O CEO que Eu Paguei

42 “Chegou bem, amor?”


Assim que Heitor virou a esquina com o carro, Helena subiu as escadas como se o mundo dependesse disso. Cada degrau era um desabafo.

Caiu sentada na beirada da cama. A cabeça parecia uma panela de pressão.

Heitor Monteiro.

Como alguém podia ser tão gostoso e tão insuportável ao mesmo tempo? Era um enigma. Uma provocação ambulante. Aquele homem tirava ela do sério. No mau e no bom sentido.

Ela passou as mãos pelo rosto quente, suspirou e pegou o celular.

42 mensagens não lidas.

Mas seus olhos foram direto para ele.


Heitor Monteiro:

“Chegou bem, amor?”


Helena bufou.

— Amor, é o caralho...

Mas clicou mesmo assim.

Abaixo tinha mais.

“Tava pensando aqui… adorei conhecer sua avó. E passar a manhã com vocês foi uma das coisas mais gostosas que já fiz.”

“Aliás… só de pensar em você, já tô todo duro de novo. Isso é normal?”

— Idiota. — murmurou, mas com aquele sorriso besta no canto da boca.

Ela digitou devagar:

“Vai dormir, Heitor. A gente trabalha amanhã.”

E antes que pensasse duas vezes, mandou outra:

“E para de mandar essas merdas. Cê é muito ridículo.”

Ela ficou encarando o nome dele na tela.

Heitor Monteiro.

O nome salvo por ela. Certinho. Sem corações. Sem apelidos.

Ela lembrou dos “❤️❤️” que ele colocou no nome dela e franziu o cenho, como se dissesse “ah, claro, que ridículo…”

Mas, por algum motivo, não apagou a conversa. Nem o contato.

Suspirou e clicou no Instagram.

Notificações.

Solicitação de @hm.monteiro aceita.

Ela aceitou. E seguiu de volta. Que se dane.

Logo depois, apareceu o maldito:

Heitor Monteiro adicionou um novo story.

Helena clicou, desconfiada — e viu.

A foto mostrava o terreno da obra inacabada onde tinham transado. O céu azul, o matagal ao fundo, o sol estalando no meio do mato. E a legenda:

“Gratidão, Deus, por realizar o sonho desse pobre rapaz 🙏☀️”

Helena arregalou os olhos.

— O que?! — a voz saiu rouca, quase engasgada.

— FILHO DA MÃE! — exclamou, jogando o celular na cama, mas logo voltou pra pegar e comentar.

@helena_rbc:

“Você é DOENTE. Apaga isso, seu ridículo.”

Ela soltou uma risada indignada, sacudindo a cabeça.

Deitou na cama, ainda com o riso nos lábios e o coração meio quente. Pegou o travesseiro e abraçou, como se fosse a única defesa contra aquela sensação gostosa que Heitor estava começando a deixar nela.

Mas o sono não durou muito.

BAM BAM BAM.

— HELENAAAA!

O grito veio do portão. Alto. Desesperado.

Ela acordou assustada, os olhos piscando rápido. Se enfiou na janela do quarto e viu dois vultos esbravejando na calçada.

— O que tá acontecendo?!

Na porta da frente, Dona Olívia já estava de braços cruzados, encarando Hugo e Júlia como se fosse prender os dois por perturbação do sossego.

— É a Lêlê sim! — disse Júlia, com os olhos arregalados. — OLHA AQUI, GAROTA!

— A gente precisa conversar com você agora! — gritou Hugo, com as mãos na cintura. — É SÉRIO!

Helena sentiu o estômago afundar.

— Meu Deus… o que aconteceu agora?

Ela desceu correndo. A intuição avisava que não era bom. E quando ela abriu o portão, Júlia já veio com o celular em mãos e uma expressão de fúria controlada:

— Você tem alguma coisa pra nos contar?

Helena, de camiseta larga e o cabelo todo amassado, apenas piscou, confusa.

— Não...

— Então olha ISSO AQUI.

Júlia deu play no vídeo.

E ali estava.

Heitor. Fábio. A discussão na Pulsar. Helena no meio.

Filmado por alguém escondido na lateral. A voz de Fábio dizendo “pena que a gostosa tem dono” e Heitor respondendo sem pensar:

“MAS NÃO DEIXA DE SER MINHA POR ISSO!”

Helena sentiu a alma sair do corpo por um segundo.

— Ah, não…

— Ah, sim. — disse Hugo. — Tá todo mundo vendo, Helena. E você achando que ninguém ia descobrir?

Júlia cruzou os braços.

— Agora a gente quer saber direitinho... vocês só brigaram, só discutiram, ou tão transando mesmo?

Helena arregalou os olhos.

E pela primeira vez em muito tempo…

Ela ficou sem resposta.

O vídeo ainda ecoava na mente de Helena.

“MAS NÃO DEIXA DE SER MINHA POR ISSO!”

Aquela frase. Aquela voz. Aquele maldito homem.

O estômago de Helena virou, e por um segundo, tudo ficou branco. Sentiu a pressão cair. O mundo girar.

Apoiou-se na parede, uma das mãos indo direto ao rosto. E foi nesse momento que Júlia arregalou os olhos.

— OLHA, HUGO! — apontou como se tivesse descoberto um crime. — MARCAS. NO PESCOÇO DELA.

Helena sentiu o gelo subindo na espinha.

— Você é culpada mesmo, garota! — disse Júlia, rindo entre o escândalo e o deboche.

Num reflexo, Helena jogou os cabelos por cima do pescoço.

— Dá pra calar a boca, Júlia?

