O CEO que Eu Paguei

161 A História se Repete


Heitor estava demorando.

Ele nunca se atrasava. Nunca.

Principalmente sem avisar.

Helena já havia mandado mensagens, ligado, deixado áudio… nada. Nenhuma resposta. Nenhuma visualização. E cada minuto que passava parecia um aviso silencioso de que algo estava errado.

O celular vibrava em suas mãos, mas era só uma notificação aleatória. Nenhum “chegando”, nenhum “já estou subindo”, nenhum “me espera, amor”.

A última coisa que ele disse era que Antônio Fortenelle o havia chamado para conversar.

Na hora, ela tinha sorrido, aliviada. Achou que, finalmente, os dois iriam resolver as diferenças. Que poderiam encerrar esse capítulo feio e deixar o passado no lugar dele.

Mas agora… agora aquele silêncio parecia um presságio.

Helena olhou para a mesa posta.

A lasanha ainda soltava um leve aroma de queijo gratinado, já estava fria. Ele havia pedido rindo, encostado na bancada antes de sair para trabalhar:

“Sabe o que o bebê tá com vontade de comer? Uma lasanha.”

Ela riu na hora e ele não aguentou e riu junto. “Tá legal, quem tá com vontade é o pai do bebê.”

“Faz do seu jeito, amor, com o queijo gratinado e o arroz de açafrão.”

Agora, o jantar esperava ainda intocado.

Com um nó na garganta, Helena pegou a travessa, cortou a lasanha com cuidado e colocou os pedaços em uma vasilha plástica. Separou o arroz em outro recipiente, como se ele ainda fosse aparecer para implicar com ela.

— Você ia reclamar se visse isso tudo misturado. — murmurou, tentando sorrir.

Heitor tinha mania de organização no prato, o tipo que deixava o arroz de um lado, o molho no outro e a salada se pudesse até em outro prato. Dizia que “comida boa se respeita até na forma de servir”.

Helena lembrava das vezes que ele ajeitava o prato dela também, só para depois ela misturar a comida toda e comer como um mexido. Ele sempre perguntava se ela fazia isso de propósito e ela sempre mostrava a língua para ela.

Acariciou a barriga, o olhar perdido na mesa.

— Será que você vai ser igual ao papai, hein? — sussurrou, a voz embargando. — Ou vai ser bagunceiro como a mamãe, que mistura tudo?

O silêncio respondeu, e ela sorriu com ternura, a mão ainda sobre o ventre.

— Onde será que o papai tá agora? — disse baixinho, num tom entre esperança e saudade.

A mão ficou ali por alguns segundos, até ela se dar conta do quanto o apartamento estava silencioso.

Foi até o espelho do corredor.

Tinha se arrumado para ele, o vestido curto, a lingerie nova, os cachos definidos com uma paciência que ela nunca teve antes e o perfume que ele mais gostava. Cada detalhe era um convite, uma lembrança viva do que eles eram juntos. Queria surpreendê-lo, ver o sorriso safado dele quando a visse assim… aquele olhar que sempre a despia antes mesmo do toque.

Suspirou fundo, sentindo o perfume se misturar à amargura da espera.

Devagar, começou a se despir do plano que tinha feito para os dois.

Tirou o vestido, pendurou no cabide, guardou a lingerie nova na gaveta. Vestiu uma calça jeans, uma blusa leve e tênis.

— Nada de surpresas hoje. — murmurou para si mesma, tentando dar firmeza à voz. — Fica pra outro dia.

Mel, a cachorrinha, abanava o rabo ao lado dela. Helena se abaixou, colocou a coleira e passou a mão no focinho da cadelinha.

— Vamos dar uma volta, princesa. — disse com um sorriso trêmulo. — Vamos esperar o papai lá embaixo.

Antes de sair, o olhar dela parou no buquê de rosas vermelhas e rosas sobre a mesa de entrada, as mesmas que Heitor enviou durante a tarde, com um bilhete bobo: “Pra você saber que eu penso em você até quando não dá tempo de falar.”

