O CEO que Eu Paguei
165 O Velho Leão
O amanhecer chegou azul e brilhante, mas Helena gostaria que ele estivesse cinzento e pesado, como se refletisse o que sentia. A realidade era bem diferente.
A noite havia sido um tormento. Nem dormir, nem descansar — apenas virar de um lado pro outro na cama, com o coração em frangalhos. Ela chorava baixinho, escondendo o rosto no travesseiro para não fazer barulho.
O celular vibrava sem parar, até travar de vez.
Ela respirou fundo, colocou em modo avião e jogou o aparelho de lado. Não queria ver nada. Não queria ler nada. Estava triste e envergonhada.
Mas… acabou puxando o celular novamente.
Foi até a galeria de fotos.
Lá estavam eles: ela e Heitor.
Nas risadas bobas, nos vídeos curtos, nas poses que ela odiava mas fazia por ele.
O peito apertava tanto que doía.
— Você tem noção do quanto eu te amo, Heitor? — sussurrou, o olhar marejado.
O enjoo veio forte.
Correu até o banheiro e passou o resto da madrugada vomitando — o corpo tentando aliviar o que o coração não conseguia suportar.
Entre uma pausa e outra, falava baixinho, como se o bebê pudesse ouvir:
— Calma, filho... mamãe tá aqui. O papai vai ficar bem.
Paulo havia saído há algumas horas, depois do lanche na madrugada. Antes de ir, anotou o número num guardanapo e a olhou nos olhos.
“Qualquer coisa, me liga. A qualquer hora, entendeu?”
Ela assentiu. Ainda achava estranho aquele carinho todo vindo de um homem que mal conhecia. Mas, ao mesmo tempo, aquilo a acalmava.
No período da manhã, Helena, Jonas e Isaac tomaram café juntos no jardim interno do hospital. O doutor Salles apareceu cedo, informando que Heitor permanecia estável, mas ainda sem previsão para visitas.
“Está reagindo bem”, ele disse, e isso já bastou para acender uma fagulha de esperança em Helena.
O jardim era amplo e silencioso. O som das fontes misturava-se ao canto dos pássaros, e por um momento, Helena conseguiu respirar fundo.
Até que Jonas, distraído, apontou para a direita:
— Olha quem tá ali!
Helena seguiu o olhar.
Um senhor idoso, de cabelos brancos e olhar cortante, caminhava devagar com o apoio de uma bengala.
Tinha o tipo de presença que fazia o ar ficar mais denso.
Jonas se levantou, sorrindo — porque, afinal, Jonas sempre sorria — e foi na direção dele.
Mas o que aconteceu em seguida foi rápido demais.
TAC!
A bengala desceu direto na panturrilha de Jonas.
— AI! — ele se abaixou, segurando a perna. — Mas o que... que eu fiz?!
Helena levantou-se num pulo, o instinto tomando conta.
— Senhor! O que pensa que tá fazendo?!
O velho virou o rosto para ela, os olhos cinzentos faiscando.
— Tô ensinando esse projeto de neto malcriado a não se enfiar onde não é chamado!
— Como assim?! — Jonas resmungou, mancando. — Eu só fui dar bom dia!
— Bom dia? Acha que eu sou surdo, moleque? Não preciso de “bom dia” com as mãos!
Isaac arregalou os olhos, ele já conhecia a peça.
— Senhor, por favor... acho que houve um engano—
O idoso o interrompeu sem nem olhar.
— E você, almofadinha do governador? Quer levar uma também?
Isaac travou, sem saber o que responder.
Jonas tentava se equilibrar, rindo nervoso, mas o velho levantou a bengala de novo.
— E se rir, apanha de novo!
Helena entrou na frente dele, os olhos faiscando.
— O senhor vai baixar essa bengala agora.
Afonso Monteiro — mesmo sem ela saber quem era — parou por um segundo.
Poucos tinham coragem de enfrentá-lo assim.
— Menina, não se mete, senão sobra pra você também.
