O CEO que Eu Paguei
15 O Peso Que a Gente Não Mostra
O dia tinha sido um inferno.
Heitor passou trancado em alguma sala, o que, ironicamente, foi quase um alívio. Mas ainda assim, os prazos estouravam, o retrabalho não dava trégua e ninguém assumia uma planilha que vinha causando um caos silencioso. Helena lidava com tudo, digitando e respondendo com a elegância cortante que a salvava de explodir.
Clara já tinha sugerido duas vezes que ela descesse para almoçar. Ela recusou ambas. Quando salvou o último arquivo, já passava das cinco.
Precisava respirar.
Desceu as escadas devagar. O corredor do térreo estava vazio — exceto pelo som abafado de alguém chorando perto do refeitório.
Helena parou.
Ana Alice estava sentada, cabeça baixa, corpo tremendo em soluços contidos. Sempre falante, atirada, se achava a última bolacha do pacote... agora era só silêncio e tremor.
Helena se encostou à parede oposta, cruzou os braços e falou, no seu jeito direto:
— Você quer água? Ou precisa de alguma coisa?
Ana Alice enxugou os olhos apressada.
— Desculpa... minha mãe tá internada. Cirurgia no joelho. Infeccionou.
Helena apenas assentiu.
— Tá em condição de dirigir?
— Acho que sim...
— Me passa seu endereço — disse ela, já pegando o celular. — Eu levo você.
Sem esperar resposta, mandou uma mensagem curta para Clara:
“Preciso sair mais cedo. Pode descontar das minhas horas, por favor. A Ana vai comigo.”
Pegou as chaves do Onix branco estacionado lá fora com Ana Alice. Nenhuma das duas falou muito até entrarem no carro.
No trajeto, o silêncio durou até Ana Alice desabar de novo:
— Todo mundo acha que eu sou exagerada. Mas ninguém sabe o que tem por trás. Cresci na igreja. Meu pai acha que chorar é fraqueza.
Helena manteve os olhos na estrada.
— Eu tenho mais duas irmãs, mas ninguém cobra elas como me cobram. Nem no hospítal acompanharem a minha mãe elas vão. Nem meu pai ajuda, ele diz que é dever de mulher.
Ana Alice pegou ar e continuou.
— Eu não moro mais com eles, mas sempre tô lá. Principalmente agora. Eu só quero... aguentar...
— A gente aprende a sobreviver como dá.
Ana a olhou, surpresa.
— Você não parece gostar muito de mim, porque tá aqui?
— A gente trabalha juntas, você tava chorando... — Helena pausa a frase — e eu até gosto um pouco do seu jeito, mas só um pouco tá?
— Você é uma figura mesmo, uma figura pequena, mas ainda assim, uma figura — Ana Alice diz rindo.
"Ana Alice sendo Ana Alice", Helena já nem se surpreendia mais com a auto estima elevada dela e no modo como ela fazia todos se sentirem abaixo dela. Só revirou os olhos e o GPS sinalizou que chegaram.
Chegaram à casa simples, com roupas no varal e pintura desbotada. Helena estacionava quando uma voz masculina ecoou da porta:
— Eu falei pra não sair! Tá achando que a gente tá brincando aqui?!
Ana congelou.
— É meu pai — murmurou, tentando sair do carro.
Helena segurou seu braço.
— Espera.
Mas o homem já estava ali. Alto, barriga empurrando a camisa xadrez, rosto vermelho de raiva. Ana não esperou, sacudiu o braço se soltando de Helena e saiu o mais rápido possivel.
— Pai, já tava quase na hora de sair, eu vim mais rápido para ajudar a mamãe.
Ana Alice tentava se explicar, então ele ameaçou avançar em direção a ela, claramente alterado. Ela recuou.
Helena desceu com calma e foi até o lado da colega. Ficou ali. Presente. Entre eles.
O homem notou.
E se transformou.
— Boa noite. Trabalha com ela?
— Trabalho, sim — respondeu Helena, sem pressa.
— Desculpe a gritaria. Coisa de família... Minha esposa tá no hospital.
— Entendo — respondeu ela. E seu tom dizia: eu vi.
— Quer entrar? Um café? Tem bolo.
— Aceito. Só bolo, não almocei hoje.
A casa era simples e limpa. Móveis antigos, mantas floridas, crochê na mesa.
— Alice, pega um suco e um pedaço de bolo pra sua amiga aí — disse o pai, agora sorridente.
— Só o bolo, por favor — cortou Helena, educada.
Ela se sentou, pernas cruzadas, postura firme. Ana Alice saiu em direção a cozinha.
