O CEO que Eu Paguei

110 Ela é o Motivo, a Saudade e o Aviso


O celular vibrou em cima da mesa.

Chamada de vídeo — Helena ❤️❤️

Heitor não pensou duas vezes. Conectou o fone de ouvido, ajeitou o microfone no colarinho, fechou a aba do relatório e aceitou a ligação.

A tela abriu.

E lá estava ela.

O coque preso alto, com uns fios soltos nos lados. Uma camisa social vermelha. Olhos grandes e brilhantes e as sardas decorando o lindo rosto dela como uma pintura. A boca meio torta num sorrisinho contido, mas quando ela o viu, se transformou em um sorriso largo e apaixonado, que fez Heitor sorrir instantaneamente.

Heitor sentiu a alma desacelerar.

— Fala, CEO. — Ela soltou, com aquela voz arrastada e debochada. — Já botou alguém pra correr hoje?

— Só minha vontade de largar tudo e te buscar agora. — ele disse, a voz baixa, olhando ela como se pudesse atravessar a tela. — Que saudade da sua boca me mandando calar a minha.

Helena riu.

— Você é muito irritante.

— Não, Helê. Eu sou seu. — disse sem cerimônia. — E tô com abstinência de você. Seu cheiro, sua pele, sua língua, sua buceta... a forma como você se estica toda na cama quando acorda, igual gato preguiçoso.

— Fica quieto, Heitor. — ela falou, mas com o riso escapando nos olhos.

Ele apoiou o queixo nos dedos e a observou com atenção.

O canto da boca dela virava um pouco mais para o lado quando sorria.

O jeito como ela franzia o nariz quando se segurava para não rir.

As bochechas coradas e algumas sardas discretas espalhadas pelo nariz e parte alta do rosto que a faziam parecer uma obra de arte.

E os olhos… aqueles olhos.

Era impressionante o quanto aquele rosto o desarmava.

Tanto desejo quanto ternura.

Ela era o problema que ele queria todos os dias.

— Fica me olhando assim por quê? — ela perguntou, desconfiada.

— Porque você é linda pra caralho, Helê. E porque só de te ver… tudo isso aqui faz mais sentido.

— Você é um id1ota.

— Mas sou seu id1ota. E nem reclama, que tu gosta.

Ela mordeu o lábio.

— Id1ota mesmo. — murmurou, os olhos presos nele.

E então, baixou a guarda.

— Tô com saudade, Heitor.

Ele parou.

A frase ecoou como se ela tivesse dito eu te amo.

Porque Helena não falava coisas assim à toa. Nunca tinha falado.

Não desse jeito.

Ele sentiu o peito apertar, o maxilar contrair.

Foi como se a voz dela tivesse atravessado o fone e pousado direto no coração dele.

— Eu também tô, amor. — Ele respondeu com sinceridade crua, olhando nos olhos dela. — Tô com saudade da sua risada me chamando de insuportável. Do seu pé gelado no meu no meio da noite. Do seu cheiro grudado no meu travesseiro. Do jeito que me olha quando passo o braço pela sua cintura.

Helena apertou os lábios, tentando conter o que não dava mais pra conter.

Mas não falou nada.

Nem precisava.

O olhar dela era um grito.

— E aí, você vai me buscar? — ela soltou, só pra aliviar.

— Já tava colocando o tênis. — ele respondeu sem hesitar.

— Mentiroso.

— Verdadeiro. — ele piscou. — Tu não tem noção do que a sua voz faz comigo.

— Drama.

— Tesão, Helena. Faz tesão. Fico duro só com sua voz dizendo “Oi”.

Ela cobriu o rosto com a mão, rindo.

— Para de falar essas coisas.

— Por quê? Tu já me conhece. Tu me quer. E tu sabe.

— Arrogante.

— Seu arrogante.

Ela ficou olhando.

Com aquele sorriso que tentava segurar.

A saudade agora exposta, viva, crua.

