O CEO que Eu Paguei
160 O Início da Guerra
As portas do pronto-socorro do Hospital Samaritano se abriram com violência quando dois seguranças praticamente arrastaram Antônio Fortenelle para dentro. Ele vinha andando por conta própria, mas mancando, cambaleando, com o corpo encharcado de sangue — tanto o dele quanto o de Heitor.
O rosto estava irreconhecível. O nariz torto, quebrado. O lábio superior rasgado em dois pontos, os dentes bambos manchados de vermelho. O olho direito inchado a ponto de quase fechar, o esquerdo escorrendo sangue da cicatriz antiga que agora estava aberta como uma ferida recente. O corte profundo na sobrancelha fazia o sangue descer em filetes, pingando pelo queixo. Havia hematomas roxos pelo abdômen, costelas doloridas a cada respiração, escoriações nos braços e um corte feio na bochecha que mal parava de sangrar.
Cada passo era uma tortura. O corpo gritava. O pulmão ardia como se houvesse fogo dentro dele. Mas a mente? A mente só repetia uma coisa: “Eu ganhei.”
As enfermeiras correram, horrorizadas.
— Rápido, tragam uma maca!
— Ele está perdendo muito sangue!
Antônio levantou a mão, recusando.
— Eu ando. — disse com a voz rouca, arranhada, o sangue ainda na garganta. — Eu não vou deitado.
E ele foi caminhando. Cada passo deixando marcas vermelhas no chão branco. O cheiro metálico de sangue impregnava o ar. As pessoas no saguão o olhavam como se fosse um monstro saído de um filme de horror.
Ele tentou sorrir. Mas o rosto doeu tanto que não conseguiu. Apenas um esgar de dor e triunfo misturados.
Lembrou.
A imagem mais doce de sua vida inteira: Heitor Monteiro caindo de joelhos. O gigante, o homem perfeito, o herdeiro inabalável… rendido ao chão, sangrando, apagando na frente dele. Pela primeira vez desde que se conheciam, Heitor não estava acima.
Antônio quase gargalhou, mas engasgou com o gosto de ferro na boca.
“Eu venci. Eu… finalmente venci você, Monteiro.”
Os enfermeiros o empurraram para dentro da sala de atendimento, cortando sua camisa ensanguentada, avaliando o corpo. Ele mal ouvia. O médico dizia algo sobre pontos, sobre risco de fraturas, sobre hemorragia. Antônio não se importava.
De olhos semicerrados, sentia o gosto da vitória queimando mais forte que qualquer dor.
— Agora acabou… — murmurou, quase para si mesmo, enquanto as mãos dos enfermeiros pressionavam gaze no corte da bochecha. — Helena… o bebê… vão ser meus. Eu finalmente tenho tudo. Nunca mais ele vai estar no meu caminho.
Por dentro, ainda que cambaleando no limite da consciência, Antônio Fortenelle se sentia, pela primeira vez na vida, o vencedor.
As luzes brancas da sala de emergência o cegaram quando o deitaram na maca à força. Antônio lutou contra os enfermeiros, mesmo com o corpo doendo em cada osso.
— Eu disse que não quero maca! — a voz saiu rouca, rasgada.
— Senhor, precisa ficar quieto! — uma médica respondeu firme. — Vai perder mais sangue se continuar se debatendo.
Ele riu, cuspindo sangue no lençol.
— Não é o meu sangue… é o dele.
O médico à esquerda, já com luvas e máscara, não perdeu tempo:
— Nariz quebrado, hemorragia ativa, corte profundo na bochecha, suspeita de fratura de costelas. Vamos preparar sutura, analgesia e exames de imagem imediatamente!
Uma enfermeira pressionava a gaze contra a sobrancelha aberta, justamente a cicatriz antiga, agora escorrendo sangue fresco.
— Pressão dele tá caindo! — ela gritou.
Antônio respirou fundo, arfando. Cada movimento fazia o peito arder como se estivesse sendo rasgado por dentro. Costelas. Ele sabia que estavam quebradas. Mas não importava.
— Tá… tudo certo… — murmurou com um meio-sorriso ensanguentado. — Eu ainda tô de pé.
O médico arqueou a sobrancelha.
