O CEO que Eu Paguei
213 Obsessão
Notas iniciais
A primeira noite com Humberto foi diferente de tudo o que Helena imaginava. Não foi desesperadora. Não foi fácil. Foi… deles.
Ela dormiu em pedaços curtos, leves. A cada barulhinho do filho, seus olhos se abriam em alerta. Às vezes, ele choramingava de fome. Outras, se contorcia com a fralda molhada. Mas quase sempre, dormia profundamente, afundado contra o calor do colo dela — pele na pele, o corpinho ainda tentando entender que estava fora do ventre. Heitor esperava o apocalipse — gritos, desespero, olhos ardendo de sono — mas foi surpreendido pela paz que Humberto parecia trazer ao simplesmente se aconchegar na pele da mãe.
Heitor, claro, não quis ficar de fora. De algum jeito absurdo, ele deu um jeito de se espremer na cama hospitalar com ela e o bebê. Helena nem discutiu. Apenas sentiu o conforto daquele corpo conhecido atrás do seu, a respiração dele se misturando à sua e à de Humberto. Aquilo, ela pensou, era a sua família. Eles já estavam tão acostumados a estarem juntos em uma cama hospitalar, que mesmo em três, aquele encaixe parecia ser o mais correto.
Na manhã seguinte, Helena acordou com a lombar doída, os seios sensíveis e uma emoção tão bruta que parecia explodir em qualquer gesto mais gentil. E Heitor… foi gentileza pura. Recusou ajuda das enfermeiras para ajudá-la a tomar banho, como se dissesse: você é minha, é minha honra cuidar de você.
Ela se sentiu segura nos braços dele. Apoiada. Enquanto ele massageava os cabelos dela como shampoo, Helena pensava que fez a melhor escolha de homem possível. Amava Heitor e se sentia amada por ela.
Haviam combinado que o primeiro banho de Humberto seria em casa — “o momento especial papai e bebê”, como Heitor fez questão de nomear. Ele tinha lido não se sabe onde que o vínculo pai e filho se fortalecia com esse ritual no chuveiro. Mas quando as enfermeiras apareceram com a banheira neonatal, Helena aproveitou a oportunidade e sugeriu que Heitor mostrasse as habilidades dele, porque ela “queria se exibir” do noivo dela ser excelente nisso, Heitor não pensou duas vezes, queria se mostrar para Helena. Assistiu, participou, aprendeu e fez.
O primeiro banho aconteceu ali mesmo, na banheira da maternidade. Humberto não gostou nem um pouco. Gritou como se o mundo tivesse acabado. Heitor parecia uma estátua nervosa, tentando manter a calma. Helena gravou tudo, é claro, tentando não rir alto enquanto registrava os dois descobrindo juntos que paternidade não era tão glamourosa quanto o Instagram fazia parecer.
Foi ali que descobriram o primeiro grande aliado: a chupeta. Pequenina, silenciosa, quase milagrosa. Humberto agarrou nela como se fosse uma extensão da sua vontade de paz.
Tomaram café juntos. Ele devorando os croissants amanteigados, ela tentando não enjoar do suco natural prensado a frio. Depois, Heitor voltou do banho vestindo uma camiseta azul da Ralph Lauren com estampa de ursinho— idêntica à do macacão de Humberto. Helena tirou uma foto, rindo. Ele fingia modéstia, mas estava claramente todo exibido.
Mais tarde, depois do bebê mamar, Heitor colocou o filho no Moisés e se deitou com ela de novo. Helena estava com o celular dele nas mãos, lendo a homenagem que ele tinha postado no dia anterior. As palavras dele tinham algo de simples, mas profundamente verdadeiro.
E, como tudo ultimamente, a fizeram chorar.
— Que lindo, amor… eu amei — disse, os olhos marejados. Ela odiava chorar, mas ultimamente as lágrimas vinham como visitantes famintas, sem pedir licença. Os hormônios estavam acabando com ela.
Heitor sorriu, aquele sorriso idiota que ela já conhecia bem.
— Você merece, gatinha. — Ele beijou o nariz dela. — Aquela foto sua com o Humberto ficou perfeita. Vou mandar fazer um quadro pra pendurar na minha sala.
Helena sorriu, com a alma inteira.
Mas aí veio a parte que ela deveria ter previsto: Heitor com seu ar de mistério, clicando na lupa do Instagram e dizendo um animado:
— Tcharam!
Na tela, uma página de fofocas tinha postado fotos deles. Uma só de Humberto. Outra dos três. E a legenda: "Nasceu! Filho de Heitor e Helena é a coisa mais fofa do mundo."
Helena travou.
— Eles pegaram fotos do nosso filho?
— Não, Helê. Fui eu que paguei. — Ele respondeu todo orgulhoso. — Queria apresentar o Humberto pro mundo.
Ela sentou na cama, os olhos indo direto pro canto do quarto: flores, balões, cestas, embrulhos. Um caminhão de presentes que receberam pelo nascimento do filho.
— Heitor… isso é perigoso. Você devia ter esperado a gente sair da maternidade.
— Helê, os famosos fazem isso toda hora. Relaxa. — ele disse com aquele sotaque puxado.
Ela cruzou os braços.
— Não sou celebridade. E tem muita gente invejosa. Precisamos benzer o Humberto. Agora.
— Amor… se fosse por isso, não existiria rede social. Eu estou feliz e quero mostrar para todo mundo. E olha, se eu pudesse, colocava ele em propaganda de sabonete, Spotify, Youtube… ele é a coisa mais linda que eu já vi. Depois de você, é claro.
Helena revirou os olhos.
— Você é ridículo.
— E pai do seu filho.
Ela segurou o riso, como sempre. A verdade é que, apesar de ser exibido, Heitor era um pai presente, orgulhoso e inteiro. Estava tão visivelmente apaixonado por ela quanto pelo filho. E mesmo que Helena preferisse discrição, após todo esse tempo de relacionamento, ela aprendeu a conviver com esse lado do noivo.
Pegou o celular de volta e rolou até o perfil dele.
A foto era dos dois.
A bio:
“Cheguei onde queria.
Fiquei com quem amo.
Pai do Humberto. Noivo da Helena (@helena_rbc).
📍RJ ↔ família.”
Um sorriso escapou antes que ela pudesse esconder.
— Desde quando nos conhecemos… você mudou muito. — comentou, com a voz baixa.
Heitor franziu o cenho.
— Eu? Pra mim quem mudou foi você. Já fui tão maltratado, e agora tô aqui… finalmente sendo amado.
