Ao voltar para a ante-sala, Helena viu Rubens acenar com a mão, um gesto curto e imperativo. Fernanda virou-se para ela, os olhos cúmplices por um segundo.

— Estão nos chamando de novo — disse, com a calma habitual.

Helena sentiu um zumbido no ouvido, como se o coração tivesse subido para a garganta; a cabeça rodou por um segundo.

— Tô meio zonza — murmurou, e se levantou devagar. Sua canseira, agora habitual, parecia mais pesada agora e uma cólica teimava em chamar a sua atenção. Helena pensava desde quando havia ficado tão fraca.

Quando atravessou a porta do corredor principal, viu Viviane vindo ao encontro dela. Antes que Helena pudesse raciocinar, a mulher a envolveu num abraço caloroso — não o abraço frio do protocolo, mas um abraço terno, que passava a sensação que ela não estava sozinha..

— Oi, Viviane. — Helena respondeu, timidamente. — Nunca que esperava te ver aqui.

— Que bom te ver Helena — Viviane murmurou, com um sorriso que aquecia a sala inteira. — Realmente senti saudades. Negócios e família andam, às vezes, costurados pelo mesmo fio.

O som formal cortou a pequena cena: Renato, com a postura impecável, ergueu a mão num sinal contido.

— Vamos continuar, por favor.

Viviane entrou na sala como quem cruza o convés de um navio em meio à tempestade: serena, mas dona do rumo. Cada passo soava calculado, cada gesto medido, como se carregasse consigo o peso de anos de guerra corporativa e as cicatrizes invisíveis que a tornaram lenda.

Seu olhar não buscava apenas a mesa de negociações; buscava Helena. Para Viviane, aquela jovem era mais que talento bruto — era uma joia rara, pronta para ser lapidada, moldada e colocada no lugar certo. O Fort Group não precisava apenas de números, precisava de herdeiros de visão. E, naquela equação, Helena se encaixava tanto como funcionária quanto como parte da família que Viviane sonhava consolidar.

Na mente dela, o raciocínio era claro e implacável: não estava ali apenas carreira, e sim herança. Se Helena aceitasse, seria mais do que uma executiva; seria, em futuro não tão distante, um elo de sangue junto ao filho, a semente de uma aliança que transformaria a Fort Group de império empresarial em dinastia.

Para chegar até ali, Viviane engolira sua antipatia pelos Monteiros, até mesmo ligara para Renato Monteiro — o dragão que ela sempre evitara enfrentar — e agora entrava na fortaleza do inimigo numa missão quase pessoal. Não vinha negociar apenas um contrato. Vinha resgatar Helena das amarras afetivas, para conduzi-la, são e salva, ao trono que já imaginava para ela no Fort Group.

Do outro lado da mesa, Renato Monteiro permanecia imóvel, observando como só quem já comandou conselhos inteiros sabia fazer: sem pressa, sem demonstrar emoção além do necessário. Cada gesto dele carregava a contenção dos anos em que a Monteiro Inc. se tornara sinônimo de tradição, alianças sólidas e diplomacia no mais alto nível.

Enquanto Viviane entrava em cena com sua energia de conquista, Renato pensava em risco, em sinal e em mensagem. Trazer Helena para perto não era apenas contratar uma profissional talentosa; era testar se ela tinha fibra para se tornar parte de uma linhagem que não perdoava fragilidades. Mais do que oferecer trajetórias e planos de carreira, Renato queria medir a jovem — entender o que ela cederia, o que sustentaria, até onde iria para provar pertencimento.

A ligação de Viviane não o surpreendera. Era natural que a Fort Group se movessem quando farejavam joias raras. O que o intrigava era a insistência. Antônio? Talvez. Mas, no fundo, sabia: apenas dois colossos como ele e Viviane eram capazes de transformar questões sentimentais em disputas empresariais de alto nível. E se ela estava ali, era porque o jogo tinha escalado.

