O CEO que Eu Paguei
257 Janela de Oportunidade
Heitor chegou à empresa radiante, num estado de espírito tão incomum que até ele percebia que estava diferente. Era difícil não sorrir à toa. Tinha saído de casa ainda com a sensação boa da manhã grudada no corpo, com a lembrança de Helena sorrindo no banho, de Humberto agarrado à sua camisa e daquela vida que, por mais caótica que estivesse ao redor, parecia exatamente onde ele queria estar. Preocupava-se com Jonas e Isaac, claro, mas não enxergava nenhum dos dois como homens incapazes de atravessar aquilo. Sofreriam, fariam talvez algumas escolhas ruins, Jonas principalmente, mas superariam. Heitor acreditava nisso com uma tranquilidade quase teimosa. Talvez por isso, quando atravessou a recepção cumprimentando as pessoas com um sorriso fácil e ainda perguntou a uma das recepcionistas se estava tudo certo, não tenha notado o pequeno espanto no rosto dela. Muito menos percebeu que, assim que entrou no elevador, ela pegou o telefone.
Na Monteiro Inc., Heitor chegando feliz era praticamente um evento corporativo.
Ele só não sabia disso.
Verônica sabia.
A recepção sabia.
Os diretores sabiam.
Até gente que provavelmente nunca tinha trocado mais de três palavras com Heitor parecia saber. Em dias comuns, ninguém se arriscava a aparecer na agenda do CEO com um problema que pudesse ser adiado, principalmente se envolvesse estouro de orçamento, atraso, pedido de verba ou qualquer frase que começasse com “precisamos rever”. Heitor não era injusto, mas era exigente, impaciente e tinha um talento natural para fazer um adulto formado reconsiderar todas as escolhas profissionais apenas com um olhar. Nos dias em que chegava feliz, porém, havia uma espécie de janela rara em que as pessoas criavam coragem.
E Verônica administrava essa janela com uma eficiência assustadora.
Quando Heitor chegou ao andar executivo, encontrou a secretária já esperando por ele com o tablet nas mãos e um sorriso que ele achou simpático demais para aquele horário.
— Bom dia, Heitor.
— Bom dia, Verônica.
— Tudo bem?
— Tudo ótimo.
Ela pareceu absorver aquela informação com interesse profissional demais.
— Que bom.
Heitor passou por ela e entrou na sala, tirando o paletó enquanto caminhava até a mesa. Só quando Verônica começou a falar da agenda percebeu que havia alguma coisa estranha.
— Algumas reuniões foram ajustadas hoje.
— Ajustadas como?
Ela entregou o tablet.
Heitor percorreu a agenda com os olhos e franziu o cenho.
Financeiro. Operações. Administrativo. Engenharia. Marketing. Sustentabilidade. Comunicação. Segurança do Trabalho. TI. Compras e vários outros setores.
Voltou para cima e conferiu outra vez. Não havia praticamente nada externo. Nem fornecedores, nem clientes, e até uma das reuniões referentes à nova filial havia sido deslocada.
— Como isso aconteceu?
Verônica inclinou a cabeça.
— Algumas áreas tinham demandas pendentes.
— Todas hoje?
— Nem todas — respondeu Verônica tranquilamente. — Algumas eu consegui deixar para amanhã.
— Porra, ainda tinha mais? — Heitor olhou para ela por alguns segundos. — Minha agenda parece fila de banco em dia de aposentado receber.
Verônica tentou segurar o sorriso.
— Quer que eu retire alguém?
Heitor voltou a olhar para a tela.
— Não. Já que está aí, deixa.
— Certo.
Ela saiu antes que ele pudesse perceber o quanto aquela resposta parecia satisfazê-la.
Heitor chegara atrasado por causa de Humberto, e isso tinha feito perder a primeira reunião do dia, justamente com o CFO. Encontrou o homem no corredor pouco depois e achou curiosa a expressão que recebeu. O diretor parecia simultaneamente contente em vê-lo e profundamente decepcionado com alguma coisa.
— A gente tinha reunião às oito em ponto — comentou o CFO.
— Eu sei. Meu filho resolveu que eu não podia sair de casa.
— Ah.
Houve uma decepção desproporcional naquele “ah”.
Heitor quase perguntou o motivo, mas desistiu.
— Remarca com a Verônica.
O rosto do homem melhorou na mesma hora.
— Hoje?
— Se tiver horário.
— Tá. Beleza.
Heitor continuou andando e ainda olhou por cima do ombro. O CFO já estava indo na direção da mesa de Verônica.
Estranho.
Heitor seguiu para a primeira reunião sem imaginar por que o homem parecera tão aliviado por conseguir falar com ele ainda naquele dia.
A resposta talvez estivesse na apresentação que o Financeiro colocou diante dele alguns minutos depois. Heitor ouviu os primeiros números sem grandes reações, fez algumas perguntas sobre o avanço físico da obra e então chegou ao desvio acumulado de orçamento. Ficou alguns segundos olhando para o valor projetado na tela, tentando ter certeza de que não tinha entendido errado.
— Quanto?
O gerente financeiro respirou fundo.
— Trezentos milhões acima do orçamento inicial.
Heitor apoiou os braços na mesa e voltou os olhos para a projeção.
— Trezentos milhões?
— Sim.
— Da obra que já tinha revisão de contingência?
— Sim.
O sorriso que carregara desde que chegara quase desapareceu.
Num dia qualquer, aquilo bastaria para azedar sua manhã inteira. Heitor sentiu a irritação subir, mas ainda havia alguma coisa dentro dele excessivamente leve para deixá-la tomar conta. Encostou-se na cadeira e passou a mão pelo queixo.
— Me mostra de onde veio.
A equipe pareceu respirar.
Heitor ouviu tudo. Mudança de escopo, aumento de material, impacto de cronograma, aditivos, fornecedores, decisões que tinham sido tomadas meses antes e agora apareciam somadas naquele número obsceno. Não gostou de praticamente nada do que ouviu, mas também sabia que berrar não recuperaria dinheiro.
— Não quero mais aditivo sendo usado como curativo — disse no fim. — Monta um comitê com Financeiro, Engenharia, Suprimentos e Planejamento. Quero revisão semanal. O que for custo inevitável, a gente assume. O que for ineficiência, vocês vão recuperar.
O diretor assentiu depressa.
— Certo.
— E quero ver o primeiro plano na semana que vem.
— Certo.
Quando saíram, Heitor ainda ficou alguns segundos olhando para a porta.
Pareciam felizes demais para gente que acabara de admitir trezentos milhões de estouro.
A reunião seguinte também veio acompanhada de uma bomba. Operações queria que ele decidisse qual obra teria prioridade no uso de máquinas e equipes especializadas porque os recursos não seriam suficientes para as duas.
Heitor ouviu, olhou os cronogramas e depois encarou os responsáveis.
— Então vocês vieram aqui para eu escolher qual obra vai atrasar?
— Não exatamente...
