O CEO que Eu Paguei
138 Quando o Controle Falha
Helena respirava fundo, ainda sentindo a satisfação da manhã. O treinamento tinha sido um sucesso — muito além do que ela esperava. A sala cheia, os olhares atentos, os agradecimentos no final. Pela primeira vez em muito tempo, ela sentiu que dominava não apenas o assunto, mas o espaço. Ensinar dava a ela uma sensação poderosa, como se estivesse finalmente sendo ouvida.
Agora, sozinha na sala que pedira para ser sua, trabalhava em silêncio, os olhos fixos nos gráficos que cruzava em estatística. A empresa havia disponibilizado um iMac para ela, era a primeira vez que ela interagia com um dispositivo da Apple, uma sensação nova e desafiadora, mas ela estava adorando. O barulho dos cliques ecoava suave no ambiente até que uma voz a cortou.
— Bom dia, Helena.
Ela ergueu os olhos de imediato. Antônio Fortenelle estava parado na porta. Impecável, como sempre: terno sob medida, cabelo loiro escuro estava mais charmoso do que de costume com uma pequena mecha invadindo o canto da testa e os olhos verdes tinham um brilho diferente — como de um marido que vai buscar a esposa que cochilou no sofá para voltar para a cama.
— Bom dia. — respondeu, breve, educada. O sorriso dela foi polido, mas por dentro uma revolta incômoda se ergueu. Precisava manter a compostura.
Ele entrou sem ser convidado, passeando o olhar pela sala como se a sala não fosse dela. Caminhou até uma mesa lateral, pegou uma pequena esfera roxa de vidro que servia de enfeite e começou a girá-la nas mãos, distraído.
— Achei que tinha gostado de dividir a sala comigo. — disse, com um tom leve, quase afetuoso. — Cheguei hoje animado para ver minha nova colega de sala… e estava sozinho novamente.
Helena manteve a postura séria.
— É melhor termos cada um a própria sala.
Antônio sorriu, sem pressa, os olhos verdes fixos nela.
— Tem razão. Estamos em áreas diferentes. Mas confesso… adorei a sua companhia de verdade.
Ele disse aquilo com suavidade, como se fosse apenas um elogio inocente. O sorriso que acompanhou, fraco e um pouco decepcionado.
— Quando não estiver tão ocupada — ele continuou, girando a esfera entre os dedos — poderia ir me visitar. O que acha?
Helena inclinou a cabeça, firme.
— Se tiver algo que não possamos resolver via Teams, eu vou até lá.
Ele arqueou a sobrancelha, surpreso pela nova postura dela.
— Está chateada comigo? É por causa de ontem, de eu ter saído daquele jeito?
— Não. E não tô chateada. — respondeu com calma. — É que esse projeto é muito importante para mim. Eu tenho que me concentrar.
— Eu sei. — disse ele, abaixando um pouco a voz, quase confidencial. — Você é incrível por ter construído o projeto. Mas é o primeiro que você lidera, estou certo?
Ela respirou fundo.
— Está.
Antônio apoiou a esfera na mesa e cruzou os braços, como um professor diante de um aluno.
— Então… eu sou CEO há mais de uma década. Tenho experiência de sobra em liderança. — fez uma pausa, deixando o peso das palavras cair. — Posso te instruir nas suas dúvidas.
Helena manteve o olhar sério.
— Você tem seus assuntos da diretoria para tratar.
Ele riu baixo, como quem escutou uma criança teimosa.
— Tenho, sim. Mas este projeto também faz parte da minha alçada. Assim como você, quero que ele funcione com excelência. — inclinou-se ligeiramente, os olhos presos nos dela. — E também porque estou animado com ele… e quero acompanhar cada detalhe.
A entonação final parecia inofensiva. Mas o jeito como ele disse — medido, estruturado, quase sedutor — carregava uma gentileza venenosa.
Helena percebeu. E mesmo tentando manter a compostura, sentiu o coração bater mais forte.
— É muita gentileza sua. Se eu precisar, vou te procurar.
Antônio volta para a mesa lateral e coloca a esfera, ele volta o olhar para ela e suspira com um sorriso curto.
— Estamos combinados então. Tenha uma boa manhã, nos vemos depois.
A mão dele avançou primeiro em direção a ela, firme, porém contida. Os dedos longos, ossudos, marcados por veias evidentes, mas bem cuidados, exibiam a força e o zelo de quem, apesar da dureza do corpo, sabia valorizar os detalhes.
