O CEO que Eu Paguei
109 O Príncipe do Império
O Rio de Janeiro tinha um jeito arrogante de existir.
E Heitor Monteiro entendia isso melhor do que ninguém.
O céu do Rio era de um azul tão forte que doía nos olhos. A cidade parecia saber que ele estava de volta — e se preparava para testá-lo, como sempre fazia. Do banco de trás do carro executivo, ele observava a Praia do Flamengo com a expressão séria de quem já conhecia o jogo, enquanto. O mar batia nas pedras com preguiça, os prédios históricos e os novos se misturavam como o passado e o presente que Heitor carregava nas costas.
O carro desacelerou diante do prédio da Monteiro Inc.
Quarenta andares de concreto escuro, colunas de granito bruto e vidro espelhado. O brasão da família gravado em alto-relevo sobre a entrada principal: Monteiro Inc. com a frase em latim que Heitor aprendeu a falar antes de andar.
"Ex fundamento, imperium."
“Do alicerce, o império.”
O motorista disse “chegamos” com a voz formal de sempre, mas Heitor não respondeu. Estava com o celular na mão, o olhar fixo na tela, sorrindo com um canto da boca que ninguém nunca via. Só ela fazia aquilo com ele.
Helena ❤️❤️ :
“Cuidado com o ar-condicionado da sede. Vai que congela esse corpo que eu deixei quente.
E só pra constar: tô bem, ocupada, trabalhando. Mas, se você não me ligar hoje, vou começar a duvidar dos seus sentimentos.”.
Ele digitou devagar, os dedos firmes e o sorriso de um homem apaixonado:
“Tarde demais. Tô gelado por fora, queimando por dentro.
Desde que pisei aqui, só pensei em você. No seu cheiro. No seu corpo. No jeito que você geme meu nome quando esquece o mundo.
Você me deixou quente demais, Helê. E agora eu tô aqui… parecendo CEO. Mas me sentindo seu.”
Ele apertou “enviar” na última frase e se recostou, respirando fundo. Por três segundos, não era o CEO da Monteiro Inc. Era só um homem com saudade, segurando o nome da mulher que o fazia perder a linha mesmo quando estava no centro do próprio império.
Quando a porta abriu, a transição aconteceu em silêncio:
Heitor Monteiro deixou de ser o homem com saudade — e se tornou o herdeiro do império.
Heitor desceu com a compostura que o mundo esperava dele. Camisa branca de algodão egípcio, alfaiataria escura impecável, abotoaduras discretas e um relógio clássico que valia mais que um carro popular. O cabelo arrumado, a barba rente. Andava como quem nasceu pronto.
As portas de vidro se abriram assim que ele pisou na entrada. O saguão da Monteiro Inc. era frio como um tribunal e silencioso como uma ameaça. Tudo ali exalava domínio: o mármore negro no chão, as obras de arte originais nas paredes, a recepção retangular que mais parecia um altar corporativo. Os funcionários abaixaram os olhos, endireitaram a postura. A cidade podia ser caótica — mas ali dentro, o mundo era regido por outra lei. A deles.
Heitor caminhou com firmeza. O crachá do segurança piscou ao identificá-lo automaticamente. Ao lado do elevador, Verônica, sua secretária executiva, se levantou assim que o viu.
— Senhor Monteiro. — disse, se aproximando com a prancheta na mão e os olhos treinados para não mostrar emoção. — Todos já estão na sala de reuniões 4. Seu pai chegou há trinta minutos.
— E o humor dele?
— Péssimo. — ela respondeu com a franqueza de quem sabia com quem falava.
— Ótimo. — Heitor respondeu com um sorriso frio. — Melhor assim. Me poupa de fingir que alguém vai me receber com tapete vermelho.
O elevador se abriu.
Dentro dele, Heitor ajustou o punho da camisa. O reflexo no espelho do teto devolveu a imagem do homem que ele havia se tornado: 39 anos, olhar de aço, barba bem feita, pele levemente bronzeada do dia na cachoeira, paletó escuro como noite sem lua.
O elevador subiu até o 39º andar. Vidros panorâmicos revelando a curva da enseada de Botafogo, o Pão de Açúcar mais ao fundo. Mas Heitor não olhou. O campo de batalha era outro.
O príncipe do império estava de volta.
A sala de reuniões número 4 da Monteiro Inc era feita para colocar os homens mais poderosos da elite carioca na mesma mesa — e deixá-los desconfortáveis.
Paredes revestidas em madeira nobre, detalhes em aço escovado, janelas panorâmicas que emolduravam a Baía de Guanabara como uma obra de arte viva. Ao centro, uma mesa de quinze lugares, longilínea e imponente como o legado da família Monteiro.
Heitor entrou com a compostura de quem sabia quem era. Sua presença tinha a confiança silenciosa de um homem que sabia o chão que pisava.