— De pé? Está quase desmaiando, senhor Fortenelle.
— Quase… mas não desmaiei. — Antônio respondeu, a voz trêmula mas carregada de desprezo. — Ele caiu antes de mim. Esse é o placar que importa.
Enquanto falava, tossiu sangue no jaleco de uma das enfermeiras, que recuou com expressão de choque.
— Vamos entubar se continuar com essa tosse! — alertou o médico, já pedindo um aspirador cirúrgico para limpar as vias. — Ele pode colapsar!
A máscara de oxigênio foi colocada à força sobre sua boca e nariz, mas Antônio afastou com uma das mãos tremendo.
— Eu não preciso disso! — grunhiu.
— Precisa sim! — o médico retrucou ríspido. — O senhor corre risco de sufocar com o próprio sangue.
Enquanto aplicavam anestesia local e começavam a sutura no corte da bochecha, Antônio apertava os dentes quebrados, engolindo a dor. Não gritou. Não gemia.
“Agora é tudo meu. Todos são meus. Ele caiu. Eu fiquei. Eu ganhei.”
A agulha costurava a pele, puxando a carne rasgada em pontos grossos e rápidos. O nariz foi imobilizado com uma tala, o olho direito já fechado pelo inchaço. No abdômen, hematomas escuros se espalhavam como mapas de dor. Um dos médicos apalpou e Antônio se contorceu, soltando um gemido baixo, mas orgulhoso.
— Costelas comprometidas, talvez fratura múltipla. Raios-x agora.
Ele respirava em estalos curtos, cada vez mais difíceis. O colapso rondava, mas ele se agarrava à consciência como quem segura as rédeas de um cavalo selvagem.
Uma enfermeira, limpando o sangue do peito dele, comentou baixinho, quase horrorizada:
— Parece que saiu de uma guerra…
Antônio abriu um meio sorriso torto, cuspindo mais vermelho no chão.
— Eu saí… e venci.
Enquanto os médicos o envolviam em tubos, curativos e exames, ele fechou os olhos. Não porque desmaiava — mas porque queria guardar, como um troféu invisível, a última imagem de Heitor Monteiro caindo de joelhos diante dele.
O salto apressado ecoava no chão frio do Hospital Samaritano. Viviane atravessava os corredores como se cada passo fosse uma eternidade. O coração dela batia tão alto que parecia acompanhar o som das sirenes que ainda ecoavam na memória. Seu único filho. Seu bebê. Antônio.
Quando o recepcionista apontou a ala de emergência, ela mal conseguiu agradecer. As imagens vinham à mente sem pedir permissão: Antônio aos dezessete anos, ensanguentado, desmaiado numa maca, após ser brutalmente atacado. O mesmo hospital, o mesmo desespero. O filho dela sempre envolto em sangue.
Ela empurrou a porta, os olhos marejados, e foi recebida por um médico de jaleco branco, máscara ainda pendurada no pescoço, expressão grave.
— A senhora é Viviane Fortenelle?
— Sim… — a voz falhou, o peito arfava. — Sou mãe do Antônio. Como ele está? O que aconteceu com meu filho?
O médico segurou a prancheta, pigarreou, tentando escolher as palavras com cuidado.
— Seu filho chegou em estado grave. Apresenta múltiplos ferimentos faciais, nariz fraturado, cortes profundos, uma reabertura em uma cicatriz antiga, lábios e dentes comprometidos. O olho direito está praticamente fechado devido ao hematoma. Ele também tem escoriações extensas no corpo, suspeita de fraturas nas costelas e uma possível lesão no ombro.
Viviane levou a mão à boca, lágrimas escorrendo rápido.
— Meu Deus… — a respiração dela falhava — como isso aconteceu? Ele… ele saiu bem da empresa hoje. Eu não… — a voz quebrou em soluços.
O médico suspirou, evitando detalhes que ele mesmo não tinha.
— Não temos clareza ainda sobre as circunstâncias. O que sabemos é que ele entrou em luta corporal. A perda de sangue foi significativa, mas conseguimos estabilizá-lo. Fizemos suturas nos cortes mais graves, imobilizamos o nariz e estamos controlando a dor.
Viviane o agarrou pelo braço, desesperada:
— Eu preciso ver meu filho! Agora!