— Pois então vai sobrar, porque eu não vou deixar o senhor bater nele! — respondeu firme, sem nem piscar.
— Você sabe com quem tá falando, garota?
— Com um homem mal-educado! — rebateu, o tom de Helena cada vez mais firme. — E se acha bonito bater em gente mais nova, precisa rever o que tá fazendo da vida!
Jonas surpreso abriu um sorriso, escondendo-se parcialmente atrás dela.
— Helena... é sério, tá tudo bem...
— Não tá tudo bem! — ela virou para ele, indignada. — Ele te agrediu, Jonas!
Afonso apoiou a bengala no chão e a olhou de cima a baixo.
— Você tem mais coragem do que juízo, menina.
— E o senhor tem mais idade do que educação! — respondeu Helena, de braços cruzados.
Isaac interveio, tentando acalmar os ânimos:
— Gente, calma, por favor. Foi um mal-entendido.Desculpe... nós não sabíamos…
— Não sabiam o quê, rapaz? Que eu não gosto de intrometidos? — rosnou o velho, mas o tom já era mais baixo.
Helena deu um passo à frente, a voz mais suave agora, embora ainda firme.
— O senhor pode não gostar de intrometidos, mas precisa aprender a não descontar isso em quem só quis ser gentil.
Ela colocou as mãos na cintura e respirou fundo.
— Sabe, minha avó também é ranzinza. Bate o pé pra tudo, até pra tomar o remédio. Mas quando alguém falava com ela direito, ele amolecia. Aposto que o senhor também é assim.
Afonso piscou, surpreso — talvez mais pela ousadia do que pelas palavras.
Os olhos cinzentos se estreitaram.
— Você tem língua afiada, menina.
— Vem de família. — ela respondeu, cruzando os braços.
Jonas, já mais relaxado, sussurrou:
— Cara... você é uma lenda mesmo.
Helena lançou um olhar de aviso pra ele e depois encarou o idoso outra vez.
— Vai aceitar o pedido de desculpas ou vai continuar tentando acertar a gente com essa bengala?
O canto da boca de Afonso tremeu — não chegou a ser um sorriso, mas também não era mais raiva.
— Vocês são insolentes. Todos. — resmungou, virando o rosto. — Mas pelo menos essa menina tem mais fibra que muito homem por aí.
Helena ergueu o queixo, vitoriosa.
— Obrigada. E agora que o senhor já brigou, que tal sentar um pouco? O sol tá forte, não quero que passe mal.
Ele bufou, mas obedeceu, sentando-se num banco de pedra próximo.
— Tsc. Mandona. Igual a uma Monteiro... — murmurou.
Helena não entendeu realmente a frase, mas Jonas e Isaac se entreolharam, chocados.
Eles sabiam quem era aquele homem.
Helena se aproximou e estendeu uma garrafa de água que havia comprado para mais tarde.
— Tome um pouco, senhor. Não pode desidratar.
Ele a olhou de lado, irritado... mas pegou a garrafa.
— Você fala demais.
— E o senhor resmunga demais. — ela rebateu.
Afonso soltou um resmungo entre dentes — mas, se alguém prestasse atenção o suficiente, perceberia: ele estava disfarçando um sorriso.
— Se está andando com esses fracassados só pode ser a famosa Helena, tô certo? — o velho rosnou, apoiando a bengala na perna com ar de quem não tolera cerimônia.
Helena ficou congelada por um segundo; a pergunta atravessou-a.
— Como o senhor me conhece?
— Sou Afonso Monteiro. Avô do Heitor. — Ele falou seco, como quem despe uma informação e espera consequência. — Ouvi falar de você.
O nome explicou tudo e deixou um calor estranho no rosto dela. Engoliu em seco.
— Poderia ser um prazer conhecer o senhor, se o senhor não saísse por aí batendo nas pessoas.
Afonso riu, um som curto.
