O CEO que Eu Paguei

256 Os limites do próprio controle


No início da manhã, diferente do que vinha acontecendo desde que Humberto nascera, Helena não despertou antes dele. Seu corpo parecia ter desenvolvido um relógio próprio nos últimos meses; muitas vezes ela abria os olhos alguns minutos antes do filho começar a reclamar, como se alguma parte dela soubesse que ele estava prestes a acordar. Naquela manhã, porém, dormia profundamente quando sentiu um beijo demorado em seu ombro. Ainda perdida no sono, mexeu-se um pouco e recebeu outro na bochecha, depois mais um perto da orelha. Helena nem tinha aberto os olhos direito quando reconheceu a respiração de Heitor contra sua pele. Aquilo era maldade. Ele beijava devagar, passava o nariz pelo ombro dela, pela bochecha, respirava perto demais de seu pescoço e parecia não ter nenhuma pressa para acordá-la de verdade. Seu corpo, no entanto, já estava acordando muito antes dela. Um arrepio correu por sua pele quando a mão dele a puxou para mais perto.

— O que foi? — perguntou baixinho, a voz ainda completamente tomada pelo sono.

— Acordei morrendo de vontade de você.

A voz arrastada de Heitor tão perto de seu ouvido terminou de despertá-la. Helena abriu os olhos e sentiu a boca dele encontrar seu pescoço, demorando-se ali enquanto o braço ao redor de sua cintura a mantinha colada a ele. Era impressionante como aquele homem conseguia provocar uma reação nela com tão pouco. Bastava o jeito de falar. O peso da mão. A barba roçando sua pele. O cheiro dele pela manhã. Helena sentiu o corpo inteiro se arrepiar quando Heitor voltou a beijar seu pescoço e, em poucos segundos, o sono havia desaparecido completamente. Havia um calor crescendo dentro dela, rápido demais, e ele sabia. Claro que sabia.

Quando Heitor procurou sua boca, Helena ainda virou o rosto por reflexo.

— Meu hálito.

Ele soltou uma risadinha contra sua pele.

— Helê...

— Eu acabei de acordar.

— Eu também.

— Heitor.

— Eu não ligo.

— Eu ligo.

Ele passou o nariz pela bochecha dela novamente.

— Então eu não beijo sua boca.

— Não?

— Tenho bastante opção.

Helena sentiu outro beijo no pescoço e fechou os olhos. Idiota. Sabia exatamente o que estava fazendo. E o pior era que estava funcionando. Talvez fosse toda a tensão dos últimos dias, talvez fosse o alívio que sentira na noite anterior depois de finalmente ouvir Jonas, talvez fosse simplesmente o fato de estar ali com o homem que amava. Não importava. Um fogo já havia subido por seu corpo e Helena deixou de se preocupar com hálito, horário ou qualquer outra coisa. Virou-se para Heitor, segurou seu rosto e o beijou.

Naquele momento, só queria ser dele.

E Heitor entendeu perfeitamente.

Depois que fizeram amor, Helena ficou alguns minutos ainda agarrada a ele, recuperando a respiração enquanto Heitor distribuía beijos preguiçosos pelo seu rosto. Havia aquele sorriso satisfeito começando a aparecer e ela já sabia o que viria. Heitor ficava ridiculamente feliz depois. Não apenas relaxado. Feliz. Parecia que alguém havia aumentado o brilho do homem. Helena achava engraçado e, secretamente, adorava perceber que conseguia deixá-lo daquele jeito.

Foram tomar banho juntos e a previsão dela se confirmou quase imediatamente.

Heitor começou a cantar.

— Fala baixo — Helena reclamou enquanto lavava os cabelos. — Você vai acordar o Humberto.

— Ele já vai acordar.

— Isso não significa que você precisa antecipar.

Heitor continuou cantando um sertanejo qualquer, completamente despreocupado, e Helena tentou manter a expressão séria.

— Heitor!

Ele virou para ela, com aquele sorriso enorme.

— Bom dia, amor.

Helena apertou os lábios para não sorrir.

— Você está muito felizinho.

— Estou tendo uma manhã excelente.

— Percebi.

— Posso ter outra excelente daqui a pouco.

— Nem começa.

Ele começou a rir e Helena acabou rindo também.

O verdadeiro problema apareceu quando saíram do banho e ela foi se vestir. Helena estava diante do espelho quando percebeu uma marca em seu corpo. Aproximou-se. Havia outra. E outra.

Seus olhos se arregalaram.

— Heitor...

Ele estava mexendo em alguma coisa no closet.

— Hum?

Helena virou o pescoço diante do espelho.

Vermelho.

Bem onde apareceria.

— Heitor!

Dessa vez ele surgiu na porta.

— Que foi?

— Olha isso!

Ela apontou para o próprio pescoço.

Heitor olhou.

E Helena conhecia aquele rosto.

— Nem vem.

— O quê?

— Essa cara.

— Que cara?

— Você deixou marca de novo!

— Eu nem percebi.

Helena revirou os olhos.

— Claro. Você nunca percebe.

— Foi sem querer.

— Heitor, eu já falei várias vezes para você não deixar marca onde aparece. Eu vou passar o dia com o Jonas!

— Seu irmão sabe que você tem homem.

— Não interessa!

— Helê...

— E nem vem daqui a pouco falar que acha sexy, porque eu conheço você.

Um sorriso apareceu lentamente no rosto dele.

Helena apontou o dedo.

— Olha aí!

— Eu não falei nada.

— Não precisa. Olha sua cara.

— Minha cara é normal.

— Sua cara está dizendo exatamente o que você está pensando.

Heitor se aproximou ainda sorrindo e passou os braços ao redor da cintura dela.

— Desculpa.

— Mentiroso.

— Estou pedindo desculpa.

— Sorrindo!

— Eu sorrio quando fico nervoso.

Helena soltou uma risada incrédula.

— Você nunca ficou nervoso na sua vida.

Heitor beijou sua bochecha.

— Desculpa, amor.

— Não adianta tentar me distrair.

Outro beijo.

— Não estou.

— Está.

Mais um, agora perto demais de seu pescoço.

— Heitor...

Helena ainda pretendia continuar brigando. De verdade. Só que estava abraçada ao noivo, ele ainda cheirava a banho e aquela mão grande já havia encontrado sua cintura. Quando percebeu, a discussão sobre as marcas tinha se transformado em outra coisa.

E fizeram amor novamente.

Algum tempo depois, Helena estava deitada sobre o carpete do closet, ainda tentando recuperar o fôlego. Sentia a mão pesada de Heitor percorrendo lentamente suas costas, num carinho preguiçoso, e nem precisava virar o rosto para saber que ele estava com aquele sorrisinho exibido. Conhecia o noivo bem demais. O próprio corpo ainda guardava a intensidade daqueles minutos; suas pernas estavam um pouco bambas, o coração demorava a voltar ao ritmo normal e a respiração de Heitor também continuava pesada atrás dela.

— Foi uma excelente ideia colocar carpete no closet — ele comentou, ofegante.

Helena soltou uma risada.

— Você é ridículo.

— Estou falando de conforto.

— Claro que está.

Ela tentou virar o corpo, mas Heitor segurou suas coxas e a ajudou a se voltar para ele. O sorriso dele aumentou no instante em que Helena mexeu as pernas e ela percebeu.

Ah, não.

— Nem começa.

— Eu não falei nada.

— Você percebeu.

— Percebi o quê?

— Heitor.

Ele estava se divertindo demais.

— Suas pernas estão meio...

— Cala a boca.

Heitor riu e começou a subir beijos pelo corpo dela, sem pressa, ainda com aquela satisfação masculina absolutamente insuportável estampada no rosto. Helena passou os dedos pelos cabelos dele e tentou manter a expressão irritada, mas não conseguiu quando a barba roçou sua pele.

— Vou trabalhar tão feliz hoje — ele disse.

— Que ótimo.

— Relaxado.

— Melhor ainda.

— Hoje ninguém pode me pedir aumento.

Helena franziu a testa.

— Por quê?

Heitor levantou o rosto para ela.

— Porque eu vou dar.

Helena começou a rir.

— Meu Deus. Vou avisar seu financeiro para esconder os funcionários de você.

— Hoje eu sou um homem generoso.

— Daqui a pouco você distribui participação na empresa.

— Dependendo do pedido...

— Heitor!

Ele riu e voltou a se deitar ao lado dela.

Ficaram algum tempo daquele jeito, espalhados pelo carpete, trocando carinhos sem nenhuma vontade de levantar. Helena gostava daquele depois quase tanto quanto gostava de tudo que vinha antes. Heitor ficava diferente. Mais quieto, embora nunca completamente quieto; mais carinhoso, sempre procurando alguma parte dela para tocar. A mão dele passava devagar por suas costas, depois pela cintura, depois encontrava a dela e entrelaçava seus dedos. Helena se aproximou e apoiou a cabeça em seu peito, ouvindo o coração dele ainda um pouco acelerado.

Era seu homem.

Às vezes aquela constatação ainda lhe provocava uma felicidade estranha. Aquele homem enorme, convencido, impossível, que conseguia irritá-la como ninguém e que agora estava deitado no chão do closet acariciando suas costas era seu noivo. O homem que acordava querendo-a, que cantava depois, que deixava marcas apesar de ela mandar que não deixasse, que queria cinco filhos como se gravidez fosse uma encomenda feita pela internet.

Helena sorriu sozinha.

Então ouviu a voz de Humberto pela babá eletrônica.

Os dois pararam.

Veio um resmungo.

Depois outro, muito mais decidido.

Heitor virou o rosto para ela e soltou uma risadinha.

— Parece que o despertador tocou.

Helena ergueu a mão e passou lentamente pelo rosto dele. Heitor fechou os olhos por um instante e virou a cabeça para beijar sua palma. O gesto era tão naturalmente carinhoso que Helena sentiu o peito aquecer.

— Acho melhor você ir lá.

Os olhos azuis dele se abriram.

— Eu?

— Você.

— Por quê?

— Porque você se veste mais rápido.

Heitor olhou para as pernas dela e o sorriso começou a surgir novamente.

— Tá. Vou me vestir e vou, já que você está com as perninhas bambas.

Helena revirou os olhos.

— Não inventa, Monteiro. É porque você se veste mais rápido.

— Ahaammm.

— Para de ficar orgulhoso.

— Não estou orgulhoso.

— Está quase brilhando.