Ela respirou fundo. Talvez ele estivesse aprontando outra dessas surpresas. Talvez fosse isso.

Mas por que ele não avisaria?

A irritação veio junto com o medo, uma mistura que embrulhava o estômago.

Desceu com Mel, o coração batendo rápido, olhando para os dois lados da avenida como se ele fosse aparecer a qualquer instante.

Helena tentou ligar outra vez.

Chamava.

Chamava.

E chamava.

Sem resposta.

O peito dela começou a apertar.

Algo estava errado, algo estava profundamente errado.

Helena ficou ali parada, na calçada, com Mel deitada ao lado e o celular entre os dedos trêmulos.

As luzes dos carros passavam diante dela, borradas. O som da coleira de Mel tilintava no ritmo dos seus pensamentos.

“Ele deve estar bem… deve estar”, repetia mentalmente, mas a voz interior soava frágil, como se não acreditasse nem um pouco nisso.

Abriu novamente o celular.

As mensagens que mandara para Celina e Renato continuavam sem resposta. Duas confirmações de envio, nenhum sinal de leitura.

Era estranho. Eles sempre respondiam rápido. Mesmo quando estavam ocupados, mandavam pelo menos um “depois te ligo, querida”.

Um arrepio percorreu suas costas.

Será que estavam todos juntos? Talvez Heitor tivesse passado lá, e eles estivessem conversando.

Mas então por que o silêncio?

Ligou.

Uma vez, duas, três.

Nada.

O nó em seu estômago apertou.

Pegou o contato seguinte — Jonas.

O toque durou alguns segundos até ouvir a voz animada e debochada, de sempre:

— Que ligação mais peculiar.

Ela tentou sorrir.

— Oi, Jonas. Tudo bem com você?

— Não muito! — ele bufou. — Tô puto. Você tá roubando meu amigo! O Heitor sumiu. Não me responde desde o final da tarde. Hoje tem jogo, e eu ia chamar esse infeliz para ia vir aqui junto de você. Pode passar o telefone pra ele, sua ladra?

Helena sentiu o coração apertar, o ar ficando mais pesado.

— Jonas… o Heitor também não me atende. Tô procurando ele. Tô preocupada, ele não é disso.

Houve uma pausa do outro lado.

— Ele não tá com você? — o tom de brincadeira sumiu. — Porra… onde é que ele estaria então?

Helena mordeu o lábio.

— Eu não sei… será que aconteceu alguma coisa?

— Que nada! — ele respondeu rápido, tentando soar leve. — O Heitor é um touro, cê sabe. Deve tá preso no trânsito, ou o celular descarregou.

Ela tentou se convencer disso.

— Talvez você esteja certo…

— É claro que tô, eu sempre tô certo! — Jonas respondeu, arrancando um sorriso dela.

— Eu também não consegui falar com a mãe e o pai dele.

— Isso já é estranho — murmurou ele, sério agora. — Mas devem estar juntos.

— Você pode me ajudar a procurar? — ela perguntou, a voz quase implorando.

— Vou ligar pra uns amigos dele e ver o que descubro. Mas ó… dependendo do que ele estiver fazendo, não entrego. Código de homem, sabe?

Helena soltou uma risada seca.

— Jonas, sem estresse. Só me avisa se souber de algo, por favor.

— Ok, ok. Essa é a vida do homem moderno: ser oprimido pelas mulheres.

Ela revirou os olhos, mas sorriu, aquele tipo de sorriso que nasce só pra não desabar.

— Tchau, Jonas.

— Já te ligo, Helena.

Ela desligou.

Ficou ali um instante olhando pro celular apagado, tentando respirar fundo.

Só Jonas pra conseguir arrancar um riso dela no meio de um aperto desses.

Mas o coração continuava acelerado.

Era um alívio falso.

Ligou para o Isaac.

— Oi, Helena! — a voz dele era sempre leve, boa de ouvir. — Tava pensando em você agora, acredita? Ia chamar você e o Heitor pra verem Invocação do Mal 4 comigo!