— É para ele ficar esperto. Ele tá acostumado. — Fez um gesto com a mão para que Jonas e Isaac se retirassem. — Xô, quero falar com a moça em particular.
Isaac hesitou e olhou para Helena.
— Você que sabe, posso ficar aqui…
Antes que terminasse, Afonso tirou o próprio tênis e o lançou num movimento seco em direção ao rapaz. Isaac desviou no último segundo; o tênis bateu no chão com um estalo. — Tá ignorando o que eu digo, é, moleque? — o velho berrou.
— De maneira alguma, senhor — Isaac respondeu, meio assustado, meio rindo nervoso.
Helena suspirou, levantou-se e apanhou o tênis do chão. Devolveu ao velho com a mão estendida.
— Eu só vou falar com o senhor se prometer que não vai mais agredir os meus amigos.
Afonso arqueou os lábios, um tique de surpresa.
— Acha que manda em algo? Quem pensa que sou para falar assim, mocinha?
Ela virou de costas, firme. Apoiou a mão nas costas de Isaac.
— Vamos.
Afonso apertou os lábios, por um instante a casca dura do velho rachou num som como de contenção, e ele gritou para eles:
— EU PROMETO!
Helena parou, virou-se e olhou para Jonas e Isaac com um meio-sorriso.
— Eu já encontro vocês — disse, mais para acalmar eles do que para convencer.
Voltou e sentou-se outra vez ao lado dele. Afonso observou, encolheu os ombros e, por um segundo, deixou escapar uma expressão quase humana.
— Eu não gosto que me tratem desse jeito — disse ele, resmungando, mas as rugas da testa suavizando-se.
— Como o senhor gosta de ser tratado? — perguntou ela.
— Gosto que me tratem com respeito e carinho.
— Então o senhor devia ser mais gentil; assim todo mundo vai tratar o senhor assim — retrucou Helena, com leve ironia, mas havia ternura na frase.
Ele fez um tsc com a boca, como quem reprova um doce exagero.
— Você fala como a minha falecida esposa. — A voz baixou. — Sua personalidade é forte, mas vejo que mesmo sendo bocuda, se importa com os outros.
Ela sorriu de lado, a vergonha misturada a um orgulho contido.
— Parece um elogio. Obrigada.
Afonso virou o rosto para não se mostrar amolecido.
— O Renato me contou que você é boa nos negócios, que está trabalhando para a Monteiro Inc. Cuide bem da minha empresa. Eu a fiz com as minhas mãos. — Não olhava para ela ao dizer isso. — E mais: meus bisnetos têm que ser fortes para aguentar o peso do nome.
Aquelas palavras tocaram-a de um jeito que não esperava. Helena sorriu, emocionada.
— Tenho certeza que vão ser fortes. Afinal, vão ser filhos do Heitor.
Ele olhou ao redor, encostou-se no banco, e aproximou-se, baixando a voz num cochicho rouco.
— Vocês já têm planos? Se quiser, posso… furar os preservativos.
Helena soltou uma gargalhada alta, de incredulidade e espanto.
Afonso arfou, meio ofendido.
— Não seja ingrata, eu só quis ajudar.
— Não precisa se preocupar. — Ela tocou a barriga. — Já estou grávida. Sabe?
O velho ficou em silêncio por um segundo, olhando a barriga como se medisse algo físico e precioso. Suspirou aliviado e encostou-se no encosto do banco.
— Graças a Deus. O garoto já ia fazer quase a minha idade, achei que fosse morrer e meu nome morrer junto.
Helena riu, um som curto, depois falou, mais pensativa:
— Pelas minhas contas, o bebê deve nascer em junho.
Afonso tentou não demonstrar o quanto aquilo o satisfazia; porém, os cantos dos olhos arregalavam-se em aprovação.
— Será que vai ser menino? O primogênito costuma ser menino na nossa família.
— Acho que vai ser uma menina. — Helena disse, e um calor envolveu a frase. — O Heitor até já escolheu um nome.
Afonso ergueu a sobrancelha, interessado.