Renato poderia ter recusado sua entrada e participação na disputa. Mas, em vez de fechar as portas, abriu. Conhecia bem o estilo da rival — agressiva, incisiva, sem rodeios — e sabia que isso seria útil. Para ele, o melhor resultado seria ver Helena aceitar a proposta da Fort Group, afastando-se da família Monteiro sem que fosse preciso manchar a relação direta com seu filho. Afinal, a escolha é dela.

Mas havia complicações. Heitor amava aquela mulher, e, para sua surpresa ainda maior, Celina também falava bem da jovem, inclusive até sorria com os planos para os próximos encontros. Isso, para Renato, beirava o impossível.

Pela primeira vez em décadas, sentia a dúvida corroer sua convicção. Sempre soube o que era melhor para a família. Mas e se, desta vez, o melhor não fosse o que ele acreditava?

Todos tomaram assento. A mesa mais uma vez parecia um tabuleiro de decisão. Ao redor, os assentos se preencheram: Renato no centro da cabeceira, Viviane à sua frente, Rubens e Fernanda à direita e à esquerda respectivamente — e ao lado de Viviane, um homem de terno escuro, impecável, com olhar preciso: Ricardo, advogado dos Fortenelles, que abriu uma pasta com tranquilidade.

Havia na sala uma sensação elétrica. Dois nomes de peso da praça — Monteiro e Fortenelle — inclinavam-se, por motivos distintos, para a mesma pessoa. Viviane começou.

— Helena, — disse ela, com voz clara, olhando diretamente para a jovem — nós conversamos brevemente antes. Vim pessoalmente trazer as propostas da Fort Group. Trouxe o Ricardo para formalizar os pontos legais. Quero que você escute com atenção.

Renato ergueu apenas um canto da boca.

— Eu já apresentei as minhas — respondeu, seco.

— Sei — retrucou Viviane, com a mesma placidez. — Por isso vim com algo diferente. Algo Fortenelle.



Ricardo, ao lado dela, abriu uma pasta e a pousou cuidadosamente sobre a mesa, ao alcance de Fernanda e de Helena. Era um gesto técnico: documentos, bullets, cifras — a concretude da oferta. Ele virou as páginas e olhou para Viviane, pedindo sinal para mostrar.

— Então vamos à primeira proposta — disse Ricardo, com a voz calma. — Contratação direta pela Fort Group como Gerente de Riscos e Compliance Global. Salário: R$ 28.000 mensais; bônus anual até quatro salários; benefícios executivos, moradia corporativa, carro a sua escolha com motorista, cursos internacionais; phantom shares com vesting em três anos. Responsabilidade: liderança da área global e reporte direto ao Conselho, ao lado do Antônio.

Ao ouvir os termos, Helena arregalou os olhos. O mundo parecia girar um pouco mais rápido: liderar globalmente, moradia corporativa, cursos — aquilo era muito além do que ela imaginou para si.

— Isso… isso é muita coisa — murmurou, quase para si.

Ricardo, completou com neutralidade:

— Há deslocamentos internacionais previstos e cláusulas de confidencialidade. Tudo negociável em detalhes, mas essa é a estrutura base.

Viviane observou Helena com um olhar suave e firme, quase materno.

— Você não precisa ter todos os anos de experiência no currículo para começar a liderar — disse ela — Eu mesma vou orientar a sua transição. Estarei ao lado, pessoalmente, para acelerar sua curva. Não te faço saltar sem uma rede.

Enquanto isso, no canto oposto da mesa, Renato fez um leve gesto para Rubens — um mover de mão quase imperceptível que dizia “ouça” — e os dois trocaram algumas palavras baixas, vozes próximas, ritmo de quem dirige empresas. A sala parecia encolher para caber apenas aquela troca silenciosa.