Quando a mão dela — menor, delicada, de pele fina e fria — encontrou a dele para o cumprimento, a diferença foi imediata. Ele a envolveu com naturalidade, como se já soubesse o tamanho exato do espaço que ela ocuparia na sua palma — que por sua vez, moldou-se em torno da dela como quem guarda algo precioso. Os dedos dele demoraram um instante a mais do que deveriam, deslizando suavemente sobre os dela antes de entrelaçar-se no aperto.
O aperto não foi forte demais, tampouco frouxo: foi acolhedor, projetado para transmitir segurança e cuidado, um toque que insinuava muito mais do que palavras poderiam.
O calor das mãos dele se espalhou pela dela em uma onda sutil, quase íntima. Ele queria que aquele gesto fosse lembrado, mesmo que ela não o desejasse da mesma forma. Mesmo que ela pertencesse a outro.
Para Helena, aquilo era só um cumprimento. Mas não conseguiu ignorar o arrepio desconfortável que percorreu os dedos quando tentou soltar a mão. Ele não resistiu, apenas deixou-a ir… mas deixou também a sensação de que, por alguns segundos, ela havia sido tocada não por um gesto social, mas por um segredo silencioso de desejo. Um resquício daquele toque ficou preso nela, incômodo e marcante. Como se, de alguma forma, ele tivesse conseguido deixar um traço invisível que se recusava a desaparecer.
Quando os dedos dela escaparam dos dele, um vazio imediato o percorreu. O calor que antes estava preso em sua palma se dissipou rápido demais, como se tivesse sido arrancado. Ele manteve a mão suspensa por um segundo a mais, olhando-a recuar, como se seu corpo quisesse prolongar o toque que a realidade lhe negava.
Por fora, Antônio permaneceu sóbrio — um homem de semblante controlado. Mas os olhos, esses o traíam. Havia neles um brilho verde denso, quase possessivo, que dizia mais do que qualquer palavra: ele não havia dado apenas um cumprimento. Ele havia revelado, mesmo em silêncio, o quanto a desejava.
E então Antônio saiu.
A manhã correu. Os relatórios avançavam na tela, e a sensação de domínio sobre o assunto lhe trazia um orgulho novo. Mas quando a garrafa de água esvaziou, se levantou, precisando de um respiro. Foi até a copa, encheu o recipiente no filtro e ficou um instante ali, deixando a mente desacelerar.
Observando a água escorrer, os pensamentos ainda dispersos entre os gráficos e a conversa estranha com Antônio. Ele parecia tão disponível, tão disposto a ajudar, até gentil demais… e, ainda assim, a mentira pairava como uma sombra. “Se ele mentiu sobre aquilo… sobre o que mais ele pode mentir?” Pensou, suspirando. “Melhor manter a distância”.
— Com licença.
A voz, firme e bem modulada, a fez virar-se.
Na porta da copa, uma mulher alta e esbelta a observava. Os cabelos loiros estavam presos em um coque impecável, sem um fio fora do lugar. Os olhos verdes traziam a intensidade de quem já havia tomado muitas decisões difíceis, mas havia também uma suavidade inesperada, quase um brilho de calma. O blazer creme caía perfeitamente sobre os ombros, realçando uma presença que era ao mesmo tempo sofisticada e natural.
— Claro. — Helena respondeu, recuando um pouco para dar espaço, instintivamente curiosa. Não que precisasse, estava longe demais da porta.
A mulher sorriu com os lábios, com a permissão ela entrou, caminhou até a bancada com passos firmes, pegou uma xícara de porcelana do aparador e serviu capuccino da máquina, como se conhecesse cada detalhe daquele ambiente.
— Primeiro dia em campo? — perguntou, sem olhar diretamente, soprando o capuccino antes de beber.
Helena piscou, surpresa.
— É tão óbvio assim?
A outra soltou um leve sorriso.
— Não. Mas consigo reconhecer quando alguém fala com entusiasmo do que faz. Passei pelo corredor e ouvi comentários sobre um treinamento. Parece que foi um sucesso.
Helena sentiu o rosto esquentar de orgulho, mas tentou disfarçar.
— Foi… foi minha primeira vez conduzindo algo assim. Eu estava nervosa, mas correu melhor do que imaginei.
— Nervosismo é sinal de que você se importa. — a mulher respondeu de pronto. — As pessoas que não sentem nada são as que deviam nos preocupar.