Ao redor da mesa, homens — todos mais velhos. Gravatas discretas, pastas abertas, olhos que carregavam décadas de poder. Eles o encararam. Nenhum se levantou.
O único som foi o leve clique do salto italiano de Heitor ao tocar o piso polido.
— Bom dia, senhores. — disse ele, enquanto se sentava, sem baixar o olhar.
Um dos conselheiros mais antigos, Álvaro Fontes, pigarreou.
Aos 74 anos, era o mais tradicional e o mais venenoso.
— Vejo que decidiu retornar à capital, Heitor. Estávamos nos perguntando se teria se esquecido do caminho.
Sorrisos discretos. Um ou dois movimentos de canto de boca.
Heitor respondeu sem pressa, os olhos cravados em Álvaro.
— O caminho nunca muda, senhor Álvaro. Mas às vezes é preciso ver de onde ele começa pra entender pra onde vai.
Outro conselheiro — Godoy — inclinou o corpo para frente.
— E o que exatamente o senhor aprendeu no interior de Minas? Naquela filial… peculiar?
Renato Monteiro ainda não havia falado. Sentado à cabeceira, observava o filho com a calma tensa de um homem que já sabia como aquela manhã ia terminar.
Heitor respirou fundo. As mãos unidas sobre a mesa.
— A filial do interior, senhores, pode não ser a mais lucrativa. Nem a mais moderna. Mas é a única que ainda preserva o motivo pelo qual a Monteiro Inc cresceu: pessoas. Lá, eu vi gente se matando pra fazer o sistema funcionar com o que tem. Vi comprometimento sem glamour. E resultados... que talvez os senhores não tenham olhado de perto.
Godoy rebateu, com um sorriso de canto.
— Sentimento não paga dividendo, Monteiro.
Heitor nem piscou.
— Mas negligência custa caro.
Houve um leve silêncio.
Outro conselheiro cruzou os dedos, encostando o queixo sobre as mãos e quebrou o silêncio:
— Com todo respeito, Heitor... O último destino, aquela filial no interior de Minas, não justificava três meses de estadia. Não se trata de rentabilidade, nem de reputação no mercado. É uma unidade deficitária. Capricho do seu avô.
— Ou pode ser vista como uma semente. — Heitor rebateu. — Uma que ninguém regou até agora.
Renato, finalmente, soltou uma pequena risada pelo nariz.
— É com poesia que você pretende administrar a Monteiro agora, filho?
Heitor não virou o rosto para o pai. Só endireitou a postura na cadeira.
— É com estratégia. E visão. — respondeu, firme. — Eu não me escondi no interior. Eu fui cumprir uma ordem. A mesma que o senhor recebeu quando foi nomeado CEO.
Renato se mexeu e a mão tocou a superfície da mesa com leveza — como se fosse apenas um aviso.
— Você viajou pelas filiais no Brasil por dez meses. A auditoria terminou no sétimo. Nos três seguintes, Heitor... — ele pausou — você administrou como?
— Como deve ser. — Heitor respondeu. — Com a tecnologia que o senhor mesmo aprovou. Com as equipes interligadas. Com minha supervisão diária. E com o cuidado de quem sabe que ser CEO não é marcar presença. É garantir resultado.
Renato ergueu levemente o queixo, os olhos azuis fixos nele.
O tom, agora, parecia casual demais para ser inocente.
— E os resultados foram... satisfatórios?
— Foram. — Heitor respondeu sem hesitar. — A unidade estancou perdas. Corrigimos o fluxo. Estabilizamos. E mais importante: mapeamos talentos. Inclusive, um projeto nascido lá já está sendo disputado por outras empresas. Mas isso, claro, é mérito de quem o criou.
Álvaro apertou os olhos.
— Criado por alguém da terceirizada, imagino?
Heitor sorriu sem os dentes.
— A terceirizada que nós contratamos, com os nossos recursos, seguindo as diretrizes da nossa holding. Portanto, o mérito final sempre volta para a Monteiro.
Heitor continuou firme.
— A diferença é que eu enxerguei naquela filial o que ninguém quis ver: um ativo negligenciado. Os arredores daquela cidade estão se expandindo. E os resultados… bem, estão nos relatórios. A performance cresceu mais de 20%. A moral da equipe, 80%. Pela primeira vez em sete anos, ela operou com margem positiva.
— Tudo isso enquanto você mantinha um relacionamento com uma funcionária da terceirizada. — disse Dr. Otávio, o conselheiro mais antigo, com uma calma venenosa. — Difícil acreditar que isso não influenciou sua permanência prolongada.
— Eu nunca escondi meus passos. — disse Heitor, sem alterar o tom. — O que fiz lá, fiz com resultado. Meu relacionamento com a analista Helena Ribeiro Campos não afetou nenhuma métrica, nenhuma negociação, nenhum contrato.