Fernanda acompanhava tudo com a expressão profissional. Rubens ajustou a gravata e, sem levantar a voz, resumiu algo em termos práticos para Renato — prazos, impactos de RH, possíveis canais de comunicação com acionistas. Tudo em duas frases secas, CEO-CEO, que Helena só ouviu como um pano de fundo abafado.

Ricardo virou outra página, com um gesto contido.

— Segunda proposta.— contrato de exclusividade estratégica. Cargo: Diretora Adjunta de Riscos Estratégicos. Salário R$ 35.000 mensais; bônus de 20% do lucro líquido da divisão; assento permanente em comitês; assessoria de imagem; cláusula de blindagem e não-competição com multa significativa. Evento público de apresentação, posicionamento como rosto feminino da área.

Helena sentiu o peso daquelas cifras e do simbolismo. Aquilo não era só emprego — era um pedestal público. Ela falou, com a voz achatada pela incredulidade:

— É… é muito. Eu… eu nem tenho experiência nesse nível. Não sei se sou pronta pra isso.

Viviane sorriu, terna.

— Você não precisa ter todas as cicatrizes do tempo — afirmou. — Precisa ter competência, cabeça e vontade. Eu oriento. Vou te cobrar, claro, porque liderar exige entrega; mas estarei ao lado, assim como estive de Antônio.

A intervenção foi calorosa, mas Renato interrompeu antes que o calor virasse decisão: levantou-se ligeiro, apenas para tomar a atenção. A voz saiu contida, medida, e com a autoridade de quem conhece o peso das cadeiras que ocupou.

— São propostas excelentes — disse ele —. Ambiciosas, generosas. Mas, honestamente, também um pouco… irrealistas para alguém que ainda não construiu histórico internacional.

Houve um silêncio cortante. A palavra “irrealistas” trouxe à tona o pragmatismo de Renato: mercado, governança, risco de imagem. Ele não negava mérito à Helena — dizia apenas que o salto exigia justificativa e, sobretudo, um terreno seguro para sustentá-lo.

Viviane respondeu sem perder a compostura:

— E por que isso seria irrealista? — perguntou, com calma afiada. — Nós, do Fort Group, investimos em talento que podemos moldar. O que proponho é acelerar, não substituir. Se ela tem competência, por que impedir que ocupe um espaço maior?

Renato cruzou os braços, o rosto uma máscara que misturava respeito e desafio.

— Porque acelerar demais pode expô-la a falhas públicas que depois custam carreira. E porque há custos políticos. Não se trata só de talento isolado; trata-se de colocar alguém sob holofotes que cobram e corroem. Eu prefiro construir degrau por degrau — disse ele, olhando para Helena com um misto de tutela e cálculo.

Helena, no meio desse duelo calmo, sentiu a pressão aumentar. Não era só uma escolha de emprego — era escolher entre diferentes ritmos de poder, entre orientação íntima e exposição imediata. Pensou em Viviane dizendo “eu te oriento” e na advertência de Renato sobre a visibilidade que poderia queimar seu nome cedo demais.

Fernanda, firme, cortou para centralizar a conversa:

— Antes de qualquer coisa, precisamos traduzir essas propostas em cláusulas válidas, com prazos de avaliação, critérios de performance e mecanismos de proteção. Helena, você tem todo o direito de recusar o salto agora e todo o direito de exigir garantias se for aceitar.

Os olhos de Helena percorreram a sala: Viviane com um sorriso contido; Renato com a serenidade firme; Ricardo ajeitando os papéis; Rubens e Fernanda calculando impactos. A decisão não era só dela, mas também viria com ecos que mexeriam nas famílias e nas praças corporativas.

Renato cruzou os braços e olhou primeiro para Viviane, depois para Helena.

— Helena — começou Renato, direto — eu não nego que o que a Sra. Fortenelle propõe é tentador. Mas não é só sobre dar cargo. É sobre trajetória. Aqui na Monteiro Inc. nada nasce pronto. O próprio Heitor entrou como estagiário. Subiu degrau por degrau. Não apenas por tradição: porque é assim que se constrói reputação sólida. Você tem potencial. Muito. Mas não tem a experiência internacional que essas posições exigem, ainda.