— Você é um idiota.
Ele se aproximou e a beijou com calma. Com intenção. Com aquele jeito só dele.
— Quando te pedi em casamento… eu disse que você me fazia querer ser melhor. E isso é verdade. — Encostou a testa na dela. — Além disso, a gente já mora junto faz tempo. Já me adaptei a essa personalidade teimosa sua.
— Para de dizer que eu sou teimosa — ela respondeu, o rosto corado, a voz fingindo raiva.
— Tá bom, minha gata obstinada.
Ela mordeu o lábio para não rir. Ele a beijou de novo.
No Moisés, Humberto suspirou alto, como se estivesse se metendo na conversa. Helena olhou para ele, o pequeno corpo envolto na manta branca. Seus olhos se encheram de novo.
Helena se aninhou no noivo, colocou o rosto no pescoço dele, queria sentir o cheiro dele. Heitor, acariciava as costas dela, enquanto isso, Humberto dormia como um anjo, e Heitor parecia tão encantado quanto ela. Era um momento único — íntimo, intenso, e só deles.
Por isso, quando a porta do quarto se abriu, Helena imediatamente sentiu o corpo enrijecer.
Não era uma das enfermeiras do quarto. Ela sabia disso antes mesmo da mulher falar qualquer coisa. O hospital, de padrão altíssimo, tinha um aplicativo exclusivo que mostrava todas as escalas — fotos, nomes, especialidades. E, além disso, eles tinham uma enfermeira particular contratada à parte. Nada ali era aleatório. A presença daquela mulher, sem aviso, quebrava o protocolo.
Heitor se ergueu quase ao mesmo tempo, o olhar afiado, a expressão que ele usava em reuniões importantes, quando sabia que algo estava fora do lugar.
— Posso ajudá-la? — ele perguntou com a voz educada, mas firme. Aquela firmeza que Helena respeitava e, mais do que isso, admirava.
Helena sentiu um leve arrepio. A intuição dela já havia dado sinal. E pelo semblante do noivo, ele também não gostou nem um pouco.
— Bom dia, mãe e pai! Parabéns pelo bebezinho de vocês. — a mulher disse com um sorriso largo demais para parecer espontâneo. — Senhor Heitor, o nosso supervisor pediu para lhe chamar.
O semblante dele endureceu no mesmo instante.
— Diga a ele que qualquer questão administrativa pode ser enviada para o meu escritório. Minha secretária está autorizada a resolver. E ele sabe disso. Se for algo fora da alçada dela, ela me aciona — respondeu com firmeza, em um tom que encerrava a conversa.
— Não seria sobre isso, senhor… — a enfermeira tentou continuar.
— Não me interessa sobre o que seja. — Heitor cortou, sem elevar a voz, mas deixando claro que não gostava da intromissão. — Estou com minha noiva e meu filho. Não pretendo sair de perto deles.
Helena sentiu o peito apertar.
Aquilo era estranho demais. Se não era administrativo, se não era algo de rotina, por que estavam pedindo pela presença de Heitor?
Seu olhar imediatamente voou para o berço.
— Tem algum problema? Algo com o Humberto? — ela perguntou, tentando manter a calma, mas a voz já soava mais tensa do que gostaria.
A mulher balançou as mãos, como se quisesse dissipar o ar pesado.
— Não, não! Imagina! O Humberto está ótimo. É que… ele é um bebê muito fotogênico. E extremamente fofinho! Sabe, bebês de parto normal normalmente nascem com o rostinho mais inchado, mas ele… nossa, ele já está perfeito. — ela disse com entusiasmo. — Por isso gostaríamos de tirar algumas fotos dele para colocar no site da maternidade e talvez até nos vinis dos corredores. Um dos nossos destaques!
Por alguns segundos, Helena ficou em silêncio. O coração ainda desacelerando.
Houve um silêncio. E então, como se alguém tivesse girado um botão, o clima no quarto mudou.
Era só isso.
Ela soltou o ar devagar e relaxou os ombros, olhou para Heitor, que agora começava a exibir um sorriso orgulhoso, quase bobo. A tensão cedeu espaço a uma alegria genuína. Eram pais apaixonados de primeira viagem.
— Que fofinho! — ela disse, a expressão aliviada se transformando em entusiasmo. — Heitor, por favor, eu vou adorar saber que tem uma foto do Humberto estampada no corredor da maternidade!
Ele passou a mão pelos cabelos, com aquele charme todo dele.
— Bom, realmente o Humbertinho é muito fotogênico. Sempre foi expressivo, desde a barriga, né amor?
Helena assentiu, rindo.
— Você se importa se eu for rapidinho? — ele se aproximou e passou os dedos pelos cabelos dela com carinho, dando um beijo suave na testa.
— De jeito nenhum. Mal posso esperar pra contar pra nossa família, eles vão ficar todos babões!
— Verdade. Acho que minha mãe não vai se aguentar de orgulho. — Ele se levantou, animado. — Eu vou lá, volto logo. Qualquer coisa, chama a nossa enfermeira pelo WhatsApp ou aperta o botão para a da maternidade vir.
— Tá bem. Ah, leva o seu celular. — Ela estendeu o aparelho.
Heitor pegou, foi até a escrivaninha ao lado e tirou o celular dela do carregador, o entregando na mão dela.
— Amor, você ainda tá com o corpo bem cansado. Não tenta fazer nada sozinha, tá?
— Tá bem — respondeu, com um sorriso pequeno, mas sincero.
Heitor deu um beijo no filho que dormia no berço, quando foi sair, deu uma piscadela para Helena, que retribuiu com outra. E depois saiu do quarto.
O silêncio voltou, mas agora era leve. Helena voltou os olhos para Humberto. Dormia tranquilo, a boquinha fazendo aquele som suave de sucção, como se sonhasse com o peito da mãe. Estava sem a chupeta, e mesmo assim parecia satisfeito.
Helena sorriu.
Pegou o celular e tirou uma foto. Entrou na conversa com Heitor e ficou vendo as imagens que a fotógrafa havia enviado. Uma mais linda que a outra. Ela estava inchada, sim. O corpo ainda doía. Mas… de algum jeito, ela se achava bonita. Uma beleza diferente. Plena. A maternidade havia feito isso com ela.
Abriu o WhatsApp.
Muitas mensagens. Parabéns. Emojis. Perguntas.
Mas foi o nome “Lorena” que fez seu peito apertar.
