O CEO que Eu Paguei

18 Vistoria e Outros Riscos


Helena caminhava com a determinação de quem preferia o silêncio à companhia. Subiu na carroceria com a bota pisando firme na lataria, e mesmo naquela ação tão simples, havia algo nela que mexia com ele.

Talvez fosse o jeito como prendia o cabelo — sem charme nenhum, só funcionalidade. Ou o modo como dobrava as mangas da blusa, como quem não tem tempo pra floreio. Mas era mais do que isso.

Era o contraste.

A rigidez que não conseguia esconder a vibração por baixo da pele. A pose dura que estremecia quando ele se aproximava demais.

Ela era um estudo de contenção. E ele adorava ver as rachaduras.

Heitor ainda estava parado, mãos no bolso, fingindo que esperava ordens. Mas, na verdade, estava observando. A forma como ela tirava a lona com firmeza, puxava as caixas como se fossem extensão do corpo. Era eficiente. Fria.

Linda pra caralho.

— Vai subir ou vai ficar babando? — ela disse sem olhar.

A voz vinha sempre nesse tom — seco, cortante. Mas ele aprendeu a reconhecer o outro som por trás: o leve vacilo da respiração, o “s” que demorava um segundo a mais pra sair quando ela se dava conta de que ele estava perto.

Heitor subiu pela lateral com um salto ágil, nada difícil para o tamanho dele, e pousou ao lado dela.

O calor ali não era da tarde abafada.

Era dela.

Helena já estava com o capacete encaixado, puxando o colete laranja sobre os ombros e colocando as luvas penduradas no fecho do colete.

Toda pronta, toda certa. Sempre tentando manter a compostura intacta.

Heitor observava como quem estava diante de um espetáculo de comportamento. Ela era metódica. Organizada. Rígida. Mas era isso que deixava tudo mais interessante.

— Sério que você vai se fantasiar toda assim? — ele soltou, com o tom de deboche que ela já conhecia.

— Segurança em primeiro lugar.

Mas o que ela não percebia era o quanto ele via.

O quanto ele lia.

Via como ela parava um segundo antes de encostar nele.

Como mordia o canto da boca quando ele dizia algo impróprio.

Como os olhos castanhos dela evitavam os dele depois de qualquer frase com duplo sentido.

— Esse colete aí não vai esconder nada se eu olhar direito — ele disse, rouco de propósito.

Ela ignorou. Pelo menos tentou.

Mas ele viu o pescoço dela endurecendo. A forma como ajeitou o colete rápido demais. Como se estivesse com medo do que o próprio corpo pudesse mostrar.

Heitor fingiu que não viu. Mas viu. E gravou tudo.

A visão dela inclinada sobre as caixas, o tecido justo da calça puxado no lugar certo, o quadril levemente empinado, a camisa preta subindo um pouco mostrando a lombar definida dela… e aquele perfume que insistia em grudar nele. Lembrou daquele corpo nu, do jeito que ela rebolou até chegar naquela cama...

— Qual o seu tamanho? — ela perguntou, ainda de costas.

Heitor foi pego no susto.

— Do quê?

Ela se virou, impaciente.

— Do sapato, Heitor.

— Quarenta e quatro. — Ele pigarreou. Pegou a botina que ela jogou, sentou-se na porta aberta da carroceria e calçou o sapato, enquanto ela fazia aquela cara típica de quem estava um passo de perder a paciência — ou o juízo.

E ela cuidava dele. Disfarçava com grosseria, mas cuidava. Como quem não quer admitir que se importa.

Ele gostava disso.

Ela entregou o restante do equipamento para ele. Quando disse que estava pronto, ela virou numa velocidade calculada.

— Claro que não tá — e desceu da carroceria e foi pra cima dele.

Estava brava. Irritada.

Mas, se ela fosse mesmo indiferente, não estaria ali — entre as pernas dele, com os dedos no fecho do capacete e o maxilar contraído.

A pele dela relava de leve no pescoço dele enquanto ajeitava o encaixe. A ponta do dedo roçava de leve o queixo dele.

As mãos estavam frias, mas o cheiro...

O cheiro era doce e cítrico, como verão molhado.

Helena não sabia o que causava quando se aproximava assim.

Ou talvez soubesse.

Porque ele viu.

Viu o leve rubor nas maçãs do rosto dela, mesmo com a pele marrom. Uma coloração quente, diferente. Linda.

E queria ver mais.

Queria deixar aquela pele cheia de cor e falta de ar.

Quando ela se afastou e seguiu até o portão, ele a acompanhou com o olhar.

Não era apenas atração. Era curiosidade.

Era fascínio por aquela mulher que vestia sarcasmo como armadura… mas tremia toda vez que ele falava baixo demais.

E então ele apareceu.

Um rapaz — jovem, bronzeado, camisa suada colada no peito, capacete vermelho e o sorriso escancarado demais.

E o riso dela foi outro.

Solto. Aberto. Intenso.

Heitor travou.

Os dedos se fecharam na lateral do cinto.

A mandíbula endureceu antes mesmo que ele pudesse pensar.

O cara a abraçou.

E ela deixou.

Ela se inclinou, riu, respondeu com familiaridade.

Não era o jeito que ela falava com ele.

Era mais leve.

Mais fácil.

E ele odiou.

Odiou mesmo sem saber por quê. Só odiou.

Foi até os dois com passos firmes e voz baixa.

— Quem é esse aí?

O instinto falou antes da razão.

Helena se virou, surpresa.

— Esse é…— Ela ia apresentar, mas ele cortou.