Helena sorriu, surpresa pela delicadeza por trás daquela postura firme.
— Eu nunca tinha pensado assim.
— Pois devia. — ela apoiou a xícara na bancada, erguendo o olhar para Helena com intensidade. — Quando alguém se entrega de verdade, todos percebem. É isso que inspira confiança.
Houve uma pausa. Helena se pegou observando o jeito que a mulher falava: calma, assertiva, sem precisar levantar a voz para ser escutada. Era uma mulher de negócios, o tipo de mulher que sempre a inspirou e que ela almeja ser. Aquele tipo de mulher que só se vê nos filmes.
— Você trabalha aqui há muito tempo? — Helena arriscou, na intenção de se enturmar.
Um sorriso leve surgiu no rosto da loira.
— Digamos que conheço essa empresa de dentro para fora. — não respondeu diretamente, deixando no ar um mistério calculado.
Helena riu de leve.
— Então provavelmente conhece cada defeito do prédio também.
— Cada um. — a outra concordou, com uma piscada cúmplice.
Helena voltou a se apoiar na bancada, a garrafa entre as mãos. Sentia-se estranhamente confortável na presença daquela mulher.
— Você gosta do que faz? — perguntou a loira, mexendo o cappuccino antes de levá-lo aos lábios.
Helena inclinou a cabeça.
— Eu gosto. Trabalhar com riscos me desafia. Me mantém alerta. É como se cada dia fosse uma nova batalha para vencer.
— Isso é raro. — ela comentou, estudando a jovem com olhos atentos. — A maioria das pessoas vê números, processos, burocracia. Você enxerga propósito. É isso que diferencia quem apenas executa de quem realmente lidera.
Helena sorriu, quase envergonhada. Não estava acostumada a ouvir palavras tão certeiras vindas de alguém que mal conhecia. E as receber de uma mulher que exalava poder, era recompensador.
— Talvez eu seja teimosa demais para desistir. — disse, com humor discreto.
A loira arqueou a sobrancelha, interessada.
— Teimosia é só uma virtude mal interpretada. Quando usada do jeito certo, é persistência.
Helena riu, sincera.
— Gostei dessa definição.
Um silêncio breve se instalou, mas não foi desconfortável. Era como se ambas estivessem medindo uma à outra e, ao mesmo tempo, se reconhecendo.
Por fim, a mulher pousou a xícara vazia no balcão e estendeu a mão com naturalidade.
— Eu não me apresentei ainda. Sou Viviane.
Helena piscou, surpresa com a formalidade tardia, e rapidamente apertou a mão dela.
— Helena.
— Um prazer conhecê-la, Helena. — disse Viviane, com aquele sorriso que misturava elegância e sinceridade.
— O prazer é meu. — respondeu Helena.
— Sabe… — comentou Viviane, sem perder o olhar fixo nela — eu já conheci muita gente que parece promissora, mas raras vezes encontro alguém que me desperta tanta curiosidade logo na primeira conversa.
Helena sentiu o rosto aquecer.
— Curiosidade? Espero que isso seja algo bom.
Viviane sorriu de canto.
— É ótimo. Curiosidade significa que você tem algo a ensinar. E eu adoro aprender.
Helena percebeu: não importava quem exatamente fosse aquela mulher, algo nela inspirava respeito. E, de forma inesperada, confiança.
O clima entre elas se suavizou. Conversaram mais alguns minutos sobre processos, sobre como era difícil alinhar equipes diferentes, sobre a resistência natural que sempre surgia quando alguém novo trazia ideias ousadas.
E, para surpresa de Helena, aquela mulher parecia genuinamente interessada no que ela dizia. Não interrompia, não a tratava como uma iniciante. O olhar atento, os comentários certeiros, a forma como valorizava cada resposta dela… era algo raro.
Quando terminou de lavar a xícara, a mulher ajeitou o coque com um gesto elegante e disse:
— Foi um prazer conversar com você. Espero que possamos repetir isso em breve.
— O prazer foi meu. — Helena respondeu, sincera. — De verdade.
Elas trocaram um sorriso breve, mas cheio de respeito. E enquanto a loira saía da copa, Helena teve uma sensação estranha, quase reconfortante: como se tivesse acabado de conhecer alguém que poderia ser uma verdadeira aliada.