— Senhora Fortenelle… — o médico manteve a calma, mas firme. — No momento não é possível. Seu filho está sob efeito de anestesia e sedativos. Ele chegou muito alterado, extremamente agressivo. Precisamos mantê-lo dormindo enquanto cuidamos dos ferimentos e preparamos os exames de imagem.
— Eu não me importo! — ela insistiu, a voz alta, embargada. — Eu só quero olhar pra ele, nem que seja de longe. Eu preciso ver o meu filho com vida!
O médico respirou fundo, compreendendo o peso daquele pedido.
— Eu entendo, senhora. Mas, agora, entrar pode comprometer o procedimento. A equipe está trabalhando. Peço que confie em nós.
Viviane levou a mão ao peito, cambaleando até encostar na parede fria do corredor. As lágrimas desciam incontroláveis.
— Sempre… sempre ele… sempre meu menino ensanguentado numa maca. — sussurrou, quase para si mesma. — Quando isso vai parar?
O médico a observava em silêncio, respeitoso, enquanto enfermeiras passavam apressadas pela ala.
Viviane fechou os olhos, buscando forças.
— Doutor, me prometa uma coisa…
— Qualquer coisa. — ele respondeu.
— Não deixe meu filho sozinho. Nunca deixe ele pensar que está sozinho.
O médico assentiu, firme:
— Ele não está sozinho, senhora.
Viviane respirou fundo, tentando se recompor. Mas, no íntimo, só conseguia reviver a cena de anos atrás — o mesmo sangue, o mesmo medo, o mesmo desespero.
O celular vibrou no bolso da bolsa. Viviane enxugou as lágrimas com as costas da mão antes de atender, ainda com o peito em fogo.
— Alô? — a voz saiu trêmula.
— Senhora Fortenelle? — a voz era grave, respeitosa, o tom calculado de quem lida com tragédias no topo da pirâmide. — Aqui é o relações públicas da Fort Group. Receio ter de informá-la… houve um incidente envolvendo o seu filho, Antônio.
Viviane apertou os olhos, o coração disparado.
— Eu já estou no hospital. Ele está no Samaritano. O que aconteceu com o meu filho?
Houve uma pausa curta, quase um suspiro do outro lado.
— Senhora… Antônio esteve em uma briga. Com Heitor Monteiro.
O nome caiu como um soco no estômago dela. Um gosto amargo subiu pela garganta.
— Monteiro… — murmurou, engolindo seco. — O que exatamente aconteceu?
O RP escolhia as palavras com cautela.
— Foram vistos entrando em um restaurante privado. Antônio chegou primeiro, depois Heitor. Tudo parecia normal, até que, em dado momento, ouviram-se gritos e sons de luta. Quando seguranças e funcionários intervieram, os dois estavam se agredindo violentamente. Conseguiram separá-los com dificuldade. Antônio foi trazido para o Samaritano, e Heitor levado em caráter emergencial para o Copa Star.
Viviane apertava o celular tão forte que os nós dos dedos embranqueceram.
— Quero cada detalhe. Absolutamente cada detalhe. E acione imediatamente os advogados. Quero medidas agora.
— Já estamos acionando, senhora. — o tom do RP manteve-se firme. — Mas precisamos preparar a narrativa. Recomendo que posicionemos publicamente o senhor Antônio como vítima de um atentado. Não podemos permitir que isso seja tratado como uma simples briga.
Viviane respirou fundo, o ódio queimando dentro dela.
— Exato. Quero o inquérito policial apontando tentativa de homicídio. Quero a imprensa inteira sabendo que Heitor Monteiro é um homem violento, descontrolado, um perigo para a sociedade e incapaz de ser diretor. Plantem isso. Agora.
— Entendido, senhora. Nossa equipe de mídia já está se mobilizando. Advogados estão a caminho para dar suporte imediato.
Viviane desligou, a mão tremendo, mas o olhar fixo. O coração de mãe apertava, mas a mente de Fortenelle já se armava.
Horas se arrastaram. Cada minuto parecia uma eternidade, até que uma enfermeira veio ao encontro dela, voz baixa:
— Senhora Fortenelle, pode vê-lo agora.