— É exatamente isso. — Heitor bateu uma vez o dedo na mesa, pensando. — Quanto custa contratar equipe temporária para o pico?
O diretor de Operações hesitou.
— Aumenta bastante o custo.
— E quanto custa atrasar uma das duas?
Ninguém respondeu imediatamente.
— Então façam essa conta. Não vou canibalizar uma obra para salvar outra se existe capacidade externa. Locação de máquina, equipe temporária e contrato por etapa crítica. Me tragam três cenários.
Outro grupo saiu da sala com aquela mesma expressão estranhamente aliviada.
Heitor começou a perceber um padrão, embora não entendesse qual.
O Administrativo veio logo depois com um pedido para reformar o andar inteiro e trocar parte da frota executiva. Quando mostraram o valor da reforma, Heitor soltou um assobio baixo.
— Vocês vão revestir o chão de ouro?
Algumas pessoas riram.
— O espaço ficou pequeno para a equipe — explicou o diretor.
— Então vocês não querem reforma. Querem readequação.
Heitor passou os olhos pelo projeto e cortou sem cerimônia tudo que considerava estética demais para um problema operacional. A frota também não escapou.
— Não troca tudo.
— Temos veículos antigos.
— Troca os antigos.
— A proposta considera padronização.
— Padronização é ótimo quando não significa jogar dinheiro fora. Faz por quilometragem, manutenção e idade. O resto fica.
Era uma solução tão óbvia para Heitor que não entendeu por que o gerente administrativo saiu parecendo ter conseguido muito mais do que esperava.
Foi a Engenharia que quase conseguiu destruir de vez seu humor.
Heitor estava olhando um detalhe do projeto quando ouviu:
— Existe uma possibilidade de precisar demolir parte do que já foi executado.
Ele levantou os olhos devagar.
— O que você acabou de falar?
O engenheiro engoliu em seco.
— Uma parte da estrutura pode precisar ser refeita.
— Refazer.
— Sim.
— O que significa demolir o que já foi construído.
— Sim.
Heitor ficou parado.
Sentiu a mandíbula endurecer.
— A parte que eu já paguei.
Ninguém respondeu.
— Que vocês construíram.
Heitor se inclinou para frente. A felicidade daquela manhã ainda estava ali, mas trezentos milhões de estouro, falta de equipamento, reforma de andar, troca de carro e agora demolição começavam a testar seriamente sua capacidade de continuar vendo o mundo como um lugar bonito.
— Eu quero entender como, depois de projeto, compatibilização, revisão, aprovação e execução, alguém descobre agora que...
O celular vibrou sobre a mesa.
Heitor olhou apenas porque viu o nome de Helena na tela.
Tentou continuar falando.
— ...que uma parte...
O aparelho vibrou novamente.
Ele pegou.
Helena perguntava se estava tudo bem e mandava que não se cansasse demais naquele dia. Heitor sorriu discretamente e respondeu que estava sobrevivendo. A mensagem seguinte chegou enquanto o engenheiro retomava a explicação.
“Não cansa muito mesmo. Quero repetir a dose que ganhei de manhã.”
Heitor parou de ouvir, baixou os olhos e ficou alguns segundos olhando para a tela.
Puta merda.
O calor surgiu primeiro no rosto e depois no resto do corpo, acompanhado daquela lembrança particularmente inconveniente de Helena de bruços no closet. Ele digitou escondendo o celular um pouco mais junto à mesa.
"Pode deixar. A dose já está carregada para quando você chegar em casa."
Helena respondeu alguma coisa que fez o sorriso dele aumentar. Heitor devolveu. Ela provocou outra vez. Só então percebeu que havia ficado tempo demais olhando para o celular. Quando ergueu os olhos, a equipe de Engenharia aguardava em silêncio. Curiosamente, todos pareciam bem menos tensos do que antes.
E, de alguma maneira, pareciam muito mais tranquilos.
Heitor pigarreou e colocou o celular com a tela para baixo.
— Continuem.
O engenheiro retomou a explicação com um cuidado enorme.
Heitor ouviu até o fim e respirou fundo.
— Ninguém derruba nada ainda. Quero uma terceira empresa fazendo laudo independente. Não quero parecer de quem projetou nem de quem executou. Se tiver risco técnico, vai demolir. Eu não vou manter um erro só porque já gastou dinheiro. Mas quero saber exatamente onde aconteceu, quem responde por isso e quanto conseguimos recuperar contratualmente.
A equipe concordou imediatamente. Heitor ainda estava pensando que aquele era um dos pedidos mais absurdos que recebera no mês quando percebeu, outra vez, que os engenheiros estavam deixando sua sala quase aliviados.
Heitor ainda estava irritado, mas agora de um jeito administrável.
O Marketing entrou logo depois.
Heitor se arrependeu no mesmo instante.
Era um grupo jovem demais e bastante animado.
— Não.
A garota que parecia liderar a equipe riu.
— A gente nem falou ainda.
— Vocês estão com uma câmera. Então não.
Explicaram que queriam gravar um vídeo para uma trend que estava circulando na internet. Heitor ouviu tudo com os braços cruzados e expressão progressivamente mais desconfiada.
— Isso é ridículo.
— Justamente por isso vai funcionar.
— Eu sou CEO de uma construtora, não criador de conteúdo.
— Vai ser ótimo para humanizar a imagem da Monteiro Inc. e mostrar um lado diferente do CEO.
Heitor ficou olhando para ela.
A equipe esperou.
Ele suspirou.
Ainda estava feliz demais para comprar uma briga com pessoas que pareciam genuinamente empolgadas.
— Uma vez.
A comemoração foi instantânea.
Uma vez virou duas porque alguém passou atrás. Duas viraram três porque Heitor supostamente tinha olhado para o lugar errado. Na quarta tentativa ele já estava rindo da própria falta de habilidade, e isso fez o pessoal do Marketing decidir que precisava de mais uma porque agora ele estava "natural". Quando finalmente terminou, percebeu que tinham estourado o horário e isso obrigaria a remarcar Sustentabilidade e Comunicação.
Pela primeira vez no dia, a notícia lhe pareceu excelente.
Ele aproveitou a pausa para olhar o celular e encontrou novas mensagens de Helena. Ela disse que estava tudo bem na casa dos pais, que Jonas não parecia querer falar muito sobre o que tinha acontecido e estava aproveitando o tempo com Humberto. Aquilo tranquilizou Heitor. Conhecia Jonas havia tempo demais para acreditar que o amigo ficaria arrasado para sempre por causa de uma mulher. Deixá-lo brincar com o sobrinho, ficar perto da irmã e ter algum tempo longe do celular provavelmente era exatamente o que precisava.
Então leu o resto.
Helena dizia que estava tentando prestar atenção no irmão, mas toda vez que cruzava as pernas lembrava das mordidas que ele tinha deixado na parte interna da sua coxa.
Heitor parou no meio do corredor.
Leu novamente e olhou ao redor.
Os jovens do Marketing continuavam falando alguma coisa atrás dele, mas Heitor já não prestava atenção.