Já era final da manhã, Helena recolhia seus papéis, ajeitando-os com dentro da pasta de couro. Havia sido uma manhã intensa, mas recompensadora. O treinamento, os olhares atentos da equipe, as perguntas no final… ela sentia uma satisfação genuína. Aquilo era dela. O fruto do próprio esforço. Além de ter tido uma conversa com uma mulher incrível.
Estava prestes a sair da sala quando ouviu a voz de Antônio no corredor.
— Helena. — ele apareceu à porta, apoiado de leve no batente, com o mesmo sorriso ensaiado de sempre. — Como foi a sua manhã?
Ela manteve a postura, educada.
— Produtiva. Muito boa.
Ele inclinou o corpo, os olhos verdes intensos.
— Senti falta de você na sala. — em um tom carinhoso. — Estava pensando se… gostaria de almoçar comigo.
Helena abriu a boca para responder, mas não teve tempo. Uma voz firme se aproximava, acompanhada de passos decididos.
— Antônio, esses relatórios não estão fechando. — A figura surgiu pelo corredor, era Viviane, a mulher de mais cedo. Usava óculos de armação fina, que equilibravam a expressão autoritária. Caminhava lendo um maço de papéis, sem olhar para ninguém. — O compliance precisa revisar antes do fechamento de amanhã, senão vamos ter problema com o conselho.
Antônio suspirou alto, sem esconder a impaciência.
— Eu já vi isso. Está tudo sob controle.
Viviane não levantou os olhos de imediato, apenas continuou folheando.
— Sob controle? — murmurou, quase para si mesma. — Desde quando "sob controle" significa "atrasado"?
O tom seco dele contrastava com a serenidade prática dela. Helena observava em silêncio, surpresa: nunca ouvira Antônio falar com alguém daquela forma, era diferente do habitual controle e sutileza.
Foi quando Viviane ergueu os olhos do papel — e os verdes se encontraram com os castanhos de Helena. Um sorriso imediato, genuíno, iluminou seu rosto. Ela tirou os óculos com um gesto suave.
— Helena! — saudou, como se estivesse reencontrando uma amiga querida. — Que bom te ver de novo.
Helena não conteve o próprio sorriso, sincero e animado.
— Oi, Viviane.
Antônio piscou, confuso, olhando de uma para outra.
— Vocês se conhecem?
— Sim. — respondeu Viviane antes mesmo dela. — Tivemos uma ótima conversa hoje cedo.
Helena confirmou com a cabeça, ainda sorrindo.
— Foi um grande prazer te conhecer.
Antônio cruzou os braços, estudando as duas.
— Vocês parecem ter se dado bem.
— E nos demos mesmo. — disse Viviane, firme, sem precisar de permissão para admitir.
Ele arqueou uma sobrancelha, aproveitando a deixa para fazer a apresentação oficial.
— Já que estão tão próximas… Helena, esta é Viviane Fortenelle. — fez uma pausa curta, carregada de intenção. — A antiga CEO da Fort Group.
Viviane deu um pequeno sorriso de canto, como quem não precisava daquela titulação, mas aceitava o peso dela.
Antônio continuou, girando levemente o corpo para ela.
— E, claro… a minha mãe.
— E mãe, está é a Helena. Analista chefe e criadora do projeto de Controles Internos. É a moça que está implantando.
Helena piscou, atônita. O ar pareceu rarefeito por um instante. Olhou de Viviane para Antônio, depois voltou para ela. A mesma mulher que lhe oferecera palavras firmes e elegantes naquela manhã… era mãe do homem que mais fez mal para Heitor.
Viviane, porém, não parecia minimamente constrangida. Ao contrário: seus olhos brilharam com interesse.
— Então é você a responsável pelo projeto de controles internos. — disse, agora estudando Helena de outra maneira. — Eu ouvi falar bastante sobre ele. Confesso que não esperava encontrar a mente por trás tão cedo… e menos ainda de forma tão agradável.
Helena sentiu o peito aquecer.
— Obrigada. Esse projeto é muito importante para mim.
Viviane inclinou a cabeça, satisfeita.
— Está no caminho certo. Continue assim.
Viviane inclinou o rosto, aquele sorriso elegante sustentado pelo brilho nos olhos.
— Eu adoraria conversar mais sobre aquelas partes do projeto. Tenho uma cópia comigo na mesa. — disse, com naturalidade. — O que acha de almoçarmos juntas hoje, Helena?
Antes que Helena pudesse responder, Antônio se adiantou, a voz cortante:
— Ela já vai almoçar comigo.