— Uma menina, primogênita Monteiro… hmmm. No mundo moderno, seria uma boa. Qual o nome?
— Heloísa. — Ela respondeu, quase sussurrando, como se o nome fosse um segredo que aquecia o peito.
— Tem um nome forte, digno de um Monteiro. — Ele testou o nome com a língua. — Heloísa Monteiro… Combina bastante. Meu neto escolheu até bem.
— Escolheu mesmo — confirmou ela, sorrindo.
— E se for menino? Qual o nome? — insistiu Afonso, curioso.
— Ainda não escolhi. Combinamos que seria um nome com H... é difícil. — Ela parecia melancólica por um instante.
Afonso foi pensativo.
— Que tal Henrique? Henrique Monteiro… Gosto de como soa.
Helena corou e desviou o olhar.
— É o nome do meu pai.
— Ele vai gostar da homenagem — disse Afonso.
— E, se quiser, Henrique Afonso Monteiro soa até melhor. — Ele pronunciou o nome, satisfeito com o balanço das sílabas.
Ela riu timidamente.
— Eu penso que o bebê devia ter um nome só dele, sabe? Não quero que ele nasça carregando o nome de outra pessoa.
— Muito mesquinho da sua parte — resmungou ele, brincando.
— Não seja rabugento. — Ela sorriu de volta. — Eu vou pensar melhor. Mas eu também sinto que é uma menina.
— Vocês mulheres com esse sexto sentido — Afonso murmurou, divertido. — Eu acredito mais se você diz do que no meu neto.
Os dois ficaram em silêncio por um instante, como se cada um ouvisse o outro respirar. Helena olhou para Afonso com atenção.
— O Heitor… ele é muito forte.
— É claro que é. Escorre nele o meu sangue. — O velho empinou o queixo, orgulhoso da própria robustez. — Olha minha idade. Ainda to inteiro.
— É, tô vendo — ela respondeu, com um sorriso que misturava ironia e ternura.
A expressão de Afonso mudou quando o nome Fortenelle passou pela sua cabeça. A sombra escura que ele não escondia apareceu de novo. Ele ergueu os olhos para o céu, apertou os dedos na bengala como se fosse uma arma e falou com voz firme, quase áspera:
— Esses Fortenelles não sabem com quem mexeram. — Encarou as copas das árvores, como se projetasse a fúria. — Nem que eu tenha que derrubar os céus… Eles vão aprender que não se mexe com um Monteiro. Se tivessem matado o meu neto, eu ia para a cadeia feliz depois de enterrar até o último descendente deles.
Helena sentiu o peito apertar. As palavras do velho soaram como pólvora: duras e inevitáveis. Embora assustadora, a promessa despertou nela um reflexo semelhante — uma cólera mansa que lhe subiu do estômago. Pensou, por um relance, no que teria feito se Heitor tivesse morrido. O simples pensamento a encolheu. Ela não conseguia pensar em algo assim.
Afonso, vendo a sombra que deixou cair sobre ela, suavizou a voz por um segundo, como quem tenta não assustar mais.
— Mas calma, menina. Não chegou a isso. Vamos primeiro cuidar do meu neto. Depois, se precisar, a gente resolve o resto.
Por baixo de todo aquele ar carrancudo, ela percebeu ternura. Uma promessa de família. Uma promessa de guerra, se fosse preciso.
— Obrigada — murmurou ela, de verdade, tocando de leve a mão do velho.
Afonso fez um tique de aprovação e, com a lentidão de quem carrega anos, levantou-se, ajeitou a bengala e seguiu caminho pelo jardim, deixando atrás de si um rastro de autoridade que azedava o ar e, ao mesmo tempo, o tornava mais seguro. Jonas e Isaac voltaram, rindo, mas ainda preocupados; Helena respirou fundo e acomodou-se no banco, esqueceu de o agradecer sobre criar uma filial na cidade dela. Bom, essa conversa teria que ficar para depois.
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