Heitor riu e se levantou. Helena ficou deitada mais alguns segundos, acompanhando-o com os olhos enquanto ele caminhava até o armário.

— Qual cor eu vou hoje? Azul?

Ela virou um pouco o corpo para enxergar as opções.

— A camisa rosa-clara e a calça grafite.

Heitor pegou a camisa e olhou para ela.

— Rosa, é? Fica bem na cara que minha mulher me veste.

Helena riu.

— Mas sua esposa te veste mesmo.

— Verdade.

Ele colocou um short primeiro e voltou até ela. Abaixou-se, deu um beijo demorado em sua bochecha e passou rapidamente a mão por seus cabelos.

Humberto reclamou mais alto.

— Vai, amor.

— Estou indo.

— Ele está bravo.

— Ele puxou você.

Helena deu um tapa no braço dele.

Heitor saiu rindo.

Helena permaneceu um pouco mais ali antes de conseguir reunir disposição para se levantar. Foi ao banheiro, se limpou e começou a ajeitar os cabelos. Do corredor veio primeiro a voz de Humberto. Depois a de Heitor.

Cantando.

Helena parou.

Não.

— Essa é a história de um novo herói...

Ela mordeu o lábio.

— Cabelos compridos a rolar ao vento...

Um barulhinho animado de Humberto veio em seguida.

Helena já estava sorrindo.

— Pela estrada no seu caminhão... cravado no peito a sombra de um dragão...

— Heitor! — ela gritou. — Não deixa esse menino elétrico de manhã!

Ele simplesmente continuou.

— Tinha um sonho de ir pra Nova York, levar a namoradaaa...

Helena começou a rir sozinha diante do espelho.

Aquele era o mesmo homem que, algumas horas depois, entraria numa empresa e teria gente esperando sua opinião para tomar decisões milionárias. O mesmo homem que participava de reuniões internacionais, discutia contratos e comandava executivos. E agora estava no quarto ao lado, provavelmente com Humberto no colo, cantando sertanejo para um bebê que mal conseguia falar.

Ela amava aquela versão dele.

Amava todas, na verdade.

Ainda sorrindo, Helena ergueu o cabelo para olhar novamente o pescoço no espelho.

A marca continuava ali.

Seu sorriso desapareceu.

— HEITOR MONTEIRO!

A música parou.

Do quarto ao lado veio a voz dele:

— Eu já pedi desculpa, amor!

— OLHA O TAMANHO DISSO!

Dois segundos de silêncio.

— Mas ficou sexy!

Helena fechou os olhos.

— EU SABIA!

Heitor voltou a cantar.

E Humberto começou a rir.






Helena terminou de se arrumar e voltou para o quarto de Humberto ainda prendendo um dos brincos. Encontrou Heitor sentado perto do filho, já quase pronto para o trabalho, completamente entretido em brincar com os pezinhos do bebê. Ele segurava um deles, beijava a sola e depois fingia que ia morder os dedinhos, arrancando de Humberto aqueles sons agudos e felizes que faziam Helena sorrir antes mesmo de perceber. Assim que ela se aproximou, porém, o filho imediatamente virou a cabeça em sua direção. O reconhecimento foi instantâneo. Humberto abriu um sorriso enorme e começou a mexer braços e pernas ao mesmo tempo, o corpinho inteiro se agitando como se a chegada da mãe fosse um acontecimento extraordinário.

— Olha isso — Heitor comentou, fingindo indignação. — Cinco minutos aqui fazendo papel de palhaço e é só você entrar.

Helena riu e se abaixou para beijar o filho.

— Porque ele me ama mais.

— Isso ainda vai ser discutido judicialmente.

Heitor levantou-se para terminar de se vestir e Helena ficou com Humberto. O menino parecia particularmente falante naquela manhã. Balbuciava sem parar, interrompia a própria conversa para sorrir e então recomeçava com uma seriedade tão grande que Helena respondia como se entendesse perfeitamente.

— É mesmo? — perguntou, ajeitando-o nos braços.

Humberto respondeu uma sequência incompreensível.

— Nossa, filho. E o que você fez?

Outra sequência, agora acompanhada de um sorriso.

— Não acredito.

Do closet, Heitor apareceu abotoando o punho da camisa rosa-clara que ela escolhera.

— Ele está falando mal de mim?

— Está contando tudo.

— Poxa Helê, mas ele nem sabe falar.

Humberto fez um barulho alto.

— Viu? — Helena respondeu. — Ficou ofendido.

Ela deu de mamar ao filho e depois foi arrumá-lo para passar o dia fora. Escolheu uma roupinha confortável, separou tudo que poderiam precisar e conferiu a bolsa mais vezes do que seria necessário. Passariam o dia com Jonas. Só pensar nisso ainda provocava nela uma mistura de ansiedade e alívio. Depois de tantos dias dependendo de Lorena para saber qualquer coisa sobre o irmão, finalmente poderia vê-lo, conversar com ele, observar com os próprios olhos se estava bem. O áudio da noite anterior havia tranquilizado uma parte dela, mas não completamente. Helena precisava vê-lo.

Desceram os três para tomar café da manhã e, quando terminaram, Heitor avisou que dirigiria.

— Deixo vocês lá e busco depois do trabalho.

— Não precisa voltar só para buscar a gente, amor. Posso pedir para alguém...

— Eu busco.

Helena nem discutiu. Sabia que ele começaria com o drama.

No carro, Humberto foi acomodado na cadeirinha atrás deles e passou boa parte do caminho conversando com absolutamente ninguém e com todos ao mesmo tempo. Helena ria sempre que uma nova sequência de sons vinha do banco traseiro. Heitor dirigia com uma das mãos no volante e mantinha a outra pousada sobre a coxa dela, o polegar fazendo movimentos distraídos enquanto conversavam.

— É, filho? — Heitor respondeu a algum balbucio vindo de trás. — Concordo.

— Você nem sabe o que ele falou.

— Sei, sim.

Humberto produziu outro som.

— Viu? Confirmou.

Helena colocou a mão sobre a dele e sorriu.

A conversa seguia leve quando Heitor comentou, quase casualmente:

— Daqui a pouco você já está indo trabalhar comigo de novo.

Helena virou o rosto.

— Sim, já tá quase.

— A gente precisa começar a procurar uma babá para o Humberto.

A frase entrou nela de um jeito estranho.

Helena ficou em silêncio.

Uma babá.

Até então, de alguma forma, aquilo sempre parecera uma coisa para depois. Existiam funcionários na casa, havia ajuda quando precisavam, as famílias estavam por perto, mas uma babá era diferente. Uma pessoa contratada especificamente para cuidar de Humberto. Outra mulher dentro da casa deles. Pegando seu filho quando chorasse. Dando comida. Fazendo-o dormir. Descobrindo os horários dele. Aprendendo os sons que ele fazia quando estava cansado e aqueles que fazia quando queria colo.

Outra mulher conhecendo seu filho daquela maneira.

A ideia se instalou em sua cabeça tão rapidamente que Helena sentiu o estômago apertar.

Heitor não percebeu de imediato.

— Acho melhor procurar por agência — continuou, animado com o próprio planejamento. — Agência boa mesmo, referência, experiência com bebê, a gente entrevista com calma... Ou posso falar com minha mãe. Ela deve conhecer alguém.

Helena continuou olhando pela janela.

— Imagina se dona Cleuza resolve criar o Humberto — Heitor riu. — Será que ela consegue criar outro Monteiro?

Normalmente Helena teria rido. Mas não riu.

Outra mulher na casa dela.

Cuidando do bebê dela enquanto Helena estivesse trabalhando.

E se Humberto chorasse quando ela pegasse nele? E se começasse a preferir ficar com a babá durante o dia? E se Helena perdesse coisas? A primeira vez que fizesse alguma coisa nova, uma palavra, um gesto, uma descoberta qualquer. E se outra pessoa visse primeiro?

— Helê?

Ela piscou e olhou para Heitor.

Ele havia parado de falar.

— Hum?

— Está tudo bem?

— Está.

Heitor olhou para ela por mais um instante antes de voltar os olhos para a rua.

Helena sabia que ele não acreditara.

Quando chegaram à casa dos pais dela, Heitor estacionou, desligou o carro e, em vez de simplesmente sair, virou o corpo em sua direção.

— O que aconteceu?

— Nada.

— Helena.

— Está tudo bem.

Os olhos azuis permaneceram nela, atentos demais.

— Se você não quiser ficar aqui, eu levo você para casa.

A preocupação genuína na voz dele fez Helena sentir culpa imediatamente.

— Não é isso, amor. Eu quero ver o Jonas.

— Então o que foi?

Ela abriu a boca e não encontrou uma maneira de explicar sem parecer absurda. Nem ela entendia direito o tamanho da reação que tivera. Heitor não estava propondo entregar o filho deles para uma desconhecida e desaparecer. Estava falando de algo absolutamente normal, necessário inclusive se Helena realmente quisesse voltar à empresa. Ainda assim, alguma parte irracional dentro dela continuava repetindo a mesma coisa.

Outra mulher cuidando do seu bebê.

— Eu só estou preocupada — respondeu.

— Com o Jonas?

Helena hesitou.

Heitor percebeu.

— Helê...

— Depois a gente conversa.

Ele continuou olhando para ela, claramente tentando arrancar alguma coisa daquele rosto que conhecia bem demais. Helena agradeceu silenciosamente quando uma voz conhecida interrompeu os dois.

— Opa! Olha só quem tá aqui!

Ela virou imediatamente.

Jonas descia os degraus da entrada.

Por um segundo, Helena apenas o olhou.

Havia algum creme sob os olhos, provavelmente para tentar esconder as olheiras que continuavam evidentes. Parecia cansado. Mais abatido do que no último dia em que o vira. Mas estava de pé, arrumado e, principalmente, sorrindo daquele jeito conhecido que fazia parecer que ele estava prestes a falar alguma besteira.

Helena sentiu alguma coisa dentro dela desmanchar.

O sorriso apareceu antes que pudesse impedir.

Tinha sentido tanta falta dele.

Saiu do carro e caminhou depressa até o irmão. Nos últimos passos já nem tentou manter qualquer dignidade; simplesmente passou os braços ao redor dele e o apertou com força.

— Você não devia ter sumido.

A voz saiu embargada.

Jonas soltou o ar devagar e a abraçou de volta.

— Eu sei.

Helena apertou ainda mais.

— Também senti saudade.

— Eu fiquei preocupada.

— Eu sei, maninha. — Jonas beijou seus cabelos. — Tô feliz que você veio.