O clima ficou mais tenso.
Heitor os via por dentro. Como lobos disfarçados de cavalheiros.
E como todo bom Monteiro… ele sabia quando estava sendo testado.
Renato se inclinou, finalmente soltando o ataque.
— O que não volta, Heitor… é a imagem. E a imagem da Monteiro começa a se desgastar quando o CEO decide namorar uma funcionária da base mais fraca da companhia. E ainda a expõe publicamente.
Os olhos de Heitor escureceram.
Mas ele manteve o tom.
— Não estou aqui pra debater minha vida pessoal. Estou aqui pra discutir o presente e o futuro da Monteiro Inc. Se for esse o objetivo da reunião, ótimo. Se não for… eu posso levantar e voltar ao trabalho.
Heitor riu, baixinho, como quem já esperava.
— E eu sei como isso soa... ...pra vocês.
E então, pela primeira vez, ele largou o tom corporativo e falou como Monteiro por sangue.
— Mas sabem o que soa pra mim? Uma mulher talentosa, que desenvolveu um projeto premiado sem apadrinhamento. Que lida com risco como poucos analistas seniores do nosso time. Que me faz querer construir. E que, inclusive, estará comigo no Rio muito em breve. Não escondida. Não à margem. Mas como minha namorada. Minha mulher.
— Isso é pessoal, Heitor. — Renato advertiu com mais força. — Você está confundindo sua vida pessoal com seu papel como CEO.
— Não. — Heitor respondeu, firme. — Eu sou o CEO. Mas continuo sendo homem. E o problema aqui não é o meu desempenho como líder. É o incômodo de ver o herdeiro da Monteiro escolher uma mulher que não nasceu em Ipanema, não se formou na França e não tem sobrenome composto.
Otávio apertou a caneta entre os dedos. Outro conselheiro resmungou um “com licença”.
Renato se inclinou levemente:
— E se ela não aguentar o tranco? A pressão. Os holofotes. O peso que vem com o sobrenome?
Heitor encarou o pai com a calma de quem não precisava provar mais nada.
— Então ela me avisa. E eu seguro por nós dois. Mas até lá, não será o senhor, nem ninguém nessa sala, quem vai decidir isso por mim.
Silêncio. Denso. Repleto de contenções.
A sala de reunião estava vazia. Mas o ar, pesado.
Os outros conselheiros saíram em silêncio, pastas fechadas, expressões neutras. Não porque estavam em paz — mas porque sabiam que o que viria a seguir era guerra de família. E isso, ninguém ali ousava interferir.
Restaram dois homens na sala.
Dois Monteiros.
Pai e filho.
Renato e Heitor.
De um lado, o império antigo.
Do outro, o herdeiro com olhos de aço e alma insubmissa.
O silêncio entre eles era quase animal. Os dois se encaravam como predadores: avaliando a postura, a respiração, a firmeza nos olhos.
Renato foi o primeiro a se mover.
Cruzou os braços. Não como defesa — mas como desafio.
— Você sabe o que essa sala representa.
— Sei. — Heitor respondeu, sem piscar. — O senhor me criou para isso. Para me sentar nessa mesa. E eu estou sentado. E não saio até fazer valer.
Renato aproximou-se um passo. A luz do teto desenhou a ruga entre suas sobrancelhas, o vinco amargo nos cantos da boca.
— Você está se distraindo, Heitor.
— Estou vivendo.
— Isso aqui — ele bateu levemente na madeira da mesa — é a sua vida.
— Não. — Heitor respondeu, mais baixo, mais firme. — Isso aqui é o meu legado. Mas minha vida... essa eu escolho. E ninguém mais escolhe por mim.
Os olhos azuis do pai brilharam — mas não era admiração.
Era fúria contida.
Antes que qualquer palavra fosse cuspida, a porta se abriu.
Verônica, a secretária, entrou com urgência visível.
— Com licença, senhores. Senhor Monteiro — ela olhou para Heitor —, temos uma situação no setor jurídico e uma ligação do Canadá. Eles pediram para falar com o senhor antes do almoço.
Heitor respirou fundo.
Soltou o ar devagar.
Desviou o olhar do pai sem pressa, como quem larga um revólver na mesa.
— Me encaminha os dados. Estarei na sala em dois minutos.
Ele pegou a pasta com os dados da reunião, o paletó sobre o braço. Quando estava quase saindo, a voz de Renato o cortou como navalha.
— Hoje. Às sete. Jantar na mansão. Sua mãe organizou em sua “homenagem”. Você vai estar lá.
Heitor parou.
Virou apenas o rosto. Os olhos azuis como gelo queimando no rosto sóbrio.
— Estarei.
E virou-se de novo.
— Como sempre, do meu jeito.
Saiu da sala.
E pela primeira vez naquela manhã… sentiu os ombros relaxarem.
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