e Helena sorriu, sentindo a leveza voltar. — Não troco meu pé de chão por nada. E o Totó, sô… como fica solto no Rio? Vai acabar morrido! Eu fico bem.

A conversa enveredou por memórias. Helena, com voz baixa, lembrou:

— Vó… o vôvô faz tanta falta.

— Ele ia amar te ouvir. — disse Dona Olívia, e a alegria e a dor se misturaram na mesma resposta. — Aquele homem era bruto por fora e molinho por dentro. Me deixou com o mundo nas mãos e fez da nossa vida um celeiro de lembrança. Quando ele se foi… — a avó fechou os olhos por um instante — … Sinto falta do meu velhinho também. Ele queria que eu cuidasse de ocê.

Helena sentiu as lágrimas deslizar.

— Eu sei, vó. Sei que a senhora cuidou de mim com tudo que tinha. E… às vezes eu sinto culpa, porque eu sou parecida com a … minha mãe.

O rosto de Dona Olívia enrijeceu por um segundo — algo que Helena conhecia bem: ela jogou álcool na ferida. Mas, Helena precisava agora ouvir da avó que finalmente, ela conseguiu. Não era como a mãe.

— Helena, é um lembrete constante do diabo. Ocê é sua mãe, isso me doi. Detesto aquela maldita e espero que esteja apodrecendo no inferno. — a voz da avó apertou de ódio e o coração de Helena ficou pequeno — E quando vejo você parecida com ela, dá uma dor horrenda no peito, sabe? Mas tu é minha neta, e eu te amo com tudo que tenho. Amor não se mede por rosto, não.

Helena apertou o celular contra a face por um segundo, absorvendo a confissão amarga e o amor incondicional. Nada mudou, ela ainda não se distanciou o bastante. A sombra do passado ainda a persegue. Helena sente que tem se esforçar mais, só assim, ela vai conseguir ser vista como Helena.

— Eu sei, vó. E eu entendo. Mas eu não sou a Lorena. Eu sou a sua Helena.

Dona Olívia suspirou, e a dureza deu lugar ao afeto molhado de quem ama para sempre.

— É isso mesmo, minha filha. Ocê é a Helena do meu coração. E eu quero te ver ser feliz, ouvir o teu riso de longe, comer pão de queijo quando vier me visitar e contar tudo. Não se perca por ninguém. Quando as portas abrirem, entra com a cabeça erguida e não deixa ninguém te diminuir. Protege a sua família, a família que ocê vai criar. Não abandona. Não seja igual aquela maldita.

Helena sorriu, aliviada e reconfortada.

— Nunca, vó. Eu sou eu. Antes de tudo, eu precisava só falar com a senhora. Obrigada por estar comigo.

Dona Olívia bateu palminha, animada.

— Vai lá, minha filha. E quando voltar pra casa, traz um presente pro Totó, que eu quero ver ele elegante. De gravata, igual nos vídeos.

As duas riram. Helena viu a avó ajeitar o lenço e, por um momento, imaginou a cozinha, o cheiro do café, o Totó dormindo no chão. Fez bem. Endireitou a coluna.

— Te ligo depois, vó. Vou pensar e te conto. — Helena beijou a tela como se beijasse a ponta do lenço da avó.

— Vai, minha filha. Vai com Deus. E lembra: não deixa ninguém te empurrar pra baixo. Tu é forte, uai. — Dona Olívia disse, firme. — E ó, quando arranjar tempo, manda uma coisinha pra mim, que a Cidinha faz umas coisas boas aqui.

Helena riu, os olhos brilhando.

— Tá combinado. Te amo, vó.

— Também te amo — respondeu a avó, e a chamada terminou com um aceno manso de ambas as partes, deixando na tela o retângulo escuro antes de sumir.

Helena ficou uns segundos olhando para o celular, já mais centrada. Guardou o aparelho, respirou fundo, não era o final da jornada ainda, mas ela estava no caminho certo.

Desligou a chamada e ficou alguns instantes olhando para a tela escura do celular. O reflexo do pôr do sol no vidro da varanda parecia iluminar seus olhos, mas dentro dela a luz ainda vacilava. Guardou o aparelho no bolso, cruzou os braços e encostou no parapeito, deixando que o vento quente do Rio acariciasse sua pele.

