O CEO que Eu Paguei

95 O nome dela é ciúme disfarçado


Heitor acordou sentido o cheiro do perfume dela.

Esticou a mão a procurando na cama. Ainda estava quente onde ela tinha levantado.

Ele se espreguiçou devagar, coçou os olhos e desceu os pés até o chão, ainda sorrindo de leve. O corpo relaxado, a mente em paz — como se dormir com ela tivesse limpado todos os fantasmas da noite.

Desceu devagar.

Foi até o banheiro.

A porta estava entreaberta.

Helena estava ali. De frente pro espelho.

Sobrancelha franzida.

O celular na mão.

Ele já sabia.

A mulher dele só fazia cara de gol contra quando tinha coisa errada no campo.

Heitor encostou na porta com um sorrisinho no canto da boca.

— Aconteceu o quê aí, hein? Perdeu a promoção do cupom na Shopee?

Helena rolou os olhos, enxaguando a boca.

— Nada não, Heitor. Vai cuidar da sua vida.

— Ihhh — ele cruzou os braços. — “Nada não” com esse tom aí é “vem me perguntar mais uma vez que eu conto chorando”.

— Vai se foder — ela rebateu, saindo do banheiro, secando a boca com a toalha. Mas ele foi atrás, colado.

— Fala logo. O que tá pegando? Tô vendo esse olhinho brilhando… é raiva, né? É aquele brilho de quem tá pronta pra matar alguém.

Ela parou. Olhou pra ele. E soltou, debochada:

— Sua ex. Mandou mensagem no meu direct.

Heitor parou. Por um segundo ficou sério.

— Qual delas?

Ela o olhou com um olhar fulminante.

— Não conheço todas elas. Mas é aquela loira, ego inflado e classe de arquiteta influencer: Marcela.

Heitor deu uma gargalhada alta, jogando a cabeça pra trás.

— Puta que pariu… essa mulher não larga o osso!

Helena cruzou os braços.

— Não só não larga, como ainda acha que tem moral de dar conselho. Mandou até “um abraço, Marcela” no final.

Heitor ainda ria. Chegou perto dela, segurou pela cintura e colou o rosto no pescoço dela.

— Cê respondeu?

— Com uma foto sua. Dormindo. Com a aliança. Falei que você finalmente dormia em paz.

Heitor arregalou os olhos e depois caiu na risada de novo.

— Porra, Helena… TU É BRABA. Tu matou a mulher com uma foto só.

— Era o mínimo. Ela me testou.

— E perdeu. — Heitor disse com orgulho. Depois sussurrou no ouvido dela: — Cê sabe que se quisesse mandar vídeo também, eu deixava, né?

Helena deu um tapa no braço dele, mas não segurou o riso.

— Palhaço.

Heitor olhou pra ela com carinho. Depois ficou sério por um instante.

— Mas olha aqui… obrigado por me contar. E por não deixar essa mulher estragar o que a gente tá construindo. Ela… ela teve o tempo dela. Agora é você. É só você.

Helena não disse nada. Só encostou a testa no ombro dele.

— Só não me irrita. Ou eu posto outra.

Heitor riu.

— Posta. Só avisa antes que eu ajeito o cabelo.

A conversa ficou ali, suspensa entre um riso e outro.

Mas Helena não tinha rido tanto assim.

Ela sorriu. De leve.

Mas o olhar… seguiu quieto.

Depois disso, ela terminou de se arrumar, passou o batom olhando pro espelho com aquela concentração de quem não deixava nada fora do lugar.

Heitor veio por trás, tentou puxar ela pela cintura de novo, mas ela desviou.

Sutil.

Ele percebeu.

Na hora de sair, ela trancou a porta do quarto sem falar nada.

Desceu os andares no elevador com o corpo impecável, mas a voz… mais baixa que o chinelo.

No carro, ela não colocou música.

Ficou olhando pra janela.

Bonita. Intocável.

Com a cabeça a mil.

E Heitor?

Fingiu que não notou — por uns bons dez minutos.

Mas era difícil ignorar o jeito como ela mordia o canto da boca.

Como cruzava e descruzava as pernas como se procurasse firmeza.

Como tamborilava o dedo no joelho, mas sem pressa.

Eles já estavam na metade do caminho.

O carro passava por uma estradinha cercada de verde, o sol refletia no para-brisa, e Helena parecia uma pintura viva — pernas cruzadas, o vestido rendado aberto na lateral revelando um pedaço do biquíni escolhido por ele, os óculos escuros cobrindo metade do rosto, mas não o bico emburrado que ela fazia.