— Heitor Monteiro. Diretor da Monteiro Inc..

Ele não queria parecer territorial na frente dela.

Mas queria deixar claro: ela está comigo.

Mesmo que não estivesse.

Ainda.

O rapaz engoliu seco.

— Ah, claro, prazer, senhor. Não sabia que… — E parou, olhando para Helena. — Enfim, bom dia pra vocês. Vou voltar ao trabalho.

Ele saiu rápido. Rápido até demais.

— Precisava daquilo? — ela atacou, cruzando os braços.

— Clareza, transparência, domínio de território — ele rebateu, com a voz macia, mas os olhos fixos nela.

Ela o chamava de ridículo. Mas não recuava. Não descia o olhar. Não evitava.

— Você diz isso como se não tivesse sonhado comigo essa noite — ele provocou baixinho. — Completamente molhadinha.

Ela travou. Por um segundo, ele viu o corpo dela perder o ritmo. A respiração alterar.

E ali, mais uma rachadura na armadura.

Mais uma vitória silenciosa.

Quando ela abriu o portão e entrou com força, ele a seguiu.

O corpo dela era todo tensão. Toda negação.

Mas ele conhecia o som da pele quando era tocada por dentro.

E sabia.

Com cada fibra do próprio corpo, ele sabia.

Ela estava quebrando.

E ele?

Estava pronto pra cada estilhaço.

A obra estava praticamente pronta. Escritório novo, salas amplas, acabamento de primeira. Um prédio pequeno, mas bem projetado — Heitor reconhecia quando algo tinha sido feito com cuidado. E aquela construção parecia quase simbólica agora, com ele e Helena ali dentro, sozinhos.

O ar estava mais abafado do que esperava. As janelas ainda não tinham sido abertas. Lá fora, o sol ardia. Lá dentro, o calor tinha outro nome.

— Pode me ajudar aqui? — ela chamou, segurando a trena com uma mão e o papel de especificações com a outra.

Heitor atravessou a sala devagar. A camisa social já colava levemente nas costas. Os equipamentos de segurança o faziam suar, mas ele nem ligava. Porque o que chamava sua atenção estava à frente: Helena, de costas, joelhos levemente flexionados enquanto esticava a trena até o canto da parede.

— Segura firme. — Ela o olhou de lado, os olhos castanhos semicerrados.

— Isso é o que você me pede, Helena…? — ele provocou, sem resistir.

— Tô falando da trena, idiota. — Mas a voz falhou no “idiota”. Ele ouviu.

Ele segurou, encostando sem pressa a mão na dela. Ela se afastou sutilmente. Mas só o suficiente pra deixar saudade.

Helena andava de canto em canto, conferindo medidas, rabiscando anotações. Ele a seguiu de longe no início. Depois mais perto. E mais perto.

Não ajudava o fato dela parecer absolutamente concentrada — e linda — naquele ambiente tão técnico.

A forma como franzia o cenho lendo o papel. O modo como prendia a prancheta entre o peito e o braço. Como a boca dela murmurava os números, contando de cabeça.

E aquele jeito cantado de falar.

Aquele sotaque mineiro escondido nas sílabas arrastadas, no "r" que virava quase um suspiro. Já fazia mais de décadas que ele tinha prestado atenção em alguém desse jeito. Na verdade, ele nunca tinha prestado tanta atenção em alguém assim.

Mas com ela... tudo prendia.

— Aqui precisa de ajuste — ela disse, inclinando-se sobre uma bancada para marcar alguma coisa.

— Onde? — ele se aproximou, as mãos nos bolsos, como quem não quer nada.

Ela apontou com a caneta. E ele, em vez de olhar direto para o ponto, olhou o contorno da cintura dela, curvado à frente. O colete laranja não escondia muita coisa. E as luvas nas mãos só destacavam o que ela tentava disfarçar: Helena tinha o corpo mais interessante que ele já viu — não era perfeito, era real, e exatamente por isso era irresistível.

— Tá olhando o quê? — ela perguntou sem virar, percebendo a demora.

— O problema no alinhamento. — Ele respondeu sério.

Ela se virou devagar. Sabia. E estava ficando cada vez pior em esconder.

Ela terminou de preencher os papéis com a letra firme, assinou no canto, colocou o lápis atrás da orelha e soltou o ar como quem completava uma tarefa.

Ele estava a dois passos.

— Achei que fosse só uma vistoria — ele disse, encostando na lateral da bancada. — Mas você parece gostar disso.

— Eu gosto — ela respondeu. Simples, honesta.

E era isso. Essa mulher vivia pronta pra morder, mas quando se abria, mesmo que só um pouco, brilhava mais do que queria admitir.

Ele se inclinou ligeiramente, os braços cruzados, observando.

— Você fala bonito. Sabia?

— Hein? — ela franziu o cenho.

— Esse seu jeito de falar... parece música.

— Heitor...

— Eu tô falando sério.

— Você nunca fala sério.

— Agora tô.

Ela abaixou o olhar, mas só por um segundo.

Ele se aproximou devagar, e Helena não recuou. Ficou ali, entre a prancheta e ele, com o ar preso na garganta. E ele viu — viu mesmo — o jeito como ela segurava a respiração, como as pupilas dilataram, como o pescoço ficou tenso.

— Tá com medo de quê? — ele perguntou, baixo.

— De você estragar tudo — ela respondeu. Mas a voz não era firme. Era um sussurro. E o rubor começava a subir, de novo.

Ele se aproximou um passo. Um só.

— Então deixa que eu conserto.