O CEO que Eu Paguei

214 O Homem Daquela Mulher


Heitor Monteiro estava radiante. Sentado na sala do supervisor da maternidade, folheava o álbum de recém-nascidos com olhos brilhantes — como se cada imagem fosse uma prévia de como Humberto ficaria. O peito cheio de orgulho, o sorriso fácil nos lábios. Era impossível não imaginar o filho nas fotos: touquinha de orelhinhas, cobertor delicado, aquelas dobrinhas adoráveis que já faziam parte do universo novo que ele e Helena habitavam.

— Como estava dizendo ao senhor — explicava o supervisor, empolgado — as imagens do ensaio fotográfico, quando autorizadas, podem ser usadas no site institucional da maternidade e também em painéis artísticos nos corredores. Uma forma de homenagear os momentos especiais que passam por aqui. Nada comercial, claro. Só uma celebração das novas vidas.

Heitor assentia, ainda folheando as páginas.

— E as fotos passam pela nossa aprovação antes, certo?

— Sem dúvida — garantiu o supervisor.

— Perfeito — respondeu Heitor com um sorriso largo. — Eu e a Helena concordamos com isso. Pode preparar o contrato. Mas vamos fazer as fotos no quarto, não no estúdio. Helena ainda está se recuperando e faz questão de acompanhar.

— Entendido. Vocês são um casal muito unido — comentou o supervisor.

Heitor relaxou na poltrona. O sorriso ainda estampado.

— Somos uma família agora. E quero que a Helena e o nosso filho tenham tudo do bom e do melhor. Eu vou proporcionar isso a eles. — A firmeza na voz não deixava margem para dúvida.

O supervisor concordou com um sorriso, mas foi naquele instante que algo coçou na mente de Heitor. Um detalhe fora do lugar.

Ele ajeitou o corpo na cadeira, o semblante mudando.

— Está tudo normal por aqui? — perguntou, os olhos estreitando. — Os corredores estavam vazios quando vim pra cá.

O supervisor hesitou um segundo antes de responder.

— Hoje é meu último dia — explicou, tentando manter o tom casual. — Resolvi fazer um pequeno lanche de despedida para a equipe. Só trinta minutinhos.

Heitor franziu a testa.

— Você liberou todo mundo ao mesmo tempo? Inclusive os seguranças?

— Só por alguns minutos. Uma confraternização rápida. Não se preocupe.

— Eu me preocupo sim — disse Heitor, o tom agora firme, incisivo. — Minha noiva e meu filho recém-nascido estão aqui. Você acha prudente deixar um andar inteiro sem vigilância? E se alguma coisa acontecer?

O supervisor tentou sorrir, mas estava claro que perdera o controle da situação.

— Senhor Heitor, essa maternidade é extremamente segura. E deixei o pessoal do térreo de prontidão…

— Com licença. — Heitor levantou, irritado, tirando o celular do bolso. — Isso é inaceitável.

Discou direto para o número que sabia que resolveria. A voz do outro lado da linha atendeu rápido.

— Fala, Monteiro!

— Opa, e aí Fontes? — disse Heitor, forçando leveza, mesmo com o sangue fervendo. Ao ouvir o nome, o supervisor empalideceu.

— Correria aqui, irmão. Tô com o Enzo vendo apartamento. Aquele moleque passou em uma universidade aqui na França!

— Que orgulho, parabéns! — Heitor sorriu por reflexo. — O meu daqui a pouco vai tá andando, mas vai jogar bola com o seu um dia.

Fontes riu alto.

— E como tá o atendimento aí na maternidade?

— Estrutura impecável. O quarto ficou ainda melhor do que a gente viu na visita.

— Sabia que você ia querer o melhor. Você é muito exigente Monteiro. Mas fala aí… o que tá pegando?

Heitor se aproximou da estante, mexendo nos objetos para conter o impulso de estourar de vez.

— Fontes, liberaram toda a equipe do meu andar pra uma confraternização. Inclusive os seguranças.

Houve um silêncio do outro lado da linha.

— Me desculpa, cara. Isso não devia ter acontecido. Eu vou resolver isso agora.

— Espero que resolva. Você sabe que tenho um processo com o Fortenelle. E se esse maluco resolve aparecer? Eu escolhi esse lugar por causa da segurança. Não dá pra brincar com isso, Fontes. Minha família tá aqui.

— Você tá certo. Vou dar um jeito. E te compensar por essa falha. Conta comigo, irmão.

— Valeu, mano. Boa viagem com o Enzo.

Heitor desligou sem se despedir direito. Girou devagar, encarando o supervisor com olhos frios.