Ela olhou para Humberto e, por um instante, se sentiu duas pessoas ao mesmo tempo. Uma que queria manter a mãe longe — longe de tudo, inclusive do neto. E outra, que queria que Lorena visse o menino crescer. Que o acompanhasse, que presenciasse o tipo de mãe que Helena escolheu ser. Melhor. Presente. Uma mãe que ela não teve.
Isso não redimiria o passado. Ela sabia. Nem traria de volta os anos perdidos. Mas talvez, só talvez, colocasse fim no medo constante de se tornar igual.
Helena suspirou. Longo. Silencioso.
Lorena sempre a levaria de volta para lugares que ela tentava deixar enterrados. Mesmo com a terapia — ou talvez por causa dela — Helena sabia que o caminho da cura era um percurso em círculos. Longo. Dolorido. E necessário.
Ela se levantou e foi até Humberto, sentia dor quando levantava ou se mexia, ficou sabendo depois que teve que levar alguns pontos em sua parte íntima.
Puxou a manta do bebê até os ombros dele, ajeitou o travesseirinho antirrefluxo e ficou ali, observando. O nariz dele era seu. Mas o resto… era todo do pai.
E talvez isso fosse o mais bonito de tudo.
— Você é o melhor pedaço de mim, Humberto — murmurou baixinho, só para ele ouvir.
E mesmo dormindo, o bebê mexeu os lábios como se respondesse.
Helena sorriu, passou a mão pelos cabelos dele e deu um beijo na testa dele.
Voltou para a cama, Helena aproveitou aquele breve momento de paz para pegar o celular. A tela se acendeu com uma nova mensagem.
Oséias:
Bom diaa!! Como passou a noite com o bebezinho?
Ela sorriu de canto, já imaginando a entonação brincalhona dele. Digitou com agilidade, mas os dedos estavam mais lentos do que o habitual — culpa das horas mal dormidas e da exaustão do parto.
Helena:
Bom diia! Foi boa, ele acordou várias vezes durante a madrugada, o pessoal não brinca quando diz que os bebês dão trabalho a noite inteira.
A resposta veio quase instantânea.
Oséias:
O doutor Heitor deve estar exalando felicidade. Vi as fotos no perfil dele, o bebê é muito fofo.
Helena riu sozinha, baixinho, com os olhos voltando um segundo para Humberto, rosadinho ainda, com os punhos cerrados em cima do cobertor leve.
Helena:
Heitor tá super babão, bem mais do que imaginei 😅
Oséias:
Eu queria saber se posso ir no horário de visita ver o bebezinho e a senhora.
Helena:
Claro que pode! Eu estranhei você não ter vindo ontem.
Oséias:
É que eu tive que ficar de olho, a maternidade é excelente, mas o doutor Heitor achou melhor eu ficar de butuca e eu penso o mesmo que ele.
Helena suspirou. Ela sabia que Heitor era protetor, às vezes até em excesso. Mas não discutia. A verdade é que, com toda a exposição, era melhor prevenir. Ainda assim, ela não deixava de achar engraçada a forma como Oséias falava disso, como se fosse um espião veterano.
Helena:
Você dentro ou fora do hospital dá na mesma. Só esteja aqui no horário da visita, eu já havia deixado você liberado na recepção.
Oséias:
Comprei um presente para o bebezinho, fui lá hoje cedo buscar.
Helena:
tô doida para ver 😊
Oséias:
Até logo, senhora Monteiro.
Ao ler a última mensagem, Helena revirou os olhos com um sorrisinho inevitável. Senhora Monteiro. Ele estava viciado nisso. Desde que o noivado se tornou público — e o anel passou a brilhar em sua mão — Oséias não perdia a chance de chamá-la assim. Nem mesmo quando ela franzia o cenho. E para falar a verdade… ela adorava.
Não que Helena fosse o tipo romântica idealizada — ela tinha o pé no chão, e sempre teve. Mas havia algo naquele título que ecoava fundo. Não era só o reconhecimento social, ou a importância do nome. Era o pertencimento. Um sentimento novo, quase estranho… mas real.
Ela ainda se acostumava com tudo: com o bebê que agora dependia dela para viver, com o homem que a olhava como se ela fosse o eixo de todo o universo, com o amor desmedido que nascia todos os dias por Humberto — e agora por si mesma também. Porque, pela primeira vez, ela não se sentia deslocada. Era parte daquilo. Não como consequência, mas como escolha.
Helena olhou novamente para o bercinho. O filho se mexeu de leve, a boquinha entreaberta num suspiro sonolento. Ela apoiou a cabeça no travesseiro, os olhos ainda na tela do celular, sentindo-se cansada… mas completa.
Senhora Monteiro, repetiu mentalmente.
E sorriu sozinha.
Helena deslizou o dedo pela lateral da pulseira eletrônica presa ao seu pulso, clicando no visor pequeno e azul-claro. O nome que surgiu ali a fez parar por um segundo, como se estivesse vendo não apenas letras, mas tudo o que representavam:
HELENA RIBEIRO CAMPOS
RN: HUMBERTO CAMPOS MONTEIRO
Seus olhos ficaram fixos no “CAMPOS MONTEIRO”. Um sorriso contido surgiu nos lábios, carregado de ternura e um traço de surpresa. O bebê carregava o sobrenome do pai… e o dela também. Era uma linha que unia o passado com o futuro — o que ela foi, o que queria ser e, finalmente, o que estava construindo com Heitor.
A ideia de incluir “Campos” no nome de Humberto tinha sido um desejo silencioso. Parte de Helena temia que Heitor não fosse gostar. Ele sempre se referia ao bebê como "Humberto Monteiro", com orgulho, com a firmeza de quem carregava um legado — e ela entendia aquilo, respeitava. Mas ainda assim, ela desejava deixar algo seu no nome do filho. Não o “Ribeiro” herdado por obrigação. Era o “Campos” que ela havia resgatado, reconstruído, redefinido. O sobrenome do pai e do seu avô.
Quando comentou com Heitor, meio sem jeito, ele a surpreendeu. Não apenas concordou, ele gostou. E gostou de verdade. Brincou que o nome ficava mais forte assim, que “Campos Monteiro” soava como alguém importante. E então, como quem deixava escapar uma pergunta que guardava há muito tempo, ele emendou:
— E você… vai querer ser Helena Campos Monteiro também?
Helena ficou muda por uns segundos. Toda vermelha. Nem soube o que responder na hora, mas a resposta estava no brilho dos olhos dela. Sim. Ela queria. Ela seria.