Helena fechou os olhos por um instante. Era ele. O cheiro conhecido, a voz, aquele jeito de chamá-la de maninha. Nos últimos dias, tinha imaginado tantas vezes como Jonas estaria que encontrá-lo ali, ainda cansado e claramente machucado, mas sendo ele mesmo, provocou um alívio quase doloroso.

— Bom te ver, cara.

A voz de Heitor veio atrás dela.

Helena se afastou um pouco do irmão e olhou para os dois.

Heitor já havia tirado Humberto do carro e vinha em direção a eles com o bebê no colo. Jonas ergueu os olhos para ele e, por um instante muito breve, Helena percebeu alguma coisa passar entre os dois que não precisava de palavras.

Antes de serem cunhados, Heitor e Jonas já tinham sido quase irmãos. E ela percebeu no jeito como Heitor olhou para Jonas que também tinha sentido sua falta.

Jonas abriu um sorriso.

— Falo o mesmo.

Os dois se cumprimentaram daquele jeito masculino que começava com um aperto de mão e terminava num abraço rápido, mas Heitor segurou o ombro dele por um segundo a mais.

— Tá bem?

Jonas fez uma pequena careta.

— Tô ficando.

Heitor assentiu.

Não perguntou mais nada.

Jonas então voltou toda a atenção para Humberto.

— Caraca, olha isso! — aproximou-se. — Que saudade eu tava de você. Parece que cresceu!

Humberto o observava com a chupeta na boca, muito sério.

— Cresceu mesmo — Helena respondeu.

Jonas estendeu os braços.

— Vem cá com o tio. Deixa eu sentir esse cheirinho de bebê.

Humberto imediatamente virou o corpo e enterrou o rosto no pescoço de Heitor.

Helena olhou para o noivo.

Heitor estava fazendo um esforço ridículo para não sorrir.

— Nem começa — ela avisou.

— Eu não fiz nada.

Jonas colocou a mão no peito.

— Qual foi, moleque? Eu sumo uns dias e tu me esquece?

Humberto se agarrou ainda mais à camisa do pai.

O canto da boca de Heitor subiu.

— Cumprimenta seu tio. Com o papai você conversa mais tarde.

Humberto respondeu com um resmungo abafado, sem tirar a chupeta da boca.

Jonas fez uma expressão tão genuinamente triste que apertou o coração de Helena.

— Pô, Humberto. Sacanagem.

— Amor — Helena se aproximou do filho. — Dá tchau pro papai e vem cá. Hoje é dia de ficar com o titio.

Jonas pareceu ter uma ideia. Tirou o celular do bolso e balançou diante de Humberto.

— Aí, moleque. Quer ver desenho? Ó, pega aqui.

Humberto ergueu o rosto.

Heitor olhou para Jonas.

— Apelou agora.

— Só resultados.

Jonas aproximou o celular e Humberto esticou uma das mãos.

— Aí! Sabia que gostava de mim.

Heitor deu um beijo demorado na testa do filho.

— Tenha um bom dia, campeão. O papai te ama.

Helena tentou pegá-lo.

Tentou.

Porque Humberto havia agarrado a camisa de Heitor com uma das mãozinhas e aparentemente decidido que ninguém o separaria do pai.

— Solta, filho.

Ele não soltou.

— Humberto...

Heitor começou a rir.

— Não incentiva — Helena reclamou.

— Não estou fazendo nada.

— Está com essa cara de vitória.

— Meu filho me ama. Vou fazer o quê?

Foi necessário Helena abrir cuidadosamente os dedinhos de Humberto um por um até libertar a camisa. O bebê ficou em seus braços olhando para o pai como se tivesse acabado de sofrer uma traição imperdoável.

Heitor entregou a bolsa e as outras coisas a Jonas e depois voltou para Helena.

— Qualquer coisa me liga.

— Eu sei.

— Qualquer coisa mesmo.

— Heitor, eu sei.

Ele segurou sua cintura e a beijou.

— Busco vocês quando sair.

— Tá bom.

— Te amo.

— Também te amo.

Heitor ainda beijou Humberto mais uma vez antes de entrar no carro.

Foi quando começou o desastre.

Assim que percebeu o pai se afastando, Humberto esticou o braço.

— Aaaa... ah! Ah!

Helena congelou.

Heitor também.

Humberto começou a se agitar nos braços dela, estendendo as duas mãozinhas na direção do carro. Quando Heitor abriu a porta, o bebê soltou um choro desesperado.

— Aaaaa! Ah! Aaaah!

O coração de Helena apertou.

— Amor, o papai vai trabalhar. Vem com a mamãe.

Não adiantou.

Humberto chorava como se Heitor estivesse partindo para a guerra.

Jonas ficou parado ao lado dela com a bolsa pendurada no ombro.

— Caraca.

Heitor fechou a porta do carro sem entrar.

Helena quase riu apesar da situação.

Heitor voltou.

— Filho...

Humberto imediatamente se jogou na direção dele.

— Não pega — Helena avisou. — Se pegar, acabou.

Heitor parou com os braços no ar.

O bebê chorou mais.

— Porra, Helê.

— Eu falei.

— Ele tá chorando.

— Eu estou vendo.

Heitor passou a mão pelos cabelos, completamente derrotado.

Jonas olhava de um para o outro.

— Vocês são muito fracos.

Os dois viraram para ele.

— Cala a boca, Jonas — responderam praticamente juntos.

Jonas começou a rir.

No fim, ninguém teve coragem de continuar aquela despedida na calçada.

Entraram os quatro.

Jonas contou no caminho até a sala que os pais tinham viajado naquela manhã. Paulo participaria de uma sabatina e Lorena resolvera acompanhá-lo. Helena sentiu um pequeno alívio ao saber que teria o irmão praticamente só para ela durante algumas horas.

Quando chegaram à sala, porém, parou.

Havia embrulhos por toda parte.

— O que é isso?

Jonas deu de ombros.

— Mamãe.

— Tudo?

— Ela falou que era pro Humberto se divertir bastante hoje.

Heitor pegou um dos pacotes.

— Isso aqui é maior que ele.

— Abre — Jonas disse.

— Não vai acostumar ele. — reclamou Heitor.

Helena olhou para Heitor.

— Você comprou um carrinho que custa mais que muito carro usado.

— Aquilo é diferente.

— Por quê?

— Porque fui eu.

Jonas soltou uma gargalhada.

— Argumento impecável, Monteiro.

Heitor abriu o brinquedo e mostrou para Humberto. O choro havia desaparecido quase completamente, substituído por uma curiosidade imediata. O bebê abriu um sorriso.

— Aí, ó — Heitor disse. — Recuperado.

Jonas pegou o brinquedo.

— Vou lavar isso.

— Lava direito — Helena falou automaticamente.

Jonas parou e olhou para ela.

— Quer lavar você?

— Não.

— Então confia no profissional.

— Que profissional?

— Eu, o super tio.

Ele saiu e voltou pouco depois com o brinquedo limpo. Dessa vez não foi até Heitor. Agachou-se diante do sobrinho e começou a mexer o objeto, fazendo algum barulho idiota para chamar sua atenção.

Humberto acompanhou.

Jonas recuou um pouco.

— Vem.

Humberto se esticou na direção dele.

O rosto de Jonas se iluminou.

— Aí! Agora sim, porra.

— Jonas! — Helena repreendeu imediatamente.

— Ele não entende.

— Continua falando assim que a primeira palavra dele vai ser palavrão.

— Aí o Heitor assume.

— Por que eu? — Heitor protestou.

Jonas finalmente pegou Humberto no colo e começou a mostrar o brinquedo. Dessa vez o bebê nem procurou o pai. Estava completamente interessado no tio, segurando o objeto e ouvindo Jonas conversar com ele como se fossem velhos amigos.

Helena percebeu o momento exato em que Heitor entendeu que tinha uma janela de fuga.

Ele olhou para ela.

Ela olhou para ele.

— Vai — murmurou Helena, sorrindo.

Heitor aproximou-se sem chamar atenção de Humberto. Passou a mão pela cintura dela e deu um beijo rápido em seus lábios.

— Me liga.

— Eu ligo.

— E depois a gente conversa.

Helena soube imediatamente do que ele estava falando.

A babá.

Seu sorriso diminuiu um pouco.

— Depois.

Heitor a observou por mais um segundo, como se ainda quisesse perguntar alguma coisa. Mas apenas beijou sua testa.

— Te amo.

— Também te amo.

Ele olhou para Jonas.

— Valeu, irmão.

Jonas ergueu os olhos enquanto Humberto agarrava seu dedo.

— Vai trabalhar, playboy.

Heitor soltou uma risada curta.

— Olha quem fala.

— Eu tô de licença por chifre.

Helena arregalou os olhos.

— Jonas!

Heitor ficou um segundo em silêncio e então começou a rir. Jonas também riu, e Helena sentiu uma coisa apertar dentro do peito, dessa vez boa. Talvez fosse estranho alguém brincar com aquilo tão cedo. Talvez Jonas estivesse apenas usando humor para conseguir respirar no meio da própria desgraça. Não importava. Era a primeira vez que Helena o ouvia fazer uma piada desde tudo que acontecera.

E Heitor pareceu entender exatamente a mesma coisa.

O sorriso dele mudou por um instante. Ficou menor, mais carinhoso.

— Bom te ver, cara — repetiu.

Jonas assentiu.

— Bom te ver também.

Heitor saiu antes que Humberto percebesse.

Helena caminhou até uma das janelas e acompanhou o carro dele descendo pela entrada. Ficou olhando até desaparecer atrás do portão. A mão foi automaticamente até a marca no pescoço e ela revirou os olhos ao lembrar do responsável por aquilo.

Mas então seu pensamento voltou à conversa no carro.

Uma babá.

A sensação estranha retornou imediatamente.

Helena cruzou os braços, ainda olhando para onde o carro de Heitor havia desaparecido. Sabia que ele não tinha falado nada absurdo. Sabia que voltar para a empresa exigiria mudanças. Sabia que Humberto ficaria seguro, que eles poderiam contratar a melhor profissional possível, verificar cada referência, colocar câmeras pela casa inteira se quisessem.

Mesmo assim, a ideia continuava incomodando.

— Ih.

A voz de Jonas surgiu atrás dela, e Helena se virou. Ele estava com Humberto no colo, e a reconciliação entre tio e sobrinho aparentemente havia sido concluída com sucesso. O bebê segurava o rosto dele com as duas mãozinhas, apertando uma de suas bochechas enquanto Jonas tentava falar sem levar os dedos pequenos na boca.

