O CEO que Eu Paguei
91 Entre Minas e Verdades
— Vó, só tô ligando pra avisar que vou passar o fim de semana com o Heitor. — disse Helena, mexendo nas pulseiras no pulso enquanto segurava o celular com o ombro.
Do outro lado, a voz bem-humorada da avó veio com tudo:
— E ele sabe que vai ter que casar agora, né? Esse negócio de dormir duas noites seguidas é compromisso sério.
Helena bufou, ajeitou o boné na cabeça.
— Ô vó, para com isso. Nem começa. Só tô avisando.
— Tá bom, tá bom. Mas olha, filha… Aproveita. Homem que cozinha, que trata bem e que te olha daquele jeito… é mais raro que onça pintada.
Helena sorriu, ainda tentando parecer durona.
— Tá… beijo, viu?
Desligou com o coração levemente aquecido.
Vestiu o short preto, a regatinha justa, o tênis branco — colocou os acessórios, os brincos e o boné. Ela nem conhecia as marcas, mas pelo tecido pareciam ser de qualidade.
Quando desceu, o olhar de Heitor parou nela como um farol num mar escuro.
Ele passou a mão na nuca e fez aquele barulho com a língua, os olhos passeando sem vergonha:
— Porra… Tu quer mesmo que eu te leve pra estrada?
— Quero que você me leve rápido. A estrada não é boa, Monteiro.
— Quis me matar no café, e agora tá me matando vestida. Tu me odeia mesmo.
Helena só sorriu, já entrando no carro.
O Audi A7 já deslizando pela rodovia, Heitor de óculos escuros, boné virado pra trás.
O braço esquerdo guiava.
O direito descansava na coxa dela, com os dedos batendo de leve no ritmo da música sertaneja que tocava no som:
“...Passa o dia, passa a noite, tô apaixonado…Coração no peito sofre sem você do lado… E dessa vez tudo é real, nada de fantasia… Saiba que eu te amo, amo noite e dia…”
Ele cantava animado e quando terminou.
— Gosta dessas? — ele perguntou, abaixando um pouco o volume.
— Comecei a gostar. Mas não é pelo estilo. É porque você canta todas e fica parecendo emocionado.
— Ahhh. Mas se eu botar um trap, vai dizer que tô de rolê no morro também, né?
Helena riu, mexendo no celular.
— Não. Se botar trap, eu vou achar que você vai me pedir nudes e chamar de “delícia do papai”.
— Tu já é minha delícia, mas é particular.
Ela deu um tapa de leve no ombro dele.
— Idiota.
— Você gosta.
Ficaram em silêncio por um tempo.
Heitor apertou um pouco mais a mão na coxa dela, agora subindo devagar até o meio da perna.
— E aí, Helena… Se não tivesse vindo parar na Monteiro… o que você teria feito da vida?
Ela olhou pra fora da janela por alguns segundos.
O carro deslizava tranquilo pela estrada, a paisagem se alternando entre verdes vivos e placas que avisavam curvas.
O rádio tocava um sertanejo mais leve agora, quase um plano de fundo.
A voz veio mais baixa, mas firme:
— Quando eu era mais nova, queria fazer faculdade fora. Meu sonho era entrar na USP. — ela deu um riso abafado — E eu passei. Fiz o vestibular, fiquei noites sem dormir estudando... e passei.
Heitor olhou de relance.
O silêncio dele dizia mais que palavras.
— Mas o auxílio estudantil só vinha depois de três meses. E meus avós… — ela suspirou. — Meus avós não tinham como me ajudar. Eu podia ter ido assim mesmo, passado aperto, dormido em república com 8 pessoas de favor... mas eu não quis deixar eles. Não consegui.
Heitor apertou de leve a coxa dela.
Sem interromper.