— Resolva isso. Agora.

Sem esperar resposta, saiu da sala, batendo a porta com mais força do que o necessário. No mesmo instante, ouviu o telefone do supervisor começar a tocar às pressas.

Heitor saiu da sala do supervisor com o coração apertado de um jeito que ele não conseguia explicar racionalmente. Era um incômodo surdo no peito, uma sensação antiga, instintiva, daquelas que nunca falhavam. Assim que atravessou o corredor, puxou o celular do bolso e digitou rápido.

Heitor:

Amor, tá tudo bem aí? Já tô voltando.


Enviou.

Esperou alguns segundos.

Nada.

Tentou não se deixar levar. Talvez Helena estivesse dormindo. Talvez estivesse com o bebê. Talvez ele estivesse exagerando por causa de Fortenelle. Mas Heitor não era um homem que ignorava pressentimentos — especialmente quando se tratava da mulher que amava e do filho recém-nascido.

Foi então que avistou Oséias no corredor, vindo em sua direção com uma sacola de loja infantil nas mãos.

— Oséias! — Heitor chamou, aproximando-se rápido. — O que você tá fazendo aqui, cara?

Oséias pareceu sem jeito, quase constrangido.

— A senhora Helena me autorizou. Eu mandei mensagem… — explicou. — Se for incômodo, eu volto.

— Não — Heitor respondeu, passando a mão pelo rosto. — Desculpa. Tô estressado. Vamos voltar juntos pro quarto.

O som dos passos de Heitor e Oséias ecoava baixo pelo corredor quase vazio. Ambos caminhavam em silêncio, até que um brilho suave capturou o canto do olhar de Heitor. Ele parou abruptamente.

— Espera — disse ele, segurando o braço de Oséias.

No telão do hospital, em letras douradas sobre fundo branco, aparecia a foto do recém-nascido Humberto, enrolado em um cobertor bege com detalhe em azul-celeste. As bochechas estavam rosadas, os olhinhos semicerrados e a expressão serena. Acima da imagem, lia-se:

"Parabéns, mamãe Helena e papai Heitor, pelo nascimento do pequeno Humberto!"

Heitor soltou uma risada abafada, quase incrédula. Os olhos brilharam. Por um instante, o CEO poderoso, com seu terno caro e postura imponente, desapareceu. Só havia um pai ali. Um pai completamente rendido. Como sempre seria.

— Caralho... — sussurrou ele, passou a mão pela boca, escondendo o leve sorriso que surgiu. — Ele é perfeitinho...

Oséias sorriu, sincero, com o peso de quem viu boa parte da jornada.

— Tá com a sua cara Monteiro — comentou, cruzando os braços, orgulhoso como um tio de consideração. — Mas aquele nariz ali... é da Helena.

Heitor riu, o peito se expandindo com um orgulho que não cabia dentro de si.

— Nasceu ontem e já tá no telão... Meu filho. Nosso filho.

Ele passou a mão pelos cabelos, o olhar fixo na tela, como se pudesse decorar cada traço, como se ver aquilo o ancorasse em meio ao turbilhão de preocupações recentes.

— Você devia ver como ele se aconchegou no peito da Helena quando ela falou com ele — disse, a voz rouca. — Como se já soubesse. Como se tivesse esperado por ela a vida inteira.

Oséias assentiu, com um sorriso de canto de boca.

— E esperou. Ele é herdeiro de duas forças brutas... do tipo que fazem o mundo girar. Helena e você. Tava escrito.

Heitor respirou fundo, a emoção misturando-se com a tensão que sabia que ainda viria.

— Ninguém vai tirar nada dele. Nem dela. Nem de mim.

O segurança olhou para ele com firmeza.

— Enquanto eu estiver por perto, ninguém encosta. E mesmo que eu caia, você sabe, doutor... o senhor sempre se levanta.

Heitor encarou Oséias por um momento, a mandíbula travada.

— Por eles, eu rasgo o mundo no meio. E se alguém tentar... — ele não terminou. Não precisava.

Voltou a olhar para o telão, a imagem do bebê ainda ali, tranquila, serena. Heitor respirou fundo e mudou o tom da conversa.

— Quer apostar qual nome ele vai falar primeiro? — perguntou, num tom divertido.

— Se ele puxar a mãe... — Oséias sorriu. — Vai falar papai. Não tenho dúvidas.

Os dois riram, mas antes de seguir, Heitor olhou mais uma vez para a tela. Como se aquele momento, mesmo pequeno, precisasse ser gravado na memória. O mundo estava cheio de ameaças. Mas enquanto ele estivesse vivo, Humberto e Helena estariam protegidos.