— Com licença.
Saiu antes que alguém perguntasse qualquer coisa.
Voltou para a própria sala e encontrou Verônica pronta para falar da agenda.
— Heitor, sobre as próximas...
— Preciso fazer uma ligação.
— Mas você tem...
— Depois.
Entrou e fechou a porta, caminhou até a mesa e se sentou na cadeira já com o número de Helena na tela.
Ela atendeu com a voz baixa.
— Oi, amor.
Apenas ouvir aquele jeito já o deixou ainda mais ligado.
— Você está de sacanagem comigo.
Helena riu.
— Por quê?
— Você sabe por quê.
— Eu só falei que lembrei.
— Você fala que lembrou das minhas mordidas e quer que eu faça o quê? Continue em uma reunião?
A risada dela ficou mais baixa.
— Trabalha, Monteiro.
— Não começa uma coisa que você não pode terminar.
Helena disse que estava no meio da casa dos pais e que ele era maldoso por falar daquele jeito quando ela não podia fazer absolutamente nada. Heitor respondeu que tinha sido ela quem começara. A conversa foi ficando cada vez mais provocante, e ele se divertia ouvindo Helena tentando manter a voz controlada enquanto provavelmente procurava algum canto onde ninguém a escutasse.
— Vai para um lugar mais reservado — sugeriu.
— Heitor...
— Só para conversar comigo.
— Você é um sem-vergonha.
— Só quero te lembrar de mais umas coisas.
Depois de alguma insistência, Helena acabou escapando por alguns minutos para um lugar mais reservado, e aquilo só piorou a situação. Heitor passou a provocá-la com mais liberdade, dizendo exatamente o que pretendia fazer quando voltassem para casa. Quanto mais ela tentava fazê-lo parar, mais Heitor se divertia. Conhecia perfeitamente a diferença entre um "para" de verdade e aquele jeito risonho e envergonhado com que Helena reclamava enquanto continuava dando corda.
Heitor estava completamente aceso.
Mandou para ela uma foto provocante tirada de cima, ainda vestido, mas deixando evidente o quanto a conversa tinha mexido com ele.
A resposta apareceu quase na mesma hora.
“Se controla.🫦”
Heitor riu sozinho.
“Tu que fez isso comigo.”
E ela respondeu:
“Eu quero ver isso pessoalmente.”
Aquilo não ajudou em absolutamente nada. Ele se recostou na cadeira.
“Posso ir aí.”
“Nem inventa.”, respondeu ela.
“Meu dia está cheio de reunião chata.”, digitou ele rapidamente.
“Então trabalha direitinho.”
Heitor fez uma careta para a tela.
“Você não me ama. 😭”
A resposta veio com uma sequência de risadas.
Depois:
“Amo. E quero você inteiro quando chegar em casa.”
Aquilo foi suficiente.
Heitor ficou alguns segundos olhando para a mensagem e sorriu sozinho.
Contrariado, sim. Mas absurdamente feliz.
Precisou de alguns minutos antes de sair da sala.
Quando finalmente abriu a porta, encontrou Verônica em sua mesa e um homem esperando perto dela com uma pasta nas mãos.
Heitor parou.
— Quem é?
— Facilities.
— Não estava na agenda.
— Surgiu um horário.
Heitor franziu o cenho.
— Surgiu como?
Verônica abriu o tablet.
— Eles precisam conversar sobre a climatização de dois andares.
Heitor começou a sentir aquela vontade de voltar ao seu estado natural de irritação.
— Verônica, eu não posso passar o dia inteiro...
O celular vibrou.
Ele olhou.
Helena.
“Te amo. Agora vai trabalhar, lindo. ❤️ “
O sorriso voltou imediatamente. Heitor guardou o celular e fez um gesto para o funcionário acompanhá-lo.
— Entra. Vamos ver isso.
O funcionário quase sorriu.
Heitor não percebeu Verônica mexendo rapidamente na agenda.
Nem percebeu que, em outro lado do andar, alguém do Jurídico acabava de receber uma mensagem dizendo que talvez desse tempo antes do almoço.
Heitor apenas entrou na sala ainda pensando em Helena e se perguntando, pela terceira vez naquela manhã, por que diabos todo mundo tinha resolvido falar com ele justamente naquele dia.
A conversa com Facilities começou de um jeito absolutamente normal e, em menos de dez minutos, entrou num assunto que Heitor jamais imaginara precisar discutir como CEO. Primeiro vieram as questões de climatização, um problema de manutenção em dois andares e uma proposta de redistribuição de espaços. Tudo perfeitamente aceitável. Foi só quando o rapaz, já quase no fim da reunião, abriu uma planilha com a ocupação das garagens que Heitor percebeu que existia ali uma camada de complexidade que ninguém havia lhe contado.
— A gente também precisa rever a distribuição das vagas do subsolo — explicou o representante de Facilities, cuidadoso. — Principalmente por causa das reclamações.
Heitor ergueu os olhos.
— Que reclamações?
O rapaz hesitou.
— Sobre posição.
— Posição da vaga?
— Sim.
Heitor ficou olhando.
— Mas é estacionamento.
— Sim.
— Você para o carro e sobe.
— Sim.
— Qual é o problema?
O funcionário pareceu procurar uma maneira segura de responder.
— Existe uma... percepção de hierarquia.
Heitor apoiou os dois antebraços na mesa.
— Uma o quê?
— Uma hierarquia informal.
— De estacionamento?
O rapaz assentiu, constrangido.
Heitor ficou em silêncio por alguns segundos.
— Explica isso direito porque eu acho que perdi alguma parte.
O funcionário de facilities respirou fundo.
— As vagas mais próximas dos elevadores são consideradas melhores.
— Isso eu entendo. É mais perto.
— Mas também são vistas como vagas de maior prestígio.
Heitor recostou na cadeira.
— Continua.
O rapaz abriu outra tela.
— O subsolo um é considerado melhor que o subsolo dois. E o subsolo dois é melhor que o três. — o funcionário passou a língua nos lábios. — Algumas pessoas entendem que estar nos níveis superiores da garagem demonstra posição na empresa.
Heitor abriu a boca.
Fechou.
Olhou para a planilha e depois voltou ao rapaz.
— Vocês criaram uma estrutura de poder na garagem?
Facilities desviou os olhos.
— Tecnicamente... ela surgiu organicamente.
Heitor ficou imóvel.
— Organicamen... — parou no meio. — Não. Espera aí.
Passou a mão pelo rosto.
— Então deixa eu entender. Eu tenho executivo brigando porque o carro dele está um andar abaixo do carro de outro executivo?
— Não exatamente brigando.
— O que eles fazem?
— Solicitam revisão de vaga.
— Isso é brigar de terno.
O rapaz tentou esconder o sorriso.
Heitor apontou para a tela.
— E isso aqui? Por que tem nome pintado no chão?
— Algumas vagas são nominativas.
— Eu sei ler, porra. Quero saber por quê.
— Virou um símbolo de status.