Viviane se voltou devagar para o filho, erguendo uma sobrancelha. O olhar dela percorreu Antônio de cima a baixo, pesado, depois retornou a Helena, suavizado num sorriso como se tivesse acabado de notar algo interessante.
— Bom… — murmurou, quase musical. — Então podemos ir os três juntos. Que tal?
Helena pigarreou, sentindo o olhar de Antônio que parecia exigir confirmação imediata. Mas sua voz saiu firme:
— Eu adoraria… mas vai ter que ficar para outro dia. — explicou com educação. — Hoje vou almoçar com o Heitor e, depois, passo a tarde na Monteiro Inc.
Viviane piscou, surpresa.
— Heitor? Monteiro Inc? — repetiu, quase degustando as palavras. Os olhos se estreitaram, analisando cada detalhe do rosto da jovem. — Você também presta serviço para outra empresa?
— Sim. — Helena confirmou sem desviar o olhar. — Eu era prestadora terceirizada da Monteiro Inc. Na verdade, ainda sou.
O semblante de Viviane mudou num instante: a suavidade cedeu espaço a um olhar duro, frio, dirigido ao filho.
— Antônio… — o tom dela tinha ares de reprimenda. — Por que não fechou um contrato de exclusividade? Que tipo de jogo é esse?
Ele respirou fundo, se defendendo com pressa:
— Nenhum, mãe. Só não acho correto obrigar alguém a fazer isso.
Viviane inclinou a cabeça, como se pesasse cada palavra dita.
— Não é questão de achar, Antônio. — respondeu firme. — São negócios. Não podemos ter um projeto dessa relevância e a pessoa à frente dançando entre empresas concorrentes.
O silêncio se instalou por alguns segundos, até que Helena se manifestou, com voz calma, mas carregada de convicção:
— Senhora Fortenelle, eu sou perfeitamente capaz de realizar todos os projetos em simultâneo. O da Fort Group não será prejudicado em nada. Aliás, ele já está bem adiantado.
Viviane a observou em silêncio, olhos atentos, como se buscasse falhas naquele rosto confiante. Mas ao fim, um sorriso surgiu — lento e genuíno.
— Entendo. — disse, e seu tom dessa vez foi mais suave. — Bom. Então ótimo almoço para você, Helena. Nos vemos amanhã?
— É claro. — Helena respondeu, um sorriso discreto nos lábios. — Foi um grande prazer.
— O prazer foi meu. — Viviane se aproximou sem pressa, e antes que Helena pudesse reagir, inclinou-se e deixou um beijo breve em sua bochecha, acompanhando o gesto com um abraço elegante.
Quando se afastou, virou-se para o filho com um olhar implacável.
— Você vai almoçar comigo.
Antônio suspirou fundo, a contrariedade visível na expressão. Ele olhou para Helena com aquele sorriso que tentava esconder a derrota.
— Até amanhã, Helena.
Ela respondeu com um aceno leve, e ao vê-los se afastarem no corredor, não conseguiu evitar a sensação de que acabara de assistir a um duelo silencioso entre dois tubarões. Mas, um sorriso bobo a tomou, ainda sim, os dois eram visivelmente, mãe e filho.
O restaurante tinha um salão de pé-direito alto, iluminado por lustres de cristal que pendiam sobre mesas cobertas de linho impecavelmente branco. O som era discreto: talheres tocando porcelana fina, um piano suave preenchendo o espaço, vozes abafadas em conversas elegantes. Viviane e Antônio ocupavam uma mesa no canto reservado, com vista para o jardim interno.
Viviane repousava o guardanapo de linho sobre o colo, os olhos fixos no filho com a firmeza de quem jamais precisou repetir uma pergunta.
— O que está pensando, Antônio?
Ele ergueu o rosto, os dedos brincando com a haste da taça de vinho.
— Estava refletindo sobre um aditivo no contrato com a área de compliance… — começou.
Viviane o interrompeu com a voz baixa, mas afiada:
— Eu não me refiro ao contrato. Estou falando daquela mulher.
Ele arqueou uma sobrancelha, ajeitando-se na cadeira.
— Ah… Helena. — disse, num tom quase neutro, mas os olhos claros cintilaram de um jeito diferente. — Bom… ela é uma analista formidável. Quero que tenha toda a concentração e as ferramentas necessárias para realizar o projeto.
Viviane inclinou o corpo para frente, apoiando o queixo sobre os dedos entrelaçados.