Sempre.

Caminharam alguns passos em silêncio. Um silêncio pesado demais. Até Oséias resolver falar.

— Seu pai foi incrível ontem — comentou. — Resolveu fácil a situação com o Fortenelle.

Heitor parou na mesma hora.

O coração deu um salto violento no peito.

— Como é que é? — perguntou, a voz já alterada. — Fortenelle esteve aqui… e você não me contou?

— Eu liguei pro senhor — Oséias disse rápido. — Mas quem atendeu foi seu pai. Ele desceu e resolveu tudo.

Heitor lembrou. Lembrou do celular tocando. Lembrou do pai atendendo. Mas o pai disse que não era nada demais.

— Porra, Oséias… — murmurou, o maxilar travando. — E se esse desgraçado volta? Se ele veio uma vez, pode vir outra.

O medo virou raiva. Daquelas quentes, perigosas.

Heitor já puxava o celular de novo enquanto caminhava mais rápido.

Ligou direto para um amigo policial.

— Preciso de um favor. — A voz dele era seca. — Duas viaturas à paisana na maternidade. Viram o Antônio Fortenelle por aqui ontem. Estou preocupado pra caralho.

Do outro lado, a resposta veio imediata.

— Deixa comigo. Já tô acionando. Aproveite seu moleque aí, vou cuidar de tudo.

Heitor desligou sem agradecer. Guardou o celular e apontou para o quarto de visitas.

— Oséias, fica ali. Na hora da visita, te chamam.

Não esperou resposta.

Entrou no quarto principal com passos largos — e parou.

A enfermeira e a pediatra estavam lá. O moisés, no mesmo lugar, e o Humberto também.

— Senhor Monteiro — a enfermeira disse, visivelmente aflita —, onde o senhor estava? Chegamos e o bebê estava sozinho.

O mundo de Heitor pareceu inclinar.

Ele olhou ao redor, desesperado. Cama. Poltrona. Ala de descanso.

Nada.

— E a Helena? — perguntou, já andando até o banheiro, abrindo a porta com força.

Vazio.

— Ela não estava aqui — explicou a pediatra. — Apenas o bebê.

— Faz quanto tempo? — A voz dele saiu falhando.

— Poucos minutos.

— Ela não pode fazer esforço — a médica começou — os pontos ainda são recentes—

Heitor não escutava mais.

Abriu a porta do quarto de visitas num impulso. Viu Oséias levantar na mesma hora.

Foi quando a porta se abriu novamente do outro lado. Jonas entrou, com um sorriso bobo que foi se desfazendo.

— Que cara é essa? — perguntou. — Aconteceu alguma coisa?

— A Helena sumiu. — Heitor disse, sem rodeios. Virou para as mulheres — Fiquem com o Humberto. Eu vou atrás dela.

— Como assim sumiu?! — Jonas já sacava o celular.

Discou para Helena.

O toque ecoou no quarto.

Em cima da cama.

Heitor caminhou até lá. Pegou o celular dela. Viu presentes espalhados.

Pegou uma das caixas.

Leu a etiqueta.

De Antônio, para Helena.

O sangue gelou.

— Porra… — sussurrou. — Foi o Antônio.

Virou-se num segundo.

— Oséias, vai pra central de vigilância. Chama os seguranças agora. Jonas, vamos nos separar. Procura por eles.

Oséias saiu correndo.

Heitor se aproximou do berço, o coração quase saindo pela boca.

— Ele tá bem? — perguntou, a voz falhando.

— Tá sim — a enfermeira respondeu.

Heitor fechou os olhos por um segundo inteiro.

— Graças a Deus.

Abaixou-se, beijou de leve a testa do filho.

— Eu vou buscar sua mãe, tá ouvindo? — murmurou. — Já volto.

Endireitou-se.

— Fiquem aqui. Chamem a segurança e avisem no grupo de vocês. Não saiam.

Saiu do quarto com Jonas logo atrás.

Jonas apertou o botão vermelho na parede.

O alarme de incêndio começou a soar. Sprinklers foram acionados, molhando os dois.

— Isso vai chamar atenção — Jonas disse.

— Se vieram pelo elevador ou corredor principal, não estão mais lá — Heitor respondeu rápido. — Você desce pela escada de emergência. Eu vou pela de serviço.

Correram juntos até o ponto de separação.

O coração de Heitor martelava como nunca. O medo era esmagador. Mas algo mais crescia por cima dele: ódio puro.

Um ódio frio, calculado.

Antônio Fortenelle tinha cruzado uma linha que não tinha volta.

