O CEO que Eu Paguei
137 Padrões que Não se Repetem
A cozinha estava animada naquela manhã. Heitor estava cantando algum sertanejo que ficaria durante a semana inteira grudado na cabeça de Helena. Ele ajeitava a mesa com zelo, cada prato, cada xícara, como se quisesse provar em gestos simples o quanto se importava. Helena o observava, os cabelos soltos estavam mais brilhantes, o corpo um pouco curvado de cansaço, os cotovelos na bancada e o queixo apoiado nas mãos. Ela amava aquelas manhãs.
Heitor notou. Se aproximou e e acariciou os cabelos dela, os olhos azuis fixos no rosto dela com preocupação quase infantil.
— Tá sentindo alguma dor? — a voz saiu mais baixa do que ele pretendia. — Quer que eu te leve no médico?
Helena sorriu, um sorriso breve, cansado.
— Não precisa, amor. É só cansaço. Isso é normal na menstruação.
Heitor franziu o cenho.
— Mas… o sangue voltou a descer?
— Não. — respondeu firme, como se quisesse encerrar o assunto.
Ele balançou a cabeça devagar.
— Isso tá estranho, Helena. — insistiu. — Não quero ver você passando mal de novo.
Ela se inclinou na cadeira, apoiando o queixo na mão.
— É normal quando a menstruação desregula, Heitor. — disse doce, tentando acalmá-lo. — Eu tô bem, de verdade. Não precisa se preocupar tanto.
Mas ele se preocupava. Sempre se preocupava. Suspirou fundo, forçando um sorriso, e voltou ao fogão. Logo trouxe a bandeja fumegante carregada de ovos pochê com salmão defumado e avocado, uma tigela com frutas cortadas. O cheiro dos temperos invadiu o ar, os ovos com a cor perfeita, dourados do jeito que ele sabia que ela gostava.
Helena pegou o garfo, provou uma garfada e, de repente, separou os ovos com expressão de náusea.
— Tira esses ovos daqui.
Heitor a olhou confuso, pegou o prato e cheirou.
— O quê? — o cheiro estava delicioso. — Amor, estão ótimos. Fiz como você gosta.
Ela afastou o rosto, sentindo o estômago embrulhar.
— Não consigo nem sentir o cheiro.
Heitor ficou parado por um instante, olhando para os ovos com tristeza, como se o esforço dele tivesse perdido o valor. Respirou fundo, derrotado.
— Tá bem… vou preparar algo mais leve pra você. — disse com voz baixa, já se levantando.
Helena esticou a mão e segurou o braço dele, com um sorriso suave.
— Tá tudo ótimo, maravilhoso como sempre. Só não consigo com os ovos mesmo.
Ainda assim, ele se levantou e preparou novamente a torrada, mas agora só com o salmão defumado e o avocado. Comeu rapidamente os ovos e depois voltou para a mesa, sentou-se ao lado dela e começou a acariciar o braço nu de Helena com os dedos grandes, num carinho lento que quase a distraía da comida.
— Me diz… — começou, a voz agora mais calma. — O que você achou da minha mãe?
Helena piscou, surpresa com a pergunta. Engoliu o pedaço de pão antes de responder.
— Achei ela mais simpática do que eu imaginava.
O rosto de Heitor se iluminou, o peso do peito dele parecia aliviar.
— Eu sabia que vocês iam se dar bem. — disse com um sorriso orgulhoso.
Helena se permitiu rir, lembrando-se da rigidez discreta de Celina.
— Ela até preparou um lanche pra mim. É muito atenciosa.
Heitor se recostou na cadeira, o olhar azul cheio de ternura.
— Minha mãe é uma excelente pessoa. — disse com convicção. — No início, pode ser um pouco desafiadora… mas quando ela se revela, tem o coração mais puro que você vai conhecer.
— Tô ansiosa para mim — o sorriso dela era bonito, mas logo o olhar dela se perdeu no alimento.
Helena brincava com a colher no prato, virando o salmão, sem realmente comer. Heitor a observava em silêncio, aquela atenção de quem já sabia que havia algo mais por trás. Ele passou a mão de leve no braço dela, incentivando, mas sem pressionar.
Ela respirou fundo. Só precisava daquele incentivo para falar.
— Eu nunca te contei… — começou, a voz baixa, quase como se não quisesse ouvir as próprias palavras. — Mas eu cresci ouvindo coisas que… me marcaram.
Heitor manteve o olhar nela, firme. Ele já conhecia a história, mas não a versão dela.
