O CEO que Eu Paguei

41 O Príncipe Cínico e a Vó Conquistada


O almoço parecia saído de um comercial de margarina. Ou melhor — parecia saído de um reality show daqueles que o público vê sorrindo e a protagonista vive de dentes cerrados.

Helena estava ali, sentada à mesa, com a cara fechada de quem sabia que estava sendo enganada… e o pior: com plateia.

Heitor, com aquele ar de bom moço insuportavelmente convincente, tinha feito questão de oferecer a oração antes da refeição.

Sim. A oração.

— Vou agradecer pelo alimento e pela companhia abençoada dessa manhã, se me permitirem.

Helena tossiu baixo, sem querer rir de nervoso. Dona Olívia cruzou as mãos, emocionada.

— Por mim, faça, meu filho.

“Meu filho.”

Aquela expressão deu indigestão mais do que qualquer outra coisa que Helena já ouviu. E lá estava Heitor, de olhos fechados, agradecendo pela saúde de Dona Olívia, pela manhã especial e por Helena ser “uma mulher de fibra, apesar de difícil”.

Quando ele disse isso, ainda piscou com um dos olhos fechados.

“Cínico. Filho da…”

— Amém — finalizou ele, sorrindo como se fosse feito de luz.

Durante o almoço, ele elogiou cada detalhe da comida.

— O tempero da senhora, Dona Olívia, me lembra da minha infância. Isso aqui é carinho de verdade. Quem dera todo mundo tivesse uma vó dessas. A minha... — ele deu um suspiro demorado — a minha foi embora cedo demais. Mas com a senhora aqui, até parece que voltou um pouquinho.

Dona Olívia ficou toda boba. E Helena? Travada. Mastigando com o maxilar trincado.

— E essa farofinha com banana? Isso aqui é ouro, hein?

— Ah, é coisa simples — respondeu Dona Olívia, ajeitando o cabelo com vaidade.

— Simples nada. Tem que ensinar a Helena. Ela cozinha bem?

Helena levantou os olhos na hora.

— Não preciso da sua aprovação, Heitor.

— Não falei nada, minha flor — ele sorriu, cortando o frango no prato. — Mas se quiser eu te ensino a temperar com calma, no meu tempo…

— Engole o frango, Heitor.

O almoço seguiu entre trocas de olhares, farpas camufladas e elogios espertos. Depois, para o delírio da própria avó, Heitor ainda lavou a louça.

— Deixa que eu limpo — disse ele, já com o pano de prato no ombro, sorrindo como se fosse o protagonista da propaganda do Dia dos Pais.

Quando terminou, voltou para a sala e se aproximou com um ar teatral de cansaço.

— Dona Olívia, eu queria agradecer pela manhã maravilhosa. Pela comida, pela conversa, pelo acolhimento.

— Disponha sempre — respondeu ela, quase emocionada. — Você é um homem raro.

— Eu tento — respondeu ele, com um suspiro pesado. — Mas confesso que… tô bem cansado. Foi uma noite… intensa.

Helena, que vinha atrás com os olhos semicerrados, ergueu uma sobrancelha.

— Cansado? Interessante…

— Ah, Helena, não faz assim. Eu só fui te tirar daquele ambiente que não tinha nada a ver com você. A culpa não é sua, claro. Mas cuidar de você exige energia. — E olhou para Dona Olívia como quem dizia: “sua neta dá trabalho, mas vale a pena.”

— E você acha isso engraçado? — Helena cruzou os braços.

— Não. Eu acho isso preocupante. A sua avó está com razão. A senhorita não deveria sair por aí, à noite, com aquele tipo de roupa. E ainda por cima… não avisar ninguém.

— Eu tentei avisar! — rebateu Helena.

— Tentou nada — retrucou Dona Olívia. — Foram 73 ligações. Isso é tentado?

Helena bufou.

— Vocês dois estão se merecendo. Eu vou com ele até o carro antes que eu exploda aqui.

Já do lado de fora, no quintal, ela virou para ele com o rosto sério.

— Que merda foi aquela lá dentro?

— A qual delas você se refere? Ao feijão que tava divino, ou à minha brilhante performance como o santo padroeiro da mulher desnorteada?

— Você tem problema, sabia?

— Vários. Mas você parece não se importar — disse ele, sorrindo largo. — Pelo menos quando tá montada em mim.

Helena ia retrucar, mas ele segurou a mão dela com delicadeza e a puxou com calma, dando um beijo demorado e caloroso que a fez esquecer por dois segundos que estavam no quintal de sua vó.

Ela tentou recuar, fazer uma cara feia… mas foi inútil.

A boca dele… maldito seja aquele beijo.

— Responde minha mensagem depois, tá? — disse ele, baixando a voz.

Ela cruzou os braços, desconfiada.

— Vou pensar.

— Se demorar, eu mando outra. E outra. Até você me bloquear ou me chamar pra voltar.

Ele deu mais um beijo leve na bochecha dela — quente, suave, com aquele cheiro amadeirado que ainda estava na pele dela.

— Você vai me enlouquecer, Helena. Eu juro.

— Vai embora logo, Heitor. Antes que minha avó veja esse teatro de novo.

— Tarde demais pra evitar. — Ele piscou e caminhou até o carro, com aquele andar de quem tem o mundo sob os pés e o inferno nas mãos.

Helena ficou parada, assistindo ele entrar no carro, dar partida… e acenar com dois dedos e um sorriso que parecia prometer pecado.

Quando ele virou a esquina, ela respirou fundo e voltou pra dentro.

Dona Olívia já estava com a TV ligada no volume 5 e um sorrisinho nos lábios.

— Ele é bonito, né?

Helena revirou os olhos.

— É irritante.

— Mas bonito. E tem pegada de homem, não de moleque.

Helena ficou vermelha.

Dona Olívia piscou.

— E lava louça melhor que você.

Helena não respondeu.

Só subiu pro quarto… com o corpo ainda marcado, o coração descompassado, e a alma sem saber se ria, se suspirava ou se se jogava da janela.

Porque com Heitor… tudo era perigoso demais.

E ela já estava no meio do fogo.