Olhos de Helena buscaram a janela, onde as luzes noturnas do Rio brilhavam lá fora; no peito, o orgulho fazia um ruído. Renato continuou, com voz firme, quase pedagógica:

— Não estou propondo esconder você atrás de um cargo qualquer. Proponho um plano real: dois anos de trilha executiva aqui dentro, com metas claras, equipe para estruturar, treinamentos internacionais financiados, avaliações trimestrais e, ao término, promoção já roteirizada para gerência. Com vesting e participação condicionada a entregas. É meritocracia com proteção institucional. Eu te protejo do salto prematuro e te preparo para o salto, não te limito.

Viviane inclinou-se para frente, os olhos brilhando de uma outra convicção — menos falando de números, mais de pessoa.

— E eu digo o seguinte — respondeu ela, com a suavidade que a tornava perigosa: — Helena, já estive no seu lugar. Sei o peso de entrar num ambiente que olha primeiro para o fato de ser mulher. Quando eu assumi, me custou sangue e noites. Aprendi a não esperar que alguém me desse a vez: fui e a criei. Mas também aprendi o valor de ter quem te oriente ao lado, quem olhe por você quando o mercado tenta queimar uma carreira. Eu não ofereço só cargo, ofereço mentoria contínua. Eu quero que mulheres cresçam. Quero ser quem te ajude a não tropeçar. Se você aceita a Fort Group, eu te coloco em posição de comando já com quem ande de mãos dadas com você. Não é atalhar mérito — é acelerar maturação com suporte real.

Havia ali, nas palavras de Viviane, um calor que quase mecia a sala. Mulher falando para outra mulher; promessa de um pacto feminino, de partilha de força.

Renato não deixou o tom maternal sem resposta, mas voltou ao concreto:

— Mentoria é essencial — concordou — e eu não a nego. Mas a diferença está no risco público. Colocar alguém ainda em formação numa cadeira global pode expô-la a falhas que marcam. Eu ofereço crescimento com degraus, responsabilidades crescentes e a chance de, em dois anos, chegar ao mesmo nível — ou além — com menos chance de queimadura pública. Além disso, aqui você terá o respaldo de toda a governança da Monteiro Inc. Isso também protege a carreira.

Viviane sorriu, um sorriso cheio de calma.

— E eu replico: há momentos em que acelerar faz diferença. Se ela tem talento, a exposição bem orientada cria autoridade mais rápido — e autoridade bem gerida vira legado. Eu ofereço autoridade imediata + mentoria.

Helena sentiu o peso das duas visões na garganta. Uma prometia amadurecimento seguro; a outra, protagonismo imediato com rede. Pensou na avó, no orgulho, no próprio desejo de provar que chegou sozinha. Pensou também em como seria carregar um rótulo público tão cedo.

— Eu preciso de tempo pra pensar — murmurou ela.

Renato assentiu. Viviane sorriu, dando um passo de deferência.

— Quando você quiser, Helena — disse Viviane — eu te ensino a usar esse poder sem que ele te queime.

— E quando quiser seguir o caminho sólido — completou Renato — nós vamos montar o roteiro profissional que te leve lá em 24 meses.

Helena fechou os olhos por um segundo, sentindo a responsabilidade pesar e o orgulho se assentar. No silêncio que se seguiu, todos sabiam: não era apenas uma escolha de emprego. Era escolher ritmo, exposição, e a própria forma de se afirmar no mundo.

A voz de Fernanda cortou a sala.

— Helena. — disse ela, curta. — Quero falar com você em particular.