Ela respirou fundo, segurando a emoção.

— Seria ótimo, Isaac… mas eu tô procurando o Heitor. Ele não me dá notícias desde mais cedo. Tentei de tudo.

— Nossa, que estranho — disse ele, a voz ficando mais séria. — Será que ele não tá na casa da dona Celina?

— Talvez… liguei pra ela, mas ela também não atendeu. Nem o pai dele.

— Ah, mas calma, depois de amanhã é o aniversário dele. Aposto que tão planejando a festa. Quarenta anos é um marco, né?

Helena deixou escapar um pequeno riso, mas os olhos estavam marejados.

— É… talvez você tenha razão. Podem estar vendo algo sobre o aniversário. Acho que vou lá pra conferir.

— Boa ideia — Isaac respondeu animado. — Se achar ele, me avisa. Vou ligar pra uns contatos também. Quem achar primeiro avisa o outro, combinado?

— Combinado — ela respondeu com voz mansa. — Até mais tarde.

— Até, Helena!

Quando desligou, Helena respirou fundo.

Isaac tinha razão. Devia ser isso.

Eles estavam juntos — Celina, Renato e Heitor — preparando alguma coisa.

Mas o pensamento que deveria acalmá-la, em vez disso, a deixou inquieta.

Porque, pela primeira vez, ela percebeu algo simples, mas perturbador:

Ela não sabia nem o endereço da casa dos Monteiro.

Estava completamente sozinha, tentando adivinhar onde o homem que amava estava, e enquanto o coração dela gritava que algo terrível tinha acontecido.

Helena desligou mais uma tentativa de ligação, Heitor, depois Celina, depois Renato.

Nada.

O silêncio do outro lado do telefone parecia zombar dela, como se o próprio ar soubesse de algo que ela ainda não sabia.

Se pedisse o endereço para Jonas, ele ia debochar até o fim do mês, “Que namorada é essa que nem sabe onde a família do cara mora?”.

E o Isaac… não, soaria estranho também.

Ela suspirou, derrotada, e olhou para o celular outra vez.

O motorista.

Claro. Ele saberia.

Discou o número.

— Boa noite, senhorita. — a voz educada dele veio do outro lado, carregada de gentileza e um leve sotaque carioca.

— Boa noite! Desculpa te incomodar a essa hora… — a voz dela saiu um pouco trêmula.

— De forma alguma. No que posso ajudar?

— Você sabe o endereço da casa dos Monteiros? — perguntou, hesitante.

— Sei sim. A senhorita precisa?

— Preciso… é que estou procurando o Heitor. Ele não me atende, e nem os pais dele. Tô ficando preocupada. Pensei em ir lá ver se estão todos bem.

Do outro lado, o homem fez uma breve pausa, o som de fundo do carro indicando que ele ainda estava no volante.

— Que estranho, senhorita… — disse num tom que revelava a mesma inquietação.

— Pode me mandar o endereço? Vou chamar um Uber.

— De forma alguma! — interrompeu com firmeza. — Eu vou até aí e levo a senhorita pessoalmente.

— Mas… já acabou seu expediente.

— Pra ser sincero, tô precisando de um extra. E o senhor Monteiro costuma ser bem generoso com os pagamentos.

Helena sorriu, aliviada, seria melhor ir com ele mesmo.

— Isso é bom então. Vou ficar te esperando, certo?

— Certo! Já já tô aí, senhorita.

Desligou a chamada e soltou o ar, prendendo o celular no peito por um segundo.

Olhou para Mel, que abanava o rabinho, sem entender o que estava acontecendo.

— Fica aqui, tá? Eu já volto. Prometo que trago o papai comigo. — sussurrou, acariciando o focinho da cachorrinha antes de subir para deixá-la em casa.

De volta à portaria, ficou andando de um lado para o outro, as luzes da avenida refletindo no chão molhado.

O motorista demorou menos de vinte minutos.

Quando ela viu os faróis se aproximando, sentiu um alívio inexplicável.

