O CEO que Eu Paguei

96 E se ela não gostar de mim?


Ele não parou.

Mas a mão dele subiu mais um pouco pela coxa dela, os dedos firmes, como se o toque fosse uma promessa.

— Sabe o que mais me irrita nessa história com a Marcela? — ele disse, olhando de volta pra estrada.— Não era só a falta de sentimento. Era a frieza. A ausência. A forma como tudo parecia bonito… mas era oco. Até transar parecia atuação. Posição bonita, gemido de filme pornô, cama arrumada no fim.

Helena fez uma careta imediata.

— Credo. Chega.

— Não. Você precisa ouvir isso. Porque contigo… é outra porra de universo, Helena.

Ela suspirou, mas não olhou pra ele.

— O que a gente tem é quente. Suado. Com grito, com mordida, com arranhão. Com tua cara se perdendo no meu peito, e meu corpo lembrando do teu cheiro por dias. Com tua buceta molhada só de eu encostar. Com tu me puxando pelos cabelos e me dizendo que é minha. Com intensidade. Sem pose.

Helena virou o rosto bruscamente, as bochechas vermelhas.

— Heitor!

— Que foi? — ele perguntou, rindo. — Quer que eu finja que não penso nisso toda hora?

— Eu não quero saber das transas antigas do meu homem. Fala mais de mim. Não dela.

Ele sorriu. Aquele sorriso dele, vagqbundo e apaixonado ao mesmo tempo.

Inclinou um pouco o corpo pro lado dela.

— Então ouve.

A mão dele apertou mais firme a coxa dela

— Tu me fez gozar com vontade. Me deixou duro só de morder a tampa da caneta naquele dia no escritório. Entrou num hotel comigo sem nem pensar duas vezes.

Helena cruzou os braços, desviando o olhar, mas ele percebeu o canto da boca tremendo.

— Cuidou de mim na vistoria. Me olhou como se eu fosse homem e não chefe. Me deu a melhor cavalgada da minha vida nessa porra de carro.

Ela apertou as pernas juntas, em silêncio.

— Me fez bambear no banho. Me fez dormir nu, com aliança no dedo e o coração apaixonado. Coisa que ninguém nunca conseguiu.

Helena engoliu em seco.

Não olhou pra ele — mas também não falou nada.

Heitor continuou, a voz mais baixa, mais direta:

— E quando eu acordo e vejo tu pelada, com cara amassada, peladinha e mandando eu escovar os dentes… Eu só penso: “graças a Deus ela chegou antes de eu ficar velho demais pra viver isso aqui.”

Helena virou o rosto devagar.

Ficou encarando ele com um olhar que misturava provocação e… afeto.

Muito afeto.

— Se você bater esse carro, eu te mato — ela disse, com a voz mais baixa. — Porque eu vou precisar de mais umas cinquenta transas dessas pra esquecer que você teve alguém antes de mim.

Heitor riu, alto, de verdade.

— Tu quer que eu prove que não tem comparação? Porque se eu parar esse carro agora…

— Se você parar esse carro agora, eu te proíbo de encostar em mim pelos próximos três dias.

— Aí tu me mata.

— Exatamente.

— Aprende. A sua mulher é brava, mas sensível. E não gosta de lixo emocional reciclado.

Heitor olhou pra ela e assentiu.

Sério, agora.

— Entendido. A sua buceta é nova. A minha vida contigo também.

Ela finalmente olhou pra ele.

E o sorriso surgiu, inevitável.

— Ainda bem que você é bonito. Senão já tinha sido atropelado pela própria arrogância.

— E tu ainda tá de biquíni. Então cuida do que fala… ou eu perco o juízo no meio dessa estrada.

Helena riu. Cruzou as pernas de novo — só pra provocar.

E disse, com a voz baixa e aquele ar perigoso:

— Então dirige, Monteiro. E se comporta. Porque a única ex que vai ficar na sua cabeça agora… Sou eu. Se você me perder.

Heitor engoliu seco.

E pisou um pouco mais fundo no acelerador.

O silêncio ficou ali, flutuando entre eles.

Pesado. Mas não desconfortável.