Helena sentiu o corpo ceder um pouco de alívio e preocupação ao mesmo tempo. Seguiu Fernanda pela porta escura até a sala menor — a mesma onde haviam analisado as primeiras pastas. A luz era mais fria ali; a advogada fechou a porta com os dedos e puxou duas cadeiras.

A porta fechou-se com um clique seco. Fernanda deixou as pastas sobre a mesa, olhou para Helena por um segundo como quem verifica se a cliente está inteira, e foi direto ao ponto.

— Vou ser objetiva — começou ela. — As propostas da Viviane existem. São reais. A Fort Group tem caixa e histórico de colocar executivos em posições de grande visibilidade. Esses números e cargos que te apresentaram são plausíveis dentro do mercado deles.

Helena franziu a testa, a voz saindo pequena:

— Mas… isso tudo é de verdade? R$ 28 mil, moradia, cargo global? Gerente global? — ela riu nervosa — Eu tenho tão pouca experiência…

Fernanda abriu a pasta e tocou as páginas com calma.

— Sim. É real. Agora presta atenção nas diferenças entre “real” e “prudente”. A Viviane pode oferecer tudo isso hoje porque ela tem poder institucional e quer acelerar a sua carreira ou quer um rosto para o grupo. Ambas as coisas são verdadeiras. O problema não é a oferta em si; é o que vem junto e como isso pode te afetar se não houver garantias.

Ela enumerou, rápida, sem floreios:

— Primeiro: cargo “Gerente Global” significa responsabilidade por pessoas, processos e decisões em várias jurisdições. Não é um título ornamental: você será cobrada por performance internacional, por resultados imediatos, por presença e por articulação política com conselhos e filiais.

— Segundo: o pacote financeiro é generoso — moradia, bônus, phantom shares — mas quase sempre vem com cláusulas de exclusividade, vesting e não-competição que podem te amarrar. Precisamos ver as minutas.

— Terceiro: Viviane disse que vai te orientar. Isso é valioso, mas tem de vir por escrito: mentoria formal, metas de desenvolvimento, compromissos de tempo. Sem isso, “mentoria” vira promessa verbal, inútil juridicamente.

— Quarto: exposição pública súbita pode queimar o nome. Se algo falhar, a primeira imagem é a sua, não a da estrutura. Precisamos de cláusula de mitigação de reputação e de plano de apoio institucional.

Helena prendeu o fôlego.

— Então é por isso que o Renato falou que é “irrealista”? — perguntou.

— Exato — disse Fernanda. — Do ponto de vista de governança, pular alguém para uma cadeira global sem histórico público internacional aumenta o risco institucional. Renato pensa em reputação e risco. Viviane pensa em oportunidade e aceleração. Ambos têm razão — mas você precisa juntar os dois: oportunidade com proteção.

Fernanda inclinou-se e falou baixo, prática:

— O que eu vou pedir agora assim, imediatamente: as minutas por escrito; prazo mínimo de 10–14 dias para análise; cláusula de mentoria formal (frequência, metas e responsabilidade da mentora); cláusula de vesting com aceleração em caso de demissão sem justa causa; cláusula de indenização por desligamento político (12 meses de salário + bônus proporcional); definição clara de IP sobre o seu projeto e compensação/royalties se a empresa usar; limitação temporal e territorial de non-compete (máx. 12–24 meses) com compensação; e aprovação prévia de qualquer comunicado público que te associe a decisões ou à “contratação”.

Ela fechou o bloco de notas e olhou Helena nos olhos:

— Em linguagem curta: sim, é real. E sim, é tentador. Mas você não assina nada antes de eu revisar e incluir proteções. Se eles querem você de verdade, aceitam negociar essas garantias. Se empurrarem a assinatura agora ou fizerem anúncio, a gente trava e exige condições.

Helena respirou, ainda assustada, mas mais centrada.

— E o que eu digo pra Viviane agora? — perguntou.