E Heitor sabia, com uma certeza absoluta e assustadora: um dos dois não sairia daquela maternidade da mesma forma que entrou.

Heitor desceu as escadas como quem foge de um incêndio.

Não corria — avançava. O corpo obedecia, mas a mente estava em colapso. O coração batia tão forte que doía, como se quisesse romper o peito. Cada passo era um pedido silencioso para estar errado. Para encontrar Helena rindo, sentada em algum lugar qualquer, reclamando de dor, viva. Inteira.

No segundo lance da escada, ele viu.

Uma mancha escura no chão.

Heitor parou.

O mundo ficou suspenso por um segundo longo demais.

O cheiro veio primeiro. Ácido. Inconfundível. Vômito.

Depois, o sangue.

Pequenas gotas, irregulares, como se alguém tivesse tentado continuar andando enquanto o corpo já cedia. Um rastro. Um caminho.

— Não… — o som mal saiu. Foi mais ar do que palavra.

As pernas fraquejaram. O chão pareceu se mover. Por um instante, Heitor sentiu algo que nunca sentira nem nos piores momentos da vida: a certeza brutal de que estava atrasado. Heitor cambaleou um passo, depois outro, e então correu.

A mão agarrou o corrimão com força, os dedos queimando. Ele pulava degraus, tropeçando quase sem perceber, os olhos grudados no rastro vermelho que serpenteava escada abaixo. Cada gota era um golpe no peito. Ele tentava respirar, pensar, focar… mas tudo dentro dele gritava uma única coisa: ache a Helena.

Ele abriu uma porta lateral com violência.

O corredor de serviço era estreito, frio. O sangue seguia por ali mais um pouco até virar para a direita, o que parecia uma área aberta.

Foi quando um bip metálico cortou o ar.

Luzes vermelhas se acenderam acima das portas, uma após a outra no que conseguia ver da área. Heitor tentou abrir a porta atrás de si — trancada.

E então a voz ecoou pelas caixas de som, neutra demais para a situação:

— Senhores pacientes, pedimos que permaneçam onde estão. Detectamos distanciamento irregular de pulseiras. Estamos averiguando. Mantenham a calma.

Calma.

A palavra soou como uma piada cruel.

Heitor avançou pelo corredor e então viu Jonas, parado diante de uma porta onde o rastro de sangue terminava. Jonas tentava forçar a entrada com cuidado, o desespero estampado no rosto. Ao ver Heitor, fez um gesto rápido, urgente, pedindo silêncio e cuidado.

Aquilo foi um mau presságio. Um muito ruim.

Heitor se aproximou agachado, o corpo em tensão máxima. Foi então que ouviu.

A voz de Helena.

A voz que ele conhecia melhor do que a sua própria.

— O Heitor sempre teve razão. Sempre. Você é podre por dentro. Tudo que você toca apodrece. Você não ama ninguém. Você só sabe destruir! — a voz dela tremia, mas não recuava. — O que você sente não é amor. É obsessão! Desejo doentio, raiva de não ter o que o outro tem! É inveja, não é? É isso!

Heitor sentiu algo se rasgar dentro dele.

Deu um passo à frente por impulso, mas Jonas o puxou com força.

— Não — sussurrou Jonas, urgente. — Escuta.

A resposta veio como um trovão.

— CHEGA! — a voz de Antônio explodiu do outro lado da porta. — Você está descontrolada! Olha como tá falando! Você tá surtada!

Heitor sentiu o sangue ferver. As mãos fecharam em punhos. O instinto gritava para arrebentar aquela porta, ignorar tudo, entrar. Ninguém falaria com Helena daquele jeito. Ninguém.

Jonas o segurou com força.

— As portas estão trancadas. Não dá pra entrar assim.

— Eu preciso ver como ela tá — Heitor sussurrou, a voz quebrada, perigosa. — Eu preciso.

A voz de Helena voltou, mais forte. Mais afiada. Mais verdadeira.

— Surto é o que você chama de verdade? Eu tô cheia de ódio, sim! ÓDIO DE VOCÊ! — ela gritava. — E sabe o que é pior? Você conseguiu o que queria. Agora eu sinto algo por você. Nojo. Raiva. Asco. Você me causa ânsia. Eu odeio você com cada célula do meu corpo!

Heitor fechou os olhos por um segundo. Orgulho e terror se misturaram. Helena estava sendo absurdamente corajosa. E isso podia custar tudo.

— O que tá acontecendo lá dentro? — ele murmurou, o desespero escapando. — Eu preciso entrar.

Jonas engoliu em seco.

— O Antônio tá armado. Ele tá numa sala depois dessa. Se ele te vê… se você fala algo errado… ele mata ela.