Heitor ficou olhando para ele como se esperasse que em algum momento o homem dissesse que era brincadeira.
Não disse.
— E quem autorizou isso?
O rapaz hesitou.
— Foi acontecendo ao longo dos anos.
— De novo essa palavra.
— Qual?
— "Acontecendo". Nessa empresa tudo que ninguém quer assumir "aconteceu".
O funcionário abaixou os olhos.
Heitor voltou à planilha e começou a apontar.
— Então esse aqui está reclamando porque perdeu a vaga perto do elevador.
— Sim.
— Esse outro porque foi transferido pro subsolo dois.
— Sim.
— E esse aqui?
Facilities ficou ainda mais desconfortável.
— A vaga dele deixou de ser nominativa.
Heitor levantou os olhos devagar.
— Ele está chateado porque apagaram o nome dele do chão.
— Sim.
Heitor passou alguns segundos em silêncio.
— Isso é ridículo.
— Eu concordo.
— Não concorda nada. Você veio me trazer isso com planilha.
O rapaz quase riu.
Heitor respirou fundo e tentou pensar numa solução que não envolvesse mandar todo mundo estacionar na rua.
— Faz o seguinte. Mantém vaga nominativa só para quem realmente precisa por função, segurança ou acessibilidade. O resto entra em rodízio por setor. E proximidade do elevador não é promoção.
— Certo.
— Se alguém reclamar que está perdendo poder porque desceu um subsolo, manda subir de elevador e pensar na própria vida.
Facilities apertou os lábios.
— Posso colocar isso no comunicado?
Heitor olhou para ele.
— Não.
— Certo.
— Coloca de um jeito profissional.
— Claro.
— E para de deixar adulto brincar de nobreza na garagem.
O rapaz assentiu.
Quando saiu, Heitor ainda permaneceu alguns segundos olhando para a porta, genuinamente incrédulo.
Não sabia o que o impressionava mais: a existência daquela hierarquia ou o fato de ter funcionado por anos sem ele nem perceber.
Pegou o celular sobre a mesa e foi nesse momento que tocou. Heitor nem conseguiu impedir o sorriso de aparecer, já esperando ver Helena na tela.
Mas era Isaac.
Ainda assim, abriu um sorriso.
Atendeu e se levantou, caminhando até a janela.
— Fala, projeto de Thor.
Do outro lado, Isaac soltou uma risada.
Foi exatamente nesse momento que o representante de Viagens Corporativas apareceu timidamente na porta. Abriu só uma fresta, viu Heitor ao telefone e fez uma expressão de quem sabia que aquela oportunidade podia estar escapando. Heitor apenas levantou um dedo, indicando que estava em ligação.
O rapaz assentiu e fechou a porta devagar com uma tristeza quase comovente.
Heitor nem percebeu.
— Heitor, como você tá? — perguntou Isaac.
— Tô ótimo, cara. Felizão aqui no escritório, trabalhando, curtindo a fase. Tudo certo.
A mão livre foi automaticamente para o bolso da calça enquanto olhava pela janela. O sorriso estava tão largo que suas próprias bochechas começavam a doer.
Isaac parecia ter percebido.
— O que aconteceu de tão bom?
Heitor soltou uma risada baixa.
— Ah, a vida, né? Sabe como é.
— Sei não. Você parece até que ganhou na loteria.
— Já ganhei. — a resposta saiu antes que pensasse.
Heitor sorriu sozinho.
— E você? Tá de boa? Com dona Olívia cozinhando pra você, deve estar vivendo melhor que muito herdeiro.
Isaac riu.
— Não posso reclamar. A comida é excelente. E adoro a companhia dela e do senhor Afonso. Os dois juntos são muito engraçados.
— Não atrapalha o esquema deles.
— Que esquema?
— Se perceber que tá de vela, dá umas voltas no quarteirão.
Isaac começou a rir.
— Se ele ouvir isso, vai te dar umas bengaladas.
— Relaxa. Eu corro mais rápido.
Heitor se afastou da janela e começou a caminhar pela sala.
— Mas e o emprego? Tudo certo?
— Sim. Só que às vezes sinto saudade de ser só estudante. Trabalhar no banco é muito puxado.
— Imagino. Mas em um ano você já vai estar mais rico que eu.
Os dois riram.
— Quem dera — Isaac respondeu, com uma satisfação na voz que Heitor gostou de ouvir. — Tem planos pro almoço?
Heitor virou o rosto para a tela onde sua agenda ainda estava aberta.
Havia um almoço marcado com o supervisor e o coordenador de Incorporações.
Heitor olhou.
Pensou dois segundos.
— Tô livre. Vamos comer onde?
— Vou te mandar a localização.
— Fechou. Até já.
— Até.
Heitor desligou e imediatamente abriu o Teams.
Mandou uma mensagem para Verônica pedindo que cancelasse o almoço com Incorporações porque havia surgido um compromisso pessoal.
A resposta dela veio rápido demais.
“Certo.”
Heitor nem imaginava a tragédia corporativa que aquela palavra representava para duas pessoas que provavelmente tinham esperado dias pelo único almoço em que o CEO parecia feliz.
Logo depois recebeu a localização de Isaac.
Ainda tinha algum tempo.
E, naturalmente, pensou em Helena.
Queria ouvir a voz dela.
Ligou.
O telefone chamou três vezes.
Quando atenderam, Heitor já estava sorrindo.
O sorriso morreu.
— Desgruda, pô.
Era Jonas.
Heitor fechou os olhos e massageou as têmporas.
— E aí, cunhado. Tudo certo? A Helena tá por aí?
— Não pras duas perguntas.
Heitor parou.
— Como assim?
— A Helena me empurrou na piscina. Tô encharcado, cara.
Heitor ficou um segundo em silêncio. Depois começou a rir.
— Caralho.
— Tá rindo de quê?
— Aposto que mereceu.
— Eu não fiz nada!
— Impossível.
— Ela que tá estressada.
Heitor ainda sorria enquanto mexia distraidamente numa decoração da estante.
— Estressada, é? Achei que ela tava animada. Ela estava super preocupada com você. Queria muito esse momento.
Houve um silêncio do outro lado.
Longo o suficiente para Heitor tirar o telefone da orelha e olhar a tela, conferindo se a ligação tinha caído.
Não tinha.
— Eu também queria muito passar um tempo com ela — Jonas respondeu finalmente. — A campanha fez a gente não se ver tanto.
Heitor cerrou um pouco os olhos. Não era exatamente só a campanha. Mas Helena já tinha avisado que Jonas não queria falar sobre o assunto, então ele não pressionaria.
— Bom, aproveita enquanto dá — disse, voltando ao tom leve. — Porque primeiro de janeiro vocês já vão estar no Palácio da Alvorada.
Jonas riu.
— Será que eu consigo ficar sem praia?
— Tem Lago Paranoá. Dá pra andar de lancha.
— Já fizemos isso, lembra?
Heitor começou a sorrir antes mesmo da lembrança terminar de aparecer.
