O CEO que Eu Paguei

90 O Que Vem Depois do Sábado de Manhã


— O café é por tua conta, tá? — Heitor disse, mastigando um pedaço de pão quente com queijo derretido. — Eu ainda não sei fazer. Só sei cortar as paradas e fazer suco.

Helena olhou pra ele e sorriu de canto, segurando o copo.

— E faz suco muito bem, viu. Melhor do que muito brunch por aí.

Heitor fingiu que não estava corando.

Mas a pontinha da orelha dele entregou.

— Me elogia mais, vai. Já já vou ter que te levar de novo pra mesa.

— Palhaço.

Ele deu um gole no suco, relaxou na cadeira e então soltou:

— Come direitinho aí, que hoje a gente vai dar um pulo em Uberlândia.

Helena parou no meio da mordida.

— O quê?

— Ué. Te avisei. Durante a semana. Você disse “se for pra passear com você, eu vou”. Tô levando a sério.

— Mas Heitor… você não pode sair decidindo tudo assim.

Ele deu aquele sorrisinho que ela conhecia bem.

— Claro que posso. Sou o homem da relação.

— O quê?

— Brincadeira. Calma. Mas deixa comigo. Já arrumei tudo. Hotel, roupa e as mala. Só precisa se arrumar e me deixar cuidar.

Helena estreitou os olhos.

— Isso é perigoso. Você me mimando desse jeito.

— Perigoso é esse roupão frouxo com tu sentada de perna aberta aqui nessa cozinha. Tô tentando manter o foco.

Ela ajeitou o tecido de leve e rebateu:

— Então para de olhar.

— Nem fodendo.

Heitor pegou o celular dele do bolso do moletom jogado no banco ao lado.

Apontou a câmera pra ela com um sorriso malandro.

— Fica aí. Assim mesmo. Com esse cabelo bagunçado e essa cara de quem foi bem servida.

— Heitor! — ela ajeitou o roupão, o rosto queimando.

— Relaxa. Todo mundo já sabe que a gente transa.

Helena ficou vermelha.

— Você não presta.

— Ainda bem. Quem presta não faz você gozar daquele jeito.

Ela bufou, fingindo indignação, mas os olhos brilhavam.

Ele chegou mais perto, puxou ela pelo queixo e clicou outra foto.

Depois tirou uma dos dois juntos com o café da manhã entre eles.

Heitor postou nos stories com a legenda:

“Começando bem o sabadão ☕🔥”

E ao fundo tocando: Logo Eu — Jorge & Mateus:

“...Eu te vi e já te quis…Me vi tão feliz…Um amor que pra mim era sonho… Surpreendente provar…Do que eu só ouvi falar…E você resolveu me mostrar…Logo eu que nem pensava… Eu não imaginava te merecer…E agora sou o dono desse amor…”

Logo depois, alguém bateu na porta.

Toque curto e seco.

— Deve ser dona Cidinha ou o segurança. Vou ver.

Helena assentiu com a cabeça.

Assim que ele saiu da cozinha, pegou o próprio celular.

A notificação de menções estava estourada.

Várias solicitações de amizade.

Muitos perfis com cara de elite, sobrenomes importantes, bios em inglês, mulheres de unhas impecáveis, homens de blazer até no avatar e outros homens bem playboyzinhos.

Helena sentiu o estômago gelar.

Desceu mais.

@celinamonteiro.oficial

O nome da mãe de Heitor.

Ela prendeu a respiração.

Aceitou.

E seguiu de volta.

Mais abaixo:

@jonasfmedeiros

Aquele da camisa de time e língua pra fora. O famigerado Jonas, "irmão" do Heitor.

Ela aceitou também.

Riu sozinha.

Mas então…

@marcelatorres.rj

A solicitação ficou ali, parada.

A ex.

Helena sentiu o estômago embrulhar.

A garganta seca.

Ficou olhando a tela.

O dedo parado sobre “aceitar”.

Mas não se mexeu.

A notificação ficou ali, como uma presença incômoda.

Como uma lembrança de que o mundo dele… ainda estava se aproximando.

Helena ficou olhando o nome na tela:

@marcelatorres.rj

O dedo ainda parado sobre a opção “aceitar”.

Ela pensou em ignorar.

Mas seria infantil.

E ela não era infantil.

Ou era?

Aceitou.

Seguiu de volta.

Pronto. Não era nada.

Mas mesmo depois de desligar o celular, o nome continuou aceso na cabeça dela como notificação que não some.

Helena puxou o roupão com mais força, sentindo o tecido encontrar os vincos da pele ainda marcada pelos toques de Heitor.

A mesma pele que, provavelmente, ele já tocou antes.

Com Marcela.

Com quem mais?

“Que idiota. Pra que pensar nisso agora?”

Ouviu os passos voltando.

Fechou o celular como se escondesse um segredo.

— Era dona Cidinha com uns negócios do mercado — Heitor comentou ao entrar, limpando as mãos no pano de prato. — Perguntou se você gosta de pão de queijo. Falei que se não gostar, pode nem dormir aqui mais.

Helena riu, baixo.

— Óbvio que eu gosto, né? Sou mineira, nasci comendo esse trem.

Heitor se aproximou.

Passou por trás dela.

Encostou a boca na nuca e disse:

— Ainda bem… Porque pensa se você fosse carioca? Ia ter que dividir minha coroa com você.

— Idiota — ela disse, virando o rosto, tentando sorrir como antes. Mas por dentro… o gosto ainda estava diferente.

Marcela.

O sobrenome Torres.

O “.rj”. Ela sim, era carioca.

Tinha algo naquela combinação que dava um nó no estômago dela.

Heitor voltou a comer.

Falava algo sobre o hotel em Uberlândia, sobre o restaurante que queria levar ela à noite.

E Helena respondia.

Mas não da mesma forma.

Sorria.

Mas não tanto.

O olhar fugia um pouco.

A coluna mais ereta, os braços cruzados.

— Tá tudo certo aí?— ele perguntou, erguendo uma sobrancelha, desconfiado.

— Claro. — ela respondeu rápido demais. — Só tô pensando nas roupas que vou levar.

Heitor assentiu.

Mas notou.

Ele sempre notava.

Ela, por outro lado, olhou pro prato.

Não queria discutir.

Não queria parecer insegura.

E mais do que isso: não queria dar a Marcela essa vitória silenciosa.

Mas, lá dentro… um pensamento veio — incômodo, ácido, impossível de ignorar:

“Será que ela já sentou em uma mesa com ele assim também?”

Engoliu seco.

Respirou fundo.

Ia engolir isso.

Como já engoliu coisa pior na vida.

Mas, no fundo, sabia: ainda ia doer um pouco mais antes de passar.