Viviane se levantou, as pernas trêmulas. Caminhou pelo corredor iluminado em branco até a porta do quarto. Quando entrou, o coração despencou.
Antônio estava deitado na cama do hospital, roupas limpas e lençóis brancos impecáveis. Tinham lavado o sangue, mas não havia como esconder o estrago. Seu rosto estava inchado, desfigurado. O nariz torto, curativos pela sobrancelha e pela bochecha, o olho direito completamente roxo, fechado. O lábio costurado. Tubos e monitores ao redor apitavam em um ritmo estável, mas frio.
Ele parecia dormir profundamente, sereno demais para um homem que horas antes quase foi destruído.
Viviane levou a mão à boca, engolindo um soluço. Aproximou-se devagar, sentou-se na beira da cama e tocou de leve a mão do filho.
— Meu menino… — sussurrou, a voz quebrada. — Sempre você. Sempre você ensanguentado numa cama, como se o destino não soubesse que eu não aguento mais.
Acariciou os cabelos loiros, lembrando-se dele ainda adolescente, também deitado em um hospital, também ferido.
— Eu prometo, meu filho. — a voz agora firme, quase um juramento. — Dessa vez Heitor Monteiro não vai sair impune.
Ela ajeitou o lençol sobre ele, como fazia quando ele era pequeno. Os olhos ardiam, mas no fundo a chama de ódio já queimava junto com o amor.
— Descansa, meu amor. Mamãe está aqui. E não vou deixar que ninguém mais te machuque. Nunca mais.
A claridade da lua cheia filtrava pelas cortinas do quarto do hospital quando Antônio mexeu os dedos, sentindo a mão quente e delicada da mãe apertando a sua. A respiração dele era pesada, o peito doía a cada movimento, mas a consciência voltava devagar. Os olhos inchados se abriram com esforço.
Viviane dormia em uma poltrona lado a lado com a cama.
— Mãe… — a voz saiu arranhada, quase um sussurro.
Viviane ergueu os olhos imediatamente.
— Meu filho! — apertou ainda mais a mão dele, o rosto se contorcendo de alívio e dor. — Graças a Deus, você acordou! — lágrimas começaram a escorrer, ela levou a mão ao rosto dele, acariciando devagar a pele inchada, mas Antônio se encolheu de dor.
— Ah, meu amor, desculpa! — Viviane recuou, o coração despedaçado. — Eu não aguento ver você assim… é culpa minha, devia ter te protegido mais… — o choro dela se transformava em soluços, como se carregasse todo o peso do mundo.
— Não chora, mãe… — a voz de Antônio soava fraca, mas firme. — Eu tô bem.
Viviane abanou a cabeça, as lágrimas pingando no lençol.
— Bem? Você não parece nada bem, Antônio. Olha pra você… todo machucado, todo quebrado…
Ele tentou sorrir, mas o rosto inchado o impediu. Ainda assim, um brilho estranho acendeu nos olhos verdes.
— Mas finalmente… eu ganhei do Monteiro.
Viviane o olhou horrorizada.
— Isso não tem graça! — a voz saiu aguda, desesperada. — Você podia ter morrido, Antônio! Esse homem é um monstro, sempre foi!
— Eu entendo porque ele fez isso… — murmurou, desviando o olhar para o teto, a respiração entrecortada.
Viviane franziu o cenho, confusa.
— Como assim entende? Do que você tá falando?
Antônio respirou fundo, as lágrimas represadas nos olhos. A dor física se misturava com outra, mais profunda.
— Eu chamei o Heitor pra conversar… porque ontem… a Helena me procurou. Ela me contou que está grávida.
Viviane piscou, confusa.
— E o que isso tem a ver, meu filho?
Ele engoliu seco, o nó na garganta aumentando.
— Antes dela começar na Fort Group, nós nos conhecemos. Fora do Rio. Ela parecia… estar apaixonada por mim. Nós nos envolvemos, mãe. — a confissão saiu carregada de emoção, como se pesasse toneladas. — E quando eu fui pedi-la em namoro, ela não aceitou. Eu não entendi na época… mas depois descobri.
Viviane arregalou os olhos, o coração disparando. A mente confusa.
— Descobriu o quê?
Antônio fechou os olhos, lágrimas quentes rolando pelas têmporas manchadas de hematomas.