O chão sumiu sob os pés de Heitor.

Matar a Helena?

A palavra ecoou como um sino fúnebre.

— E sim — a voz de Helena continuava — você inveja o Heitor. Porque ele é tudo que você nunca vai ser. Porque ele me ama de verdade. Porque ele tem o que você jamais vai conquistar: respeito. Família. Amor. Eu sou amada, Antônio. AMADA!

Heitor sentiu os olhos arderem. O coração parecia pequeno demais para tanta coisa ao mesmo tempo. Medo. Orgulho. Amor. Fúria.

— Vamos por cima — Jonas sussurrou, apontando para um duto de ventilação. — Vi isso num filme uma vez. Eu cuido do Antônio. Você pega a Helena.

Heitor virou o rosto lentamente, os olhos escuros, decididos.

— Não. Você protege a Helena. O Fortenelle é comigo. Isso é entre ele e eu.

Então veio a frase que quase o fez perder o controle.

— Vai me bater agora? — Helena gritava. — Vai forçar a porta como forçou um beijo nojento? Vai me prender? Me drogar? Faz logo! Porque você não vai me dobrar!

O mundo de Heitor ficou vermelho.

Beijo forçado.

Jonas balançou o braço dele.

— Me ajuda a subir. Agora.

Heitor mal pensava. Ajoelhou-se, fez apoio com as mãos. Jonas subiu, forçou a grade do duto e conseguiu entrar. Estendeu a mão. Heitor foi logo atrás, deixando os chinelos ali para não fazerem barulho.

— Você não sabe o que tá dizendo… — a voz de Antônio vinha instável. — Você tá abalada…

— Eu tô lúcida — Helena respondeu. — Pela primeira vez com você, eu tô completamente lúcida. Você é doente. E eu vou fazer questão de ver a sua prisão.

Eles avançavam pelo duto em silêncio absoluto, cada movimento calculado. Heitor sentia o próprio corpo tremer de ódio contido. Não podia errar. Não podia fazer barulho. Não podia perder um segundo.

Chegaram à abertura que dava para a sala intermediária.

Helena estava de pé. Tremendo. Sangrando. Enfrentando o inferno de frente.

Ele tinha que ser resiliente, seguiu até a entrada do duto da outra sala.

— Eu amo o Heitor… — a voz dela saiu fraca, embargada. — Amo. Não importa onde eu esteja ou como isso termine. Ele sempre vai ser o meu amor.

O ar abandonou os pulmões de Heitor.

Não.

Aquilo não era uma despedida. Não podia ser.

— Eu sou feliz — ela continuou. — Feliz por ter sido a mãe do filho dele. Feliz por ter vivido o que vivi. Eu não mudaria nada. Nada.

Heitor apertou os punhos até doer.

Jonas levantou um dedo. Dois.

— Se você vai me matar, saiba que eu morro sabendo que fui amada… e que amei. E que meu filho nasceu do amor. Não do medo. Nunca do medo.

Três.

Os dois chutaram as saídas dos dutos ao mesmo tempo.

O impacto foi seco. Violento.

Antônio se virou assustado e atirou por reflexo. O disparo estourou a lâmpada acima, vidro caindo como chuva.

Todo o autocontrole que Heitor construiu ao longo de quarenta anos — o empresário, o homem racional, o estrategista frio que sempre calculava antes de agir — se perdeu ali, vendo a mulher que amava tremendo, chorando e sangrando.

Heitor não pensou.

Ele saltou.

Como um leão que protege a sua família.

A arma caiu longe demais para importar.

Os dois corpos se chocaram contra o chão com violência suficiente para arrancar o ar dos pulmões de Antônio. O impacto fez o corredor inteiro estremecer. Heitor caiu por cima dele, o peso esmagando o tórax, o antebraço pressionando o pescoço.

— SEU FILHO DA PUTA! — Heitor rugiu, a voz irreconhecível.

O primeiro soco foi direto, pesado, certeiro.

O segundo veio antes que Antônio conseguisse reagir.

O terceiro abriu o supercílio, espalhando sangue quente pelo rosto.

Antônio gritou.

Não de dor — de ódio.

— ELA É MINHA! — ele cuspiu, tentando acertar um soco no rosto de Heitor.

O golpe pegou de raspão, mas Heitor nem sentiu. Nem mesmo os pés cheios de pequenos pedaços de vidro. A dor simplesmente não tinha espaço ali.

— VOCÊ TOCOU NELA! — Heitor berrou, socando de novo. — VOCÊ APONTOU UMA ARMA PRA ELA!