Quando se casassem, deixaria para trás de vez aquele sobrenome que nunca lhe coube. Não haveria mais vestígios da mulher que a colocou no mundo, mas não ficou. Helena se tornaria oficialmente quem sempre foi por dentro: a mulher de Heitor, a mãe de Humberto, uma Monteiro por amor, não por sangue.
Segurando o visor da pulseira por mais um instante, Helena respirou fundo. O coração apertou de leve. Aquela identidade simples, escrita em uma pequena tela, era o símbolo de tudo o que ela lutou para construir. E pela primeira vez na vida… ela sentia que pertencia.
Helena ouviu a porta se abrir.
Virou o rosto por reflexo — e no instante seguinte sentiu o estômago afundar, como se o chão tivesse desaparecido sob seus pés. Seus olhos se arregalaram, o ar travou nos pulmões e o corpo inteiro respondeu antes da mente: congelou.
Era Antônio Fortenelle.
O pânico veio seco, imediato e brutal. Um pânico antigo, conhecido, que não precisava ser explicado. O mesmo homem que já havia destruído sua paz, que havia ferido Heitor, que a expôs publicamente, que ousou questionar a paternidade do seu filho. O mesmo homem que agora estava ali. Ali. No quarto da maternidade.
Helena não conseguiu se mover. Mas algo dentro dela funcionava em alerta absoluto. Seus olhos desceram sozinhos, procurando desesperadamente o botão de emergência da cama, o chamado da enfermeira, qualquer coisa que interrompesse aquilo.
Antes que conseguisse esticar a mão, a voz dele veio baixa, controlada — e assustadoramente segura:
— Helena… você é esperta demais pra isso.
O coração dela disparou. O sangue pareceu martelar nos ouvidos. O medo se transformou em pavor quando ela percebeu o movimento calculado dele: Antônio levou as mãos à cintura e, propositalmente, ergueu a jaqueta o suficiente para expor a pistola presa ao coldre.
Helena sentiu os olhos arderem.
— Eu vim conversar com você. Só isso — ele disse, como se estivesse falando de algo banal. — Mas se o Monteiro entrar nessa sala enquanto eu estiver aqui… eu meto uma bala na cabeça dele.
O mundo pareceu se fechar.
Os olhos de Helena se encheram de lágrimas que ela mal conseguiu conter. Um nó se formou na garganta, pesado demais para engolir. O medo por Heitor foi tão intenso quanto o medo pelo filho. Pela primeira vez desde o parto, ela sentiu o verdadeiro terror de perder tudo de uma vez.
Antônio percebeu.
O semblante dele mudou. A rigidez cedeu lugar a algo que imitava preocupação. Ele deu um passo à frente, o tom suavizando.
— Ei… não chora. Eu não vou machucar você. Nunca machucaria você.
Ele estendeu a mão, como se fosse tocá-la, como se tivesse esse direito.
— Não! — a voz dela saiu fraca, trêmula, quase quebrada. — Não… não me toque!
Helena estava tão aterrorizada que mal conseguia se mexer, mas a repulsa foi mais forte que o medo. Antônio pareceu genuinamente ferido com a reação dela, como se aquilo fosse injusto.
— Eu só quero conversar — insistiu. — Quando terminarmos, eu vou embora. Prometo. Mas é melhor a gente começar logo. O Monteiro pode voltar a qualquer momento.
Então o olhar dele caiu.
Desceu lentamente até o moisés ao lado da cama.
Até Humberto.
O mundo de Helena entrou em alerta máximo.
Num impulso que ela não soube de onde veio — talvez do instinto mais antigo que existia dentro dela —, Helena se sentou na cama e se colocou imediatamente à frente do berço, bloqueando a visão dele.
— Antônio… meu filho, não.
A voz saiu firme. Muito mais firme do que ela achava possível naquele estado. Era a voz de uma mãe. Uma força que ela nunca tinha sentido antes, mas que agora sabia que existia.
— Meu filho, não — repetiu.
Antônio suspirou, impaciente.
— Eu não sou um monstro, Helena.
Ela não respondeu. Não acreditava. Não depois de tudo.
Ele puxou uma cadeira e se sentou, olhando ao redor do quarto como se estivesse em uma visita comum.
— O quarto é bonito… — comentou. Então pegou algumas caixas e as colocou sobre a cama. — Comprei um presente pra vocês.
Helena sentiu náusea.
— Você foi incrível — ele continuou, ignorando o silêncio dela. — Carregou uma criança por nove meses, deu à luz rápido… disseram que foi doloroso. Você está bem?
O tom parecia genuíno. E isso, de alguma forma, era ainda mais perturbador.
Helena respirou fundo. O pânico inicial começou a ceder um pouco, dando lugar a algo mais frio. Mais controlado.
— O que você quer de mim? — perguntou, a voz baixa, tensa. — Vá embora, por favor. Eu não vou dizer a ninguém que você esteve aqui.
Antônio abaixou o olhar por um instante, depois voltou a encará-la.
— Eu já disse. Quero conversar.
Ele sorriu.
E aquele sorriso enojou Helena.
— Eu sempre soube — continuou — que você não gosta tanto assim do Monteiro. Se gostasse, não estaríamos conversando desse jeito, como se ele não fosse voltar à qualquer momento.
A raiva subiu quente pelas veias dela.
— Vamos acabar logo com essa conversa — disse Helena, forçando controle. O medo por Humberto e por Heitor ainda era enorme, esmagador. Mas ela sabia: não estava em posição de escolha.
Antônio passou a mão no rosto, como se estivesse reunindo coragem.
— Helena… eu sou apaixonado por você.
O choque foi imediato. A incredulidade veio primeiro. Depois, a raiva. Um absurdo tão grande que quase abafou o medo.
Ela respirou fundo. Teve vontade de rir. Não riu.
— Entendi — foi tudo o que disse.
Antônio franziu o cenho, claramente frustrado.
— Como assim “entendi”?
— Ué. Entendi — respondeu, seca. — O que você quer que eu diga? Parabéns?
— O que você sente por mim? — ele perguntou, levantando-se de repente.
Helena se levantou também. Antônio era tão alto quanto Heitor. Mesmo abatido, ela sabia que ele era muito mais forte do que ela.
— Eu sinto medo — ela disse, a voz agora firme, sem filtro. — E raiva. Você feriu gravemente o Heitor. Me humilhou em público. Mentiu. E agora entrou armado num hospital onde eu estou com meu filho, ameaçando matar o homem que eu amo.
Antônio pareceu ofendido.