Ele desceu, abriu a porta do carro para ela com gentileza:

— Pronta, senhorita?

Ela assentiu.

— Sim, por favor. Vamos logo.

Assim que o carro arrancou, Helena olhou pela janela, as luzes do Leblon se misturando às da Lagoa, o coração batendo acelerado.

Do lado de fora, a cidade parecia igual a qualquer outra noite — bares cheios, casais rindo, buzinas distantes.

Mas dentro dela, tudo parecia fora do lugar.

O carro subia uma ladeira larga, margeada por muros cobertos de heras e portões ornamentados — a elite do Rio vivia ali. As mansões tinham fachadas imponentes, jardins desenhados como obras de arte, e seguranças com escutas no ouvido em cada esquina. Helena olhava tudo pela janela com a respiração presa.

Se ela achou a casa dos Medeiros luxuosa, a casa dos Monteiro competia no mesmo nível.

Era o tipo de bairro que parecia um mundo à parte — silencioso, arborizado, cercado por colunas brancas e caminhos de pedra iluminados por luzes douradas.

Cada mansão tinha seu próprio brasão na entrada.

E quando o motorista virou à direita, Helena leu a placa discreta de bronze na pedra do portão:

“Residência Monteiro.”

O coração dela deu um salto.

As mãos estavam frias.

Ela engoliu em seco.

Era ali.

O carro desacelerou diante da portaria principal, havia um posto de vidro, com alguns guardas uniformizados e um portão eletrônico de ferro ornamentado.

Um dos seguranças fez sinal para parar, aproximando-se com postura rígida.

O motorista abaixou o vidro.

— Boa noite. Vim trazer a senhorita Helena.

O guarda olhou para o carro, depois para Helena, e então falou no rádio preso ao ombro:

— Controle, confirma pra mim: Helena.

Um chiado respondeu, seguido de uma voz masculina:

— Negativo. Nenhuma “Helena” registrada como visitante.

Helena sentiu os músculos do corpo se enrijecerem.

— Como assim? — perguntou baixo.

O motorista tentou contornar:

— Ela é a namorada do senhor Heitor Monteiro.

O guarda balançou a cabeça.

— Lamento, senhor, mas ela não tem autorização para entrar.

Helena se inclinou para frente, a voz falhando:

— Com licença… a senhora Celina ou o senhor Renato estão? Eles me conhecem. Eu tentei ligar, mas ninguém atendeu.

Fez uma pausa, sentindo o coração bater no pescoço.

— O Heitor está aqui?

O segurança manteve o rosto impassível.

— Lamento, senhora. Não posso dar informações sobre os moradores. Sem o nome liberado, não há passagem.

— Mas eu sou a namorada dele! — insistiu, o tom subindo.

O guarda cruzou os braços.

— Não quero ofendê-la, senhora. Mas… é comum aparecerem pessoas com a mesma narrativa. Já ouvi até um rapaz dizendo ser amante da senhora Monteiro.

Helena ficou paralisada.

Sentiu as bochechas queimarem.

— Eu tenho fotos com ele! — disse, abrindo a galeria do celular com as mãos trêmulas. — Eu moro no apartamento dele e ele me deu esse anel! — ergueu o dedo com a aliança fina, os olhos marejados.

— Lamento, senhora. Sem liberação, não posso permitir.

O motorista interveio, indignado:

— Sou motorista do senhor Heitor há anos, vocês me conhecem! Essa é a namorada dele.

— Entendo, senhor, mas ordens são ordens. Preciso pedir que se retirem. Ou terei de acionar segurança interna.

O motorista suspirou, tenso.

Helena mordeu o lábio inferior, sentindo as lágrimas virem com força.

A sensação era devastadora, como se, de repente, não pertencesse a lugar nenhum.

— Vamos voltar… por favor… — sussurrou, com a voz embargada, tentando esconder o rosto.

O carro fez a volta devagar.

Helena virou o rosto para a janela, as lágrimas rolando sem controle.

As luzes douradas dos portões, antes tão belas, agora pareciam zombar dela.