Fernanda sorriu, já com as palavras prontas:

— Diga algo simples, respeitoso e que preserve seu espaço: do tipo “Sra. Fortenelle, agradeço profundamente a confiança e a proposta generosa. Gostaria de analisar as minutas com minha assessoria jurídica antes de qualquer definição pública. Peço o envio dos documentos e prazo de 14 dias para retorno. Também gostaria que formalizássemos a proposta de mentoria por escrito.”

— E se ela pressionar? — Helena continuou.

— Se houver pressão — respondeu Fernanda, firme — você repete: “Preciso das minutas para avaliar. Não há decisão sem análise jurídica.” E eu, como sua advogada, vou recusar qualquer acordo verbal. Se houver anúncio público antes de minutas assinadas, a gente exige retratação e cláusula compensatória. Não é só postura jurídica, é postura política: mostrar que você decide com cabeça, não com emoção.

Ela fez uma última observação profissional:

— Se aceitar a aceleração, negocia trial de 6–12 meses, com KPIs claros e possibilidade de reversão para posição anterior em caso de incompatibilidade — com indenização pré-acordada. Isso te dá rede de segurança.

Helena fechou os olhos um segundo, murmurou:

— Tá. Peça as minutas. E… obrigada. — Depois, mais para si, acrescentou: — Eu mereço. É pelo meu mérito… independente do que eu escolher.

— Exatamente — concordou Fernanda. — E é isso que vamos garantir no contrato: mérito visível, mas com redes. Eu cuido das minutas. Você decide com calma.

Fernanda levantou-se, já abrindo a pasta para redigir o pedido formal.

— Vamos voltar, vamos apresentar para eles.

A sala encolheu de novo em tensão — a conversa já tinha saído do protocolo e entrado na zona do pessoal. Fernanda levantou a cabeça, colocando a autoridade jurídica na mesa.

— Pelo que ouvi — disse seca — vou pedir formalmente prazo de 14 dias úteis para análise das minutas. É o mínimo razoável para revisar cláusulas de vesting, non-compete, IP, indenizações e montar contraproposta técnica. Sem isso não se assina nada.

Antes que a advogada terminasse, Renato e Viviane responderam em uníssono — dois timbres diferentes, duas certezas distintas, mas a mesma pressa:

— Dois dias. — Renato falou primeiro, firme, com a calma de sempre.

— Dois dias. — Viviane repetiu, com aquele sorriso que não era sorriso: afeto calculado, urgência maternal.

Fernanda conteve um leve revirar de olhos.

— Dois dias não cobrem análise jurídica minimamente responsável. — A voz dela manteve a frieza profissional. — Vocês querem pressa; eu quero segurança. São interesses contraditórios.

Renato inclinou o corpo para frente, olhos medindo cada palavra.

— Dra. Fernanda, compreendo sua posição, mas há dinâmica de mercado e política aqui. A Monteiro não pode ficar com uma vaga aberta enquanto a Fort Group age: isso expõe riscos reputacionais e operacionais. Dois dias é o que pedimos — tempo suficiente para enviar minutas e receber posicionamento.

Viviane cruzou as mãos sobre a mesa, a expressão doce que sempre trazia uma lâmina por baixo.

— Eu diria: dois dias porque o Fort Group não negocia por semanas. A velocidade é parte da estratégia. Não há representante da Plano & Forma aqui — e, enquanto Helena permanecer formalmente vinculada a eles, precisamos de uma resposta rápida para não colocar a jovem numa posição vulnerável entre grupos. Dois dias é generoso da minha parte.

— Esperem — disse ela, voz mais calma do que se sentia. — Eu ouvi o pedido da Dra. Fernanda. Também ouvi vocês dois. E vou ser clara: eu não quero que ninguém decida por mim. Dois dias é pouco — mas eu entendo a dinâmica. Eu aceito dar a resposta em dois dias, sob condições.

Todos a olharam. Viviane sorriu levemente; Renato arqueou a sobrancelha; Fernanda passou o olhar que era mistura de surpresa e orgulho profissional.

