O CEO que Eu Paguei
87 Palavras Nunca Ditas
O relógio digital do criado-mudo piscava.
03:41 da manhã.
Heitor dormia ao lado dela.
Respiração forte. Corpo quente.
A mão repousada em sua cintura, como se até dormindo ele quisesse garantir que ela não fosse embora.
Mas Helena não conseguia fechar os olhos.
Ela encarava o teto.
O peito apertado, a mente girando como uma roda presa no barro.
Ele era muito mais do que ela conseguia admitir.
O problema não era ele.
Era ela.
Ela, com todas as trancas internas.
Com todas as armaduras.
Com a mania de querer ter o controle.
De se proteger antes de se ferir.
Mas ali, no escuro do quarto dele, com o cheiro dele no travesseiro, com o toque dele ainda na pele…
Ela percebeu: já estava ferida. Porque estava amando.
E amar doía.
Se levantou devagar, sem fazer barulho.
Caminhou pelo quarto como se estivesse fugindo de si mesma.
Foi até o banheiro.
Trancou a porta.
Sentou-se na tampa fechada da privada.
Pegou uma toalha felpuda branca, das caras, das que ele comprava.
E a pressionou contra o rosto.
O choro veio como uma onda que não podia mais ser segurada.
Abafado..
Só a alma se desmanchando por dentro.
Ela chorou.
Porque tinha medo.
Porque nunca se sentiu tão viva.
Porque nunca quis tanto alguém.
E então… chorou porque já sabia.
Ela não podia mais viver sem ele.
Nem sem ouvir aquela voz com sotaque arrastado.
Nem sem sentir o toque quente, a forma como ele a olhava como se ela fosse tudo.
Nem sem ouvir aquelas provocações idiotas que ele jogava só pra arrancar um sorriso dela.
Ela queria ele de volta.
Mas queria inteiro.
Queria ele todos os dias.
E queria ser dele também.
Mesmo que tivesse que lutar contra tudo o que era.
Contra todo o medo.
Contra a Helena que sempre se bastou.
Porque agora…
Agora ela conhecia a parte dela que só existia quando estava com ele.
E não queria abrir mão disso.
Após um longo tempo ainda era madrugada.
O silêncio da casa parecia mais denso, mais atento.
A luz fraca do corredor escapava pela fresta da porta.
Helena estava parada ali, diante da cama, olhando pra ele dormir.
O peito subindo e descendo devagar, a expressão serena.
Mas ela sabia que por dentro… ele não estava calmo.
Ela sabia porque ela também não estava.
Se aproximou com passos leves, como quem teme acordar um coração cansado demais.
Se sentou na beirada da cama.
Estendeu a mão devagar e tocou o ombro dele.
— Heitor…
Ele não reagiu.
Ela o balançou levemente.
— Heitor…
Dessa vez, ele despertou de vez.
Sentou-se rápido, os olhos piscando contra a luz fraca.
— O que foi? Que que aconteceu? — a voz saiu grave, rouca de sono. — Cê tá bem? Aconteceu alguma coisa?
Helena respirou fundo.
Os olhos marejados, a toalha ainda nas mãos.
E a boca travada como se cada palavra fosse um passo em solo desconhecido.
— Eu… — ela tentou, mas a voz falhou.
Heitor olhou pra ela com atenção, agora mais desperto.
— Você tá com essa cara... — ele murmurou. — Tá me assustando. Fala comigo.
Helena abaixou os olhos.
A respiração presa. E a voz carregada
— Eu não sabia como dizer. Não sabia se eu conseguia. Mas eu não posso mais ficar calada. Não depois de tudo. Não depois de hoje.
Ele ficou em silêncio.
Ela levantou o olhar.
E mesmo com o choro preso, disse:
— Me desculpa. Por ter te afastado. Por ter falado tudo errado. Por ter te feito pensar que não importa. Porque importa, Heitor. Você importa pra mim. Mais do que qualquer coisa.
Ele franziu levemente a testa.
Mas não disse nada.
Ela continuou, tropeçando:
— Eu nunca… Eu nunca… nunca senti isso por ninguém. Me dá vontade de fugir. De me fechar. Mas quando você me olha assim… Parece que meu corpo todo decide ficar. Isso é mais do que eu tô acostumada. É forte. Assusta. Me faz querer sumir… mas também me faz querer você. Eu não sei o nome disso. Só sei que, mesmo com medo, eu quero estar com você.
Passou a mão no rosto, irritada com o próprio choro.
— Eu sou péssima com isso. Mas eu tô tentando. Porque você vale isso. Você vale cada parte difícil, cada trava minha. E eu… Eu não quero ficar sem você. Nunca mais.
Heitor a olhou como se cada palavra estivesse remendando um buraco dentro dele.
Helena concluiu, com a voz pequena:
— Eu sou sua. Mesmo quando eu demoro pra dizer. Mesmo quando eu me enrosco inteira pra sentir. Mesmo quando eu tento fingir que não tô. Eu sou sua.
O silêncio entre os dois era diferente agora.
Não era incômodo.
Era sagrado.
Heitor esticou a mão.
Segurou a dela.
E com a voz rouca, disse:
— Fala de novo.
— O quê?
— Que você é minha.
Ela sorriu entre lágrimas.
— Eu sou sua, Heitor. E quero que você seja meu também.
Ele puxou devagar, até abraçá-la.
Enterrou o rosto no pescoço dela.
Ficaram assim.
A madrugada inteira em um abraço que dizia tudo o que já não cabia mais dentro do corpo.
Naquele momento, entre a toalha molhada e a respiração entrecortada, Helena descobriu que amar alguém também podia ser isso: dizer com a alma o que a boca sempre teve medo.
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