— Se fosse apenas isso, você já teria exigido exclusividade. Prestadora de excelência deveria ser apenas nossa. Mas não… ela está dividida entre nós e a Monteiro Inc. — A voz dela endureceu. — E você aceitou.
Antônio inspirou fundo, deixou a taça descansar na mesa e abriu um sorriso curto, controlado.
— Ela é uma funcionária de extrema qualidade. Por isso é tão cobiçada.
— Antônio… — Viviane o encarava com aquela paciência de mãe que não era paciência, mas insistência. — A verdade.
Ele a fitou em silêncio por alguns segundos, como se ponderasse até onde abrir o jogo. Por fim, suspirou, o sorriso desaparecendo.
— Essa é a verdade… — murmurou, a voz caiu alguns tons, ficando mais grave.
Viviane estreitou os olhos, atenta.
— O que acha da Helena?
Antônio girou lentamente a taça entre os dedos, observando o reflexo do vinho contra o cristal.
— O que eu acho da Helena? — repetiu a pergunta, quase para si mesmo. — Eu acho que ela é… diferente. Não apenas competente, mas inevitável. Quando ela entra em uma sala, não precisa falar nada… já ocupa o espaço. Não é o brilho escandaloso, é o tipo de luz que te obriga a reparar, mesmo quando você tenta ignorar.
Ele fez uma pausa, os olhos fixos no líquido vermelho que agora enchia o cálice.
— Ela me intriga porque não tenta agradar. Porque é dura, até ranzinza às vezes. Mas debaixo dessa casca, existe algo que quer ser compreendido. — A boca dele se curvou num sorriso quase melancólico. — E eu sou bom em compreender.
Viviane apenas o observava, em silêncio.
Antônio levantou os olhos para ela, e agora havia algo de confissão em seu tom.
— Não consigo olhar para Helena como uma funcionária qualquer. Não consigo sequer pensar nela como parte de um jogo corporativo. Ela é mais do que isso. — Ele se inclinou para frente, a voz baixa, intensa. — Ela é o tipo de mulher que desperta em mim o que eu mais escondo: o desejo de posse. O de querer que ela me veja, que me escolha, que me pertença.
Viviane recostou-se devagar, mas não desviou o olhar.
Antônio continuou, a expressão carregada de uma intensidade crua:
— É como se o universo tivesse colocado nela todos os espinhos que eu respeito… e todas as chaves que eu não consigo ter. E é isso, mãe… — ele fechou os olhos por um instante, quase num sussurro — Helena é um enigma que eu quero decifrar, mesmo sabendo que pode me destruir.
O silêncio que se seguiu pareceu maior do que qualquer resposta. Viviane apoiou o cálice na mesa e cruzou os braços, avaliando o filho como se estivesse vendo-o pela primeira vez — ou como se tivesse reconhecido nele algo de si mesma. Sempre esteve ao lado do filho e sempre o ouvia quando ele queria compartilhar algo, mesmo que ele não fizesse isso com frequência.
As palavras dele foram profundas, cobertas de algo que ela já havia cogitado ser impossível de acontecer.
Viviane sorriu, um sorriso de uma mãe.
— Você gosta dela?
Antônio ergueu o rosto com calma, como quem não tem pressa de responder. Um meio sorriso se desenhou.
— Não. Só estou… curioso.
Viviane arqueou uma sobrancelha, encostando-se na cadeira com elegância.
— Antônio… você não fica “curioso” sobre ninguém.
Ele deixou escapar um riso baixo, quase desdenhoso.
— Mas agora eu estou.
Viviane suspirou, ajeitou o guardanapo no colo e então inclinou o corpo para a frente. O tom mudou, firme, analítico.
— Misturar negócios e desejo é perigoso. Eu já vi homens brilhantes destruírem impérios por causa de uma mulher. Perdem a clareza, confundem ambição com emoção, e no final… — ela fez um gesto com a mão, como quem apaga uma chama com dois dedos — restam apenas ruínas.
Antônio a ouviu em silêncio, os olhos fixos nos dela, sem reagir. Apenas tamborilava de leve os dedos na mesa, como quem registra cada palavra.
— Não se engane, filho — continuou Viviane, a voz baixa e cortante. — A fragilidade de um líder nunca está no dinheiro nem no poder… mas no coração.
Por alguns segundos, o silêncio pesou entre eles. Então, Viviane recostou-se na cadeira, mudou o tom, quase como se tivesse virado a chave.