— Amanhã já é quinta. — ela disse.

— Sexta, eu tô te esperando no aeroporto.

— E se eu não descer?

— Eu subo.

Silêncio.

Mas era daqueles bons.

Cheios de tudo que não precisava ser dito.

— Vai trabalhar, Heitor.

— Já tô trabalhando. — ele disse, com um sorriso cafajeste. — Você é meu melhor projeto.

— Se cuida, insuportável.

Ela desligou.

Mas antes que a tela apagasse, ele ainda viu a boca dela se curvar num sorriso que era só dele.

A tela escureceu.

Mas o sorriso ficou.

Heitor deixou o celular sobre a mesa, encostou-se de costas na cadeira e soltou um suspiro longo, como se até o Rio tivesse mudado de cor depois da voz dela.

Se levantou, foi até a parede de vidro e encarou a cidade estendida diante dele.

O azul da Baía da Guanabara brilhava, cortado pelos barcos e pelo movimento sutil das águas. Ao fundo, o Pão de Açúcar como um guardião silencioso.

Ele tirou uma foto. Nada muito planejado, só a vista, crua e bonita como estava. E mandou.

📸 "Quero te ver vendo isso aqui comigo."

A resposta veio dois minutos depois.

Helena ❤️❤️

"Se for pra ver do seu lado, até engarrafamento vira paisagem de filme."

Ele riu, aquele riso baixo, genuíno. Passou a mão pelos cabelos.

— Essa mina vai me matar um dia… — murmurou, encantado.

Foi quando o celular vibrou de novo.

Jonas 🍻 Ligando via Celular

Heitor sorriu.

— Fala, pivete.

A voz de Jonas explodiu animada do outro lado.

— Carqlho! Não acredito que tu tá no Rio mesmo! Tá de sacanagem, irmão.

— Cheguei hoje no início da manhã, já fui jogado nos tubarões. — Heitor respondeu, voltando a encostar na mesa, cruzando os braços.

— Tinha que ser! Seu velho já te botou na roda, né?

— Como sempre. — Heitor riu, mas o som não tinha tanto humor.

— Mas esquece isso agora. Bora almoçar hoje. Restaurante do Bento, consegui mesa lá.

— Difícil conseguir naquela p0rra.

— Não pra mim, bebê. — Jonas disse com orgulho. — Filhinho do deputado, esqueceu?

Heitor balançou a cabeça, rindo.

— Que horas?

— Uma e meia. Já tá reservado. Se atrasa não, que eu te exponho.

— Tô indo.


Restaurante do Bento – 13h37

O lugar era fino, com vista para a orla e paredes de pedra com painéis de madeira clara.

Discreto, elegante e insuportavelmente exclusivo.

Heitor entrou e reconheceu Jonas de longe — camisa social listrada clara e com manga curta, cabelo castanho-claro volumoso ondulado e bagunçado, e aquele sorrisão de quem nasceu pra se sentir em casa em qualquer lugar caro.

— Olha quem chegou, porra! — Jonas levantou, abriu os braços.

— Tá parecendo candidato a vereador com essa empolgação toda. — Heitor provocou, mas o sorriso era sincero.

Os dois se cumprimentaram com um aperto de mão forte, aquele tapinha nas costas meio tapa, meio abraço — o clássico entre homens que se amam, mas nunca vão dizer isso em voz alta.

— Porra, Monteiro... — Jonas falou, se sentando. — Não sabe o quanto eu fiquei feliz de saber que tu voltou.

Heitor se senta de forma relaxada.

— A cidade continua uma m3rda, mas tem você agora aqui, né. — Jonas continua — E agora tu tem uma mina. Que isso, hein? Primeira-dama! — o tom foi abaixando e um sorriso cheio de intenções começou a surgir.

— Jonas... — Heitor alertou, já avisando que o assunto Helena vinha com limite.

— Relaxa, irmão. Ela parece braba. Tô quase com medo de dar bom dia.