— Que cara é essa?

— Nenhuma.

— Conheço essa cara.

— Não conhece.

Jonas estreitou os olhos, analisando-a com uma seriedade exagerada.

— Me deixa adivinhar... estagiária?

Helena arregalou os olhos.

— Não! Nada a ver... — respondeu imediatamente, mas então franziu o cenho. — Pera aí. Que estagiária?

Jonas começou a rir.

— Calma aí. Foi só um chute.

— Jonas!

— Funcionou, pô. Você até esqueceu a cara de enterro. — Ele desviou o rosto quando Humberto tentou agarrar seu nariz. — Fala aí. O que aconteceu?

Helena soltou o ar e voltou para dentro da casa ao lado dele. Durante alguns segundos ainda pensou se queria conversar sobre aquilo. Nem com Heitor tinha conseguido explicar direito. Dizer em voz alta parecia tornar a preocupação mais concreta.

— É que mês que vem eu volto a trabalhar.

— Finalmente.

— E a gente vai ter que arrumar uma babá para o Humberto.

Jonas fez uma expressão de compreensão imediata.

— Ahhh. Entendi.

Helena olhou para ele, esperando.

— Tá com medo da babá dar em cima do Heitor?

Ela parou de andar.

Aquilo não tinha passado pela sua cabeça.

Nem uma única vez.

Até aquele exato segundo.

E então passou.

Outra mulher dentro de sua casa. Heitor chegando do trabalho. Uma mulher convivendo diariamente com eles. Helena conhecia histórias demais daquele tipo, histórias que até pouco tempo atrás pareciam enredo de novela barata, exagero, fofoca de gente desocupada. Só que, depois do que acontecera com Jonas, certas coisas tinham deixado de parecer tão absurdas.

Amanda também tinha marido, Amanda também tinha filhos…

Helena ficou muda.

Ele percebeu imediatamente o estrago.

— Ih, caralho. Não tinha pensado nisso?

— Não!

— Então esquece o que eu falei.

— Como é que eu vou esquecer agora?!

— Apaga. Volta cinco segundos.

Helena passou a mão pelo rosto.

— Meu Deus.

— Lêlê, relaxa. O Monteiro é completamente doido por você. E essas babás são todas por indicação, referência, agência... ninguém vai contratar aquelas ninfetas de filme que ficam desfilando pela casa, não.

Helena lançou um olhar para ele.

— Você está ajudando muito.

— Estou tentando.

— Para de tentar.

Jonas riu e continuou andando com Humberto.

Helena foi atrás deles, embora a nova possibilidade tivesse se instalado de maneira muito inconveniente em sua cabeça. Precisou se obrigar a afastá-la. Confiava em Heitor. Não era essa a questão. Heitor nunca lhe dera motivo algum para desconfiar dele, muito pelo contrário.

— Eu sei disso — disse, mais para si mesma do que para Jonas. — Claro que sei. Minha preocupação é outra.

Eles se sentaram no sofá, Jonas acomodando Humberto sobre suas pernas.

— Qual?

Helena ficou alguns segundos observando o filho. Humberto imediatamente se interessou pelo relógio do tio e começou a tentar puxá-lo.

— Eu não quero me afastar dele.

Jonas ergueu os olhos.

— Como assim?

— Não quero outra mulher descobrindo as coisas com ele e depois me contando. — A voz de Helena ficou mais baixa. — Não quero chegar em casa e ouvir que ele fez alguma coisa nova e eu não vi. Não quero que alguém saiba que ele está com sono antes de mim, que saiba do que ele gosta, como ele quer dormir... essas coisas.

Jonas a observou com uma seriedade que Helena não esperava.

Então deu de ombros.

— Então fica em casa com ele. Fácil.

Fácil.

A palavra atingiu Helena de uma maneira estranha.

Porque poderia.

Sabia disso.

Financeiramente, ela nunca mais precisaria trabalhar na vida se não quisesse. E sabia, principalmente, que Heitor não acharia ruim. Talvez aquele fosse justamente o problema. Se Helena dissesse naquele dia que havia decidido ficar em casa com Humberto, conseguia imaginar perfeitamente a reação dele. Heitor provavelmente perguntaria se era aquilo mesmo que ela queria e, tendo certeza, encontraria uma maneira de reorganizar a vida dos dois em quinze minutos. Não cobraria que ela voltasse para a empresa. Não diminuiria suas escolhas. E ele já tinha comentado há muito tempo que ela não precisava mais trabalhar, depois que brigaram por causa disso, ele nunca mais falou mais nada do tipo.

Mas Helena queria voltar.

Sentia falta de trabalhar. Sentia falta de ter projetos que fossem seus, de conquistar coisas, de discutir com Heitor sobre alguma decisão da empresa e vê-lo fazer aquela cara quando ela provava que estava certa. Queria continuar crescendo. Queria construir a própria trajetória. Queria trabalhar ao lado do noivo sem ser apenas a mulher do dono.

E queria ficar com Humberto.

Queria as duas coisas.

O que tornava tudo muito menos "fácil" do que Jonas acabara de dizer.

— Não é tão simples — murmurou.

Jonas olhou para ela, mas Helena não queria continuar naquele assunto. Ainda não. Precisava entender primeiro o que estava sentindo.

— Como você está? — perguntou.

A mudança foi tão óbvia que Jonas percebeu. Pela expressão dele, Helena teve certeza de que o irmão sabia exatamente o que ela tinha feito, mas resolveu permitir.

— Tô indo bem. — Ele ajeitou Humberto. — Você já tomou café?

Helena quase sorriu. Ele estava fazendo exatamente a mesma coisa.

— Já. Mas vou pegar mais uma xícara depois.

Ficaram em silêncio por alguns segundos.

— E a Amanda? — perguntou baixo.

A reação de Jonas foi imediata. Ele fez um sinal para que ela diminuísse ainda mais a voz.

— Te conto depois.

Helena franziu o cenho, mas assentiu.

As duas horas seguintes acabaram pertencendo inteiramente a Humberto. Abriram os presentes que Lorena havia comprado, um atrás do outro, e Helena começou a achar que a mãe tinha perdido completamente qualquer noção de limite desde que se tornara avó. Humberto não parecia compartilhar da preocupação. Seus olhos brilhavam a cada papel rasgado, mesmo quando demonstrava mais interesse pela embalagem do que pelo brinquedo. Jonas parecia disposto a compensar todos os dias em que ficara afastado. Não deixava o sobrinho quieto. Fazia sons, mostrava brinquedos, colocava-o no colo, deitava no tapete com ele, inventava brincadeiras que Humberto evidentemente não entendia, mas achava engraçadíssimas. Ela havia recebido uma ligação do Heitor que a fez os deixar um pouco sozinhos, depois voltou e ficou observando os dois várias vezes.

Jonas ainda parecia cansado. As olheiras continuavam ali, o sorriso às vezes desaparecia quando ele se distraía e havia momentos em que seu olhar ficava longe demais. Mas com Humberto alguma coisa nele parecia se aliviar. E aquilo também aliviava Helena.

Depois de tanto rir e brincar, o bebê finalmente perdeu a batalha contra o sono. Foi ficando molinho no colo da mãe, piscando devagar, até adormecer.

— O pai mandou arrumar seu quarto — Jonas comentou em voz baixa. — Pode colocar ele lá. Tem berço agora.

Helena olhou surpresa.

— Tem berço no meu quarto?

— Tem. E babá eletrônica. A mãe montou uma filial do Humberto aqui.

Helena riu.

Levaram o bebê para cima, Helena o acomodou no berço e permaneceu alguns minutos verificando se estava confortável antes de aceitar descer. Jonas esperou sem reclamar. Quando voltaram, foram para a varanda dos fundos, onde um funcionário trouxe uma jarra de limonada e dois copos.

O dia estava bonito. Não fazia tanto calor e até o tempo seco parecia ter dado uma pequena trégua. Helena se acomodou na cadeira e pegou o copo enquanto Jonas praticamente se jogava na outra.

— Nem acredito que você mandou a dona Olívia cuidar do Isaac e não cuidar de mim.

Helena riu.

— Ela ficou super sentida com o que aconteceu com você. Perguntava todo dia. Mas você veio pra cá. Devia ter ficado lá em casa.

— Ela podia vir aqui.

Helena olhou para ele como se fosse óbvio.

— Na casa da Lorena?

Jonas fez uma careta.

— É. Realmente.

Todos sabiam que aquilo era pedir demais da avó de Helena.

— O senhor Afonso veio me ver — Jonas contou. — Brigou até comigo. Eu não queria ver ninguém, mas ninguém manda naquela antiguidade.

Helena começou a rir.

— Ele estava bem rabugento mesmo. Mas agora ele e minha avó vão todo dia pro apartamento do Isaac.

Jonas ergueu a cabeça.

— Caralho, ele nem me contou. — Ele pegou o copo. — Deve estar uma agitação do cacete lá.

Ela riu.

— Está mesmo. Mas acho que está fazendo bem pro Isaac. Principalmente as refeições. Minha avó quer fazer a comida dele todo dia para ele comer direito.

Jonas jogou o corpo para trás e soltou um som dramático.

— Eu também preciso comer direito.

— A Lorena cuidou de você esse tempo.

A brincadeira desapareceu um pouco do rosto dele.

— Cuidou. Ficou comigo o tempo todo. — Jonas olhou para o céu. — Eu precisava muito dela. Ainda bem que, mesmo com essa loucura da campanha, ela ficou comigo.

Helena não respondeu imediatamente.

Sua relação com Lorena era complicada demais para caber numa única opinião. Não confiava completamente nela, provavelmente nunca confiaria, mas seria injusto ignorar o que tinha feito pelo filho. Nos dias em que Jonas não queria Helena, não queria amigos e praticamente não queria ninguém, aceitara a mãe. E Lorena ficara.

Se aquilo ajudara seu irmão, Helena era grata.

Jonas continuou olhando para o céu por algum tempo.

— Helena...

— Hum?

— Você sabe o que aconteceu com a Amanda?

A pergunta fez Helena apertar um pouco o copo.

— Sei que ela deve estar gastando uma boa quantia de dinheiro.

Jonas virou o rosto.

— O quê?

— Um absurdo eu ter pagado para ela — Helena respondeu, imediatamente irritada. Só de lembrar da indenização sentia o sangue esquentar. — Depois disso não soube de mais nada. Quando aparecia alguma postagem sobre aquilo, eu ficava com tanta raiva que fechava. E o Paulo não falou mais nada.