O projeto. Aquele modelo de risco e controles internos que ela mesma havia criado. Desde que soube que a Fort Group o havia comprado, carregava um enorme orgulho. Foi algo que ela fez e que agora tinha sido escolhido. Era uma prova viva de sua competência. Mas, ao mesmo tempo, soava como ingenuidade. Orgulho e burrice, murmurou para si. Insistir naquilo era machucar quem ela mais amava e para que? Para provar o que? Que ela era excelente no que fazia?

A lembrança de Antônio Fortenelle veio como uma sombra. Desde o primeiro encontro no avião, Helena havia sentido que havia algo estranho nele, um magnetismo desconfortável que não sabia explicar. Depois, quando soube de toda a rivalidade dele com Heitor, se envergonhava em ter duvidado de Heitor. Se ela aceitasse qualquer proximidade com a Fort Group agora, seria como alimentar uma guerra pessoal que não era dela — e, pior, dar espaço a um homem que claramente queria algo além de negócios.

Pensou em Viviane. A mãe de Antônio era tudo aquilo que Helena admirava em uma mulher de negócios: firme, culta, elegante sem perder a humanidade. Quando estiveram juntas, Helena se pegou pensando que adoraria chamá-la de amiga. Mas o pensamento seguinte foi ainda mais claro: se Celina descobrisse uma aproximação dessas, seria como se jogasse a nora do alto do Pão de Açúcar. Celina não perdoaria.

Helena suspirou, apoiando o queixo na mão. Ela queria subir sozinha, queria provar que não precisava ser apenas "a namorada do Heitor Monteiro". Queria um crachá da Monteiro Inc., não um contrato frio com uma terceirizada. Desde o início, tinha estudado, ralado e sonhado com isso. E agora, pela primeira vez, essa chance estava diante dela.

A primeira proposta lhe dava segurança: continuar na Plano & Forma, ganhar bem mais e, ao menos no papel, manter a independência. Mas não era esse o sonho dela. Parecia confortável demais, como se estivesse se escondendo atrás de uma cortina.

A terceira era um meio-termo, uma ponte entre dois mundos. Mas, no fundo, Helena sabia que seria tratada como prestadora. Um rosto entre outros. Não era isso que ela queria carregar no peito depois de tantas madrugadas de estudo.

A segunda… ah, a segunda. Essa era a que queimava por dentro. Contrato direto, estrutura própria, poder real. Era a vida que sempre imaginou: não ser recurso emprestado, mas dono do seu nome nos relatórios, com equipe, com voz. Ser, finalmente, parte da Monteiro Inc.

O vento bateu mais forte, levantando uma mecha do cabelo rebelde. Helena fechou os olhos. Sabia que aceitar a segunda proposta significava assumir riscos políticos, viver sob pressão e, de certa forma, se expor ao olhar frio de Renato todos os dias. Mas também sabia que era isso que diferenciava os que faziam parte da história dos que só a assistiam. E o melhor, se destacaria por competência, não por indicação. E ainda tinha um bônus, trabalharia diretamente com Heitor. Um sorriso surgiu nos seus lábios. Queria ver mais do Heitor CEO, será que ele era frio assim como o pai? Como será que ele a trataria? Tudo isso não importava, o que importava era que estaria com ele, mesmo que indiretamente.

"Se eu não fizer isso agora… vou passar a vida me perguntando como teria sido."

Helena respirou fundo, abriu os olhos e encarou o horizonte. O Rio se estendia como palco de uma nova vida. E talvez, pela primeira vez, ela tivesse coragem de subir nele. Sua cidade lhe trouxe coragem de sustentar seu amor, agora o Rio lhe oferecia o que faltava.

O celular vibrou na mão de Helena. Sorriu em ver a foto na tela.

— Alô? — falou, controlada.

— Helê? — Heitor respondeu na primeira sílaba, com o ruído abafado da academia ao fundo. — Tu tá bem? Recebi suas mensagens e não entendi nada. Onde tu tá?

Helena respirou fundo, olhando o Rio largo lá embaixo.

— Tô na Monteiro Inc. Me chamaram. Achei que era você.

Houve um silêncio breve do outro lado, depois a pergunta direta:

— Quem te ligou? Tá tudo certo?

— Foi o seu pai — disse ela, sem rodeios. — Ele me chamou e fez três propostas para eu trabalhar aqui, na Monteiro. São opções sérias.

A voz de Heitor ficou contida:

— Você… quer isso?

Ela escolheu as palavras com cuidado.

— Quero crescer. Sempre quis estar num lugar onde meu nome esteja nos relatórios, onde eu possa liderar. Mas não quero que digam que eu estou aqui por ser sua namorada. Eu quero entrar por mérito. Por tudo que eu lutei até hoje.