Heitor ergueu a sobrancelha, servindo água para si mesmo.

— Ela é. E é por isso que eu gosto dela.

— Tô ligado. Tô ligado... — Jonas riu. — Mas me conta aí: como é que foi ficar tanto tempo fora?

— Uma provação. Mas teve sua recompensa — ele responde acentuando um sorriso safado quando diz “recompensa”.

— Tô vendo. — Jonas deu uma risada sacana, bebendo o próprio drink. — E como foi o retorno pro aquário cheio de tubarão?

Heitor inclinou-se pra frente, os olhos claros semicerrados.

— Eles tentaram me arrancar pedaço. Mas ainda tenho todos.

— Ah, irmão... Eles que lutem. Tu é o Monteiro da vez.

Heitor fez que sim com a cabeça abrindo os braços de uma forma bem teatral.

— Mano, tu não tem ideia… Dona Celina tá put’assa contigo.

— Ah não, começou… — Heitor apoiou os cotovelos na mesa e passou a mão no rosto. — O que foi agora?

— Foi nada não… Só ligou pra mim ontem.

— Ligou pra tu? — Heitor riu alto, com aquele riso largo e debochado que só aparecia fora das salas de reunião. — A coroa tá desesperada, mesmo.

Jonas fez uma expressão ofendida, escancarada, com a mão no peito.

— Que isso, irmão. Agora eu sou o maduro da nossa irmandade.

— Tá de sacanagem. — Heitor riu, abanando a mão como quem espanta o absurdo.

O garçom chegou, eles pediram o de sempre, sem sequer olhar o cardápio — dois homens em casa no próprio território.

— Ela pediu pra eu "botar juízo" na sua cabeça. Que cê tá perdendo a razão por causa de uma funcionária, que essa menina vai acabar com a sua reputação…

— Ahn… claro. — Heitor ergueu uma sobrancelha. — A reputação que eu tenho comendo mulher em motel cinco estrelas com nome falso.

— Exatamente essa. — Jonas gargalhou. — A preferida da tua mãe, inclusive.

Heitor deu um riso abafado e recostou na cadeira.

— Mas tu sabe que eu não vou mudar de ideia, né?

— Mas por que, irmão? — Jonas se inclinou um pouco, agora com um olhar mais sincero.— Porra, tu já pegou mulher que eu nem conseguiria olhar nos olhos. E agora me vem com exclusividade?

Heitor ficou em silêncio por um segundo.

Passou os dedos pela base da taça d’água. O olhar longe.

— Porque é ela.

— Mas o que é "ela"? — Jonas perguntou, já percebendo o tom mudar.

— É o jeito que ela fala comigo. É o jeito que ela fala com todo mundo, porra. Não é uma dessas mina que acha que é menos porque nasceu em outro CEP. Ela é afiada, inteligente, debochada… mas quando ela se entrega? — Ele sorriu, e foi quase como se o Rio ficasse mais claro. — Quando ela se entrega, irmão, parece que o mundo para. É uma mulher inteira. E é minha.

— Caralho. — Jonas disse, tocado, encostando no encosto da cadeira. — Tu foi laçado mesmo.

— Fui. E gostei.

Jonas olhou com atenção para a mão esquerda de Heitor.

— É aliança isso aí?

— É. — Heitor girou o anel no dedo com o polegar. — Primeira vez que eu uso sem sentir que tô assinando contrato com advogado. E, mano…

— Hm?

— Nunca me senti tão certo de algo.

Jonas assentiu, sério, pela primeira vez sem zoar.

— Te entendo. Tu é um cara de palavra. Se botou essa p0rra no dedo, é porque é sério.

— Sempre foi. Só faltava ela perceber.

Heitor deu um último gole no copo e perguntou:

— Tu foi convidado pro jantar hoje, né?

— Claro, porra. Eu sou a última esperança da Dona Celina. — Jonas fez aspas no ar, debochado. — Me trata igual neto da rainha da Inglaterra.

— E seus pais?