— Não! — rebateu. — Me diz o que você sentiu quando trabalhamos juntos. Quando deixou o Monteiro no restaurante e saiu comigo.
— Eu não senti nada por você! — Helena respondeu, incrédula. — Nunca senti. Você é maluco? Independentemente de brigas ou discussões, eu e o Heitor somos um casal. Eu sempre vou voltar pra ele.
O ataque foi rápido.
Num súbito, Antônio avançou e segurou os braços dela com força. Helena gemeu de dor.
— Você mente! — ele rosnou. — Eu sei que tinha algo especial!
— Antônio, você está me machucando! — ela disse, sentindo a dor subir pelos braços. — Você disse que não ia me machucar!
Ele a soltou imediatamente.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Denso. Carregado de tudo o que poderia dar errado a qualquer segundo.
Helena não chorou.
Mas por dentro, tudo tremia.
O silêncio não durou muito.
Antônio recuou um passo, como se o gesto de soltá‑la tivesse sido um erro que ele já se arrependia de cometer. Passou a mão pelos cabelos, respirou fundo, e quando voltou a falar, a voz estava mais baixa — perigosa justamente por isso.
— Você fala como se fosse simples — disse ele, por fim. — Como se sentimentos obedecessem regras.
Helena manteve o corpo rígido, ainda posicionada de forma instintiva entre ele e o berço. O coração batia forte, mas o rosto permanecia sério. Ela o encarava, aquilo absurdo demais para ser real. Sentia os braços arderem onde ele a havia segurado, mas não se permitiu demonstrar dor. Não ali. Não agora.
— Não existe sentimento aqui — respondeu. — O que existe é ameaça, invasão e medo.
Antônio balançou a cabeça devagar, um gesto quase triste.
— Não… — murmurou. — Existe negação.
Ele deu dois passos pelo quarto, inquieto, passando a mão no rosto.
— Você acha mesmo que tudo isso nasceu do nada? — perguntou. — Que eu acordei um dia e decidi te amar por capricho?
Helena franziu o cenho, incrédula.
— Amar? — repetiu, com um riso curto, seco. — Você chama isso de amor?
— Eu penso em você o tempo todo — ele continuou, ignorando a pergunta. — Eu lembro de cada conversa. Cada olhar. Cada vez que você ria comigo como se… — ele parou, respirou fundo — …como se fosse comigo que você era você mesma.
Ela sentiu um arrepio subir pela espinha. Não de emoção. De repulsa.
— Isso está na sua cabeça — disse. — Você construiu uma história sozinho.
— Não construi nada! — Antônio rebateu, a voz subindo um pouco. — Você me ouviu. Você confiou em mim. Você se abriu comigo de um jeito que não se abria com ele.
— Eu estava trabalhando — Helena respondeu, firme. — Eu estava sendo educada. Gentil. Nada além disso.
Ele riu, um riso desacreditado.
— Você acha que eu não sei diferenciar isso? — perguntou. — Eu vi quando você hesitava. Quando ficava em silêncio. Quando parecia querer ficar.
— Eu nunca quis você — Helena disse, cada palavra dura. — Nunca.
Antônio parou na frente dela.
— Então por que você está tremendo? — questionou, apontando para as mãos dela.
Helena olhou para os próprios dedos, levemente trêmulos. Engoliu em seco.
— Porque você está armado — respondeu. — Porque você invadiu um hospital. Porque você ameaça matar o pai do meu filho.
— Não — ele disse, se aproximando um pouco mais. — Você está tremendo porque sabe que existe algo que você nunca deixou acontecer.
A incredulidade tomou conta do rosto dela.
— Você está ouvindo a si mesmo? — perguntou. — Eu acabei de dar à luz. Meu filho está aqui. E você acha que isso é sobre nós?
— É justamente por isso — ele respondeu, com convicção perturbadora. — Você não está pensando com clareza, Helena — continuou ele, aproximando‑se apenas o suficiente para invadir o espaço dela. — Você mesma disse, acabou de dar à luz, está sensível, cheia de hormônios… é normal negar o que sente. Além disso você acabou escolhendo o primeiro homem que te trazia algum tipo de estabilidade. O caminho mais fácil para uma mulher na sua posição.
A raiva subiu quente no peito de Helena.
— Não ouse reduzir minha vida a isso.
— Então me explica — insistiu ele — por que você nunca me cortou de verdade. Por que nunca foi dura comigo. Por que sempre deixou a porta entreaberta.
Ela deu um passo à frente, os olhos faiscando.
— Porque eu não imaginava que você fosse capaz disso — disse. — Porque eu nunca pensei que você confundiria educação com permissão. Gentileza com desejo.
Antônio ficou em silêncio por um instante.
— Eu te amo, Helena — disse de novo, mais baixo. — Amo de um jeito que não dá pra desligar. Eu achei que, se você soubesse… se eu dissesse…
Ela o encarou como se estivesse diante de algo irreconhecível.
— Você achou que eu ia te amar de volta? — perguntou, atônita. — Depois de tudo?
— Eu achei que você fosse lembrar — respondeu ele. — Do que a gente tinha.
— A gente nunca teve nada.
A frase saiu limpa. Definitiva.
Antônio fechou os olhos por um segundo, como se aquilo doesse fisicamente.
— Você está mentindo pra si mesma — murmurou.
Helena respirou fundo, sentindo o peso do momento, o perigo real, o absurdo de tudo aquilo.
— Não — disse, com uma firmeza fria. — Quem está mentindo é você. Para justificar algo que nunca existiu.
Antônio a encarou por alguns segundos, como se estivesse organizando um pensamento que só fazia sentido dentro da própria cabeça.
— Você fala isso porque nunca me provou — disse, com convicção doentia. — Porque nunca deixou acontecer.
Os olhos de Helena se arregalaram.
— Você está se ouvindo? — perguntou, a voz saindo mais alta do que pretendia, carregada de incredulidade. — Isso é insano.
O que veio depois foi rápido demais.
Antônio avançou.
Antes que Helena conseguisse reagir, ele a empurrou para trás, fazendo-a cair sentada — e em seguida deitada — sobre a cama. O colchão afundou sob o peso dos dois. O ar saiu dos pulmões dela num golpe seco.
— Não faz isso — ela pediu, o pânico subindo pela garganta. — Antônio, para. Não faz isso.
Ela virou o rosto para baixo, tentando se esquivar. O cheiro dele, a proximidade, tudo a fazia querer vomitar. Mas ele segurou seu maxilar com força, os dedos pressionando a pele sensível, e forçou o rosto dela para cima.