— Lembro.
— Caralho, aquele dia foi louco demais. A gente se separou depois e eu saí com aquela acompanhante...
Heitor já começou a rir.
— E ela te roubou.
— Pô, não precisa falar assim.
— Ela te roubou, Jonas.
— Levar celular e dinheiro não é necessariamente...
— É literalmente roubar.
Jonas começou a rir também.
— Eu fiquei vagando pelo Distrito Federal sem celular, sem dinheiro e sem conhecer ninguém.
Heitor sentiu a risada crescer.
— Eu quase morri naquele dia. Não podia chamar a polícia porque como é que eu ia explicar aquilo? Aí um Uber me ajudou a te procurar.
— O cara era mesmo gente boa pra caralho.
— Ele sugeriu uns lugares onde você podia estar e a gente te achou.
Jonas ria do outro lado. Heitor já estava lembrando da cena inteira.
— O melhor foi quando eu te achei e você veio com aquela cara desesperada falando… — tentou imitar a voz de Jonas: — “Porra, Heitor, ela era careca. Tava de peruca.”
Heitor começou a chorar de rir.
— Ah, vai tomar no cu — Jonas respondeu, rindo também. — Foi pesado aquele dia.
— Pesado pra mim! Eu tinha perdido você em Brasília!
— Queria ver você explicando pro meu pai.
— Eu também queria saber como eu faria isso.
Ficaram alguns minutos presos naquela lembrança, Heitor acrescentando detalhes que Jonas jurava não terem acontecido e Jonas tentando defender uma versão muito mais digna dos fatos. Era bom ouvi-lo daquele jeito. Leve. Rindo. Por alguns minutos, Heitor quase conseguiu esquecer tudo que havia acontecido nos últimos dias.
Então olhou o relógio.
— Cara, o papo tá bom, mas preciso sair. Senão vou chegar atrasado.
— Vai lá.
— Pede pra Helena me ligar depois.
— Falo.
— E diz que mandei beijo pra ela e pro Humberto.
— Pode deixar.
Heitor hesitou por um instante.
— Jonas.
— Fala.
— A Helena te considera pra caralho.
Houve um pequeno silêncio.
— Eu sei.
— Então não pisa na bola com ela.
A voz de Jonas ficou mais séria.
— Eu não vou. Ela também é importante pra mim.
Heitor assentiu sozinho.
— Então beleza. A gente se fala depois.
— Falou.
Heitor desligou a ligação com Jonas ainda sorrindo. Gostara de ouvi-lo rindo daquele jeito. Por alguns minutos, parecia o Jonas de sempre, e isso bastava para deixá-lo mais tranquilo. Sabia o quanto aquele encontro significava para Helena e, antes de encerrar, fizera questão de deixar claro que ela se importava muito com o irmão. Não queria que Jonas, no meio daquela confusão toda, confundisse preocupação com cobrança ou acabasse afastando justamente quem estava tentando permanecer perto dele.
Pegou o paletó, o celular e saiu da sala, avisando Verônica que voltaria depois do almoço. No caminho até o elevador, ainda pensava na conversa quando a lembrança da reunião com Facilities voltou à cabeça.
A hierarquia da garagem.
Heitor começou a rir sozinho.
Ainda parecia absurdo.
Desceu até o estacionamento e, assim que as portas do elevador se abriram, olhou ao redor com outros olhos. Pela primeira vez reparou de verdade nas placas, nos nomes pintados no chão e na forma como algumas vagas muito próximas dos elevadores permaneciam vazias mesmo nos horários mais cheios.
Ele diminuiu o passo.
Então parou.
— Ah, não...
Uma lembrança puxou outra.
Durante anos, Heitor simplesmente chegava e estacionava na melhor vaga livre que encontrasse. Nunca pensava muito sobre isso. Se havia uma vaga vazia perto do elevador, colocava o carro ali. Se aparecia outra mais próxima da saída no dia seguinte, usava aquela. Às vezes reparava em algum nome pintado no chão, mas presumira que fosse alguma coisa antiga, desatualizada ou sem grande importância.
Agora tudo fazia sentido.
Provavelmente aquelas vagas tinham dono.
Heitor soltou uma risada baixa e continuou andando.
Quantas vezes teria estacionado na vaga de algum executivo sem saber?
A resposta devia ser muitas.
E o melhor era imaginar a situação do outro lado. Um executivo chegando cedo, procurando a própria vaga, encontrando o carro de Heitor Monteiro parado exatamente ali e tendo que decidir o que fazer.
Heitor riu mais.
Não fazer nada, obviamente.
Quem seria o maluco que bateria na porta do CEO para dizer que ele tinha estacionado no lugar errado?
Quanto mais pensava, mais engraçado ficava.
Talvez fosse por isso que nunca tivesse recebido uma reclamação.
Talvez algum diretor tivesse passado anos descendo para o subsolo dois, revoltado, porque Heitor simplesmente tinha tomado a vaga dele sem sequer saber que existia uma disputa de território.
Entrou no carro ainda sorrindo e olhou uma última vez para as vagas próximas ao elevador. Aquilo era uma das coisas mais ridículas que já descobrira sobre a própria empresa.
Antes de ligar o carro, porém, lembrou de outro assunto que vinha ocupando sua cabeça desde a manhã.
A babá.
Pegou o celular e mandou um áudio para a mãe.
— Mãe, você sabe se dona Cleuza ainda tá viva?
Assim que enviou, percebeu como aquilo soava.
Franziu o cenho e gravou outro imediatamente.
— Calma, não aconteceu nada. É porque eu e a Helena estamos procurando uma babá pro Humberto e lembrei dela. Se souber onde ela está ou tiver contato de alguém da família, me fala.
Dona Cleuza havia cuidado de Heitor durante boa parte da infância e ainda estivera presente por alguns anos de sua adolescência. Quando pensava nela, lembrava de uma mulher firme, carinhosa e completamente imune ao fato de que ele era filho de quem era. Cleuza nunca tivera medo de chamar sua atenção, nunca o tratara como um pequeno príncipe e, ao mesmo tempo, tinha sido uma das pessoas mais afetuosas de sua infância.
A ideia de alguém assim perto de Humberto o agradava.
Talvez Cleuza já estivesse velha demais para trabalhar. Talvez nem quisesse. Mas podia conhecer alguém. Ou ter uma filha, uma sobrinha, alguém em quem confiasse.
Heitor ligou o carro e saiu da garagem.
No caminho até o restaurante, a conversa com Isaac voltou à cabeça. Agora que tinha alguns minutos sozinho, percebeu que o convite para almoçar tinha sido um pouco inesperado. Isaac não costumava chamá-lo no meio do expediente sem motivo, principalmente em dia de trabalho.
Talvez só quisesse companhia.
Talvez estivesse cansado do banco.
Talvez dona Olívia e senhor Afonso já tivessem começado a expulsá-lo de casa para terem paz.
Heitor sorriu com a ideia, mas, alguns segundos depois, o pensamento ficou mais sério.