“Como eu não estava liberada?”

Heitor sempre foi meticuloso com a liberação dela frente aos seguranças e a sogra a chamou tantas vezes para ir lá, será que esqueceu de a liberar?

Helena se sentia como se fosse uma qualquer.

— Lamento, senhorita… — disse o motorista, a voz suave.

Ela forçou um sorriso.

— Tá tudo bem… eu nunca vim aqui antes… deve ser por isso que não estou liberada.

Olhou para o céu pela janela, tentando segurar o choro.

A lua cheia brilhava imensa sobre as copas das árvores, tão bonita…

Ela fechou os olhos por um instante e pensou em Heitor, o sorriso dele, as mãos firmes, o jeito que dizia o nome dela devagar.

— Onde você tá, amor? — murmurou, quase inaudível.

Momentos desesperados pedem medidas desesperadas.

Helena pegou o celular, respirou fundo e abriu a lista de contatos. O polegar hesitou sobre o nome antes de tocar na tela.

Antônio Fortenelle — bloqueado.

Deslizou para desbloquear.

O coração batia tão alto que parecia ecoar no carro.


Helena:

Boa noite. Tudo bem?


Helena:

Desculpa te incomodar… mas o Heitor está com você ainda?


Ficou olhando para a tela, esperando a visualização que não vinha. Nada.

— O que diabos está acontecendo com todo mundo? — murmurou, apoiando a testa no vidro da janela.

Tentou ligar. Uma, duas vezes para Antônio.

Caixa postal.

Suspirou fundo, o ar preso no peito.

Digitou outra mensagem, mais contida, tentando soar racional — mas as mãos tremiam.


Helena:

Como foi o encontro de vocês?


O carro desacelerou diante da calçada do prédio. Helena mal piscava — a tensão a deixava imóvel, o estômago revirando como se algo muito errado estivesse acontecendo.

Assim que o carro se aproximou, percebeu os veículos pretos alinhados na frente do edifício. Não eram comuns. Nenhum deles tinha placa de aplicativo ou logotipo de empresa. Vidros escuros, motores ainda ligados, e homens de terno preto espalhados pela calçada.

O motorista franziu o cenho.

— O que é aquilo? — perguntou ela, a voz falhando.

— Não sei, senhorita. — respondeu o motorista, o tom tenso. — Mas parece segurança oficial.

Helena olhou pela janela, dois homens estavam de pé próximos à porta do prédio, fones de ouvido discretos, postura firme, mãos cruzadas à frente. O ar tinha um peso diferente. Um silêncio disciplinado, o tipo de silêncio que só acompanha pessoas poderosas.

O motorista diminuiu a velocidade e abriu um pouco o vidro.

— Com licença, está tudo bem por aqui? Estou com uma moradora.

Um dos homens de terno virou-se. Tinha porte militar, o queixo marcado e o olhar de quem avalia o ambiente em segundos. Ele se aproximou do carro com passos firmes, inclinou-se e fitou o interior, o olhar dele pousou em Helena.

Ele então levou a mão discretamente até o comunicador no colarinho e falou baixo, em tom profissional:

— Ela chegou.

Helena gelou.

— Como assim “ela chegou”? — perguntou, confusa.

O homem assentiu com seriedade.

— Senhorita Helena Ribeiro Campos?

— Sou eu…

— Por gentileza, me acompanhe. O governador a espera.

Ela piscou, atônita.

— O governador? — repetiu, achando que ouvira errado.

O homem fez um leve gesto com a mão, chamando outro segurança para abrir a porta do carro. Tudo era rápido, preciso, coreografado — o tipo de sincronia que se vê em operações oficiais.

O motorista arregalou os olhos, olhando pelo retrovisor, surpreso.

— O governador, senhorita. É melhor ir com eles.

Helena engoliu em seco. O governador.

O que o governador poderia querer com ela? Foi quando lembrou que ele era o pai de Jonas e Isaac.

Será que os meninos tinham mesmo pedido ajuda para encontrarem Heitor?