Ela tava pensando.

Não era crise.

Era cálculo. Calculando todas as probabilidades do passado.

Até que soltou, sem tirar os olhos da janela.

Direta.

Sem firula.

Do jeito dela.

E ele… já estava esperando por essa pergunta.

— Qual é a história com a Marcela?

Heitor piscou devagar, sorriu torto e ajeitou os óculos no rosto.

— Finalmente. Achei que essa pergunta ia vir na formatura dos nossos filhos.

— Para. — ela rebateu, seca. — Eu só quero saber se eu vou ter que lidar com ela mandando mais mensagens. E com esse histórico de ex com saudade.

— É justo — ele respondeu, sincero.

Silêncio mais um pouco.

E então ele começou. Sem se justificar — só contando, do jeito mais limpo que conseguiu.

— Conheci ela por causa da minha mãe. As duas se davam bem nesses eventos sociais do Rio. Caridade, almoços de gala, esse tipo de coisa que minha mãe sempre gostou de me empurrar. A Marcela era o que toda mãe queria pra um filho empresário: família conhecida, bonita, formada fora, cheia de etiqueta e rica de berço. Sabia sorrir no momento certo e conversar com figurão sem tropeçar no ego. Era tudo no lugar. Menos o essencial.

Helena continuava olhando a estrada, mas ele sabia que ela estava ouvindo tudo.

— Ficamos uns dois anos. Mas parecia mais um acordo do que namoro. Tinha status, tinha aparência, mas não tinha… presença. Ela não me tocava de verdade. E eu… fingia que tava tudo bem. Fingir era mais fácil do que confrontar minha mãe.

Helena olhou de lado.

— E por que você fingia?

Ele fez um gesto leve com a mão, como quem já tinha se perguntado isso mil vezes.

— Porque eu achava que era o certo. Que dava pra construir amor depois, com calma. Que família vinha antes da vontade. Mas uma semana antes do noivado, ouvi ela falando com uma amiga… “Ele não me ama. Mas amor nunca foi essencial pra um bom casamento. Ele é o Monteiro.”

Helena tirou os óculos.

Olhou direto pra ele.

— E você?

— Eu mandei um e-mail cancelando tudo. Três linhas. Depois sumi por uma semana. Foi a primeira vez que bati de frente de verdade com a minha mãe. Ela disse que eu tinha humilhado a família. Que eu era ingrato, irresponsável… Mas, Helena… Eu prefiro viver sozinho do que dormir toda noite com alguém que só quer o que meu sobrenome traz.

Ela ficou em silêncio.

O tipo de silêncio que não cobrava — só absorvia.

Heitor olhou pra ela, depois pra estrada.

— Com a Marcela, eu nunca fui eu. Eu era o cara que sorri pra foto, que paga o jantar, que segura a cintura na frente das câmeras. Mas não era o cara que ela queria de verdade. E nem eu queria ela.

Ele respirou fundo antes de continuar.

— Eu não amo pela metade. Eu não sei viver mentindo. E com você… Eu nem consigo fingir que sou menos do que eu sou. Cê me vê demais, Helena. E mesmo assim fica.

Ela virou o rosto de novo.

Mordeu o lábio inferior.

A pele do rosto estava quente.

— A mãe dela deve te odiar.

Heitor soltou um riso curto.

— A mãe dela? Minha mãe que quase me enterrou em vida. Ela ainda sonha com a mesa de jantar perfeita e a nora que acompanha ela em leilão beneficente. Mas se ela me conhecesse de verdade… Saberia que isso não é o suficiente para mim. Gosto de mulher brava, esforçada, boa de cama, bonita, morena e que se chama Helena.

Helena riu.

Baixo. Mas riu.

Cruzou os braços com força, como se tentasse segurar o sorriso.

Mas ele viu.

A pontinha da boca tremeu.

— Tu tá rindo, Helena?

— Cala a boca, Heitor.

— Fala a verdade. Tá adorando saber que a mulher perfeita do Instagram perdeu pra ti.

— Eu não tô competindo com ninguém. Mas se ela ainda acha que tem chance… Eu mostro a aliança no dedo e o que faço quando sento.

Heitor freou de leve numa curva, mas a mão foi direto pra coxa dela.

Apertou.

— Vai me fazer parar esse carro, Helena.

Ela virou o rosto com um sorriso vitorioso.

— Então para.