Isaac provavelmente queria conversar sobre alguma coisa. Só esperava que não fosse nada grave.
Heitor chegou ao restaurante alguns minutos depois do horário combinado e procurou Isaac entre as mesas, sem encontrá-lo de imediato. Só percebeu onde estava quando alguém levantou o braço mais ao fundo, chamando sua atenção. Heitor virou o rosto naquela direção e arregalou os olhos. Talvez a reação tivesse sido exagerada, porque não fazia tanto tempo assim desde a última vez que vira o cunhado, mas a mudança era perceptível demais para quem o conhecia havia anos. Isaac sempre fora alto e magro, mas agora o rosto estava mais cheio e uma pequena barriga começava a aparecer sob a camisa. Nada extraordinário, longe disso, mas o suficiente para Heitor abrir um sorriso enorme enquanto se aproximava.
— Cara, que isso?! — falou assim que chegaram perto, cumprimentando Isaac e já dando um tapinha indiscreto na pequena barriga dele. — Você realmente tá interpretando o Thor? Primeiro era cabeludo, depois cortou o cabelo e agora tá engordando também?
Isaac olhou para a própria barriga e coçou a cabeça.
— Eu já tava comendo mal. Agora, com o tanto de comida que dona Olívia faz pra mim, acho que vou explodir. O pior é que é muito gostoso, não dá pra resistir. Agora eu sei com quem a Lêlê aprendeu.
O comentário bastou para Heitor ficar ainda mais satisfeito.
— Aprendeu bem e superou a mestra. Porque a comida da Helena é excelente. Falando nisso… — pegou o celular imediatamente. — Vou pedir pra ela fazer strogonoff de filé-mignon. Cara, puta que pariu, ela fez uma vez que eu tive que dormir na poltrona porque meu estômago doía e eu não conseguia deitar.
Isaac começou a rir enquanto Heitor digitava a mensagem todo orgulhoso. Ele também sabia cozinhar e até gostava, mas, na sua opinião, a comida de Helena era muito melhor. Helena discordava e vivia elogiando as coisas que ele fazia, mas Heitor achava que aquilo era amor falando mais alto que o paladar.
— Cuidado — Isaac avisou. — Daqui a pouco vai ficar pior que eu.
Heitor riu.
— Eu malho pra isso. E quem me dera se a Helena fizesse todas as minhas refeições. Eu seria muito abençoado.
— E por que você não fala com ela? Aposto que ela ia gostar.
Heitor guardou o celular enquanto os dois se sentavam.
— Ah, não. Não quero incomodar. Além de ter o Humberto, ela vai voltar a trabalhar. Vai achar que eu sou um folgado. A gente tem cozinheiro em casa e eu ainda vou pedir pra minha mulher cozinhar pra mim?
— Nada a ver, mano.
— Sei lá. Eu gosto quando ela faz, mas não quero que ela ache que tem obrigação.
Isaac olhou para ele por um instante e depois para a roupa que Heitor usava.
— Tenho certeza que ela não vai achar isso. Até porque tenho certeza que foi ela que escolheu essa roupa aí.
O sorriso de Heitor se alargou na mesma hora.
— Tá na cara, né?
— Muito.
Heitor olhou rapidamente para a própria camisa rosa-clara e ajeitou o punho.
— Eu gosto quando ela cuida de mim. Não vejo problema nenhum nisso.
— Você cuidando dela mais do que ela cuida de você, também não vejo.
— É o que mais faço. Pode ficar tranquilo, cunhado.
Heitor deu um soquinho leve no ombro de Isaac, que respondeu empurrando-o.
— Ih, calma aí — Heitor reclamou, ajeitando-se na cadeira. — Agora tenho que ficar esperto contigo. Já tá entrando na categoria peso-pesado.
— Vai tomar no cu.
— Dona Olívia vai te deixar redondo.
A conversa continuou fácil depois disso. Pediram o almoço e passaram por futebol, banco, taxas, trabalho e, inevitavelmente, Humberto. Heitor conseguiu encaixar mais de uma vez na conversa que o filho estava cada vez mais agarrado nele, como se aquilo fosse alguma conquista pessoal que precisasse ser divulgada para todos. Isaac ria, dizia que Helena ainda era a preferida, e Heitor imediatamente encontrava argumentos para contestar. Também falaram um pouco de Jonas, sem se aprofundar demais, e Isaac pareceu genuinamente aliviado ao saber que Helena estava passando o dia com o irmão.
Quando terminaram de comer, nenhum dos dois demonstrou pressa para levantar. Heitor, principalmente, estava muito pouco interessado em voltar para a empresa. Sabia que a tarde estava cheia de reuniões internas que provavelmente testariam o restante daquele bom humor e, naquele momento, ficar ali conversando parecia uma opção infinitamente melhor. Isaac começou a contar sobre um reality de sobrevivência que estava assistindo, e bastou isso para os dois se empolgarem. Heitor adorava aquele tipo de coisa. Em poucos minutos, já tinham transformado uma conversa sobre televisão num plano de verdade: escolheriam um fim de semana, alugariam um rancho mais afastado, chamariam Jonas e alguns dos amigos e passariam dois dias pescando, fazendo fogueira, dormindo no mato e descobrindo quem era menos preparado para sobreviver sem conforto.
— Jonas desiste primeiro — Isaac decretou.
— Fácil.
— Primeira noite.
— Antes. Quando descobrir que não tem ar-condicionado.
Os dois riram.
Heitor, porém, tinha suas dúvidas. Achava bastante possível que Isaac fosse o primeiro a querer voltar para casa, principalmente agora que estava sendo alimentado diariamente por dona Olívia. Ainda assim, gostou de verdade da ideia. Lembrou-se da época em que fora escoteiro, depois das experiências no Tiro de Guerra, e sentiu aquela ansiedade boa que aparecia sempre que imaginava Humberto maior. Queria que o filho gostasse daquelas coisas também. Queria levá-lo para pescar, acampar, ensinar a fazer uma fogueira, montar barraca, andar por trilha. Talvez Humberto odiasse tudo e preferisse passar o fim de semana num hotel, mas Heitor torcia para que não. Havia tantas experiências que queria dividir com aquele menino que às vezes esquecia que ele ainda mal conseguia ficar em pé sozinho.
Heitor poderia facilmente passar o restante da tarde ali. Talvez até esperar chegar a hora de buscar Helena e Humberto. Só que Isaac não era dono do banco onde trabalhava e, ao contrário dele, não podia simplesmente decidir que a própria agenda deixara de existir.
— Você tem quanto tempo de almoço?
Isaac mexeu um pouco na cadeira.
— Hoje é minha folga. Tirei porque trabalhei o fim de semana direto de casa.
Heitor franziu o cenho. Sabia que a rotina do banco era pesada, mas aquilo explicava por que Isaac estava tão tranquilo com o horário.
— Que treta. Então quer ir pra outro lugar? A gente pode ir pra um clube, ficar de boa um pouco. — O sorriso apareceu. — O Jonas já nadou hoje. A gente podia pegar uma piscina também.