E então ele falou.

Baixo, com os olhos na estrada.

Sem esforço. Sem pose.

— Eu não vou te perder, Helena.

Mais um segundo.

— Porque se um dia eu te perder… Eu não vou saber onde mais me encontrar.

Helena ficou quieta.

Mas a mão dela escorregou discretamente até encostar na dele.

E ficou ali.

A estrada estreitava.

O verde ao redor ficava mais denso.

A trilha da cachoeira já estava próxima.

Helena continuava quieta, olhando pela janela.

O coque alto bagunçado, a pele dourada pelos feixes de sol, a mão ainda repousando na dele.

Heitor quebrou o silêncio, com voz baixa:

— Tá pensando em quê, Helena?

Ela demorou um segundo.

Depois respondeu sem tirar os olhos da estrada:

— Acha que sua mãe vai gostar de mim?

Ele não respondeu de imediato.

Deixou o carro seguir mais alguns metros, os pneus comendo o chão de terra.

E só então falou:

— Você quer a verdade bonitinha… ou a verdade mesmo?

Helena virou o rosto.

Seca:

— Heitor.

Ele soltou um leve suspiro, sem drama.

— Minha mãe é complicada. Gosta de aparência. Sobrenome. Diploma. Gente que nunca teve que se virar sozinha.

Helena abaixou os olhos.

— Então já sei.

Heitor soltou uma risada curta, e com a mão direita apertou de leve a coxa dela.

— Sabe o que eu sei? Que você tem mais presença do que qualquer mulher que ela tentou me apresentar. Que sua sinceridade vale mais que qualquer vestido de evento. Que quando tu olha no meu olho, eu tenho certeza que você é a pessoa certa.

Helena não respondeu.

Mas ele sentiu o peso da pergunta.

O que ela não dizia.

Então ele foi direto:

— Ela pode não te aprovar de primeira. Pode até torcer o nariz. Mas gostar ou não dela… não muda o que eu sinto. E muito menos o que eu vou defender.

Helena respirou fundo.

— Eu só não quero ser… motivo de briga entre vocês.

Heitor desacelerou, estacionando perto da entrada da trilha.

— Já teve briga maior. Essa vai ser só mais uma se for preciso. Mas eu prefiro resolver. De verdade. Quero que ela entenda que eu escolhi você. E que eu não tô pedindo bênção. Tô avisando.

Helena olhou pra frente, segurando o próprio riso.

— Que jeito bonito de dizer que você não tá nem aí.

— Não é que eu não tô nem aí, Helena. É que eu não vou te perder pra opinião de ninguém. E se ela for burra o bastante pra te tratar mal… Ela que lide com as consequências.

Helena olhou pra ele.

Séria.

Mas com um brilho novo nos olhos.

— Ela vai gostar de mim quando me olhar bem.

Ele saiu do carro, deu a volta e abriu a porta pra ela.

Como sempre fazia.

— Vem. A trilha é curta. A água deve tá gelada. E hoje… Quem vai te olhar sou só eu.

Helena desceu.

O vestido rendado esvoaçando, os pés tocando a grama na terra.

Mas agora, com o coração mais leve.

Porque ela sabia.

No fim das contas, Heitor não era um homem que escolhia com base em convenção.

Ele escolhia com o coração.

Com o corpo.

E com uma intensidade que não deixava dúvidas.

E agora, ela era a escolha.

— Não é só sexo. Talvez eu fale de um jeito que pareça isso, mas pra mim… é ali que eu te conheço de verdade. É no jeito que teu corpo responde, no olhar que tu me dá quando perde o fôlego. É quando o sentimento transborda e eu vejo se você é capaz de receber o que eu sinto.

Ele não a encara. Observa a copa das árvores, temendo a exposição que está se pondo.

— Quando eu te beijo ou te toco, eu consigo sentir seus sentimentos por mim. Louco né?

A voz dele sai em um riso tímido, mas a voz dela vem com realidade, botando limites em um campo aberto.

— Sim, bem louco. Você fala como se o sexo fosse o centro de tudo. — ela olhou para a grama úmida, sentindo os pés molhados no chinelo.

