O CEO que Eu Paguei
1 O Nome Dele É Heitor
O bairro era antigo, um pouco esquecido pelo tempo. Ruas estreitas de paralelepípedo, casas pequenas com muros baixos e grades enferrujadas. Algumas janelas fechadas e poucas abertas . Era o tipo de lugar onde os olhares não se estendiam muito. O tipo de silêncio que parecia cúmplice.
O Uber de Helena havia parado duas ruas acima. Ela pediu que a deixasse ali mesmo. O coração martelava tão alto no peito que parecia que o mundo inteiro ouvia. Os dedos estavam frios. A respiração, curta. E a mente… bem, essa não parava.
“Isso é loucura.”
“Você não é esse tipo de mulher.”
“Mas já pagou a passagem. Ele já está aqui.”
Olhou de novo o celular. A última mensagem ainda piscava:
“Chego em 10 minutos. Camiseta azul, boné azul. Só me chamar de Tiago quando me ver.”
Tiago. Era esse o nome que aparecia nos exames que ele tinha enviado — tudo certo, limpo, como ela exigiu. Mas não tinha foto de rosto. Só do corpo. E das partes íntimas. Uma parte de si dizia que aquilo era um absurdo. A outra parte... bem, aquela parte estava de batom, perfume e com os ombros nus, parada quase na esquina de um bairro onde ninguém a conhecia.
Ela não sabia exatamente por que estava fazendo aquilo. Ou talvez soubesse. Estava cansada. Cansada de ser sempre racional. De cuidar dos outros. De fingir que não sentia falta de nada. De sempre ser certinha.
Queria, por uma noite, só sentir. Ser desejada. Ser tocada. Ser mulher. Sem vínculos. Sem perguntas. Sem máscara.
As ruas estavam desertas, como ela esperava em um dia de semana. Nada de vitrines bonitas, cafés aconchegantes ou famílias com crianças e pets. Só a feiura do bairro mais afastado da cidade, calçadas irregulares e a placa torta de um hotel que piscava poucas letras com esforço:
Descanso Imperial.
— Imperial só se for a vergonha que eu tô tentando esconder... — murmurou, com um sorriso amargo.
O salto fazia barulho demais no asfalto. Ela usava uma calça jeans justa, salto bloco nude, e uma blusa ciganinha cor de areia que deixava os ombros à mostra. O colar de coração no pescoço batia sutil sobre o busto cada vez que ela respirava fundo. Ela parecia segura. Mas era só aparência. Por dentro, estava em frangalhos.
E então o viu.
Parado diante da entrada do hotel. Alto. Lindo. E completamente fora do que esperava.
Era como se o mundo tivesse dado pause.
Ele usava uma camiseta azul de tecido leve, com bordas brancas nas mangas. O caimento nos ombros largos era perfeito, realçando a estrutura do peito.
O boné azul-escuro, com o brasão de Wimbledon, chinelos azuis, um relógio elegante no pulso. O calção branco da Ralph Lauren… que deixava escapar um volume que fazia seu rosto aquecer involuntariamente.
Mesmo com o boné, dava pra ver o corte de cabelo impecável — um Textured Crop Fade bem feito com o cabelo do meio curto. Barba por fazer, rosto masculino, sem frescura, sem carinha de garotinho. Um homem. Aquele tipo que sabe entrar num lugar. E sabe o efeito que causa.
Ela engoliu em seco.
Os olhos dele eram azuis. Não um azul comum. Era o tipo que prende, que observa em silêncio. Um azul que julga e seduz ao mesmo tempo.
Helena sentiu o estômago revirar.
Mas não recuou. Continuou andando. Um passo de cada vez. O salto denunciava sua chegada. A vergonha queria gritar, mas ela empurrou para o fundo. Era agora ou nunca.
— Tiago? — perguntou, ao se aproximar. A voz saiu mais baixa do que ela gostaria.
Ele sustentou o olhar. Um leve franzir de sobrancelha.
— Heitor — disse, com a voz grave, pausada, quente.
Helena arqueou uma sobrancelha, surpresa. Um sorriso involuntário escapou.
— Então esse é o nome de guerra... gostei. Soa forte. Meio deus grego — murmurou, num tom que ela mesma não reconheceu.
Ele pareceu confuso por uma fração de segundo. Mas não desmentiu.
— É o meu nome mesmo.
Ela sentiu o corpo formigar. Não sabia se era vergonha, atração, ou as duas coisas juntas. Mas aquilo parecia irreal.
“Você perdeu o juízo. Completamente.”
Ela olhou em volta. Nada. Nenhuma alma viva. Só ela e aquele homem. Um estranho bonito demais pra ser verdade. E ainda assim, ali. Esperando por ela.
— Vamos? — disse, apontando com o queixo para o hotel.
Ele hesitou por um segundo, só o suficiente pra deixar tudo mais tenso. Depois assentiu com um sorriso discreto.
Ela foi na frente. Ele atrás.
O som dos chinelos contra o chão. O cheiro bom dele. Um perfume amadeirado que ficou no ar. A presença dele parecia crescer a cada passo. Helena sentia aquele corpo grande e quente se aproximando. Ela tinha 1,70, mas se sentia menor. Menor e... exposta.
A recepção era simples. Paredes de textura antiga, um ventilador girando devagar no teto, uma mulher de meia-idade atrás do balcão. A recepcionista nem piscou ao vê-los. Já tinha visto de tudo. Casais improváveis eram seu pão de cada dia.
— Quarto doze. Setenta e nove reais — disse, entediada.
Helena pegou a carteira, tirou duas notas de cinquenta. Recebeu o troco, pegou a chave.
Assinou como Camila F.
Camila em homenagem à Camila Pitanga em Beleza Fatal.
Sorriu sozinha. Era o nome que usava no site. Podia parecer fuga e talvez realmente fosse.
Subiu as escadas com Heitor atrás dela. O coração martelava cada degrau. A chave balançava em sua mão suada. Os ombros nus tremiam de leve, mas não era frio. Era o que vinha depois.
Chegou à porta do quarto. Destrancou. Abriu. Entrou.
E ele veio logo atrás.
O quarto era simples. Uma cama de casal com lençois brancos, uma cortina encardida, uma TV pequena presa na parede, e um espelho grande demais na lateral. O abajur dava uma luz âmbar, suave, quase íntima demais.
Helena parou no meio do quarto. Respirou fundo.
Ouviu a porta se fechar atrás dela.
E, por um segundo, tudo ficou em silêncio.
Mas o ar... já estava carregado demais pra continuar assim por muito tempo.
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