— Entendi.

Helena franziu o nariz.

Havia alguma coisa naquela resposta.

— Por que você perguntou?

Jonas colocou as mãos atrás da cabeça.

— Nada.

Ela esperou.

Nada.

Jonas continuou olhando para cima como se o céu tivesse ficado extremamente interessante.

— Ela te procurou?

— Não.

Helena observou o rosto dele.

— Tem certeza?

— Tenho. A equipe disse que ela não mandou mensagem nenhuma. Pelo menos até ontem, quando devolveram meu celular.

Helena sentiu certo alívio.

— Isso é bom.

Jonas não respondeu.

— Ela deve ter criado vergonha na cara. — Helena tomou um gole da limonada. — Ela tem uma família, Jonas. Marido e filhos. Tem que cuidar deles agora e tentar buscar o perdão deles.

— É. Deve ser.

De novo.

Aquela resposta vazia.

Helena conhecia o irmão.

Talvez não tivesse crescido ao lado dele durante a infância, talvez o tempo que tiveram como irmãos fosse muito menor do que gostaria, mas aprendera Jonas depressa. Aprendera seus exageros, suas brincadeiras, o jeito como ficava quando queria esconder alguma coisa e, principalmente, aquela falsa indiferença que surgia quando alguma coisa doía mais do que ele queria admitir.

— Jonas, eu sinto muito pelo que aconteceu. De verdade. Mas essa mulher é uma safada. Olha o que ela fez com você. Olha tudo que causou.

— Não fala assim dela.

A resposta veio baixa, mas imediata.

Jonas passou a mão pelo rosto.

Helena ficou imóvel.

Não esperava aquilo.

— O quê?

Ele não respondeu.

— Você quer falar alguma coisa? — continuou Helena.

Jonas continuou com a mão sobre o rosto.

Helena colocou o copo sobre a mesa.

— Na verdade, você precisa me falar alguma coisa. — disse ela com firmeza.

Ele afastou a mão apenas o suficiente para olhar para ela e depois cobriu o rosto novamente.

— Porra, maninha. Você quer que eu fale o quê?

Helena se virou mais para ele.

— O que você está sentindo.

— Eu tô bem.

— Não está.

— Estou ficando.

— Isso não é a mesma coisa.

Jonas soltou o ar.

Helena tentou controlar a própria raiva. Era difícil. Só pensar em Amanda fazia seu sangue ferver. Não apenas pelo que acontecera com Jonas, mas por tudo que viera depois. A humilhação pública. As imagens. A campanha do pai. O marido daquela mulher. As crianças. A confusão. O tapa que Helena agora pagava literalmente. Tudo aquilo parecia ter explodido em volta deles porque uma mulher casada decidira manter um relacionamento com seu irmão.

Mas Jonas era seu irmão.

E naquele momento isso importava mais do que o que Helena sentia por Amanda.

— Eu não simpatizo nem um pouco com aquela mulher — disse, escolhendo as palavras. — Você sabe disso. Provavelmente nunca vou simpatizar. Mas você é meu irmão e eu me importo muito com você. Então não precisa fingir comigo só porque acha que eu vou ficar com raiva.

Jonas abaixou lentamente a mão.

Helena viu seus olhos.

Aquilo bastou para que sua irritação perdesse força.

Ele estava sofrendo.

Ainda.

Talvez mais do que deixara qualquer pessoa perceber durante aquelas duas horas.

Jonas olhou para o próprio copo, girando-o devagar sobre a mesa. Abriu a boca, mas desistiu. Passou a língua pelos lábios e respirou fundo. Helena não o apressou. Pela primeira vez desde que tinham se sentado ali, ficou completamente quieta.

— Eu sei o que ela fez — começou finalmente. — Não sou idiota.

Helena apenas ouviu.

— Sei que ela mentiu pra mim. Sei que tinha marido. Sei que tem duas crianças no meio dessa merda. Sei que virou um caos, que meu pai teve que falar da minha vida no debate, que tem gente dizendo que ele mandou prender o cara pra eu ficar com a mulher dele... — Jonas soltou uma risada curta, sem humor. — Eu sei de tudo isso.

Ele esfregou as mãos pelo rosto outra vez.

— Mas?

Jonas olhou para ela.

Os olhos dele estavam ficando úmidos.

— Mas eu sinto falta dela, porra.

Helena sentiu o peito apertar.

Jonas desviou o rosto imediatamente, como se admitir aquilo fosse vergonhoso.

— Eu sinto falta dela pra caralho.

Dessa vez Helena não disse nada.

— E isso é o que mais me deixa puto — continuou. — Porque eu devia estar com ódio. Todo mundo tá com ódio por mim. Você tá com ódio. O Heitor tá puto. Meu pai... nem sei o que meu pai sente. Só que eu acordo e...

A voz falhou.

Jonas respirou fundo antes de continuar.

— Eu acordo querendo pegar o celular e falar com ela.

Helena sentiu os olhos arderem.

— Jonas...

— Eu sei, maninha.

— Não, eu não ia...

— Eu sei o que você ia falar.

— Você não sabe.

Ele finalmente olhou para ela.

Por trás do cansaço e das olheiras, por trás das piadas e daquela tentativa constante de continuar sendo o Jonas de sempre, Helena viu alguma coisa que não tinha conseguido enxergar direito desde o começo de toda aquela história.

O irmão estava de coração partido.

Não apenas humilhado.

Não apenas traído.

Apaixonado.

E talvez essa fosse justamente a pior parte.

Jonas respirou fundo outra vez.

— O pior é que eu ainda amo ela.

Helena ficou sem palavras.

Havia passado dias imaginando tudo que diria quando finalmente conseguisse conversar com o irmão. Tinha pensado em Amanda de todas as formas ruins possíveis. Tinha imaginado Jonas furioso, decepcionado, talvez envergonhado por ter acreditado nela.

Não tinha se preparado para aquilo.

Para descobrir que, depois de tudo, ele ainda a amava.

Jonas abaixou os olhos.

— E eu não faço a menor ideia do que fazer com isso.

Helena olhou para o irmão por alguns segundos e sentiu toda a vontade de dizer o que ele deveria fazer desaparecer. Aproximou sua espreguiçadeira da dele e segurou sua mão. Por enquanto, aquilo era tudo que conseguia oferecer. A verdade era que não sabia o que dizer. Tudo que existia dentro dela naquele momento era incompatível com o que Jonas acabara de confessar. Helena sentia raiva de Amanda. Sentia indignação, desprezo e, se fosse completamente sincera consigo mesma, ainda tinha dificuldade de pensar naquela mulher sem lembrar de tudo que sua família atravessara por causa daquela história. Jonas, porém, sentia falta dela. Amava-a. E Helena não conseguia simplesmente arrancar aquilo do irmão porque considerava absurdo.

Jonas ficou algum tempo olhando para as mãos dos dois antes de voltar a falar.

— Ninguém me contou o que aconteceu depois. Só sei que a gente foi afastado da campanha. — Ele passou a língua pelos lábios, hesitando. — Eu mandei mensagem pra ela ontem.

Helena levou a mão livre à testa.

— Jonas...

— A mensagem nem foi entregue. — Um sorriso amargo atravessou o rosto dele. — Ela me bloqueou.

Helena fechou os olhos por um instante.

— Eu fui só o outro mesmo — continuou ele. — Ela nem se importa comigo.

Aquilo fez Helena olhar novamente para o irmão. Havia tanta amargura naquela frase que sua primeira reação foi querer consolá-lo, mas a parte racional de sua cabeça não conseguia ignorar o absurdo da situação.

— E o que você queria que ela tivesse feito?

Jonas respondeu imediatamente.

— Queria que ela tivesse largado aquele puto e vindo me procurar.

Helena ficou olhando para ele.

Jonas estava falando sério.

Depois de tudo. Depois do escândalo, das imagens, da confusão com a polícia, das crianças envolvidas, do pai tendo de fazer pronunciamento público, da campanha inteira em crise e da descoberta de que Amanda mentira sobre estar divorciada, Jonas ainda esperara que ela aparecesse.

— Meu Deus...

Ele se levantou da espreguiçadeira, inquieto.

— Eu quero saber como o Enzo e o Théo estão, porra. Depois de tudo que aconteceu, como é que eu simplesmente finjo que eles não existem? Eu não posso deixar eles assim. Não é o tipo de cara que eu sou.

Helena acompanhou o irmão com os olhos.

Aquilo a confundia ainda mais porque conhecia o carinho que Jonas desenvolvera pelos meninos. Para ele, aquela relação inteira tinha sido real. Não apenas Amanda. Ele acreditara que estava entrando aos poucos na vida de uma mulher divorciada com dois filhos. Tinha se afeiçoado às crianças dentro daquela mentira sem saber que era uma mentira. Helena conseguia sentir pena dele por isso e, simultaneamente, querer agarrá-lo pelos ombros e fazê-lo enxergar o tamanho da besteira.

— Você está triste e não está vendo as coisas direito. Amanda estava vivendo uma vida dupla, Jonas. Ela mentia para o marido e mentia para você.

Ele virou imediatamente.

— Não chama o cara de marido dela.

Helena piscou.

— E eu vou chamar do quê? Ele é marido dela, caramba!

— No papel.

— Jonas!

— A gente tinha um lance. Você é mulher, você não entende o que é ser homem.

Helena soltou a mão dele como se tivesse levado um choque. Puxou as próprias bochechas para baixo com os dedos e ficou olhando para o irmão.

— Não acredito que você vai meter esse papinho pra cima de mim.

Jonas pareceu genuinamente ofendido.

— Não é papinho.

— "Você é mulher, não entende." Ah, me poupa.

— Você não entende isso, Helena! — Ele apontou para o próprio peito. — Foi a primeira vez que eu senti que uma mulher estava comigo por causa de mim e não por causa do que eu tenho.

Aquilo fez Helena parar.

Conhecia aquela insegurança do irmão. Talvez fosse justamente por isso que a frase a irritasse tanto.

Jonas sempre tivera dinheiro demais, sobrenome demais, acesso demais. Crescera na Zona Sul do Rio num mundo em que era difícil saber onde terminava o interesse por ele e começava o interesse por tudo que vinha junto. Heitor entendia aquilo de uma forma que Helena jamais entenderia completamente; talvez por isso os dois tivessem sido tão próximos muito antes de se tornarem cunhados. Mas Amanda ter conseguido tocar justamente naquela insegurança não transformava a mentira em amor.