Helena estava fraca. O corpo ainda doía do parto, cada movimento era um esforço. Mesmo assim, ela tentou se defender. As unhas curtas arranharam o braço dele, sem força suficiente para machucar de verdade.
Antônio prendeu uma das mãos dela acima da cabeça.
Num impulso desesperado, Helena levou a outra mão até a orelha dele, enfiou o dedo e pressionou com força.
O grito veio rouco, furioso.
— Sua desgraçada!
Ele se afastou um pouco, os olhos incendiados de ódio.
— A culpa não é só do Monteiro — rosnou. — É daquela criança também.
O mundo de Helena parou.
— Não — ela disse, num sussurro aterrorizado.
Antônio esticou o braço e inclinou o corpo, tentando alcançar o moisés.
Helena reagiu sem pensar.
Ela se lançou contra ele, envolvendo-o num abraço desajeitado por baixo, tentando contê-lo com o próprio corpo.
— Me desculpa — disse rápido, a voz quebrada. — Me desculpa… eu faço o que você quiser. Eu faço.
Ele parou.
Ela sentiu o corpo dele tensionar.
— Eu acabei de dar à luz — continuou, atropelando as palavras, o desespero tomando conta. — Eu estou costurada. Os médicos disseram… seis semanas. Eu não posso… eu não consigo agora.
Antônio a olhou com desprezo e fúria misturados.
— Quero ver.
Os olhos de Helena se encheram de lágrimas, mas ela não deixou que caíssem. Não ali. Não agora.
Então o celular dela apitou.
Um som curto, específico.
O toque que ela tinha colocado apenas para Heitor.
O coração de Helena disparou de um jeito quase doloroso.
Antônio estava armado. O filho dela estava ali. Heitor podia voltar a qualquer momento.
Ela precisava tirá-lo daquele quarto.
Os olhos dela desceram para o próprio braço.
Para a pulseira eletrônica da maternidade.
E então, uma ideia surgiu — frágil, arriscada, mas a única que ela tinha.
— Antônio… — chamou, com a voz propositalmente mais baixa. — A gente pode sair daqui?
Ele franziu a testa.
— Como assim?
— Acho que vamos conversar melhor fora — disse, escolhendo cada palavra com cuidado. — Aqui… aqui não está bom pra mim.
— Por quê?
— Porque eu não estou confortável — respondeu, simples. — Eu preciso de ar.
Ele não parecia convencido.
Nesse instante, Humberto começou a chorar.
O som cortou o ar como uma lâmina.
Antônio desviou o olhar por um segundo — e foi o suficiente.
Helena o puxou e o beijou.
O nojo foi imediato. O corpo inteiro rejeitou. Mas o desespero era maior que qualquer repulsa.
Quando o beijo terminou, Antônio sorriu.
— Viu? — disse, satisfeito. — Era disso que eu estava falando.
— Por favor — ela pediu, quase sem voz. — Vamos sair daqui.
Ele se levantou, finalmente, o humor transformado.
— Vamos.
Antônio saiu de cima dela.
Helena ficou sentada na cama por um segundo, tremendo de medo e de raiva, tentando recuperar o controle do próprio corpo.
Ela se levantou devagar.
Antônio a abraçou.
Helena sentiu náusea, o estômago revirar. Mesmo assim, retribuiu o abraço, mantendo a farsa.
Ele a soltou e passou a mão pelo rosto dela.
— Você fez a escolha certa — disse, convicto.
Helena se afastou um passo.
— Só vou me despedir do meu filho.
Ela foi até o moisés e pegou Humberto no colo, tentando acalmá-lo. As mãos tremiam, mas o gesto era firme. Ela já tinha sobrevivido a muita coisa na vida. Ser forte ali era uma das coisas mais difíceis que já tinha feito.
Humberto abriu os olhinhos azuis e parou de chorar.
— A mamãe estava com saudade de ver esses olhinhos — ela sussurrou, sorrindo com os lábios, enquanto o coração se despedaçava.
— Seja rápida — Antônio avisou.
— A mamãe já volta — ela disse ao bebê, engolindo o choro. — Você vai ter que ser bonzinho só um pouquinho.
Ela o voltou para o Moisés, ele fechou os olhinhos, parecia ter se acalmado. Helena fez carinho no rostinho dele, colocou a naninha perto do corpo pequeno, ofereceu a chupeta.
Por dentro, rezava.
Para a Virgem Maria. Para todos os anjos. Para Deus.
Que protegessem seu filho.
Que Heitor não aparecesse agora.
Que ela tivesse uma chance.
Helena se virou.
Antônio sorria, um sorriso largo demais, fora do lugar.
Ele pegou a mão dela e entrelaçou os dedos.
A pele dela ardeu ao toque, como se fosse uma reação alérgica violenta.
— Vamos — disse ele.
Helena olhou uma última vez para Humberto antes de seguir.
Vestiu o robe longo verde com mãos trêmulas. O tecido escorregou pelo corpo ainda sensível, e ao amarrar a faixa na cintura sentiu a fisgada conhecida — um lembrete cruel de que tinha dado à luz ontem. Cada movimento doía. Mas ela não podia demonstrar isso agora.
— Posso sair primeiro? — pediu, a voz baixa, contida.
Antônio assentiu de imediato, satisfeito demais, como se aquilo fosse um gesto de confiança entre os dois.
Helena caminhou até a porta sentindo o coração bater tão forte que parecia querer sair pela garganta. Girou a maçaneta devagar, quase em câmera lenta, e antes de abrir fez uma prece muda — desesperada — para que Heitor não estivesse no corredor.
Quando a porta se abriu, o corredor estava vazio, estranhamente vazio.
Graças a Deus.
Ela saiu primeiro. Antônio veio logo atrás.
O silêncio da maternidade de luxo era quase ofensivo. Tudo limpo, claro, organizado. Um lugar feito para segurança, cuidado, proteção. E ainda assim, ninguém via.
A mão dele deslizou pela cintura dela, possessiva, quente demais. Helena sentiu o corpo reagir imediatamente: um calor súbito, um aperto no peito, a respiração falhando. O ar ficou pesado. Não era hora para uma crise pós-parto, mas o corpo dela não pediu permissão.
Antônio a puxou em direção à escada.
No primeiro lance, Helena tentou manter o controle. No segundo, Helena sentiu algo escorrer pela parte interna da coxa. Seu coração disparou, mas ela já sabia: era sangue. Olhou de relance. Confirmado.
A tontura veio forte. A vista embaçou.