— Tão em evento de embaixada. Vão se atrasar, se forem.

— Hum.

— Mas ouvi dizer que a… Marcela vai.

Heitor deixou o corpo pesar levemente pra trás, soltando um palavrão carregado:

— Porra... Essa mulher de novo, cara.

— Sua mãe tá usando todas as armas mesmo. E ela adora a Marcela, cê sabe.

— Eu já disse mil vezes que não quero. Não é por escândalo. É porque acabou. Acabou porque eu tava com alguém, mas me sentia sem ninguém

— Tá igual aquela nutróloga da Lamborghini azul. — Jonas falou rindo e se apoiando na mesa

— Aquela mulher foi uma viagem. Ficou mandando DM por semanas depois de uma noite. — Ele riu com desgosto. — Eu não sabia nem o nome dela.

— Pois é. E agora tu tá com alguém que vale a pena.

Jonas descansou os talheres. Estava olhando com curiosidade e inclinou um pouco sobre a mesa.

— Me mostra uma foto dela, vai. Tô curioso.

— Pra quê, Jonas? — Heitor ergueu uma sobrancelha e fez uma expressão de reprovação.

— Só pra eu ver a cara da lenda, pô. Prometo que não dou em cima. Quero ver a mulher que amarrou o maior cachorro solto do Rio.

Heitor pegou o celular com certa relutância. Abriu a galeria. Ele tinha uma pasta chamada “Nós”. Olhou as listas tentando escolher, mas todas as fotos que ele registrou eram exclusividades secretas que só ele tinha acesso e que não queria dividir com ninguém. Abriu uma foto que ele sentia menos ciúmes, Helena sorrindo, com o sol batendo no rosto, o cabelo solto nem ondulado e nem cacheado, os olhos brilhando feito ouro escuro e a pele mulata parecia dourada. Uma foto que ele registrou enquanto saiam da garagem. Doeu em seu coração mostrar uma foto tão preciosa.

Jonas parou.

Literalmente.

Parou.

O riso travou na boca. O olhar ficou sério.

Ele olhou... e continuou olhando. Algo no rosto dela cutucava um canto antigo e esquecido da memória. Um incômodo sem nome.

— Caralho... — ele disse quase sem pensar.

Heitor fechou a cara no ato. O maxilar travado.

— Que foi?

— Nada. Nada, porra. É que... — Jonas coçou a nuca, desconfortável. — Ela tem um rosto muito… muito familiar. Acho que já vi ela por aí.

Heitor pegou o celular de volta com uma calma ensaiada demais.

— Já viu onde, Jonas? — perguntou seco e com o olhar azul tão afiado que cortaria até água.

Jonas levantou as duas mãos, rindo sem graça.

— Não sei, pô. Pode ter sido festa, evento, sei lá. Só deu essa sensação. Mas relaxa, irmão. Não é nada demais. A mulher é linda, só isso. Mas é sua. E eu respeito.

Heitor encarou o amigo por mais um segundo do que o necessário. Aquele segundo que pesa.

— Bom saber.

— Cê tá bolado comigo?

— Não. — Heitor respondeu, seco, mas com um sorrisinho no canto da boca. — Só tô lembrando que mesmo irmão, irmão tem limite.

Jonas riu, mas deu pra ver que engoliu seco.

— Tá anotado, Heitor. Fica tranquilo.

— Tô tranquilo. — Heitor respondeu, girando devagar a aliança no dedo. — Muito tranquilo.

Mas por dentro?

Nem um pouco.

Heitor olhou de novo para a foto no celular.

Jonas não era de encasquetar com mulher de amigo. Muito menos de elogiar desse jeito. E aquilo… aquele “ela é familiar”. O olhar dele demorando mais do que devia. A hesitação.

Não era 'ciúme'.

Era instinto.

Algo não tava certo.

Mas ele não ia deixar Helena se tornar motivo de desconfiança.

Ele confiava nela.

O problema… era o mundo ao redor.