Ela o encara, deixando claro que não era a mesma coisa para ela.

— Eu sinto o amor quando você me dá segurança. Quando mostra que não vai embora depois. Quando mesmo sendo intenso… parece sólido. Eu acredito em você porque você não joga palavras ao vento. É na sua constância que eu vejo a seriedade da nossa relação.

A voz de Heitor veio baixa.

— É uma forma diferente de amor. Parece ... Simples...

Ela sorriu então para ele.

— Amor através do sexo também parece bem simples para mim.

Era curioso como duas pessoas tão diferentes, em criações, em realidades e em formas de amar podiam estar sentindo a mesma coisa um pelo outro.

Heitor não falaria, nunca, que ele a quer por inteiro, totalmente, como se pudesse segurar o ar com as mãos ou como se pudesse controlar as estrelas. Nada disso era possível, porém era o que ele queria, era tudo, sexo, amor, ódio, raiva, paixão, amizade e todos os outros que completavam a existência dela.

Era um tipo de amor que dependendo da música poderia ser um filme de terror. Por isso, era muito mais fácil para ele, demostrar através do sexo e através do poder que ele exercia no ambiente.

Ele pensou que se amor para ela era estabilidade, ele tinha isso de sobra, era fácil demais. Talvez ela quisesse estabilidade emocional, isso já era mais complicado para alguém tão intenso quanto ele, mas, se ela queria , ele daria.

Mesmo assim, ele se sentiu na necessidade de falar.

— E eu acredito em você quando me arranha até sangrar. Quando geme meu nome como se eu fosse a última coisa no mundo. É ali que eu sei que não tem mentira. Você não finge comigo.

Helena sente que o rumo daquela conversa está indo para um caminho perigoso, mas em contra partida, sente que é apenas Heitor, sendo Heitor.

— Você precisa sentir dor pra acreditar em amor?

Nao era aquilo que ela queria. E esse papo dele era estranho demais para ela. Porém, ela escolheu estar com ele, e agora sim, iriam se conhecer de verdade.

Heitor se sentia acuado com a pergunta, como se Helena estivesse o colocando entre a cruz e a espada. E como um animal encurralado, ele respondeu.

— Preciso sentir tudo. Dor, prazer, raiva, amor... Não quero partes. Quero você inteira. Até o que você não gosta de mostrar.

Helena para de caminhar, ainda segurando a mão dele como se fosse uma corda que a atracava no mar dos sentimentos dele. O seu olhar era sério e nada acolhedor.

— Eu não sou fogo de palha. Sou como uma pedra. Quem fica comigo precisa ter paciência pra me lapidar. Não me apresso. Não me entrego de graça. Mas quando decido ficar… é porque sei que vai durar. — a voz dela não tremia e o olhar dela procurava o dele.

Ele virou para ela, com um sorriso arrogante e apaixonado. Seu olhar azul parecia um portal direto para o mar aberto.

— É isso que me enlouquece em você. Eu sou abismo, você é uma muralha. Eu quero derrubar teus muros… mas no fundo, é a tua firmeza que me segura.

O sorriso dela era quase irônico.

— E é a sua intensidade que me tira do eixo. Eu finjo que não gosto, mas gosto. Só não confunde: eu quero amor que constrói, não amor que destrói.

— Eu vou te dar os dois. Construção e destruição. Porque eu só sei amar assim: queimando tudo, pra depois levantar algo maior. — a voz dele era quente, convidativa, como uma praia em Recife em alta temporada de tubarões.

Ela diz em um sussurro, como se fosse um aviso tocando ao longe em uma ilha com um vulcão ativo.

— Então que isso entre nós seja firme. Porque se desabar… não vai reconstruir comigo de novo.

Ele sabia que ela dizia a verdade. E quanto mais ela exigia apenas uma parcela dele, ele queria entregar muito mais.

Mesmo assim, se sentia exposto, falar sobre seu sentimentos era doloroso. E ela não se importava em fazer a maré subir, porque queria construir algo, como uma casa flutuante no Pantanal. Resistente, sólida e aconchegante com ele.

Ele voltou a caminhar com ela.