— ACORDA, JONAS! — Helena levantou a voz. — Você era o OUTRO! Se ela te amasse... não, nem precisa amar. Se ela gostasse de você de verdade, teria se divorciado de verdade e ficado com você. Ela não precisava mentir! Mas mentiu!

Jonas se levantou de vez.

— Eu sei que tinha alguma coisa real.

— Como você sabe?

— Porque eu tava lá!

— E o marido dela também estava!

— Para de chamar ele assim!

— ELE É MARIDO DELA!

— No papel, caralho!

Helena inclinou a cabeça para trás.

— Deus, por favor, me dê paciência.

Jonas passou as duas mãos pelos cabelos, andando alguns passos pela varanda.

— Você acha que eu não sei como isso parece? Eu sei. Sei que parece que eu fiquei maluco. Sei que fui feito de otário. Sei que provavelmente tem metade do Rio rindo da minha cara e a outra metade me chamando de destruidor de família.

— Eu não estou falando do que os outros acham.

— Mas eu tô! — A voz dele falhou um pouco. — Porque eu queria não amar ela, porra.

Helena ficou quieta.

Jonas respirou fundo.

Quando falou novamente, a voz saiu embargada.

— Eu queria muito não amar ela. Mas eu amo.

A raiva de Helena perdeu força por alguns segundos.

Ela se levantou também e ficou diante dele.

— Então me fala o que você quer fazer.

Jonas a encarou.

— O quê?

— Você quer ir atrás dela?

Houve uma pequena hesitação.

Pequena demais.

— Quero.

Helena sentiu a irritação retornar inteira.

— Jonas...

— Você perguntou.

— E vai fazer o quê quando encontrar ela?

— Perguntar.

— Perguntar o quê?

— Se eu era só o outro. — Ele apertou a mandíbula. — Se tudo que ela me falou era mentira. Se ela não sentia nada do que eu sinto.

Helena levou as mãos à cintura e ficou encarando o irmão, incrédula.

— Jonas do céu. Misericórdia! Goste você ou não, ela é CASADA. O marido dela pode te matar!

— Não vai.

— Como você sabe?

— Porque eu sei me defender.

— Ah, ótimo! — Helena abriu os braços. — Então está resolvido. Você vai atrás da mulher casada, encontra o marido dela, vocês saem no soco de novo e amanhã seu pai faz outro pronunciamento. Excelente plano!

Jonas desviou o rosto.

— Não quero brigar com ninguém.

— E acha que vai acontecer o quê? O homem vai abrir a porta e falar "entra aí, Jonas, conversa com a minha esposa"?

— Eu não vou na casa deles.

Helena estreitou os olhos.

— Então já pensou nisso.

Jonas ficou em silêncio.

— Meu Deus, você já pensou nisso!

— Claro que pensei!

— Jonas, olha o que o Paulo está passando! Toda entrevista, toda sabatina, toda discussão em que ele participa alguém arruma um jeito de enfiar essa história no meio. Ele está tentando disputar uma eleição enquanto perguntam se mandou prender um homem para o filho ficar com a mulher dele!

— Eu não pedi nada disso.

— Eu sei que não pediu! Mas aconteceu!

Helena começou a andar de um lado para o outro, cada vez mais irritada.

— E dependendo do que Amanda fizer, eu vou passar o resto da vida pagando indenização pra ela. Se ela aparecer de novo fazendo você sofrer, não vai ser só um tapa que ela vai ganhar.

— Helena...

— Eu não vou me segurar!

— Aí você vai pagar duas indenizações.

— Não estou brincando!

Jonas respirou fundo e voltou a se sentar.

— Eu sei.

Helena ainda estava furiosa.

— Eu agradeço por você se importar comigo — continuou ele, agora mais baixo. — De verdade. Mas eu preciso de respostas. Isso não pode simplesmente acabar assim. Porra, eu me sinto um adolescente.

— Deve ser porque está agindo como um.

Jonas levantou o rosto lentamente.

— Precisava?

— Precisava.

O silêncio caiu.

Helena arregalou os olhos.

Talvez tivesse ido longe demais.

Jonas ficou olhando para ela.

— Desculpa. Eu falei sem pensar.

— Essa doeu.

Helena mordeu o canto da boca, dividida entre culpa e uma vontade completamente inadequada de rir.

— Desculpa mesmo.

Jonas balançou a cabeça.

— Irmã é uma desgraça.

— Jonas.

— Uma pessoa tá no pior momento da vida e vem a irmã terminar o serviço.

Helena finalmente deixou escapar uma risadinha.

Jonas também quase sorriu.

Foi então que uma voz surgiu na porta.

— Jonas.

Os dois olharam. Um dos funcionários estava parado ali segurando uma pequena sacola.

Jonas mudou na mesma hora. Os olhos se arregalaram e uma expressão de puro alívio atravessou seu rosto.

— Aí!

Helena franziu o cenho.

Jonas praticamente trotou até a porta.

— Valeu, cara. — pegou a sacola e imediatamente baixou a voz. — Não esquece. Só entre a gente.

— Claro, senhor.

Helena acompanhou toda a cena sem entender absolutamente nada.

O funcionário foi embora.

Jonas voltou para a varanda segurando a sacola junto ao corpo.

— O que é isso?

— Nada.

Helena arregalou os olhos.

— Jonas.

— Relaxa.

— Você acabou de falar "só entre a gente" para um funcionário dentro da casa do seu pai. Não existe "relaxa" depois disso.

Jonas sentou-se.

— Você é muito desconfiada.

— Abre essa sacola.

— Helena...

— Abre.

Jonas soltou o ar e colocou a sacola sobre a mesa. Helena observou enquanto ele enfiava a mão dentro. Primeiro tirou uma embalagem pequena. Ela demorou um segundo para reconhecer.

Um chip de celular.

Seu estômago afundou.

— Não.

Jonas não respondeu. Enfiou a mão novamente na sacola. Dessa vez tirou uma caixa de celular. Helena ficou olhando para os dois objetos sobre a mesa.

Depois olhou para o irmão.

Depois para o celular.

E novamente para Jonas.

Não.

Não podia ser.

— Você está de sacanagem comigo.

— Antes de começar...

— Não. — Helena levantou a mão. — Não existe "antes de começar". Que porra é essa?

Jonas retirou o aparelho da caixa.

— Um celular.

— Eu sei o que é um celular!

— Então por que perguntou?

— JONAS!

Ele fechou os olhos por um segundo.

— Fala baixo. Humberto está dormindo.

A indignação de Helena ficou tão grande que por alguns segundos ela sequer conseguiu produzir som.

Jonas começou a mexer na embalagem do chip.

— Você comprou um celular escondido.

— Comprei.

— E um chip.

— Geralmente celular funciona melhor com um.

Helena bateu a mão na mesa.

— Para de gracinha!

Jonas parou.

Ela o encarou.

Finalmente tudo começou a se encaixar. O alívio quando o funcionário apareceu. O segredo. A conversa inteira. A insistência de que precisava de respostas.

— Você vai procurar a Amanda com isso.

Jonas não respondeu.

Não precisava.

— Não acredito… — Helena começou a andar pela varanda novamente. — Eu não acredito. Você ficou dias sem celular porque seu pai e a equipe estavam tentando impedir justamente que você fizesse alguma merda, te devolvem o telefone e em menos de vinte e quatro horas você compra outro escondido?

— Meu celular está sendo acompanhado.

— É ÓBVIO!

— Eu tenho vinte e tantos anos, Helena! Não preciso de gente olhando pra quem eu mando mensagem.

— Nesse momento, aparentemente precisa!

Jonas soltou o chip sobre a mesa.

— Eu só quero falar com ela.

— Ela te bloqueou!

— Por isso o outro número.

Helena ficou imóvel.

A resposta tinha sido tão simples que a deixou ainda mais chocada.

— Você ouviu o que acabou de falar?

— Ouvi.

— Uma mulher te bloqueou e sua solução foi comprar outro número para falar com ela?

Jonas passou a mão pelo rosto.

— Quando você coloca desse jeito...

— NÃO EXISTE OUTRO JEITO DE COLOCAR!

— Eu só preciso mandar uma mensagem.

— Não, você não precisa.

— Preciso, sim.

— Ela te bloqueou, Jonas.

— Pode ter sido o marido.

— Ou pode ter sido ela!

Ele desviou os olhos.

Helena percebeu.

Era aquilo que ele não conseguia aceitar.

Não saber.

Se Amanda o tivesse bloqueado por vontade própria, significava alguma coisa muito pior para Jonas do que qualquer escândalo público. Significava que, quando tudo explodira e ela precisara escolher para onde correr, não correra para ele.

Helena sentiu a raiva diminuir só um pouco.

— Jonas...

— Eu preciso saber se foi ela.

A voz saiu baixa.

— E se foi?

Ele olhou para Helena.

Dessa vez não havia provocação nenhuma em seu rosto.

— Aí eu paro.

Helena não soube se acreditava.

— Para mesmo?

Jonas ficou alguns segundos em silêncio.

— Eu tento.

Ela fechou os olhos.

— Isso não foi o que eu perguntei.

— É o que eu consigo prometer.

Helena voltou a olhar para o celular novo sobre a mesa.

Uma parte dela queria pegar aquilo e jogar direto na piscina.

Outra queria ligar para Paulo.

Outra queria chamar Heitor, porque talvez o único homem no mundo capaz de colocar algum juízo naquela cabeça fosse justamente aquele que conhecia Jonas desde muito antes de Helena entrar na vida dos dois.

Mas olhar para o irmão impedia qualquer reação impulsiva.

Jonas estava ali, sentado diante dela, esperando uma resposta de uma mulher que talvez nunca viesse. O homem que meia hora antes rolava no tapete fazendo seu filho gargalhar agora parecia novamente aquele Jonas dos últimos dias: cansado, ferido e desesperadamente agarrado à possibilidade de que alguma parte do que vivera tivesse sido verdadeira.

Helena apontou para o aparelho.

— Não liga esse negócio.

Jonas franziu o cenho.

— Helena...

— Não liga. — repetiu, séria. — Pelo menos enquanto eu estiver aqui. Me dá algumas horas para pensar em como impedir você de destruir sua vida de um jeito ainda mais criativo.

— Dramática.

— Você comprou um celular clandestino para furar o bloqueio da amante casada no meio da campanha presidencial do seu pai.

