O CEO que Eu Paguei
166 Primeira Visita
Após o intenso encontro com Afonso Monteiro, Helena ficou alguns segundos em silêncio, Heitor sempre falou que seu avô era mal humorado, mas ela o achou um senhorzinho até fofinho.
Pegou o telefone com as mãos trêmulas, olhou o aparelho com pesar, sabia que, do outro lado, devia haver dezenas de mensagens, notícias e mentiras. Suspirou e estendeu o celular para Isaac.
— Eu... eu não posso ligar o telefone. Não quero ver as mensagens... — disse, a voz baixa, quase quebrando. Olhou para ele, com um pedido silencioso. — Pode ligar para a moça que cuida do apartamento e pedir pra ela colocar a comida da Mel? Que depois a entregue pra cuidadora, por favor?
Isaac assentiu, tocando na tela.
— Posso sim. Que loucura isso tudo, hein... — Ele a observou, percebendo o cansaço em cada traço. — Mas me diz, você deve estar exausta. Não quer ir pra casa descansar? Tomar um banho, colocar uma roupa fresca?
Antes que Helena respondesse, Jonas se adiantou:
— Ela já disse que não quer. — o tom saiu protetor demais, quase ríspido.
Isaac arqueou uma sobrancelha.
— Só tô tentando ajudar. Você tá grávida, Helena, esse ambiente não é adequado pra você.
— Ela... — Jonas ia continuar, mas Helena o interrompeu, colocando a mão no peito dele.
— Eu posso responder por mim, Jonas.
Ele suspirou, rendendo-se.
— Só queria ajudar. Afinal, já sei todas as suas frases decoradas.
— Menos essa. — respondeu Helena, num meio sorriso cansado. Virou-se para Isaac. — Mas você tem razão.
Isaac e Jonas se entreolharam, surpresos.
— Eu realmente não deveria estar aqui. — completou ela. — Mas eu tenho que ficar. Eu nunca vou me perdoar se o Heitor perguntar de mim e eu estiver longe.
O vento do jardim soprava leve, trazendo o cheiro distante do café da ala de refeição. O sol já atravessava os vitrais do corredor quando os três viram, ao longe, uma silhueta conhecida.
Celina Monteiro vinha caminhando, apesar da postura firme e da elegância natural, era impossível não notar as olheiras profundas, os olhos vermelhos e inchados. Aquela mulher, que sempre parecia inabalável, trazia agora no rosto a dor contida de uma mãe.
Helena sentiu o coração apertar.
Deu alguns passos à frente. As duas se olharam — uma troca silenciosa, densa. Por um instante, Celina pareceu hesitar como se estivesse tão frágil a ponto de quebrar, mas então respirou fundo e a abraçou. Um abraço apertado, contido, mas cheio de emoção.
— Bom dia, Helena. Como você está? E o meu neto? — perguntou, afastando-se o suficiente para vê-la.
— Bom dia, Celina. Está tudo bem com o bebê. — respondeu Helena, com um olhar apreensivo. — E o Heitor?
Celina desviou o olhar e encontrou os dois rapazes observando à distância.
— Olá, meninos. — cumprimentou com delicadeza.
Eles retribuíram o gesto, em respeito.
Então ela voltou a encarar Helena, como se buscasse respostas para perguntas que ainda não ousava fazer.
— Ele está estável. — disse, por fim. — Me deixaram entrar por dez minutos. Agora vão retirar o tubo de oxigênio e colocar a máscara. Ele já está conseguindo respirar sozinho.
Helena sentiu os olhos marejarem de alívio.
— Graças a Deus... — murmurou.
— Ele já acordou? — perguntou Jonas, ansioso.
— Ainda não. — respondeu Celina com voz firme.
— E... eles já sabem o que aconteceu? — Isaac perguntou, o semblante sério.
Helena olhou para a sogra, partilhando a mesma dúvida silenciosa.
Celina demorou a responder, pesando cada palavra.
— Ainda não se sabe. — disse, enfim. — Renato foi cedo acompanhar as investigações e tomar as medidas necessárias.
Helena respirou fundo, segurando as lágrimas.
— Mas... ele perdeu muito sangue. Ele foi agredido? Baleado? Eu só sei que foi o Fortenelle.
