O CEO que Eu Paguei
16 A Ordem e o Desejo
A Plano & Forma é a empresa terceirizada responsável pela área de projetos da Monteiro Inc.. Como toda boa prestadora de serviços, o ritmo de trabalho é intenso — e as exigências sobre os funcionários vão além do que se esperaria se fossem contratados diretos da empresa-cliente.
Quase toda a operação da área de projetos ficava sob responsabilidade da pequena, porém eficiente, equipe da Plano. Para que tudo funcionasse corretamente, era essencial seguir um cronograma rigoroso, cuidadosamente elaborado por Clara.
E não se tratava apenas da parte burocrática: as visitas técnicas para as entregas finais também exigiam atenção e preparo — e estavam longe de ser exceção à regra.
Cada dupla da equipe tinha suas semanas definidas para ir até a obra, realizar a última vistoria, preencher os relatórios e voltar. Um ritual burocrático que Helena até gostava — principalmente porque, sendo a última a ser contratada, ainda não tinha uma dupla.
Na prática, isso significava que quando caía com ela, o carro era só dela.
Silêncio, liberdade, vidro baixo, velocidade e o rádio ligado em músicas que ela nunca admitiria que gostava.
Helena considerava aquilo um momento de sair da rotina, ver pessoalmente os lugares que ela ajudou a criar, saírem do monitor e estarem erguidos. Era extremamente satisfatório para ela a conclusão.
Até que Clara se aproximou de sua mesa no final da manhã, com a voz levemente abafada por um copo de café.
— Helena, cê vai na vistoria da obra do Grupo TOPÁZIO, né?
— Sim, uai. Tá no meu cronograma. Tô com grandes expectativas, eu acompanhei os relatórios dos meninos da estrutura do projeto. — Helena acenou para os colegas ao fundo.
Clara soltou um riso de canto de boca.
— Ótimo. Só avisando que o doutor Heitor vai com você.
Helena congelou no lugar. O cursor piscava na planilha, esperando algum comando. Mas nada nela se mexeu.
— Como é que é?
— Ele quer acompanhar o processo, ver como é feita a vistoria. Disse que quer entender todo o nosso fluxo e principalmente como liberamos a planta.
— E por que justo comigo?
— Não é por ser você. É a coincidência de ser a sua semana.
— Clara… — Helena se aproximou da amiga, em tom conspirativo. — Pelo amor de Deus. Me troca com alguém. Qualquer um. Me dá outra semana. Ou dois relatórios a mais. Mas não me manda pro carro com aquele homem.
Os olhos de Clara brilharam com uma pontinha de diversão.
— Só para cê saber, a equipe toda se ofereceu pra trocar, tá? — Clara olhou para a equipe, que pareceu decepcionada. — Temos que ser profissionais principalmente com o CEO. Coincidência ou não, cê vai ter que engolir. E seja um pouco menos ranzinza, o doutor não é uma pessoa ruim, só é extremamente bonito mesmo.
Helena mordeu o lábio. Olhou para a sala da diretoria.
Portas fechadas.
Estranho. Desde ontem as portas estavam fechadas.
Ela não sabia o que ele estava fazendo ali dentro… mas torceu com todas as forças pra que não a atrasasse.
Desceu.
O Fiat Strada da empresa a esperava como sempre no estacionamento subterrâneo. Branco, com o logotipo da terceirizada na lateral e o cheiro característico de banco limpo com produto forte. Mas fora isso, nada mais naquela tarde parecia igual.
Helena encostou na lateral do carro, braços cruzados, tentando ignorar o suor leve na nuca e o calor entre as coxas que não tinha nada a ver com o clima.
Ela olhava o relógio, mas o tempo não passava. E cada segundo a mais de espera era uma expectativa — não de atraso, mas de presença.
Porque ela sabia que ele viria.
E que o corpo dela, traidor do jeito mais silencioso, ia reagir como sempre.
Estava calor. O cabelo preso num coque meio frouxo. Blusa preta de botão, arrematada por uma calça cáqui com cinto fino. Botina de canteiro nos pés. Ela não estava sexy — estava técnica.
Mas o corpo não sabia disso.
E foi por isso que, quando viu Heitor surgindo pela escada, com o blazer no antebraço e o colarinho da camisa social verde escuro levemente aberta, o coração disparou.
Não podia negar que ele estava bonito. Reparando bem, ele usava uma calça preta de alfaiataria impecável, com o corte justo na medida para valorizar as pernas longas e a cintura alta. A camisa de linho verde escuro estava de mangas arregaçadas revelando os antebraços firmes e fortes, o relógio brilhava, e o colarinho aberto deixava uma linha de pele visível. Distração perigosa.
Ele andava devagar, como se o tempo fosse dele.
E era.
— Esperou muito? — perguntou, com um sorrisinho que não chegou inteiro. — Tava em reunião. Aquela em que os minutos parecem mais longos só porque a pessoa do outro lado fala como se mastigasse sílaba por sílaba.
Helena não respondeu de imediato.
Virou o rosto devagar, como quem tenta fingir que não está afetada — mas o olhar saiu afiado.
— Você não tem reunião o tempo todo? Sua agenda deve tá lotada.
Ele suspira como se estivesse decepcionado.
— Na moral, você deveria ser um pouco mais grata. — Ele fala ajeitando o colarinho.
— Do que está falando?
— Adiantei tantas obrigações só pra ter um tempo de qualidade na visita. — Ele fala com um semblante triste que a deixa nos nervos. — Você fala como se eu tivesse planejado isso de propósito.
— Provavelmente. Você me procura com frequência — rebateu, seca.
Heitor soltou um riso leve pelo nariz, como quem apreciava a acidez dela mais do que deveria.
— Achei que tava fazendo meu trabalho. Acompanhando os processos da equipe terceirizada…
— Por que essa obra, especificamente?
— Como assim?
— Tinha uma dúzia de outras que podia visitar.
Ele inclinou a cabeça, levemente.
— Talvez eu só tenha escolhido uma que cabia no cronograma.
Ela cruzou os braços.
— Você nunca faz nada por acaso, Heitor.
Ele deu de ombros.
— Eu sou só o diretor. Você tá dramatizando.
Helena bufou e abriu a porta do motorista.
— Eu vou dirigindo.
— Não sabia que minha vida tava em risco — comentou ele, abrindo a porta do carona.
— A única coisa em risco aqui é a minha paciência. Porque eu não vou sorrir, nem fazer charme, nem passar pano pra frase nojenta nenhuma.
Heitor olhou para ela com um sorriso quase invisível. A visão dele entrando no carro era quase cômica, ele era grande demais. Heitor empurrou o banco até o máximo que encostava na carroceria. Não parecia nada confortável.
— Tudo bem, Helena. Fica à vontade.
— Eu tô, mas já você.
— Eu tô mais à vontade do que nunca.
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