Isaac não sorriu.
— Passo.
Foi só então que Heitor percebeu a mudança e Isaac continuou.
— Tirei o dia de folga porque queria conversar contigo.
Heitor se ajeitou na cadeira.
A frase reorganizou imediatamente tudo que tinha acontecido desde a ligação. O convite inesperado. Isaac perguntando sobre o almoço. A folga justamente naquele dia. Havia alguma coisa ali.
Ele apoiou um braço na cadeira vazia ao lado e olhou para o cunhado com mais atenção. Isaac parecia tenso agora, apertando devagar as próprias mãos. Heitor não sabia o que viria. Entre homens, nunca tivera muita facilidade para aquele tipo de conversa. Sentia tudo com intensidade demais, mas falar sobre sentimentos era outra história. Quando tinha dezessete anos e decidira abandonar de vez a ideia de viver de futebol para seguir o caminho do pai, aprendera a despejar boa parte daquela intensidade nos estudos e, depois, na Monteiro Inc. Com Helena era diferente. Helena entrara em lugares que ninguém antes conseguira alcançar, e com ela Heitor aprendera a dizer coisas que jamais imaginara dizer em voz alta. Com Isaac, porém, havia carinho suficiente para que tentasse. Além disso, desde que Humberto nascera, Heitor percebia que pensava diferente sobre essas coisas. Um dia seria o filho sentado diante dele, talvez sem saber como começar alguma conversa difícil. Era melhor aprender.
— Escolheu um excelente dia — falou, tentando aliviar a tensão com um sorriso. — Porque aparentemente eu não tenho nada importante pra fazer na empresa.
Isaac deixou escapar uma pequena risada, mas continuou nervoso.
Heitor ficou sério.
— Relaxa, cara. Somos família. Literalmente família. Tô do teu lado.
Isaac respirou fundo.
— Eu visitei a Ana Alice algumas vezes na prisão.
Foi impressionante a rapidez com que o corpo de Heitor reagiu.
Os músculos endureceram antes mesmo que ele organizasse o pensamento, e o bom humor que sobrevivera a trezentos milhões de estouro de orçamento, demolição de obra e uma hierarquia clandestina de estacionamento simplesmente desapareceu.
Ana Alice.
Talvez precisasse retirar o que acabara de dizer. Estaria ao lado de Isaac para quase qualquer coisa. Ana Alice não fazia parte desse qualquer coisa.
Heitor odiava Antônio Fortenelle e odiava Ana Alice, mas eram ódios diferentes. Fortenelle despertava nele uma raiva quente, competitiva, quase primitiva; Heitor queria enfrentá-lo, derrotá-lo, reduzir tudo que ele representava a cinzas e assistir de perto. Ana Alice provocava outra coisa. Se pudesse escolher, preferiria que aquela mulher jamais tivesse cruzado seu caminho.
O que acontecera entre eles feria um lugar que Heitor evitava tocar até sozinho.
Ter sido quase violentado por ela ainda arranhava seu orgulho de uma maneira que ele jamais admitiria em voz alta. Não queria falar sobre aquilo. Não queria ser olhado com pena e, principalmente, não queria que ninguém enxergasse fraqueza onde ele ainda lutava para não enxergar.
Seu olhar endureceu.
— Acho que já sei onde isso vai chegar.
Isaac o encarou.
— Fiquei sabendo que você contratou advogado pra conversar com ela. Veio me pedir pra retirar a queixa da tentativa de sequestro? — Heitor nem esperou resposta. — Lamento. Se depender de mim, ela nunca mais sai daquela cela.
— Heitor...
— Não.
— Eu nem falei ainda.
— Não precisa.
Isaac respirou fundo.
— O que ela fez foi horrível. E ela merece estar presa...
— Então acabou.
— ...mas eu fui falar com ela porque precisava entender.
— Não me importa o que você resolveu fazer pelas minhas costas. Pode contratar advogado, gastar o dinheiro que quiser, visitar quantas vezes quiser. Ana Alice não vai ser solta.
O rosto de Isaac começou a mudar.
— Eu não tô tramando nada pelas suas costas.
— Então o que você quer?
— Eu fui atrás dela porque queria entender por que ela fez tudo aquilo!
— E eu não quero saber o motivo! — Heitor respondeu, sentindo a raiva crescer. — Me interessa o que ela fez. O motivo não muda porra nenhuma.
Percebeu algumas pessoas olhando de outras mesas e baixou a voz, embora a irritação continuasse inteira. Queria ajudar Isaac. Tinha ido até ali disposto a ouvi-lo, mas havia assuntos em que sua racionalidade simplesmente falhava, e Ana Alice era um deles.
Isaac sustentou seu olhar.
— Depois que eu conversei com ela e finalmente entendi algumas coisas, apareceu outro assunto.
Heitor passou a língua pelos dentes e se recostou.
— Desembucha.
Isaac pegou o celular e abriu alguma coisa antes de colocá-lo sobre a mesa.
Heitor olhou.
Era o contato de Gaspar, conhecia aquele nome.
— Esse cara é gerente da filial onde a Helena trabalhava — explicou Isaac.
— Eu sei quem ele é.
— Eu quero fazer uma denúncia contra ele por assédio.
Heitor franziu o cenho.
— O quê?
— Ele assediou a Ana Alice e chantageou ela.
Por um segundo, Heitor quase riu.
Depois de tudo que tinha ouvido naquele dia, aquilo conseguia disputar o primeiro lugar entre as coisas mais absurdas.
— Com todo respeito, Isaac... quem te contou isso? A Ana Alice? — o deboche saiu antes que pudesse evitar. — Desculpa, cara. Não dá pra levar isso a sério.
— Heitor, eu sei que você detesta ela. Mas separa teu ódio pessoal da tua empresa. Ela era terceira e foi assediada. Esse é o celular dela. Tem histórico.
— Eu não acredito nisso.
— Por quê?
Heitor riu sem humor.
— Porque eu conheço a peça. Na primeira vez que fui naquela filial, Ana Alice se atirou pra cima de mim. Aquela mulher não presta. Com toda certeza seduziu o Gaspar do mesmo jeito que seduziu você.
O rosto de Isaac ficou vermelho de raiva.
— Porra, Heitor! Eu tô tentando conversar contigo de forma civilizada. Você vai colaborar ou não?
Heitor percebeu que tinha passado do ponto, mas ainda estava irritado demais para admitir.
— Tá. Fala.
Isaac respirou fundo e começou a rolar as mensagens.
— Ele se aproximou dela prometendo vantagens dentro da filial. Os dois começaram a se relacionar. Depois, quando ela terminou com ele pra ficar comigo...
Heitor não conseguiu impedir um pequeno sorriso debochado.
Isaac viu.
Ignorou.
— ...o Gaspar começou a pressionar ela pra terminar comigo. Disse que, se ela não terminasse, ia contar tudo o que tinha acontecido entre eles e tudo que ela tinha recebido. Ela sabia que ia ser prejudicada.