— Que ela traiu o Heitor comigo.
Viviane levou as mãos à boca, incrédula.
— Meu Deus…
— Eu tentei me afastar… mas ela foi pra Fort Group, e os sentimentos reacenderam. Eu não consegui lutar contra.
Viviane balançava a cabeça, atônita.
— Eu nunca… nunca imaginei que a Helena fosse esse tipo de mulher.
— Ontem… — ele continuou, a voz embargada — ela me chamou e disse que estava grávida. Que não tinha certeza de quem era o pai. Pelas contas… poderia ser meu.
Viviane sentiu as pernas fraquejarem, apoiou-se na cadeira com força.
— O quê? Antônio… um filho? Isso é verdade mesmo?
Ele a olhou nos olhos, com uma convicção quase dolorosa.
— É, mãe. As datas batem. É possível que seja meu. — a voz tremia, mas carregava uma felicidade crua. — Eu fiquei tão feliz… tão feliz! Finalmente não vou mais estar sozinho. Vou ter uma família.
Viviane apertou o peito, o coração disparado.
— Meu Deus, Antônio… um filho…
— Foi por isso que eu chamei o Heitor. — a voz de Antônio agora soava quase solene. — Pra conversarmos como homens, pra fazermos o teste de paternidade. Mas ele… ele me atacou, mãe. Ele não aceitou. E eu só tive que me defender.
Viviane o olhava, o coração dividido entre horror e a fagulha de esperança de que, talvez, tudo aquilo pudesse ser verdade. Um filho. Um neto.
Ainda sentia o peito subir e descer de maneira trêmula, o pranto insistindo em voltar. O rosto de Antônio, machucado e inchado, parecia ainda o do menino que ela embalava quando as noites eram longas demais, quando Gregório gritava e ela levava o filho ao quarto dos fundos para não presenciar aquela cena.
Ela respirou fundo, tentando conter as lágrimas, mas o amor era maior que o medo.
— Antônio… — a voz dela saiu trêmula, emocionada. — Se essa criança for sua, meu filho… ela vai ser muito amada. — os olhos marejados refletiam ternura e força. — Vai ser muito bem-vinda na nossa família. — Ela acariciou o rosto dele, desviando dos curativos e das marcas. — E você… você vai ser um ótimo pai.
Antônio, que tentava manter o controle, não resistiu. As lágrimas escorreram, uma após a outra, misturando-se ao gosto salgado do sangue seco. Ele segurou a mão da mãe com força.
— Eu vou ser, mãe. — a voz dele embargou. — Eu prometo. Eu vou ser o pai que eu não tive.
Viviane sentiu as palavras atravessarem o peito como um punhal. O nome de Gregório ecoou em sua mente, um fantasma que ainda habitava cada canto do passado. O homem que destruiu o que restava de doçura no filho. O homem que os moldou à força, com humilhação e desprezo. O homem que ela aguentou mais do que deveria.
Ela balançou a cabeça devagar, as lágrimas agora caindo livremente.
— Você vai ser completamente diferente dele, meu amor. — sussurrou, a voz embargada. — Gregório deixou marcas que nenhum tempo apaga… mas você vai curar tudo isso. Essa criança vai trazer luz pra nossa vida, Antônio. Vai trazer paz.
Antônio respirou fundo, sentindo o peso daquelas palavras se transformar em algo mais leve.
Viviane enxugou o rosto e, de repente, sua expressão mudou. Tornou-se fria, decidida, como a mulher que um dia assumiu o império quando Gregório caiu em desgraça.
— Se essa criança for sua, vamos garantir que ela tenha o melhor futuro possível. — ela disse firme. — Vamos entrar com o pedido de guarda. Helena me decepcionou profundamente. Independente de amor ou não, traição é traição. Eu não quero uma mulher assim na nossa família.
Antônio franziu o cenho, mas manteve o tom calmo.
— O filho precisa da mãe, mãe. — disse com sinceridade. — A Helena… cometeu um erro, sim. Mas eu posso perdoar. Pela família. — olhou para o teto, como se visse algo além. — Eu quero que o meu filho cresça completo. Com um lar de verdade. Com amor. Com a mãe e o pai, juntos.