Do outro lado, Heitor fez uma pausa longa, contendo emoções. Quando falou, foi com muita calma e respeito.

— Eu sei disso. Nunca quis que você sentisse que eu queria “te colocar” aqui. Minha família ofereceu, não fui eu quem pediu. Mas, se for do seu agrado, eu quero que você venha. Não porque você é minha, mas porque eu acredito no seu trabalho. Quero você ao meu lado, como parceira, não como alguém que recebeu algo por atalhos.

Helena sentiu um calor no peito; ela sabia que aquilo era difícil para ele, mas mesmo assim ele tava tentando. Aquele era o Heitor dela.

Ele respirou.

— A Monteiro Inc. foi fundada pelo meu avô. Depois, meu pai assumiu, e agora eu que estou aqui. Eu já te disse: eu quero te chamar de minha esposa. Em algum momento você teria que dar esse salto da terceirizada pra dentro. Eu quero você aqui, trabalhando comigo. Não porque seja conveniente, mas porque eu quero construir isso com você, pra que, se um dia tivermos filhos, a gente possa olhar pra empresa e sentir orgulho do que deixamos.

Ela não conseguia segurar o sorriso.

— Você está ficando muito bom nisso, sabia? É algum curso?

Ele riu do outro lado da linha.

— Especialista na minha mulher. Felizmente só existe uma única vaga e é minha.

— Idiota.

— Quer que eu vá pra aí?

Ela suspirou.

— Não. Quero resolver isso sozinha.

— Eu apoio a decisão que você tomar. Mas, se eu puder ser egoísta, escolha a mim. — a voz dele sai como se estivesse sorrindo — Eu vi que meu pai me mandou alguns documentos no email, não abri. Acredito que sejam suas propostas, meu pai é um homem correto.

— Ele parece mesmo.

Ela sorriu no silêncio, mais tranquila.

— Obrigada por entender. .

— Te amo — disse ele.

— Te amo — ela devolveu, com a voz mais leve.

O celular mal havia terminado a chamada quando vibrou de novo. Um número desconhecido com DDD 21. Helena ergueu o aparelho, “lá vamos nós novamente”.

— Alô? — ela disse, tentando soar natural.

Do outro lado, a voz veio calma e imediatamente conhecida.

— Helena? — disse Viviane. — Aqui é a Viviane. Como você está?

O mundo pareceu parar por um segundo dentro do peito dela. “Era só o que faltava”, pensou, antes de recompor a voz.

— Tô bem — respondeu, controlada. — Desculpe, não queria preocupar ninguém.

— Vi que pediu home hoje, fiquei preocupada — Viviane continuou, com o timbre suave e maternal. — Tem certeza de que está tudo bem?

Helena tentou disfarçar o nervosismo com aquela ligação.

— Sim. Só precisava de um dia em casa.

Houve uma pausa curta, e a próxima frase veio como se fosse um sorriso pela linha.

— Um passarinho me contou que você está na Monteiro Inc. É verdade?

Helena gelou por dentro. Como ela sabia disso? Antes que pudesse responder, Viviane falou, tranquila:

— Bom saber. Estou chegando aí.

— O que? — Helena sentiu a voz escapar fina. — Na Monteiro Inc? Por quê?

— Eu ia te ver amanhã, tinha combinado com o Antônio — Viviane explicou, com educação e firmeza — Mas, pelo jeito, alguém teve a mesma ideia que eu. Acabei de chegar. Já nos falamos, beijos.

Helena abriu a boca, sem conseguir formular uma recusa. Ao desviar o olhar instintivamente para a entrada do corredor, lá estava ela. A ligação se encerrou.

Na porta do andar, os dois — que deveriam ser rivais por comando e posição — pareciam cumprir um gesto protocolar daquele entorno: Renato Monteiro estendia a mão, e Viviane Fortenelle retribuía com um aperto firme e uma inclinação medida. Eles sorriam com aquela cordialidade de quem sabe que negócios não se misturam a brigas de adolescentes.

Helena sentiu tudo ficar pesado na garganta: admiração por Viviane — a mulher que ela queria ser corporativamente — e, ao mesmo tempo, o desconforto de ver duas forças opostas ali, cumprimentando-se como se o mundo fosse apenas cifras e estratégia.

Ela não esperava por aquilo, mas hoje seria o dia em que sua carreira, e talvez seu futuro, seriam definidos ali.