— Espera… — murmurou, a voz falhando.
Ela se abaixou, segurando o corrimão com força, sentindo a pressão despencar. O mundo girava. Não conseguia puxar o ar direito.
Antônio se agachou à frente dela, o semblante subitamente preocupado.
— Ei… calma. Você vai ficar bem — disse, tocando o rosto dela. — A gente vai pra casa. Lá você vai descansar. Vai ser cuidada.
Antes que Helena conseguisse reagir, ele se inclinou e a beijou.
Foi rápido. Invasivo. Errado.
O corpo dela travou por um segundo — curto, mas suficiente para o nojo subir violento. Ela tinha chegado no seu limite. Helena o empurrou com a pouca força que tinha e virou o rosto, levando a mão à boca. O estômago se contraiu com violência.
Ela vomitou ali mesmo, no chão da escada.
O corpo todo tremia.
Antônio se afastou, surpreso, mas não ofendido.
— Calma… calma — disse, quase gentil. — É o seu corpo. Você ainda tá muito mal.
Ele passou a mão pelos cabelos dela, como se fosse um gesto de cuidado.
— O Monteiro fez isso com você — continuou, convicto. — Olha o estado que você ficou. Ele te desgastou. Te machucou.
Helena sentiu uma nova ânsia subir. O estômago se contorceu de novo, violento, mas não saiu nada. Só o gosto amargo na boca. Só o nojo.
— Você não precisa se preocupar comigo — Antônio dizia, a voz baixa, íntima demais. — Eu nunca iria te machucar daquele jeito.
Ele se inclinou, falando próximo demais do ouvido dela.
— Quando você melhorar… quando quiser… eu vou te satisfazer como o Monteiro nunca conseguiu. Vai saber o que é ter um homem de verdade.
As palavras caíram sobre Helena como uma agressão física.
O corpo dela reagiu antes da mente. Outra onda de náusea, mais forte, mais profunda. O estômago se contraiu de novo, mas já não havia nada para sair. Apenas dor. Apenas repulsa.
Antônio pareceu interpretar tudo de forma completamente distorcida.
— Viu? — disse, convencido. — Você ainda tá fraca.
Ele a pegou no colo.
A dor se espalhou com o movimento. Helena sentiu os pontos internos puxarem, como se algo estivesse sendo rasgado por dentro. Mas ela não gritou. Não podia.
— Vai ser tudo diferente agora — ele dizia enquanto caminhava. — Você vai ver. Vai me amar. Vai me amar de verdade. Vamos ter a nossa família.
As palavras dele pareciam vir de um pesadelo. Ecoavam e desapareciam.
Ela já não sabia se estava chorando ou suando.
A única coisa que ocupava a mente dela era Humberto.
Sozinho. No quarto. No Moisés.
A hora da visita estava próxima. Alguém iria entrar. Alguém iria ver.
Ela precisava ganhar tempo.
Antônio, abriu uma porta que dava para algumas salas, atravessou um corredor e empurrou a porta de uma pequena sala com uma maca e uma pia clínica.
— Vamos limpar você — murmurou, como se estivesse cuidando de alguém que amasse.
Helena foi colocada numa cadeira. O corpo exausto, a mente em alerta absoluto. Como ninguém questionava? Como ninguém via?
Câmeras. Funcionários. Tudo funcionando… menos o que importava. Como ninguém estava vendo uma mulher sangrando sendo escoltada pela escada de serviço?
Maternidade de luxo o caralho. Isso não podia estar acontecendo.
Antônio saiu por uma porta lateral anexa, provavelmente atrás de algo para “limpar” o sangue.
Foi então que Helena viu a pia.
Se levantou com dificuldade, apoiando-se na parede, e lavou o rosto com mãos trêmulas.
Nesse instante, a pulseira eletrônica no braço dela apitou. Um LED vermelho se acendeu.
As travas das portas ao redor se acenderam na mesma cor. Um som metálico ecoou nas portas automáticas ao redor — as travas se fecharam.
E então a voz nos alto-falantes:
— Senhores pacientes, pedimos que permaneçam onde estão. Detectamos distanciamento irregular de pulseiras. Estamos averiguando. Mantenham a calma.
Helena fechou os olhos por um segundo.
Respirou.
Ela estava salva. Não ilesa. Não inteira. Mas salva.
Do outro lado da porta anexa, Antônio começou a bater com força, o rosto distorcido de raiva.
Helena o encarou sem piscar, com desprezo e ofegante.
Sentia uma dor lancinante entre as pernas, tinha certeza de que algum ponto havia se rompido. Mas nada daquilo doía mais do que lembrar do beijo. Das palavras. Do toque.
Helena não aguentou.
O gosto do vômito ainda queimava em sua garganta, mas foi o gosto da raiva que a fez explodir. As lágrimas desciam sem pedir licença, grossas, quentes e salgadas — como se sua alma estivesse tentando se limpar das atrocidades que ele causava.
— Você é um nojento, Antônio! — ela cuspiu as palavras como se ele fosse um veneno em sua boca. — Um maldito nojento! Eu te detesto, te enxergo e sinto repulsa. E o pior é que eu tentei... eu tentei fingir que você não existia, que era indiferente... mas você é tão podre, tão desprezível que nem ignorar você eu consigo!
Ela tremia, os punhos fechados, o rosto avermelhado de raiva e as palavras jorrando como um vulcão.
— O Heitor sempre teve razão. Sempre. Você é podre por dentro. Tudo que você toca apodrece. Você não ama ninguém. Você só sabe destruir! Você não sente amor por mim, você sente obsessão! Desejo doentio, raiva de não ter o que o outro tem! É inveja, não é? É isso, né?
Antônio, do lado de fora da porta trancada, respirava alto. As mãos cerradas contra a madeira.
— CHEGA! — ele rugiu. — Você está descontrolada! Olha como você tá falando, você tá surtada!
Helena riu. Uma risada amarga, de puro ódio.
— Surto é o que você chama de verdade? Eu estou cheia de ódio, sim. ÓDIO DE VOCÊ. E sabe o que é pior? Você conseguiu o que queria. Se era isso que você queria de mim, parabéns. Agora eu sinto algo por você: nojo. Raiva. Asco. Você me causa ânsia. Eu odeio você com cada célula do meu corpo!
Ela se aproximou da porta, a voz firme como navalha:
— E sim, você inveja o Heitor. Sabe por quê? Porque ele é tudo que você nunca vai ser. Porque ele me ama de verdade. Porque ele tem o que você jamais vai conquistar: respeito. Família. Amor. Eu sou amada, Antônio. AMADA. E você? Você é o quê? Um rato escondido no esgoto tentando roubar o que não é seu.