Antônio conseguiu virar o corpo num movimento desesperado. Rolaram pelo chão. Agora ele estava por cima, o rosto deformado pela mistura de inveja, raiva e algo novo.

Medo.

Ele acertou dois socos tortos no rosto de Heitor. O gosto metálico de sangue invadiu a boca de Heitor — e isso só o deixou mais irado.

Heitor agarrou o ombro de Antônio e puxou com força sentindo o osso estalando.

Antônio gritou de verdade dessa vez.

A dor abriu espaço para o pânico.

Heitor aproveitou o segundo de hesitação, inverteu a posição e jogou Antônio contra a parede com força suficiente para fazer os azulejos vibrarem.

— NÃO PRONUNCIA O NOME DELA! NUNCA MAIS! — rosnou, batendo a cabeça dele contra a parede.

Uma vez.

Duas.

Três.

Antônio cambaleou, tonto, o mundo girando.

Foi quando, num reflexo desesperado, ele conseguiu alcançar a arma caída no chão.

Os dedos se fecharam em torno do metal.

— Heitor… — ele arfou, levantando a arma com a mão trêmula.

Por um milésimo de segundo, o corredor inteiro congelou.

Mas Heitor foi mais rápido.

Avançou como um raio, segurou o cano da arma com a mão nua, ignorando o risco, torceu o pulso de Antônio até ouvir o estalo seco do osso cedendo — e arrancou a arma das mãos dele.

Ele não apontou. Não queria resolver aquilo do jeito indolor.

Segurou firme no cano e, com um movimento brutal, bateu com o cabo nas costelas de Antônio, três vezes seguidas.

O som foi o de algo quebrando.

Antônio caiu de joelhos, o ar fugindo dos pulmões num gemido animal.

— VOCÊ NUNCA MAIS CHEGA PERTO DELA — Heitor disse baixo, mortal.

Antônio tentou se levantar.

Tentou fugir.

Arrastou-se até a porta no fim do corredor — e bateu nela com força.

Trancada.

O pânico finalmente venceu o ódio.

— Não… não… — ele balbuciou.

Heitor jogou a arma para trás e o alcançou em dois passos.

Agarrou-o pela camisa e o prensou contra a porta, o antebraço esmagando o peito dele. Foi então que Heitor viu.

Pelo vidro.

Helena.

Ela estava do outro lado, contra a porta, sangrando, chorando desesperadamente, batendo no vidro com as mãos trêmulas.

— HEITOR, PARA! — ela gritava, a voz rasgada. — POR FAVOR, PARA! EU NÃO QUERO QUE VOCÊ VÁ PRESO!

Jonas tentava a segurar, mas estava igualmente desesperado.

— HEITOR, NÃO FAZ ISSO! PENSA NO SEU FILHO!

O mundo pareceu rachar.

O corpo de Heitor ainda tremia de ódio, o punho fechado pronto para acabar com aquilo ali e agora.

Mas os olhos de Helena…

Aquilo o atingiu em cheio.

Não como fraqueza.

Como humanidade.

Heitor soltou Antônio com violência, empurrando-o no chão como se fosse lixo.

Antônio caiu, chorando, quebrado, tentando respirar.

Heitor ainda o encarou, o olhar frio, absoluto.

— Se você respirar perto da Helena ou do meu filho de novo… — a voz saiu baixa, firme, sem emoção alguma — eu termino o que comecei hoje.

Antônio não respondeu.

Não conseguia.

A porta continuava trancada quando Heitor chegou até ela.

Heitor encostou a testa nela, os dedos tremendo sobre o vidro. O corpo ainda pulsava com o resto da adrenalina da luta, mas agora era o coração quem gritava mais alto.

— Helena, você tá bem? Tá machucada? — a voz dele saiu arfada, tomada pelo pânico.

Do outro lado, Helena chorava. Heitor não conseguia distinguir se era alívio, dor ou trauma. Talvez fosse tudo ao mesmo tempo.

— Heitor! Ele te machucou? — a voz dela veio trêmula, desesperada.

Ele sorriu, mesmo ali, sujo do sangue do Antônio, machucado, com os braços ardendo e o coração em carne viva. Mesmo naquela condição, Helena estava preocupada com ele.

— Não, amor. Eu tô bem. — respondeu, encostando a palma da mão aberta no vidro.

Helena fez o mesmo do outro lado. As mãos não se tocavam, mas o gesto bastava. Era como se os corações finalmente se encontrassem.