— Fiz uma faculdade EAD. Daquelas que ninguém valoriza, mas é o que dava pra pagar. Enquanto isso, trabalhei como repositora de mercado, caixa de farmácia e atendente de loja. Mesmo com ensino superior, ninguém me dava uma chance. — ela fez uma pausa. — E quando apareceu a oportunidade de trabalhar na terceirizada da Monteiro… foi como respirar de novo.
Ela virou o rosto pra ele.
— Comecei a conseguir comprar comida de qualidade, roupa boa, ajudar minha avó. Consegui pagar a conta de luz em dia, Heitor. Pra muita gente isso é básico. Pra mim foi um marco.
Os olhos dela brilhavam.
Mas não de lágrimas.
De memórias.
— O único arrependimento que tenho… é que meu avô não viu nada disso. Ele me chamava de campeã, mesmo quando eu não era nada. Queria tanto que ele tivesse visto.
Heitor manteve a mão firme nela.
— Helê…
Ela desviou o olhar, com um suspiro leve.
— Enfim. É isso. A estrada me deixou meio reflexiva.
Heitor ficou em silêncio por alguns segundos.
— Você não imagina o orgulho que eu senti agora. — a voz dele veio baixa, mas firme — Você chegou longe pra caralho. E o mais foda? Você chegou sozinha. Ninguém te deu a mão. Você foi a porra da sua própria ponte.
Helena virou pra ele com um sorrisinho debochado, tentando disfarçar o impacto.
— Agora fala de você. Você nasceu rico, né?
Heitor deu uma risada curta, sincera.
— Nasci. Filho único. Herdeiro. Fui um moleque mimado pra caramba. Ganhei coisa que não precisava, fui em escola bilingue antes de saber amarrar o cadarço.
— Nossa… — ela respondeu com humor — Então você é o oposto de mim. A única coisa que ganhei fácil foi dor nas costas de empilhar caixa.
— Mas ó… — ele falou, como se contasse um segredo — Quando eu era criança, meu sonho era ser carteiro.
Helena não aguentou.
Riu alto, batendo de leve no braço dele.
— Carteiro?! Por quê?!
— Eu achava que era tipo ajudante do Papai Noel. Eles entregavam presentes, cartas, deixavam as pessoas felizes. Toda vez que o carteiro chegava lá em casa e minha avó pegava uma encomenda, ela sorria. E eu pensava: “deve ser muito maneiro dar isso pros outros”.
Helena riu mais.
Mas o olhar ficou suave.
— Isso é fofo. Quase me fez esquecer que você é insuportável.
— Só quase? — ele fingiu ofensa, rindo.
— Quase.
Heitor ficou em silêncio por alguns segundos.
A estrada continuava lá fora, mas agora o carro parecia o próprio mundo deles.
— Eu também queria ser cozinheiro. Cozinhava pra minha mãe e minha avó. Era tudo ruim, no começo. Mas elas comiam tudo. E sorriam como se fosse o melhor prato do mundo.
Helena se virou pra ele, com o rosto sério agora.
— Isso é muito bonito, Heitor.
— Eu acho que… — ele mordeu o lábio, como se hesitasse — A verdade é que eu sempre gostei de ver os outros bem por minha causa. Ver o sorriso de alguém por algo que eu fiz. Talvez por isso eu goste tanto de você. — ele virou o rosto pra ela. — Você tem um sorriso lindo. Principalmente quando tenta esconder que tá feliz. E mais do que tudo, quando está sorrindo para mim.
Ela desviou o olhar.
Engoliu seco.
— Heitor…
— Calma. — ele disse, rindo. — Já falei demais. Depois eu te conto como quase virei jogador de futebol. Agora é você. Me diz mais do seu avô. Ele tinha o quê de especial?
E Helena falou.
Com aquele jeitinho dela, o sotaque mineiro ritmado, o humor que machuca e a doçura que ela mesma tenta negar.
Ela não notou que estava se abrindo por completo.
Porque Heitor escutava com o tipo de silêncio que só quem ama consegue ter.
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