— Não dá. — Hugo já entrou na casa sem cerimônia. — E a senhora, Dona Olívia, por favor, não se assuste. É que sua neta... sua neta é uma DESGRAÇADA.

— Que isso, menino? — exclamou a avó, saindo da cozinha, tirou o pano de prato do ombro e bateu em Hugo. — Isso é jeito de falar? Eu te quebro!

Helena suspirou fundo, os olhos arregalados de pânico. Se curvou até a avó e disse rápido:

— Vó, tá tudo bem. É coisa do trabalho. Só trabalho. Trabalho moderno. Tá? Só... só me dá cinco minutos com eles. No quarto. Por favor.

Dona Olívia franziu o cenho, desconfiada, mas assentiu com um muxoxo.

Helena puxou Júlia pelo braço e mandou Hugo subir. Os três entraram no quarto e a porta foi fechada com um estrondo.

E aí, o caos começou.

— VOCÊ. — Hugo apontou o dedo. — Sentava TODO DIA na frente da sala do Heitor Monteiro. E a gente achava que era coincidência.

— E os chocolates! — emendou Júlia, andando de um lado pro outro feito um furacão com glitter. — Aqueles malditos chocolates chiquérrimos! Eu sabia! Eu senti! Eu li nas entrelinhas!

— Eu to... — Helena se sentou na cama, pálida. — Eu to em choque. Não é possível que isso tá acontecendo.

— Como não contou?! — Hugo cruzou os braços. — A gente é seu sistema de apoio, caralh0! Tá transando com o CEO da Monteiro Inc. e não achou relevante dividir?

— Eu ia contar...

— QUANDO?! — Júlia gritou, apontando como se fosse juíza do tribunal supremo das fofoqueiras.

— Gente, pelo amor de Deus. — Helena passou as mãos pelo rosto. — Cala a boca vocês dois.

— Eu tô nervoso! — Hugo rebateu. — Eu não consigo calar!

— Eu quero entender. — Júlia parou na frente da cama. — Olha pra mim e conta. Desde o começo. Tudo.

Helena respirou fundo.

Estava cercada. Sufocada. E vencida.

— Tá. Tá bom. Eu vou contar. Mas sem surtar. Juro por Deus, se um de vocês me interromper, eu juro que taco o ventilador na cabeça de vocês.

Júlia se sentou na ponta da cama, vibrando de ansiedade. Hugo cruzou as pernas na poltrona, com a expressão de quem ia assistir o capítulo final da novela.

Helena cruzou os braços.

— No meu dia de folga... eu ia sair com um cara.

— Sabia. — murmurou Hugo, recebendo um olhar fuzilante.

— Mas aí... por acaso, por coincidência — ela fez aspas com os dedos —, eu conheci um cara no meio do caminho. No centro.

— E era ele?! — Júlia colocou as mãos na boca, chocada.

— Era. Mas a gente não sabia ainda. Nem ele sabia quem eu era. Eu usei um nome falso. E ele também não se apresentou como CEO nenhum. A gente só conversou. Se provocou. E...

Ela fez uma pausa. Respirou.

— ...a gente se beijou.

Hugo se levantou da poltrona como se estivesse tomado por uma entidade.

— EU SABIA! EU FALEI!

— Era óbvio, né? — Júlia balançava a cabeça, como se estivesse prevendo tudo desde o primeiro episódio. — O homem é gostoso demais. Nem a Helena resiste.

— Júlia, cala essa boca

— Desculpa, desculpa. Continua. Vai.

— Aí, no trabalho... quando ele me reconheceu, começou a me amolar. Perseguir. Ficar me provocando. Eu juro que tentei ignorar, mas ele é... ele é...

— Um p0rra de um Deus grego. — Hugo completou.

— Um insuportável bonito. — Helena corrigiu, seca. — E... no dia da vistoria... a gente acabou se beijando de novo.

Silêncio.

Só os olhos arregalados dos dois. O universo em suspensão.

— E...? — Júlia cochichou.

— E foi só isso.

— VOCÊ JURA PELOS OVOS DO CÃO QUE FOI SÓ ISSO? — gritou Hugo.

— Juro por ninguém, Hugo. Agora para.

Mas os dois já tinham mudado de foco.

Eles se aproximaram, sentaram ao lado dela na cama, olhos brilhando, vibrando.

— Você tá transando com Heitor Monteiro.

— NÃO ESTOU!

— Helena, você tá marcada até o pescoço.

— FOI O MOSQUITO, CACETE!

— E ele tá todo apaixonado! — gritou Júlia, sacudindo os ombros dela. — Ele falou que você é DELE!

— Gente, para! Vocês tão me deixando louca.

— Mas amiga... — Hugo colocou a mão no coração — ...se ele faz você gemer igual no vídeo que a gente viu, você nunca mais vai conseguir sair dessa cama.

Helena arregalou os olhos.

— Que vídeo? Tem áudio?

— Ai, não, era só brincadeira. — Hugo gargalhou. — Mas agora você confessou, danada.

Helena cobriu o rosto com as mãos.

Ela estava sendo sufocada. Pela fofoca. Pela verdade. Pelo desejo que ainda não tinha passado.

E o pior: por tudo que estava começando a sentir.

Ela suspirou.

— Tá bom... talvez a gente tenha transado. Só uma vez.

— UMA VEZ... — Júlia e Hugo falaram juntos. — ...por enquanto.

Helena fechou os olhos.

— Eu odeio vocês.

Mas sorriu. Só um pouquinho.

Porque mesmo exausta, mesmo encurralada... no fundo, uma parte dela estava gostando de tudo aquilo.

E essa parte estava perdidamente ferrada.