— Que alívio… — ela sussurrou. — Eu fiquei tão preocupada. Tão assustada com algo acontecer com você…

— Você foi… incrível. Corajosa. Eu ouvi boa parte da conversa, Helena. E quero que você saiba… — a voz falhou, mas ele a sustentou com ternura — eu também amo você. E sou o homem mais sortudo do mundo por ter você e o nosso filho.

Ela soluçou, os olhos banhados em lágrimas.

— E o Humberto? Ele tá…?

— Tá bem. Tá esperando a gente. — Heitor respondeu. — Nosso menino tá seguro. Eu te garanto.

Helena suspirou. Os ombros dela desabaram com o peso da tensão saindo devagar, como uma represa que começa a ceder.

Mas não durou.

Jonas, arregalou os olhos ao ver algo por cima do ombro de Heitor, puxou Helena para trás de si.

— HEITOR! CUIDADO!

Heitor girou o corpo por instinto.

E viu.

Antônio, caído no chão, ensanguentado… com a arma nas mãos mais uma vez.

A pistola tremia, mas o ódio nos olhos dele era estável. Um tipo de loucura antiga, familiar.

— Sabia que você não era homem de verdade… — Heitor rosnou. — Sempre se escondeu atrás de alguma coisa. Sempre precisou de alguma arma pra tentar me vencer…

— HEITOR! NÃO! — Helena gritava atrás da porta.

— Jonas! Tira ela de perto da porta! — Heitor ordenou, sem tirar os olhos do inimigo.

Jonas puxou Helena para o fundo da sala, mas a voz dela ainda ecoava:

— Heitor! Por favor! Não!

Heitor, coberto de sangue e peito arfando, encarou Antônio com a mesma calma de um leão na savana.

— Me mata, Antônio. Acaba com isso de uma vez. Mostra que é homem. — deu um passo à frente, peito aberto. — Se o preço pra você deixar a minha família em paz é a minha vida… eu pago.

Helena gritou mais alto, mas Heitor nem piscava.

Ele era o homem da vida dela.

O pai do filho dela.

E se aquilo significasse dar a própria vida, ele daria.

Antônio tremia. A arma sacudia nas mãos dele. Ele engolia seco, os olhos arregalados. A cicatriz no rosto só deixava mais evidente o quanto ele já estava quebrado por dentro.

— Você é um merda, Antônio. Nem me matar você consegue. — Heitor deu mais um passo. — Porque no fundo você sabe… que sem mim, você é ninguém. Você precisa me odiar pra existir.

Antônio rangeu os dentes.

— Isso nunca foi sobre a Helena. Nem sobre o nosso filho. Nem mesmo sobre mim. — Heitor se agachou, ficando cara a cara com ele, a pistola agora tremendo a centímetros do peito. — Isso é sobre você. E o vazio que você sente quando se olha no espelho.

Esticou a mão com calma, os olhos fixos nos dele.

— Você não é um assassino, Antônio. Você nem sabe quem é. Por isso nunca vai ser alguém.

Ele tirou a arma da mão dele com facilidade. Antônio não reagiu. Estava chorando.

Heitor se ergueu com a pistola, retirou o carregador, desmontou a arma com dois movimentos secos — cliques frios — e jogou as peças para longe, uma a uma.

— Você esperava encontrar o Heitor do passado aqui, né? Mas quem você viu foi o Heitor pai. — ele apontou para a porta — O homem daquela mulher. E esse cara… esse nunca vai deixar ninguém encostar nela.

Heitor o olhou de cima.

— Quarenta anos desperdiçados. O restante, agora, você vai viver na cadeia. — deu uma última olhada com desprezo. — Você destruiu a sua vida sozinho. Lamento… pela Viviane.

Heitor se virou. Guardou o que sobrou da arma no bolso, enquanto do outro lado da porta, Oséias e os seguranças finalmente abriram a porta com o cartão.

Os seguranças passaram por ele sem esperar ordem, correndo para imobilizar Antônio.

Heitor atravessou a sala, os olhos em Helena.

Ela rompeu o abraço com Jonas e correu para ele — o corpo dolorido, os olhos em lágrimas, o coração transbordando.

Se jogou nos braços dele como quem volta pra casa.

— Você tá aqui… — ela sussurrou, abraçando o pescoço dele com força.

— E não vou sair nunca mais. — Heitor disse com a voz embargada, envolvendo-a com cuidado. — Ninguém mais vai machucar você. Eu juro.

Nos braços de Heitor, Helena parecia finalmente voltar ao mundo dos vivos.

Ele a envolvia como se o próprio corpo dele fosse uma fortaleza, como se pudesse protegê-la de qualquer coisa — inclusive da lembrança do que tinham acabado de passar. O alívio foi imediato, mas a adrenalina ainda pulsava em suas veias, misturada ao medo, à raiva e a um amor tão profundo que chegava a doer.