Jonas abriu a boca.

Fechou.

Pensou um pouco.

— Quando você resume assim fica meio ruim.

Helena o encarou.

— Meio?

Ele pegou o copo de limonada.

— Bastante.

Apesar de tudo, Helena quase riu.

Quase.

Então estendeu a mão.

— Me dá o celular.

Jonas imediatamente puxou a caixa para junto do peito.

— Nem fudendo.

Helena estreitou os olhos.

— Jonas.

— Nem vem.

— Me dá.

— Não.

— Me dá esse celular.

— Sai fora, Helena.

Ela levantou.

Jonas levantou também.

Os dois ficaram se encarando de lados opostos da mesa.

Por alguns segundos, Helena teve uma sensação absurdamente familiar de infância que eles nem sequer tinham vivido juntos: dois irmãos prestes a começar uma briga idiota por alguma coisa que um deles se recusava a entregar.

Só que agora havia muito mais em jogo do que um brinquedo. E, pela expressão de Jonas, ele não tinha a menor intenção de desistir.

A babá eletrônica começou a soltar os sons da voz de Humberto antes que Helena insistisse outra vez. Primeiro veio um resmungo comprido, depois uma sequência de balbucios que não significava nada para ninguém além dele mesmo. Jonas ergueu as sobrancelhas e apontou para o aparelho como se tivesse recebido ajuda divina.

— Vai lá ver o seu filho.

Helena estreitou os olhos.

— Vou. Mas você vai comigo.

— Eu não. O filho não é meu. Quem pariu Mateus que o embale.

Helena ficou olhando para ele, incrédula. A resposta que veio à cabeça teria feito dona Olívia atravessar a varanda só para repreendê-la, então respirou fundo.

— Jonas, não manda mensagem pra ela.

— Anda, o Humberto tá te chamando.

— Jonas.

— Helena.

Ela o encarou por mais alguns segundos e percebeu que aquilo iria de mal a pior se simplesmente subisse e o deixasse sozinho. Jonas já estava decidido. O celular estava comprado, o chip estava na mesa e ele passara dias remoendo perguntas que, aparentemente, só Amanda poderia responder. Se Helena tentasse arrancar o aparelho dele ou ameaçasse chamar Paulo, ele provavelmente encontraria outro jeito. Preferia estar ao lado dele quando acontecesse.

— Então espera o Humberto dormir de novo. Quando ele dormir, você manda a mensagem. E eu vou estar junto.

Jonas franziu o cenho.

— Pra quê? Não é da sua conta.

A frase atingiu Helena em cheio.

— Não me faz ficar com raiva de você, Jonas. Isso é, sim, da minha conta. Você me colocou nisso desde o início. Eu estava lá quando tudo explodiu. Fiquei preocupada, tive que conversar com advogado por causa daquela mulher, passei dias sem conseguir falar com você. Agora você vai fazer isso e dizer que não é da minha conta? Eu preciso estar com você.

Jonas desviou os olhos.

— Então promete que isso vai ficar entre a gente.

Helena nem pensou.

— Eu não guardo segredo do Heitor.

Jonas ergueu a cabeça.

— Eu sou seu irmão!

— E ele é meu noivo. A gente tem um trato. Não guarda segredo um do outro. Principalmente coisa séria.

— Mas isso é meu.

— E eu não vou contar detalhe íntimo seu. Só não vou olhar na cara do Heitor hoje e fingir que não sei que você comprou um celular escondido pra procurar a Amanda.

Jonas abaixou a cabeça, pensativo.

— Tá. Mas ele não vai poder vir falar comigo sobre isso.

— Certo. Eu falo com ele.

Jonas estendeu a mão. Helena segurou.

— Fechado.

Então uma ideia surgiu na cabeça dela.

— Antes de subir, tira uma foto minha ali pra eu mandar pro Heitor.

Jonas fez uma cara de incredulidade.

— Pelo amor de Deus, né? Vocês não desgrudam?

Helena revirou os olhos e entregou o celular. Jonas ficou perto da piscina enquanto ela caminhava alguns passos para trás e fazia uma pose. A babá eletrônica continuava soltando a conversa incompreensível de Humberto ao fundo.

— Pronto. — falou Jonas balançando o aparelho em direção a ela.

— Deixa eu ver.

Helena voltou até ele e fez uma careta.

— Ficou feia. Tira uma em pé.

Jonas soltou o ar.

— Então vai lá.

Ela deu dois passos como se fosse voltar à posição.

Então parou.

Jonas percebeu tarde demais.

Helena virou, colocou as duas mãos no peito dele e empurrou.

— Helena, não—

O resto desapareceu junto com Jonas dentro da piscina.

Helena começou a rir antes mesmo de ele emergir. Jonas voltou à superfície com os cabelos colados na testa, a camisa encharcada e os braços abertos numa expressão de pura indignação.

— PORRA! Por que você fez isso?!

— Pra largar de ser besta! — ela mostrou a língua. — Eu sou a mais velha. Se ponha no seu lugar!

Jonas ficou olhando para ela e então sorriu.

— Tá legal. Desculpa.

Helena diminuiu o sorriso.

— Pelo quê?

— Não quis ser escroto.

Aquilo desmontou o resto da irritação dela.

— Você é escroto naturalmente. Não consegue evitar.

— Vai se ferrar.

Ela riu.

— Troca de roupa antes de mandar mensagem pra sua amante casada.

— Helena!

— Estou subindo!

Subiu as escadas com o humor um pouco mais leve, mas bastou ouvir Humberto conversando sozinho para o riso diminuir. Abriu a porta devagar.

O filho estava acordado no berço, deitado de costas, segurando a naninha diante do rosto. Falava com ela numa sequência concentrada de sons, como se o tecido fosse um interlocutor extremamente interessante. Helena parou na porta.

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Não chamou.

Só ficou olhando.

Humberto ainda não havia percebido sua presença.

Aquela imagem simples fez alguma coisa dentro dela relaxar. O quarto silencioso, o filho seguro, o movimento pequeno dos pés enquanto ele conversava com a naninha. Era um contraste tão grande com tudo que estava acontecendo lá embaixo que o peito de Helena apertou.

Jonas voltou imediatamente à sua cabeça.

O celular. Amanda. A maneira como ele falara dela. A convicção absurda de que alguma coisa entre os dois tinha sido real.

Helena não entendia.

O que tinha acontecido entre eles para Jonas ficar daquele jeito por uma mulher que havia mentido tanto? Como Amanda o tratava quando estavam sozinhos? Que versão de si mesma havia mostrado para ocupar aquele espaço tão fundo? Helena sempre vira o irmão como alguém mais leve nas relações. Nunca o tinha visto se desmontar por uma mulher.

Agora parecia outra pessoa.

E aquilo partia seu coração.

Não queria vê-lo se humilhar atrás de respostas. Não queria que Amanda pudesse machucá-lo de novo. Não queria que Jonas transformasse a própria vida numa continuação daquele desastre só porque não conseguia aceitar que tinha acabado.

Mas também não sabia como ajudá-lo.

Era isso que mais doía.

Helena sempre queria fazer alguma coisa. Resolver. Falar. Brigar. Defender. Encontrar uma solução. Só que não podia obrigar Jonas a deixar de amar Amanda. Não podia entrar na cabeça dele e arrancar o sentimento.

As lágrimas começaram a sair antes que percebesse.

Helena passou os dedos rapidamente pelo rosto, irritada consigo mesma.

No berço, Humberto começou a olhar para os lados.

A naninha já não parecia tão interessante.

— Ah... ah... uh... ah!

Ele falou mais alto.

Helena ficou quieta por mais um segundo.

Humberto virou a cabeça. Quando finalmente a viu, seu rosto inteiro mudou. O sorriso banguela apareceu enorme e o corpinho começou a se mexer todo dentro do berço.

— Agoo! Uh uh... ah! Ah!

Helena riu no meio das lágrimas.

— Oi, meu amor.

Foi até ele e o pegou no colo.

Humberto se encaixou em seus braços sem hesitação e Helena o abraçou com força, enterrando o rosto naquele cheirinho conhecido de bebê. Beijou sua cabeça uma vez, depois outra.

— Mamãe tá aqui.

Humberto não fazia ideia de que a mãe estava chorando pelo tio. Não sabia o que era traição. Não sabia o que era um casamento quebrado, uma mentira, uma amante ou um coração partido.

Era só um bebê.

Helena o apertou um pouco mais contra o peito.

Naquele instante, desejou com uma força quase dolorosa que ele pudesse continuar assim para sempre.

Protegido.

Desejou que Humberto nunca amasse alguém que o enganasse. Que nunca entregasse o coração para uma pessoa e depois descobrisse que tudo tinha sido construído sobre uma mentira. Que nunca sentasse diante dela com os olhos acabados dizendo que ainda amava alguém que o havia destruído.

Sabia que era impossível.

Um dia Humberto cresceria. Se apaixonaria. Tomaria decisões que ela não poderia controlar. Alguém talvez partisse seu coração, assim como ele provavelmente partiria o de alguém em algum momento.

Mas, olhando aquele sorriso sem dentes, Helena não queria saber de racionalidade.

Só queria que ninguém nunca machucasse seu menino.

Humberto agarrou uma mecha de seus cabelos.

— Ai!

Ele sorriu e puxou.

— Não, não, não. Cabelo da mamãe não.

Helena libertou a mecha dos dedinhos dele.

Humberto agarrou outra.

— Humberto!

O bebê abriu a boca, muito feliz, e tentou levar o cabelo até ela.

Helena começou a rir.

— Isso não é comida.

A insistência inocente dele a acalmou um pouco. Sentou-se na poltrona com Humberto no colo, afastando os cabelos para trás enquanto ele tentava alcançá-los.

— Você é terrível igual seu pai.

Humberto respondeu com um som alegre.

Helena passou a mão pela cabecinha dele e ficou olhando aqueles olhos atentos.

Precisava de ajuda.

A constatação veio simples.

Não sabia o que fazer com Jonas sozinha.

Talvez Heitor soubesse.

Heitor conhecia Jonas de um jeito que ela não conhecia. Muito antes de ser seu cunhado, antes de Helena entrar naquela parte da vida dos dois, eles já tinham dividido festas, viagens, problemas, mulheres, brigas, ressacas e tudo que dois garotos ricos da Zona Sul conseguiam inventar para fazer na juventude. Heitor conhecia lados de Jonas que Helena provavelmente jamais conheceria.