— Mas negócios e família… — ela ergueu a taça de vinho antes de beber um gole — esses sempre estiveram interligados.
Antônio franziu o cenho.
— Não é muito cedo para uma insinuação dessas?
Viviane deu um meio sorriso enigmático.
— Talvez. Mas devo dizer que é peculiar o seu súbito interesse. — Ela fez uma pausa, avaliando-o. — Eu gostei da menina. Além de bonita, é inteligente, trabalhadora e educada. Quero conhecê-la melhor.
Antônio inclinou a cabeça, pensativo.
— Não seria ruim. Posso me beneficiar disso.
A mente de Viviane estalou como se uma peça estivesse se encaixando.
— Entendi, então… — Viviane pousou a taça com elegância. — Por isso não pediu exclusividade. Você quer que ela mesma nos escolha.
Os lábios de Antônio se curvaram num sorriso discreto, satisfeito.
— Exato.
Viviane o encarou demoradamente, como se tentasse enxergar além do controle impenetrável que o filho sempre exibia. Depois, apoiou o queixo sobre as mãos entrelaçadas e disse:
— Muito bem. Mas lembre-se: se você quer que alguém escolha você, precisa oferecer mais do que promessas. Precisa mostrar poder. E o poder que atrai… é o que protege.
Antônio não respondeu.
Levou a taça aos lábios, mas o vinho não apagava a lembrança mais recente — o toque dela.
O cumprimento daquela manhã havia incendiado algo dentro dele que ele nem sabia que existia. A palma macia, fria, delicada, encaixada na dele… parecia frágil demais, e ao mesmo tempo trazia uma descarga de eletricidade que percorreu cada nervo do seu corpo. Aquela fragilidade acendeu nele algo primitivo, a vontade brutal de a envolver com carinho, de não soltar nunca.
Foi breve, social e banal para quem olhasse de fora.
Mas para ele? Para ele foi tudo, menos isso.
A pele dela contra a sua era como fogo líquido. Um convite e uma ameaça. O tipo de contato que não deveria significar nada… mas que o deixou faminto. Precisava mais daquilo. Mais daquela sensação. Mais daquela mulher.
Quando os dedos dela escaparam dos seus, algo se arrancou junto. O calor fugiu depressa demais, deixando sua mão vazia, pulsante, latejante como se implorasse de volta o que perdera. Ele fechou os punhos debaixo da mesa, tentando conter o vazio que se transformava em necessidade.
Era um desejo proibido, um instinto que não podia controlar. Nunca, em todos os anos de disciplina, de sangue-frio, de controle absoluto sobre si mesmo e sobre os outros, ele havia sentido algo assim. Nenhuma mulher tinha conseguido alcançá-lo dessa forma
Mas com Helena… era diferente.
Ela era a mulher que ele não podia querer. A namorada do homem que odiava. A peça que não se movia no tabuleiro como ele mandava. E ainda assim, o corpo dele gritava pela presença dela. Queria a voz dela sussurrando em seu ouvido, o olhar castanho incendiando os seus, o perfume impregnando sua pele até não restar mais nada além dela.
Queria marcá-la. Fazer dela sua.
Imaginava os dedos deslizando pela maciez dela, sentindo o contraste entre a sua pele quente, áspera de homem, e a dela, fina, delicada, que parecia feita para ser possuída. Queria sentir o arrepio dela contra o seu toque, o choque elétrico quando o calor dele engolisse o frescor da pele dela.
Sonhava em deixar a marca das próprias mãos no corpo dela, não de violência, mas de posse. Como se cada traço da pele dela fosse moldado para carregar a lembrança dele. Queria que, quando Helena se olhasse no espelho, ainda sentisse a pele arder, impregnada do toque dele, como se nenhum banho pudesse apagar.
O vinho desceu pela garganta, mas era inútil.
A fome continuava.
Era um desejo cru, primitivo, quase impossível de disfarçar.
Um desejo que corroía o controle que ele tanto prezava.
Queria fazer dela sua.
Na carne. No corpo. Na pele.
Antônio pousou a taça devagar, o olhar fixo no horizonte além da janela do restaurante, mas a verdade era simples: não estava enxergando nada.
Estava apenas revendo o toque dela.
O cheiro dela.
O sorriso que não devia ter dado a ele.
E sabia — sabia como nunca soubera nada antes — que não descansaria até senti-la de novo.
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