Heitor se afastou só o suficiente para olhar bem o rosto dela, com as mãos grandes envolvendo suas bochechas trêmulas. Procurou por qualquer arranhão, qualquer hematoma, qualquer pista que denunciasse mais dor do que ela deixava transparecer.

— Você tá sangrando… — murmurou com a voz baixa e grave. — Ele te machucou?

Helena desviou os olhos, a respiração ainda instável.

— Não… algum ponto deve ter arrebentado, só isso. É coisa à toa. — disse, mas a mentira veio frágil, trêmula.

Ele franziu o cenho. Conhecia cada tom da voz dela, cada tentativa de disfarce. Passou os dedos com delicadeza pelos braços da amada e sentiu os roxos, visíveis e recentes.

— E esses roxos nos braços? — perguntou, tocando por cima como se pudesse aliviar a dor com o toque. — Isso aqui não é queda, Helena… parecem… mãos.

Ela hesitou, mordendo o lábio. Então respondeu com um fio de voz:

— Só parecem…

Heitor fechou os olhos por um instante. Sabia que ela não diria a verdade ali, não enquanto ele ainda estivesse suando de fúria, com os punhos marcados e os olhos ardendo de sangue.

Ela queria protegê-lo. Queria que ele não voltasse atrás de Antônio para tirar satisfação.

— Então tá. — disse baixinho, beijando a testa dela. — Vamos te levar pra um médico olhar isso.

Helena concordou com a cabeça, mas de repente olhou para o chão. Um rastro de pegadas de sangue o seguia, e seu rosto ficou pálido de novo.

— Heitor… por que você tá sangrando?!

Ele olhou para os pés e, pela primeira vez, sentiu a dor aguda subir feito uma lâmina viva até a perna.

— Acho que pisei num vidro… — respondeu, tentando disfarçar. — Vou sentar aqui um pouco, tirar isso.

Mas o rosto dele endureceu, e Helena soube que ele estava segurando a dor com os dentes cerrados. Tudo para não a preocupar.

Sentou-se ali mesmo, no chão frio, respirando fundo para não gritar. Helena se ajoelhou ao lado, mesmo com o corpo em frangalhos, ignorando a dor que ainda ardia entre suas pernas e o corpo exausto.

— Deixa que eu ajudo… — disse, com a voz embargada e os olhos brilhando.

— Não, amor… você tem que descansar… — ele tentou impedir, mas ela já estava ali, firme, cuidando dele.

— Vou fuçar em tudo, deve ter alguma coisa que ajude. — disse Jonas.

Voltou minutos depois com um alicate de primeiros socorros. Com calma, foram retirando os cacos visíveis, um a um. Heitor apenas respirava fundo, o maxilar travado — e nunca, em toda sua vida, um silêncio entre dois seres falou tão alto. Era amor, era lealdade, era sobrevivência.

Quando terminaram, ele se levantou forçando o corpo para não demonstrar o incômodo.

— Quer que eu te leve no colo? Não quero que você se esforce mais.

Helena sorriu.

— Quero…

Ela passou os braços ao redor do pescoço dele, se aninhando como se ali fosse seu único lugar seguro no mundo.

E era.

Heitor a segurou com todo o cuidado possível, o rosto escondido nos cabelos dela, respirando o cheiro que jurara nunca mais perder.

Enquanto saíam da sala, viram os seguranças levando Antônio. O homem estava ensanguentado, derrotado, segurou a respiração quando a viu, mas quando passou por Helena murmurando um:

— Desculpa…

Helena fechou os olhos com força, segurando o pescoço de Heitor com mais firmeza.

— Quero ver o Humberto… e sair daqui.

— A gente vai, amor. Vai agora.

Heitor andou em direção ao elevador com passos firmes. Oseias e Jonas estavam ao lado, como uma escolta silenciosa.

Quando chegaram às portas do elevador, Heitor olhou para o segurança:

— Oseias, acompanha ele. Não sai de perto até ver o Antônio atrás das grades.

Oseias assentiu com seriedade e desapareceu no corredor.

Finalmente, o elevador se abriu.

Helena olhou para o interior da cabine, para o mundo lá fora, e uma lágrima desceu silenciosa por sua bochecha. Ela deitou a cabeça no ombro de Heitor, e ele a segurou com mais força.

Jonas olhava os dois, estava preocupado, mas aliviado.

Dentro daquele abraço, enfim, o pesadelo começava a se dissipar.

E o amor deles… provado, suado, manchado de sangue e dor… estava mais forte do que nunca.