— Quais condições? — Fernanda perguntou, cortando para apoiar a cliente.

Helena falou com firmeza, os olhos fixos em Viviane e depois em Renato, escolhendo as palavras como quem marca fronteira.

— Primeiro: as minutas têm que ser entregues hoje, agora, por escrito, para a minha advogada. Sem minutas, não há negociação em 48 horas.

Respirou fundo.

— Segundo: durante esses dois dias eu permaneço trabalhando normalmente — não saio do escritório nem sou impedida de acessar meu lugar. Se alguém tentar me afastar, eu tomo isso como pressão indevida.

Helena revisava o olhar entre os dois.

— Terceiro: Fernanda terá acesso irrestrito às minutas e poderá, em meu nome, fazer ajustes ou solicitar prazos adicionais se houver cláusulas intoleráveis.

Viviane franziu o cenho por um instante, tão rápida quanto quem avalia risco e recompensa. — Se você permanecer aqui — disse ela — eu perco vantagem competitiva. Parte do poder é a ocasião; tirar Helena do ambiente a deixa vulnerável a ruídos. Mas respeito sua autonomia. Se esses pontos estiverem claros e as minutas chegarem já, eu aceito o acordo de dois dias.

Renato inclinou-se, avaliando a posição de Helena.

— A meu ver, é razoável — murmurou. — Entregar minutas hoje não é problema. Mas que fique registrado: dois dias servem apenas para resposta escritural preliminar. Depois podemos formalizar um cronograma de transição. Concordo com a condição de não divulgar nada até haver decisão.

Viviane suspirou, calculando as probabilidades.

— Está bem. Eu mando as minutas agora. Quero é que a Helena saiba que eu apoio e que estarei disponível para conversar com ela pessoalmente nas próximas 48 horas.

Renato acenou uma vez, contido.

— Também enviarei as minutas da Monteiro hoje. E, concordo com a não divulgação. Helena, se aceitar, terá nossa estrutura; se recusar, não haverá retaliação.

Helena sentiu o peito um pouco mais leve, mas não relaxou. Levantou-se, aproximou-se da mesa, e colocou as mãos sobre ela, como quem assume um lugar no tabuleiro.

— Então está combinado — disse firme —: dois dias. Minutas hoje, eu permaneço no meu posto, Fernanda terá acesso total e poder de solicitar prazo adicional se necessário. E mais uma coisa — olhou primeiro para Viviane —: se a Sra. quer me orientar, quero que isso venha documentado: objetivos, frequência, e responsabilidade da mentora. Sem rascunhos vagos.

Viviane inclinou a cabeça, com um meio sorriso bem estudado.

— Será. — prometeu. — E não se preocupe: não sou de prometer sem escrever.

Renato, por fim, murmurou:

— Então façamos assim. Dois dias. E que o que for entregue hoje seja claro.

Fernanda fez um aceno curto, já pegando o celular para redigir o pedido formal.

— Vou mandar o e-mail agora. Vocês têm até o fim do expediente para entregar as minutas. Se não, eu peço prorrogação automática de 14 dias.

Renato pediu para que Viviane e seu advogado o acompanhasse. Ela sorriu para Helena e foi.

— Dois dias — murmurou Fernanda, quase um conselho. — Não é ideal, mas é o que temos. Se entregarem as minutas agora, eu trabalho noite adentro. E te aviso: se existir qualquer tentativa de constrangimento público, eu exponho o processo. Não é bravata: é lei.

Helena respirou fundo, com a vista longínqua do Rio na janela — ao mesmo tempo pequena e no epicentro de um jogo de famílias.

— Obrigada, Dra. — disse ela. — Vamos cuidar disso direito.

Fernanda sorriu breve, profissional.

— Vamos. E, Helena— acrescentou por fim, mais suave — isso é seu. Você decide. E eu garanto que ninguém te roube a escolha.