E, acima de tudo, Heitor era a pessoa em quem ela mais confiava.

Helena olhou para Humberto.

— Vou ligar pro seu pai.

Ele tentou pegar seu cabelo outra vez.

— É. Também acho.

Ela levou a mão até onde normalmente deixava o celular.

Nada.

Olhou para a mesinha.

Nada.

Então se lembrou.

— Ah, não.

Seu celular estava com o irmão.

Helena fechou os olhos e deixou a cabeça cair contra o encosto da poltrona.

— Claro que está.

Humberto olhava para ela.

— Seu tio tá lá embaixo com o meu celular e um telefone clandestino.

O bebê sorriu.

Helena apontou para ele.

— Não acha graça, não.

Humberto soltou um gritinho feliz. Ela acabou rindo também.

Helena levou Humberto para trocar a fralda e aproveitou para colocar nele outra roupa, mais fresca e confortável. O menino parecia ter acordado completamente disposto a transformar qualquer tarefa simples numa incrível complicação. Chutava as pernas enquanto ela tentava fechar a fralda, agarrava os próprios pés, virava o corpo quando não devia e ria toda vez que Helena precisava colocá-lo novamente no lugar. Quando terminou, ela o pegou no colo e se sentou na poltrona perto da janela, ajeitando-o contra o peito para mamar. Humberto começou bem, concentrado, mas em poucos minutos já estava naquele estado em que parecia muito mais interessado em brincar com a mãe do que em comer. Soltava o peito só para sorrir para ela, deixando uma gotinha de leite escorrer pelo canto da boca, depois voltava como se nada tivesse acontecido. Helena limpou o queixo dele com o polegar e revirou os olhos.

— Você está ficando muito engraçadinho.

Humberto respondeu com outro sorriso.

— Não estou elogiando.

Ele abriu ainda mais a boca, satisfeito consigo mesmo.

Helena balançou a cabeça. A cada dia o filho parecia descobrir alguma travessura nova, e havia alguma coisa profundamente injusta no fato de ele ter aquele sorriso banguela que a fazia perder qualquer vontade de repreendê-lo. Passou a mão pelos cabelos fininhos dele enquanto Humberto voltava a mamar e tentou organizar a própria cabeça.

Havia coisa demais acontecendo ao mesmo tempo.

A volta para o trabalho. A ideia da babá. O que sentia em relação a Humberto. Amanda. Jonas. O celular escondido. Isaac. Ana Alice. Heitor. O medo de que tudo aquilo explodisse novamente.

Precisava parar.

Uma coisa de cada vez.

Primeiro, Jonas.

Se o irmão realmente decidisse ir atrás de Amanda, Helena não conseguia afastar da cabeça a imagem do marido dela. Na cabeça de Jonas, ele sabia se defender; na de Helena, aquilo não significava absolutamente nada. Um homem traído, exposto publicamente, com a própria família envolvida num escândalo nacional, podia fazer qualquer coisa. Uma arma ou uma faca acabavam com toda aquela confiança de Jonas em dois segundos. Uma emboscada. Uma briga que saísse do controle. Qualquer coisa.

O estômago dela apertou.

Não.

Não podia pensar assim.

Mas também não podia fingir que era impossível.

Helena olhou para o filho mamando tranquilamente e sentiu o medo crescer ainda mais. Jonas era irritante, imprudente e, naquele momento, estava pensando com o coração de um adolescente, mas era seu irmão. Ela tinha acabado de recuperá-lo. Tinha passado dias sem conseguir sequer ouvir sua voz e agora ele estava falando em procurar uma mulher casada como se fosse resolver aquilo com uma conversa.

Precisava ser centrada.

A palavra quase pareceu engraçada aplicada a ela mesma.

Heitor provavelmente diria que era exatamente por isso que precisava estar por perto.

Helena soltou o ar devagar.

Não podia gritar com Jonas até ele fazer o contrário só para provar que ninguém mandava nele. Não podia ameaçar Amanda. Não podia ligar imediatamente para Paulo e criar uma guerra dentro da casa. Precisava entender o que Jonas pretendia fazer e, principalmente, impedir que aquela necessidade por respostas se transformasse numa tragédia.

Humberto soltou o peito novamente e sorriu.

O leite escorreu.

— Humberto.

Ele fez um barulhinho alegre.

— Você está fazendo bagunça.

Outro sorriso.

— Seu pai vai falar que puxou a mim.

Foi justamente quando Helena começava a ajeitá-lo novamente que percebeu uma figura encostada no batente da porta.

Jonas.

Já havia trocado de roupa. Estava de camiseta e bermuda secas, mas os cabelos continuavam molhados e bagunçados, denunciando perfeitamente o mergulho involuntário de alguns minutos antes. Ficou ali olhando a irmã com uma expressão ofendida demais para ser verdadeira.

— Não acredito que você teve coragem de me jogar na piscina. Vai ter volta.

Helena nem se abalou.

— Sou lactante. Não pode me jogar na piscina.

Jonas ficou dois segundos encarando-a.

Então começou a rir alto.

— Que merda hein?!

Humberto largou o peito no mesmo instante e começou a rir também, embora não tivesse a menor ideia do motivo.

Jonas apontou.

— Tá vendo? Até o Humberto sabe que isso é o maior caô.

Helena precisou morder o canto da boca para não rir.

— Não fala palavrão na frente dele.

— Ele nem fala.

— Justamente. Não quero que aprenda com você.

— Vai aprender com o pai.

— Heitor não fala palavrão perto dele.

Jonas levantou uma sobrancelha.

— Você acredita mesmo nisso?

Helena lançou um olhar.

— O que você quer?

— Nada. Vim avisar que o Heitor te ligou.

Ela ergueu imediatamente os olhos.

— E?

Jonas deu de ombros.

— E nada. Queria saber se estava tudo bem. Eu falei que tu me jogou na piscina e ele quase morreu de rir.

Helena sorriu sem querer.

Conseguia imaginar perfeitamente.

Heitor provavelmente tinha feito aquela risada alta, depois perguntado o que Jonas tinha feito para merecer e, se Jonas dissesse que nada, teria acreditado em Helena sem investigar muito.

— Vou ligar pra ele depois.

— Já cuidei disso.

Helena estreitou os olhos.

— Como assim?

Jonas entrou no quarto como se não tivesse acabado de dizer algo preocupante.

— Falei que você ficou mandando mensagem a manhã toda pra ele e que ele precisava deixar a gente ter uma tarde de família.

Helena ficou imóvel.

— Você falou o quê?

— Isso aí.

— Jonas.

— Ele não achou muito bom, não — acrescentou, aparentemente se divertindo. — Mas quem tá com seu celular sou eu.

Helena fechou os olhos e soltou o ar lentamente pelo nariz.

Aquilo era exatamente o que não podia fazer.

Perder a paciência.

Humberto terminou de mamar e Helena o levantou contra o ombro, começando a dar tapinhas leves em suas costas para fazê-lo arrotar.

— Jonas, para de graça.

— Não estou de graça.

Ela olhou para ele.

— Me dá meu celular.

— Depois.

— Jonas.

— Lêlê...

— Meu celular. Agora.

O tom mudou o rosto dele.

Jonas sabia quando Helena estava brincando e quando não estava mais. Fez um bico exagerado, como se tivesse sido injustiçado, e colocou as mãos nos bolsos.

— Nossa, que grossa.

— Anda.

— Você está muito mandona hoje.

— E você está com as asas grandes demais para alguém que há meia hora estava chorando por mulher casada.

Jonas fez uma careta.

— Baixo golpe.

— Meu celular.

Ele soltou um suspiro dramático e caminhou até ela.

— Tá bom... tá bom.

Tirou o aparelho do bolso e entregou.

Helena pegou imediatamente.

— Obrigada.

— De nada, majestade.

Ela nem respondeu. Apenas verificou a tela rapidamente. Havia de fato a ligação de Heitor e algumas mensagens. Só de ver o nome dele ali sentiu uma vontade enorme de ligar naquele instante, ouvir a voz do noivo e contar tudo. Mas Jonas continuava diante dela, e Humberto ainda precisava arrotar.

— Assim que o Humberto dormir — Jonas disse — temos um trabalho pra fazer.

Helena ergueu os olhos devagar.

O alívio pequeno que sentira ao recuperar o próprio telefone desapareceu.

— Jonas...

— Você concordou.

— Eu sei.

— Então não começa.

Helena ficou olhando para ele.

Por mais que quisesse acreditar que aquilo terminaria com Jonas mandando uma única mensagem, recebendo alguma resposta e finalmente aceitando o fim, uma parte dela já sabia que provavelmente não seria tão simples.

Ainda assim, assentiu.

— Tá.

Jonas pareceu satisfeito.

— Fechado.

Helena continuou dando tapinhas nas costas de Humberto até ouvir o arroto pequeno do filho.

— Muito bem — murmurou, beijando sua cabeça.

Jonas abriu um sorriso.

— Boa moleque!

Helena olhou para o irmão.

Era quase irritante vê-lo ali tão parecido com o Jonas de sempre. Brincando, implicando, sorrindo para Humberto. Porque algumas horas antes ele tinha contado que ainda amava Amanda e, minutos depois, aparecera com um celular escondido para procurá-la.

Talvez fosse justamente aquilo que mais a assustasse.

Jonas conseguia rir enquanto estava despencando por dentro.

Ela baixou os olhos para o próprio celular.

Precisava falar com Heitor.

Não naquele segundo. Mas precisava.

Tinha prometido ao irmão que Heitor não iria confrontá-lo e pretendia cumprir. Só que não esconderia aquilo do homem com quem dividiria a vida. E, além disso, Helena precisava de alguém que a ajudasse a pensar sem transformar tudo em raiva.

Jonas se virou para sair.

— Vou esperar lá embaixo.

— Jonas.

Ele parou.

— Hum?

— Não liga aquele celular sem mim.

Jonas ficou alguns segundos olhando para ela.

— Não vou.

Helena tentou descobrir se acreditava.

— Promete.

— Prometo.

Só então ela assentiu.

— Tá.

Jonas saiu.

Helena ficou sozinha com Humberto e o celular novamente em sua mão.

O filho já começava a demonstrar os primeiros sinais de sono, o rosto encostado em seu ombro, os dedos ainda agarrados à gola de sua roupa. Helena beijou a cabecinha dele e fechou os olhos por um instante.

Ela só esperava que aquilo acabasse logo.

Mas alguma coisa dizia que estavam apenas começando.