Do outro lado, a respiração dele ficou irregular.
— Helena... não fala assim comigo...
— Vai me bater agora? Vai forçar a porta como forçou um beijo nojento? Vai me prender? Me drogar? Faz logo, porque você não vai conseguir me dobrar! Eu sou mil vezes mais forte que você jamais será!
— Você não sabe o que tá dizendo... você tá abalada...
— Eu tô lúcida. Pela primeira vez com você, eu tô completamente lúcida. Você é doente. E eu vou fazer questão de ver a sua prisão.
O punho de Antônio bateu na porta com força, mas ele se conteve. Tentou. A raiva latejava em seu maxilar. Ele encostou a testa na madeira, suando frio.
— Você... não me entende... Eu só queria que você me visse, Helena...
— Eu vejo, Antônio. Eu vejo exatamente quem você é. E é por isso que você me causa nojo.
Lá dentro, ela respirava com dificuldade, mas a firmeza na voz era inabalável. Ela limpou o rosto com as costas da mão, o olhar em chamas. Do lado de fora, ele se afastou. Pela primeira vez... em silêncio.
Antônio chorava do outro lado da porta.
Mas não era um choro frágil.
Era um choro instável. Perigoso. O tipo de choro que antecede algo irreversível.
— Você está louca — ele disse, a voz falhando entre raiva e delírio. — Completamente louca. Mas eu… eu te perdoo, Helena. Eu vou te perdoar por tudo isso.
Foi ali que algo dentro dela quebrou.
Helena soltou uma risada curta, seca, sem humor nenhum — e logo sentiu os olhos arderem.
— Vai pro inferno com esse perdão — respondeu, a voz embargada, mas firme. — Eu nunca mais quero ouvir seu nome. Nunca. E depois do que você fez hoje… você vai apodrecer na cadeia.
Antônio explodiu.
Os punhos acertaram a porta com violência, o som ecoando pela sala fechada.
— É a sua última chance! — ele gritou, a voz distorcida pelo ódio.
Helena levantou o olhar.
E então viu a arma.
Antônio a tirou da calça com movimentos bruscos e apontou diretamente para ela.
— Última chance — repetiu, os olhos vermelhos, vidrados. — Ou você admite que me ama e vem comigo… ou eu garanto que você não fique com mais ninguém.
A arma apontada.
Nesse instante, Helena não pensou em si.
Pensou em Humberto.
No filho dormindo no quarto, pequeno demais, indefeso demais. Pensou que talvez nunca o visse andar, falar, correr, chamar por ela. Talvez nunca assistisse a uma apresentação da escola, nunca o visse aprender a escrever o próprio nome, nunca estivesse ali para os joelhos ralados, os choros noturnos, os aniversários.
O peito apertou tanto que doeu respirar.
Mas, estranhamente, o medo não venceu.
Veio outra coisa.
Coragem.
Helena sentiu as lágrimas descerem, mas não desviou o olhar. Não implorou. Não se encolheu.
Ela não era covarde.
Ela não era como a mãe.
Ela jamais se colocaria acima de quem amava.
“Se eu não voltar…”, pensou, o coração se despedaçando, “O Humberto vai ser amado. Vai ser cuidado. Principalmente pelo Heitor.”
O pensamento atravessou sua mente e imediatamente… doeu.
Do jeito mais cruel.
As lágrimas desceram antes que ela pudesse impedir.
— Não… — murmurou para si mesma, o coração apertando até quase parar. — Não pensa isso. Não pensa isso.
Ela sentiu vergonha.
Uma vergonha profunda, dolorosa.
Porque aquela ideia… aquela ideia era a mesma da sua mãe.
A mesma mulher que a deixou quando era criança. Que escolheu ir embora. Que escolheu a própria vida antes da filha.
Helena queria tudo. Queria ver o filho crescer. Queria casar. Queria envelhecer ao lado do homem que escolheu. Queria domingos simples, risadas, rotina e uma família inteira.
Ela não queria ir embora.
Mas, se tivesse que ser ali… não seria negando quem era.
O sangue continuava descendo. A tontura aumentava. As portas estavam trancadas. Não havia onde se esconder, não havia tempo, não havia força para correr.
Ainda assim… Helena não temeu a morte. Ela nunca temeu a morte para si.
Ela sabia que encontraria o avô — o homem que a criou, que a amou sem condições, que foi seu porto seguro. Sabia que, talvez, finalmente conheceria o pai que nunca teve, que se foi cedo demais.
Helena sentiu o coração apertar numa dor quase insuportável.
“Se eu morrer aqui…”, pensou, “que ele nunca ache que foi abandono.”
Mas Humberto não podia passar pelo que ela passou.
Então ela resistiria. Mesmo ferida. Mesmo baleada. Mesmo quebrada.
Porque, apesar de tudo… ela tinha conseguido.
Antônio não estava mais no quarto.
Ele não machucaria Humberto.
Não machucaria Heitor.
Não machucaria ninguém ali.
E isso trouxe uma paz amarga, silenciosa.
Ela havia protegido o filho.
Protegido o homem que amava.
Protegido pessoas que nem sabiam o perigo que haviam corrido.
Ela ergueu o queixo.
Olhou para Antônio com tudo o que sentia — ódio, nojo, desprezo — mas também com uma certeza calma, inabalável.
— Eu amo o Heitor — disse, a voz firme apesar das lágrimas. — Amo. Não importa onde eu esteja ou como isso termine. Ele sempre vai ser o meu amor.
Antônio respirava pesado do outro lado.
— Eu sou feliz — ela continuou, a mão tremendo sobre o próprio corpo ferido. — Feliz por ter sido a mãe do filho dele. Feliz por ter vivido o que vivi. Eu não mudaria nada. Nada.
Ela levou a mão ao ventre ainda dolorido.
— Se você vai me matar — disse, abrindo os olhos de novo — saiba que eu morro sabendo que fui amada… e que amei. E que meu filho nasceu do amor. Não do medo. Nunca do medo.
O dedo de Antônio desceu para o gatilho.
Helena sentiu o corpo inteiro tremer.
Mas não abaixou a cabeça.
Porque, mesmo ali, sangrando, encurralada, prestes a morrer — ela ainda estava sendo tudo o que prometeu ser.
Diferente da mãe.
Forte pelo filho.
Inteira até o fim.
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