Viviane o encarou, surpresa e comovida. O menino ferido, cheio de raiva e sombra, agora falava com a serenidade de um homem. Um homem que queria ser melhor do que os fantasmas que o criaram.
Ela começou a rir e a chorar ao mesmo tempo, o riso escapando entre soluços.
— Nem acredito… — disse entre lágrimas, passando a mão pelos cabelos loiros do filho, afastando uma mecha do curativo na testa. — Eu vou ser avó. — o sorriso dela se abriu, genuíno, doce. — Meu Deus, eu vou ser avó.
Antônio fechou os olhos, encostando a cabeça no travesseiro, ainda chorando, mas sorrindo.
Viviane continuava a acariciar os cabelos dele, como fazia quando ele era criança.
Pela primeira vez em muito tempo, ambos sentiram algo que haviam esquecido: esperança.
Viviane saiu para o quarto VIP em anexo, enxugou as lágrimas com o dorso da mão, recompondo-se. O olhar, antes tomado pela ternura, agora se tornava frio, afiado — o olhar que tantos temiam quando ela ainda comandava os negócios da família.
Ela se levantou devagar, ajeitou a gola da camisa, e pegou o celular dentro da bolsa de couro. O reflexo do visor mostrava uma mulher de elegância intacta, mesmo em meio à dor. E por trás da dor, a fúria.
Discou o número do relações públicas da Fort Group. Ele atendeu de imediato.
— Senhora Fortenelle, como está o Antônio?
— Vivo. — respondeu seca. — O que já é mais do que poderia dizer há algumas horas.
O homem hesitou do outro lado, medindo as palavras.
— Os advogados já estão a caminho do hospital, senhora. Estamos acompanhando a repercussão…
— Quero que pare tudo. — cortou ela, firme, a voz controlada. — Tenho uma nova informação. E quero que seja divulgada imediatamente.
Houve um breve silêncio do outro lado da linha.
— Sim, senhora. Qual seria a linha?
Viviane caminhou até a janela do corredor, observando a noite refletida no vidro. A cidade pulsava luzes e ruídos, indiferente ao caos que a cercava.
Ela falou devagar, com precisão:
— O que aconteceu hoje não foi uma “briga entre empresários”. Foi uma tentativa de homicídio. Heitor Monteiro atacou o meu filho, Antônio Fortenelle, de forma brutal, quase o matou.
O assessor engoliu seco.
— Senhora, isso é grave…
— Grave é o que ele fez. — rebateu, sem alterar o tom. — Quero que os jornais publiquem que o motivo do ataque foi ciúmes. Que Heitor Monteiro descobriu que a namorada dele está grávida, mas o filho não é dele. — Ela fez uma pausa, o olhar duro. — O pai é o meu filho.
O homem hesitou.
— A senhora tem certeza que devemos…
— Absoluta. — cortou Viviane. — Quero isso nas manchetes de amanhã. “Herdeiro da Monteiro Inc. agride rival após descobrir que o filho da namorada é de outro homem”. Quero fotos, quero narrativa, quero emoção... — a voz dela era calma demais, o que tornava tudo ainda mais assustador. — Que o país inteiro saiba quem é Heitor Monteiro: um homem violento, incapaz de lidar com a verdade.
O assessor respirou fundo, já digitando freneticamente.
— E quanto ao seu filho, senhora? Alguma nota sobre ele?
Viviane olhou de relance para o quarto, onde Antônio dormia com o rosto enfaixado. Por um momento, o coração apertou. Mas o instinto logo venceu a emoção.
— Digam que o senhor Fortenelle vai se recuperar. E que ele pretende assumir o filho que está a caminho, com responsabilidade e amor. Quero essa frase exatamente assim. “Com responsabilidade e amor.”
— Sim, senhora.
Viviane desligou sem mais uma palavra.
Guardou o celular na bolsa, ajeitou o cabelo e inspirou fundo. Do outro lado da porta, o som distante dos aparelhos monitorando o filho.
Por um instante, ela fechou os olhos e murmurou, num sussurro que misturava dor e determinação:
— Ninguém mais vai machucar o meu menino.
E saiu do corredor com passos firmes — o início de uma guerra fria que em poucas horas, incendiaria o país inteiro.
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