O CEO que Eu Paguei

17 Estrada de Dois Sentidos


Helena ligou o carro e soltou o ar lentamente, tentando se concentrar na estrada. Mas era difícil com Heitor tão perto.

Ele ajeitou o cinto, e o braço roçou de leve no dela. Só tecido contra tecido. Mas o corpo dela não entendeu assim.

Helena tentou controlar os pensamentos, levou sua mão até o câmbio, porém Heitor estava ocupando tanto espaço que sua perna estava encostada nele. Ela deu um toque sutil com sua mão separando o câmbio da perna dele e talvez isso tenha parecido mais excitante do que deveria. E Helena sentiu.

Sentiu os mamilos sensíveis que se arrepiaram por baixo do sutiã, sentiu no baixo-ventre contraído, na forma como o corpo reagia mesmo sem permissão. Ela se ajeitou, disfarçando o momento, engatou a ré e seguiu. O carro seguia pela estrada. Pequena demais para tanta tensão.

— Você tá vestido errado, sabia?

— Achei que fosse uma vistoria, não um desfile técnico.

— É uma obra. Mesmo acabada ainda tem terra, poeira, cimento… essas coisas que sujam roupa cara.

— Tô mais preocupado com outras coisas que sujam — respondeu ele, com a voz baixa.

Ela fingiu que não ouviu. Mas ouviu.

E como se não bastasse o toque acidental de antes, ele tirou os óculos de sol do bolso da camisa e os colocou devagar, sem pressa. Um modelo clássico, com armação preta e lentes escuras.

— Vai me dizer que isso também tá fora das normas? — ele provocou, recostando no banco como se o carro fosse dele.

— Não sabia que o uniforme do CEO incluía disfarce de galã da novela das seis — rebateu ela, virando à esquerda.

Ele sorriu com aquela expressão que misturava deboche com um tipo raro de diversão genuína. Como se ela fosse seu brinquedo favorito, mas não respondeu.

Silêncio.

O ar-condicionado soprava direto nas pernas dela. Mas nada esfriava a sensação de que o carro parecia menor, mais apertado, com ele ali.

De canto de olho, via a camisa justa aos ombros dele, a forma como a gola aberta expunha a pele, o modo como os dedos longos e grossos descansavam no joelho. A mão dele era grande.

Heitor se esticou um pouco no banco, passou o braço por trás do encosto do próprio assento como se estivesse em casa. O tecido da camisa repuxou nos bíceps, e Helena odiou que olhou.

Odiou mais ainda ter gostado do que viu.

— Tá nervosa? — ele perguntou, sem tirar os olhos da estrada à frente.

— Com você aqui, ninguém fica tranquilo.

— Engraçado. Eu ouvi o contrário. Que eu sou um chefe bem... atencioso.

— Você ouviu errado.

— Ou ouvi o certo da boca errada.

Helena travou o maxilar. Apertou o volante mais uma vez. A estrada começava a subir uma leve serra, ladeada por árvores. O silêncio se instalou de novo, mas era qualquer coisa menos calmo. Era um silêncio que zumbia no ar como tensão elétrica. Como se a qualquer momento um fio encostasse no outro e tudo estalasse. Ele mexeu no ar-condicionado. O perfume dele — amadeirado, quente, viciante — voltou a preencher o espaço.

Helena mordeu a parte de dentro da bochecha.

— Qual o motivo real de estar aqui, Heitor?

— Já falei. Ver como a vistoria é feita.

— E por que comigo?

— Porque você é a funcionária mais promissora da Pleno. — Ele falou como se recitasse um relatório. Mas depois virou o rosto e completou, num tom mais arrastado: — E, além disso… é a mais interessante.

Ela engoliu seco, mantendo os olhos na pista.

— Para. Isso não é brincadeira.

— Quem disse que eu tô brincando?

A perna dele estava muito perto da mão dela no câmbio. O calor exalava como um convite para um evento repetido. Helena tentou ajeitar a mão, mas acabou o acariciando de forma completamente sugestiva.

Ele pareceu abrir um pouco mais a perna para encostar na mão dela.

— Cuidado, Helena — ele sussurrou, com o sotaque carioca escorrendo pelas palavras como mel quente. — Se ficar com essa cara por muito tempo, vai acabar entregando que quer me beijar.

Ela riu. Curto. Irônica.

— Você é insuportável.

— Você diz isso como se não tivesse sonhado comigo essa noite. — Ele virou o rosto, os óculos refletindo a luz da rua — Completamente molhadinha.

O coração dela bateu mais forte. Ela quase perdeu o cruzamento.

— Fica quieto, Heitor.

Ele recostou a cabeça no banco e sussurrou:

— Mas é a verdade, não é? Eu sonhei com você também. Com esse seu jeito bravo, querendo fingir que não sente. — continuou com um sorriso safado — Só que, no meu sonho, você não tava de calça cáqui. Tava com a mão na minha nuca. E com a boca... ocupada demais pra reclamar.

Ela engoliu em seco.

— Você tem algum desvio de caráter ou só um vício em falar merda?

Ele riu.

— Um pouco dos dois.

E então o silêncio voltou. Mas era um silêncio denso.

Não havia música, nem trânsito, nem nada fora o som do motor, o ritmo da respiração dos dois, e a tensão que deixava o carro abafado mesmo com o ar no máximo.

Helena não queria falar mais nada, porque qualquer resposta viria tremendo. Porque o corpo dela — maldita carne fraca — já estava reagindo de novo. Coração acelerado, a pele do pescoço formigando, e o meio das pernas latejando num ritmo que ela fingia não sentir.

10 minutos depois, ela virou o carro na entrada de terra batida que levava a nova construção do GRUPO TOPÁZIO. Era imponente, mesmo ainda escondida atrás do tapume. Que constava com uma placa de metal com a Logo e o escrito “Obra realizada por MONTEIRO INC.”

— Chegamos — disse ela, fria.

— Que pena — respondeu ele, tirando os óculos de sol. — A estrada tava ótima.

Quando estacionaram em frente à obra, Helena soltou o cinto rápido, desceu do carro como se o ar externo fosse salvar o que ainda restava da sua sanidade. Não disse mais nenhuma palavra.

Mas antes que desse dois passos, a voz dele a alcançou.

— Ei.

Ela virou o rosto e o viu com os braços apoiados no teto do carro.

— Eu juro que vou me comportar. Mas se você andar na minha frente de novo com essa calça marcando assim... — ele inclinou os óculos pra baixarem no nariz. — Aí não posso prometer nada.

Ela fechou os olhos por um segundo. E seguiu andando até a carroceria do carro.

A bota batia firme no concreto. A boca cerrada. O corpo quente.

Era só uma visita técnica.

Era só trabalho.

Mas cada passo parecia caminhar numa estrada que não tinha só um sentido.