Celina pousou uma das mãos sobre o braço dela, num gesto contido.
— Eu também não tenho muitas informações. — o tom dela mudou, suavizando. — Mas eu estava te procurando, Helena. Soube que estava aqui. Vou te liberar pra conseguir visitar meu filho.
Helena arregalou os olhos, o coração disparando.
— O quê? Sério? — um sorriso largo surgiu entre lágrimas. — Nossa... obrigada! Obrigada mesmo!
Celina assentiu, séria, mas um pequeno lampejo de ternura cruzou seu rosto.
— Infelizmente os meninos ainda não vão poder vê-lo.
Jonas fez uma expressão triste, mas Isaac respondeu antes:
— A gente entende.
Celina então segurou o braço de Helena e a conduziu suavemente.
— Vamos.
As duas seguiram pelo corredor até a recepção. As luzes do hospital refletiam o cansaço das duas. As recepcionistas agora eram outras, trocando olhares compreensivos enquanto entregavam os formulários.
Helena preencheu os dados com calma, enquanto Celina assinava todos os termos e um documento de responsabilidade.
A ala das UTIs tinha aquele silêncio peculiar — pesado e triste.
O ar cheirava a álcool, metal e algo indefinível que só existia em lugares onde a vida e a morte dividem o mesmo teto.
Celina e Helena foram recebidas por um enfermeiro e um médico de jaleco branco. Celina falou com naturalidade:
— É minha nora, Helena. Ela veio visitar o Heitor.
O médico assentiu, olhando rapidamente para Helena antes de chamar uma das enfermeiras.
— Acompanhe-a, por favor.
A enfermeira sorriu, gentil.
— Claro. Pode vir comigo, senhora.
Helena assentiu, mas olhou para trás algumas vezes. Viu Celina conversando com o médico, a voz dela baixa e firme, o corpo imóvel — como se se mantivesse de pé apenas pela força da própria vontade.
Seguiu com a enfermeira até uma pequena antessala branca.
— Preciso que a senhora tome um banho rápido e vista a roupa esterilizada — disse com suavidade. — Também vai precisar usar protetor nos pés e uma touca.
Helena apenas acenou. Entrou, lavou o corpo com sabão neutro, vestiu a roupa avental hospitalar e calçou o protetor. Quando saiu, viu novamente Celina ao fundo, ainda conversando com o médico.
Teve vontade de ir até ela — mas não foi. Algo dentro dela dizia que aquele momento era apenas dela e dele.
A enfermeira abriu a porta, e o som do bip… bip… bip… das máquinas preencheu o ar.
Um som constante. Mecânico. Inumano.
E no centro de tudo — ele.
Heitor Monteiro.
O nome dele ecoou dentro dela como um grito mudo.
O corpo dele parecia grande demais para aquela cama, mas frágil.
O homem que costumava ocupar o espaço com uma presença inteira agora era só um contorno imóvel cercado por fios, tubos e luzes que pareciam roubá-lo dela centímetro por centímetro.
O peito subia e descia devagar, com esforço.
As faixas brancas cruzavam o ombro, o braço e parte do tórax — como marcas de uma batalha que ele viveu. O rosto pálido, machucado — e, mesmo assim, tão ele, tão dela, tão familiar.
Helena sentiu as pernas vacilarem.
Por um segundo, o mundo inteiro pareceu em silêncio.
E tudo que restava era o som das máquinas, ritmando a ausência dele.
As lágrimas vieram antes que ela pudesse conter.
Ele estava ali — mas não estava.
E essa ausência dentro da presença era a pior dor que ela já sentiu.
Por um instante, tudo o que ela via eram lembranças.
O sorriso dele, o olhar firme quando prometia protegê-la, o jeito como a puxava pra perto no meio da noite.
A risada rouca quando ela era teimosa com ele.
Quando eles iam cozinhar juntos e ele ficava aproveitando para tocar nela.
Neles deitados no tapete da sala se divertindo com os reels.
O toque. O cheiro. O abraço.
O homem cheio de vida agora respirava por máquinas.
bip… bip… bip…
O som era tortura.
Mas também era consolo.
Era prova de que ele ainda lutava.
Helena deu um passo, depois outro.
O coração batia no pescoço, descompassado.
O ar parecia pesado demais pra respirar.