— Sempre me disseram que eu era igual a minha mãe. — Helena riu sem humor, os olhos fixos na mesa. — Os olhos, o nariz, a mesma boca, o mesmo jeito… Até o mesmo jeito de sorrir. E sabe… ouvir isso não era um elogio. Era uma maldição.
Heitor fechou a mão sobre a coxa, por baixo da mesa. Ela tá falando. Finalmente. Ela confia em mim.
Helena continuou, engolindo seco:
— A minha mãe… foi embora. Simples assim. Me deixou recém nascida. E… — ela parou, mordeu os lábios. — O meu pai… ele não aguentou. Tirou a própria vida.
O silêncio pesou. O coração de Heitor latejou no peito. Ele sabia, mas ouvir da boca dela… era como se doesse duas vezes.
— A minha avó sempre dizia que tudo foi culpa dela. Da minha mãe. Que ela destruiu a vida do meu pai. — Helena fechou os olhos, e uma lágrima escapou, teimosa. — E eu cresci ouvindo que eu era igualzinha. A mesma cara. O mesmo sangue. Como se, cedo ou tarde, eu fosse acabar igual.
Heitor engoliu a raiva que subia. Como alguém pode jogar isso numa criança? Como podem ter feito ela carregar isso?
Helena limpou rápido o rosto com a ponta dos dedos, tentando disfarçar.
— Eu… eu não quero ser como ela, Heitor. — A voz quebrou. — Eu nunca vou ser. Prefiro morrer do que repetir os passos dela. — Ela balançou a cabeça, nervosa, como se quisesse expulsar a sombra que a seguia.
Ele esticou a mão e cobriu a dela, firme, sem dizer nada. Só presença.
— Talvez seja por isso que eu tenho tanto medo de ser mãe. — Ela suspirou, deixando escapar a confissão. — E não é porque eu não queira. Eu quero… um dia. Mas não agora. Primeiro eu quero ter uma vida diferente da que a minha mãe teve. Eu quero fazer tudo direito… namorar, noivar, casar… e depois, talvez pensar em filhos. — Helena abaixou o olhar, os dedos trêmulos. — Eu quero que seja diferente. Precisa ser. Eu preciso ser.
Heitor respirou fundo, segurando o impulso de responder logo. Ela precisava terminar.
— Eu não posso errar. Eu não posso ser a minha mãe. — Os olhos dela se ergueram, finalmente encontrando os dele. — Esse é o meu maior medo.
Heitor se inclinou para frente, o maxilar duro, o olhar azul carregado. Ele não falou de cara. Apenas passou os dedos devagar pelo cabelo dela, afundando nos fios, e murmurou com aquela voz grave, envolvente, mas cheia de cuidado:
— Você nunca vai ser ela. Nunca.
Ela piscou, surpresa pelo tom seguro dele.
— Sabe por quê? — ele aproximou ainda mais, a testa quase encostada na dela. — Porque você já é tudo que ela nunca foi. Você ama. Você se importa. Você se doa. Você luta. E eu vou tá aqui pra te lembrar disso todos os dias.
O peito dela tremeu, como se aquelas palavras colassem pedaços antigos que estavam sempre soltos.
— E quando chegar a hora de pensar em filhos, Helê… a gente vai criar eles juntos. Não existe esse papo de você repetir o passado. Você não é sua mãe. Você é você. A mulher mais incrível que eu já conheci. E a única que eu quero ao meu lado.
Helena deixou escapar um sorriso pequeno, ainda úmido de lágrimas.
— Você fala como se fosse fácil acreditar nisso.
Heitor arqueou a sobrancelha, com aquele jeito malandro característico.
— Fácil não é, mas é a única verdade. — Depois beijou de leve a ponta do nariz dela. — E se alguém disser que você parece com ela de novo, eu mesmo vou calar a boca dessa pessoa.
Ela riu baixinho, apesar do nó na garganta, e escondeu o rosto no peito dele.
Heitor fechou os braços ao redor dela, e pensou consigo mesmo, silencioso: Ela não sabe, mas eu já sabia. E ainda assim, ouvir da boca dela… só me faz querer protegê-la mais. Custe o que custar.
Helena respirou fundo, limpando discretamente o canto dos olhos.
— É por isso que eu quero tanto dar certo com a sua mãe… — disse em voz baixa, quase como uma confissão. — Eu sei que ela era contra a gente, contra o nosso relacionamento. Pode ser coisa da minha cabeça, mas eu realmente senti que… que ela gostou de mim.
Heitor abriu um sorriso largo, daqueles que iluminavam até o olhar cansado. O peito dele se encheu de orgulho.