— Isaac, não é contra a lei dois funcionários se envolverem. Eles esconderam um romance. Moralmente pode ser uma merda, profissionalmente pode gerar conflito, mas isso sozinho não é o crime que você está pintando.
Isaac olhou diretamente para ele.
— Ele usava dinheiro da sua empresa pra bancar ela.
Heitor ficou imóvel.
Por um instante, teve a sensação de não ter entendido.
Então engasgou com a própria saliva.
Tossiu, puxou o copo de água com limão que estava sobre a mesa e bebeu enquanto olhava para Isaac por cima da borda.
— Como assim?
Não havia mais deboche.
Isaac colocou o celular mais perto dele.
— Esse aparelho, por exemplo. Foi o Gaspar que comprou. Lançou como despesa operacional da filial. E não foi só isso. Roupas, joias, perfumes, viagens... até carro. Ele comprava coisas pra ela e lançava despesa na empresa.
Heitor abaixou lentamente o copo.
A raiva mudou de lugar.
— Você tem prova disso?
— Tenho.
— O celular dela tá com a polícia, esse ai pode ser falso.
— Ele não é falso, mas não tô falando desse celular. — Isaac respirou fundo. — Ela me contou onde tinha escondido algumas coisas. Tinha um pen drive com informações, comprovantes, registros, mensagens. Ela guardou caso um dia precisasse se proteger. Eu achei e fiz uma cópia.
Heitor estendeu a mão imediatamente.
— Me entrega.
Isaac recolheu o aparelho.
— Não.
Heitor olhou para ele como se não tivesse escutado direito.
— Como assim, não?
— Porque você tá com raiva e eu não sei o que você vai fazer.
— Isaac, eu não vou quebrar a porra do pen drive.
— Eu não tenho tanta certeza.
Heitor abriu a mão novamente.
— Me entrega.
— Não. Primeiro você vai me ouvir.
Heitor passou a mão pelo rosto, tentando controlar a vontade de arrancar aquela informação dele à força.
Aquilo já não era mais sobre Ana Alice.
Era sobre a Monteiro Inc.
Se um gerente de filial realmente havia usado recursos da companhia para bancar uma relação pessoal, falsificado ou mascarado despesas e ainda usado sua posição para pressionar uma terceirizada, havia um problema muito maior escondido ali. E, pior, um problema que acontecera debaixo do nariz deles.
— Isaac, eu vou acabar com a vida desse desgraçado.
— É exatamente por isso que eu não vou te entregar agora.
Heitor encarou o cunhado e, de repente, outra coisa voltou a incomodá-lo.
— Só me responde uma coisa.
— O quê?
— Por que você tá fazendo isso?
Isaac franziu o cenho.
— Como assim?
— Vai passar a vida sozinho esperando essa criminosa sair da cadeia?
Isaac arregalou os olhos.
Heitor continuou, ainda tomado pela raiva:
— Porque se for isso, já vou deixar uma coisa clara: perto da Helena e do meu filho ela não chega nunca mais e se você estiver com ela, você também não vai.
A expressão de Isaac mudou completamente.
Não era raiva apenas.
Era mágoa.
— Cara, você tá sendo um merda.
A frase acertou Heitor.
Isaac se inclinou para frente.
— Eu ainda tô machucado pra caralho. Mas eu não gosto mais da Ana Alice. Nem sei se vou conseguir gostar de alguém de novo depois de tudo isso. Eu fui atrás dela porque precisava entender. Precisava saber como eu fui tão idiota, precisava ouvir da boca dela por que ela fez aquilo comigo. — A voz dele estava mais pesada agora. — Eu não sou juiz, Heitor. Não tô tentando tirar ela da cadeia. Só que no meio dessa merda eu descobri que tem um cara dentro da empresa da minha família roubando dinheiro e usando posição pra fazer o que quer com mulher que trabalha abaixo dele. O que você queria que eu fizesse? Fingisse que não vi porque odeio ela?
A raiva de Heitor perdeu força.
Só então ele percebeu o que tinha feito.
Isaac não estava ali defendendo Ana Alice.
Estava ali apesar dela.
Heitor respirou fundo e desviou os olhos por alguns segundos. Sentiu vergonha. Tinha prometido ouvir o cunhado e, no primeiro momento em que Ana Alice aparecera, transformara Isaac novamente no homem enganado que não sabia o que estava fazendo.
— Desculpa, cara.
Isaac permaneceu quieto.
Heitor passou a mão pela nuca.
— Foi mal mesmo. Esse assunto me tira do sério. Quando você falou dela, eu já achei que... sei lá. Achei que você tava voltando praquilo.
— Não tô.
Heitor assentiu.
— Eu fico muito feliz de ouvir isso. — a frase saiu sincera. — E foi mal por desconfiar de você. De verdade.
Isaac relaxou um pouco.
— Tudo bem. Depois do que ela fez com você, eu imagino que isso não seja fácil.
Heitor sentiu o desconforto atravessá-lo imediatamente.
Odiava aquela lembrança. Odiava mais ainda quando alguém colocava em palavras, como se aquilo passasse a existir de novo no instante em que era mencionado.
Mas não descontaria em Isaac outra vez.
Apenas assentiu.
Ficou alguns segundos olhando para o celular sobre a mesa e então estendeu a mão, dessa vez sem exigência.
— Obrigado por ter vindo falar comigo.
Isaac o observou.
— Eu tô falando sério. Se isso estiver nesse pen drive do jeito que você tá dizendo, você fez certo.
Isaac assentiu.
Heitor já sentia a cabeça mudando de lugar. A raiva continuava ali, mas agora começava a ganhar forma. Auditoria. Jurídico. Compliance. Preservação de evidências. Bloqueio de acesso. Levantamento de despesas. Não podia simplesmente ligar para Gaspar e mandar o homem para o inferno, por mais satisfatório que isso fosse. Se havia fraude, precisava descobrir o tamanho antes que o responsável percebesse que estavam atrás dele.
O CEO começou a ocupar o lugar do homem furioso.
— Não fala com mais ninguém sobre isso.
— Não falei.
— Nem com a Helena.
Isaac assentiu.
Heitor olhou para ele.
— Eu vou precisar desse material.
— Eu te entrego uma cópia.
— Ótimo. E mantém o original onde está. Não mexe, não altera arquivo, não encaminha nada. Eu vou colocar gente pra cuidar disso sem chegar perto do Gaspar até saber o tamanho da merda.
Isaac pareceu finalmente respirar melhor.
Heitor pegou o próprio celular.
Todo o desejo que tivera de passar a tarde longe da empresa tinha desaparecido.
— Agradeço demais por você ter me contado e fica com seu celular, logo mais eu te ligo.
Abriu a conversa com Verônica.
— Eu vou dar um jeito nessa merda agora.
E, pela primeira vez naquele dia, ninguém na Monteiro Inc. teria motivo algum para comemorar a volta de Heitor ao escritório.
Fale com o autor