O cabelo dele estava bagunçado — e ela se lembrou de como ele sempre dizia “selvagem demais para você?” depois do banho, passando a toalha apressada e piscando para ela.
Mas agora… agora ele parecia distante, apagado, como se parte dele tivesse ficado no meio daquela briga, naquele chão manchado de sangue.
Ela quis tocá-lo, levou a mão em direção ao cabelo dele, mas a enfermeira interrompeu com voz suave:
— Senhora, por favor. Ele está estável, mas o risco de infecção ainda é alto. Ele passou por uma cirurgia muito delicada.
Helena piscou, tonta.
— Cirurgia delicada?
— Ele perdeu muito sangue. Os ferimentos no ombro e no braço foram graves.
— Eu… eu não sabia… — a voz falhou.
A enfermeira hesitou um instante. Depois completou, num tom mais brando:
— Mas pode segurar a mão dele. A boa, de preferência.
Helena assentiu, o queixo trêmulo.
Deu a volta até o outro lado da cama.
A mão dele — grande, firme, com a aliança ainda brilhando no dedo.
O símbolo de tudo o que eles haviam construído juntos — e do que ainda sonhavam viver.
Encostou as pontas dos dedos nos dele.
A pele dele estava quente.
Aquele toque ela conhecia melhor do que qualquer palavra. Os dedos dela deslizaram gentilmente pelos dele.
Entrelaçou os dedos devagar, com cuidado, como se temesse que ele se desfizesse em suas mãos. Levou a outra mão para ajudar os dedos dele se fecharem nos dela, amava o toque dele.
Sentou-se na poltrona ao lado, o corpo leve e pesado ao mesmo tempo.
A enfermeira falou alguma coisa — sobre curativos, riscos, infecção — mas as palavras vinham distantes, como se passassem por um vidro.
Helena apenas assentiu, sem ouvir.
As lágrimas caíam silenciosas, escorrendo pelas bochechas dela. De alguma maneira ela tinha que ser forte, não podia mostrar fraqueza em um momento que ele precisava que ela fosse forte.
Respirou fundo.
Uma, duas vezes.
Tentou sorrir, mas o sorriso veio quebrado.
— Oi, amor… — sussurrou, com a voz embargada. — Desculpa a demora. Eu vim o mais rápido que pude.
O som das máquinas respondeu por ele.
bip… bip… bip…
— Você se atrasou pro jantar. — ela tentou rir, o som saindo quase como soluço. — A lasanha esfriou…
Olhou pra ele e o riso morreu nos lábios.
— Lembra quando disse que não ia embora? Que ia ficar comigo com ou sem filho? — o sorriso fraco se dissolveu. — Quando ficamos na casa da minha avó?
A voz quebrou.
Passou o polegar sobre a mão dele, devagar, como quem desenha lembranças.
O frio do metal da aliança, o calor da pele e o peso do amor.
— Então fica, Heitor. — pediu baixinho. — Fica comigo. Fica com a gente.
Ela passou o polegar sobre os nós dos dedos dele, num gesto lento, íntimo.
— Você prometeu que ia segurar minha mão até o fim. Segura agora, amor. Só um pouquinho. Só pra eu saber que você ainda tá me ouvindo.
O bipe manteve o ritmo.
Mas ela jurou sentir o polegar dele mover.
Talvez fosse imaginação.
Ou talvez fosse o amor, lutando pra responder.
“Volta pra mim”, pensou.
Mas não disse.
O som ficaria pequeno demais perto daquilo.
Helena encostou a testa na mão dele.
O cheiro de hospital misturou-se ao perfume leve da roupa que ela ainda usava — o mesmo que ele sempre dizia gostar.
E por um instante, ela fingiu que ele dormia.
Que ia acordar e sorrir, e chamá-la de “teimosa” com aquele sotaque arrastado.
Foi ali, naquele momento, que Helena entendeu o que era o amor em sua forma mais crua: ficar quando tudo em você quer desabar.
A claridade do dia atravessava o vidro e enchia o quarto.
O som do bip continuava.
A vida tentava continuar.
Mas dentro dela, o tempo havia parado.
Porque o homem que ela amava estava deitado, imóvel, lutando contra o invisível e tudo o que ela podia fazer era amar por dois.
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