— É claro que ela gostou, Helê. — disse, sem hesitar. — Não tem como não gostar de você.
Helena mordeu o lábio, tentando se conter.
— Ela se importou de verdade comigo ontem, de um jeito que… que eu gostei muito. Minha avó foi maravilhosa, eu amo ela. Mas eu sinto que era diferente, sabe? — a voz dela tremeu de leve. — Talvez eu consiga isso que me falta… na sua mãe.
O sorriso de Heitor permaneceu, mas por dentro algo mudou. As palavras dela bateram fundo, mais fundo do que ela poderia imaginar. Não era apenas Helena falando sobre a sogra. Era uma mulher que tinha carregado o peso do abandono, confessando que talvez tivesse encontrado — ali, na mãe dele — a figura que faltava.
Heitor ficou em silêncio por alguns segundos, olhando para ela com intensidade. E, nesse instante, sentiu a responsabilidade se firmar como ferro dentro dele. Ele sabia de todas as barreiras da mãe: o elitismo, os preconceitos velados, as exigências absurdas. Mas também sabia que Celina era capaz de amar com força, quando permitia.
E agora, mais do que nunca, ele tinha certeza: precisava fazer isso dar certo.
Não é só sobre mim. Não é só sobre nós dois. É sobre ela. Sobre o que a Helena nunca teve e merece ter.
Heitor deslizou a mão até a nuca dela, puxando-a para perto, e sussurrou firme:
— Você vai ter isso, amor. Eu prometo.
Helena piscou, surpresa com a intensidade na voz dele.
— Promete, é?
Ele assentiu, o azul dos olhos brilhando com convicção.
— Prometo. Eu vou falar com a minha mãe. Ela vai ser boa pra você, Helê. Vocês duas vão se dar bem. Eu vou garantir isso.
Helena sorriu pequeno, mas cheio de esperança.
E, ao vê-la assim, tão vulnerável e confiante ao mesmo tempo, Heitor soube: não era apenas sobre amor de casal. Era sobre reconstruir o que a vida tinha tirado dela.
— E quais são seus planos para hoje? — Heitor perguntou com uma pontada de receio, mas também com aquela esperança disfarçada no olhar azul.
Helena ajeitou o cabelo atrás da orelha e sorriu.
— Hoje de manhã vou ter que ir na FORT Group. Vou ministrar um treinamento com a equipe de Controles Internos.
Ele murchou os ombros, como uma criança contrariada.
— Mas… — ela continuou rápido, percebendo a expressão dele. — Vai ser só na parte da manhã. Eu estava pensando na gente almoçar juntos e depois eu passo a tarde na Monteiro Inc. O que acha?
O sorriso de Heitor surgiu na hora, e o jeito como ele se iluminava era contagiante.
— Agora sim! Minha namorada vai estar comigo.
Helena tentou segurar o sorriso, mas os cantos da boca a traíam.
— Vou como funcionária, não como sua namorada.
Ele soltou uma risada baixa, ainda animado.
— É a mesma coisa.
— Não é nada, Monteiro. — retrucou, divertida.
Ele se inclinou na cadeira, aquela animação típica masculina estampada em cada gesto.
— Tô louco para te mostrar tudo. A sede da Monteiro Inc é a mais incrível de todas do grupo e, modéstia à parte, bem superior à FORT Group.
— Você não aguenta, não é? — Helena arqueou a sobrancelha.
— Preciso mostrar minha superioridade aos concorrentes na frente da minha namorada.
— Igual no reino animal? — ela disse, provocando.
Heitor abriu os braços e soltou um rosnado fingido.
— Isso, um urso grande e forte.
Ele imitou as patas, fazendo uma cara feroz e exagerada. Helena começou a rir alto, e antes que percebesse, ele a pegou no colo, girando com ela pela sala.
— Heitor! Para com isso! — ela ria e reclamava ao mesmo tempo, socando o ombro dele sem força.
Ele a segurava firme, rindo junto, enquanto caminhava com passos largos.
Foi então que Mel, entrou na brincadeira: começou a pular em volta dos dois, animadíssima, latindo de felicidade. Heitor abaixou Helena devagar, e no instante em que ficou à altura da cadela, Mel aproveitou para lamber o rosto dela inteira.
— Mel! — Helena protestou, mas já gargalhava. — Me levanta!
Heitor encostou o queixo no ombro dela, rindo ao ver a cena.
— Tá vendo? Até a Mel sabe que você é minha.
Helena revirou os olhos, mas o riso dela denunciava: estava exatamente onde queria estar.
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