— Então... qual o quadro da sua esposa?
Ele deu de ombros, como se fosse nada demais.
— É... coisa de velho, né? Cirurgia no joelho. Mas pegou uma infecção, dizem que é normal. A gente vai tocando.
— Imagino que não seja fácil pra ninguém — ela respondeu, num tom que era quase um espelho. Não o confrontava. Mas também não baixava os olhos.
Ele pigarreou, mexeu no saleiro como se fosse necessário.
— A Alice se afeta demais, sabe como é... Já tá grande, mas parece menina. Se desespera por qualquer coisa.
Helena não respondeu de imediato.
Apenas ergueu uma sobrancelha, quase imperceptível.
— Pelo que vi, ela é dedicada. Trabalha muito. Às vezes, até demais. E tem dias que... pesa.
O homem pareceu desviar o olhar por um segundo. A máscara do pai dominador tentava se sustentar sob o verniz de homem cordial.
Ana Alice retornou com um prato. Colocou à frente de Helena. Uma garrafa de café e um copo americano.
— Bolo de fubá com erva-doce — disse, ainda sem conseguir olhar diretamente para nenhuma das duas.
Helena pegou o garfo com calma.
— Obrigada. Tá com cheiro ótimo.
— Fui eu que fiz — disse o pai.
— A Ana puxou seu o cuidado com os outros, então.
A frase caiu como uma pedra calma na água. Ele silenciou.
A conversa à mesa seguiu em torno da recuperação da mãe de Ana Alice.
O pai dela falava como quem comandava o campo de batalha — perguntando se os médicos sabiam o que estavam fazendo, reclamando dos horários de visita, tentando decidir sozinho quem deveria ir e quando. Ana Alice apenas concordava com a cabeça, os ombros tensos, a voz baixa, murmurando que ligaria para o hospital de novo mais tarde.
Helena apenas escutava, mastigando devagar o bolo, que de fato estava bom.
Em determinado momento, o pai se virou para a filha:
— Hoje cê vai? Ou eu vou ter que ir?
— Posso ir — Ana respondeu, sem hesitar. — Sai mais cedo hoje do trabalho e se precisar posso continuar saindo.
— Então é isso — ele decretou, levantando-se como se tivesse encerrado uma reunião.
Helena manteve o copo americano entre os dedos, o olhar tranquilo.
— Se precisarem revezar, vocês podem combinar turnos com as irmãs dela também — disse, casual, como quem só completava um pensamento. — Evita sobrecarga. — Ela olha para Ana Alice — se suas irmãs não puderem te ajudar com a própria mãe de vocês, você me avisa, eu posso ficar lá também.
O pai pareceu desconcertado por um segundo. Depois assentiu, seco.
— Vou falar com elas. Agradeço, mas é coisa de família
Helena terminou o café, colocou o garfo sobre o prato e se levantou, pegando a bolsa com calma.
— Obrigada pelo bolo. Estava ótimo.
— Que isso, moça. Apareça mais vezes — disse o pai, já recuando para o corredor, sentindo que a noite chegava ao fim.
Helena se virou para Ana Alice, e pela primeira vez desde que entrou ali, sorriu com leveza.
— Você é uma excelente colega de trabalho, Ana. O escritório não é o mesmo sem você.
Ana Alice a olhou, surpresa. Sorriu também, tímida — o tipo de sorriso que aparece quando alguém escuta algo que não imaginava merecer.
— Obrigada, Helena. De verdade.
— Só cuida de você também — disse, quase num sussurro.
E então, num gesto pouco comum para si, Helena se aproximou e a abraçou.
Foi um abraço breve, quase desajeitado — mas honesto. Um gesto raro de alguém que não abraça à toa.
Ana se encolheu no início, depois retribuiu com força contida, como quem não sabia se merecia.
Helena saiu em passos firmes pela calçada mal iluminada. O vento da noite era leve e morno, carregando o cheiro de jasmim vindo do muro vizinho.
Ela sabia quem Ana Alice era. Sabia do jeito expansivo, da necessidade de aprovação, e da forma como ela sempre tentava se destacar — mesmo que precisasse usar o próprio corpo. Sabia que, se um dia precisasse jogar alguém na fogueira pra brilhar… Ana jogaria.
Mas tudo bem.
Nem toda lenha pega fogo mesmo.
E Helena tinha mais com o que se preocupar no momento, uma preocupação de olhos azuis, sotaque carioca, ombros largos e um sorriso irresistível.
Seguiu andando, em paz com a noite — e com a estranha, inevitável forma de cuidar que só ela sabia exercer.
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