Seria isso? Só podia ser isso?

— Mas… o governador? Por quê? — perguntou, ainda sem entender.

O segurança, educado, mas irredutível:

— A senhora terá as explicações dentro. Ele pediu que a acompanhássemos até ele pessoalmente.

O coração dela disparava.

— Meu Deus… o que está acontecendo? — murmurou, mais para si mesma do que para os outros.

Um dos seguranças abriu a porta com cuidado.

— Por favor, senhorita. É importante.

Helena olhou para o motorista, incerta.

Ele apenas assentiu, num gesto silencioso que dizia vá.

Respirou fundo, sentindo o ar frio entrar e o medo apertar o peito.

Apoiou a mão na porta e saiu do carro.

O segurança se posicionou ao lado dela, como se a escoltasse.

E enquanto caminhavam em direção à entrada, ela percebeu que o coração estava batendo rápido demais.

O saguão inteiro tinha um ar solene e pesado, quase como se não fosse prédio residencial que ela estava morando, mas uma ala restrita de um palácio. Os homens de terno preto — silenciosos, colossais, braços cruzados — ficavam estrategicamente distribuídos pelos cantos, atentos a cada movimento. Helena engoliu seco. Pela primeira vez, pensou que talvez Heitor estivesse mesmo certo: ela precisava andar com um segurança.

Quando atravessou o hall, viu Paulo Medeiros pela primeira vez. Ele estava de pé, próximo a uma mesa de centro, e ao mesmo tempo parecia imponente e vulnerável. Os cabelos castanhos muito bem penteados, as pálpebras caídas conferiam um ar de homem que carrega muito nas costas. Lábios finos, expressão séria e a perna mexendo com impaciência.

Mas, quando a viu, tudo se transformou. Um sorriso cálido, paternal, suavizou o rosto do governador. Era um sorriso tão terno, tão cheio de calor, que fazia parecer que o mundo inteiro parava para ouvir o que ele ia dizer. Helena sempre ouvira dizer que políticos tinham um charme próprio — agora entendia por quê.

— Helena! — disse ele, num tom grave, mas ao mesmo tempo afetuoso.

Ele foi em direção a ela com passos firmes. Antes que percebesse, Paulo a envolveu num abraço. Não um cumprimento qualquer, mas um abraço inteiro, caloroso. Uma das mãos na base das costas dela, a outra apoiada de leve na nuca — um gesto estranho, íntimo e protetor.

Helena retribuiu o abraço com hesitação, mas, conforme os segundos passavam, sentiu-se desconfortável. Era um abraço… longo demais.

— Um prazer te conhecer, governador. — disse ela, tentando se desvencilhar com delicadeza.

Paulo se afastou um pouco, os olhos dele tinham um brilho melancólico, quase um pesar contido.

— Pode me chamar de Paulo. — respondeu, com a voz baixa e grave.

Ele pousou uma mão larga e quente no ombro dela, o olhar preocupado:

— Minha querida, como você está?

Helena ergueu a sobrancelha. Não sentia segundas intenções no toque dele, era como se fossem próximos, mas… intenso demais. Ainda assim, a incomodava.

— Eu estou bem… só estou procurando o Heitor.

O semblante dele mudou como uma nuvem fechando o sol. Ficou sério, quase sombrio.

— Lelê. — disse, testando o apelido com cuidado. — Posso te chamar assim?

Helena piscou, surpresa.

— Sim…

Ele deu um meio sorriso, discreto:

— Vamos para o apartamento, Lelê. Temos que conversar.

— Eu entendo que é o governador e padrinho do Heitor, mas… eu não me sinto confortável em um homem entrar no apartamento sem o Heitor estar em casa. — disse Helena, o tom educado, mas firme.

Paulo parou por um instante, e depois sorriu de um jeito satisfeito.

— Você está certinha. — disse, e havia orgulho na voz dele. — Não deve deixar homens entrarem no seu lar sem o seu companheiro presente. Estou orgulhoso dessa sua postura.

O jeito como ele falava era diferente: pausado, claro, reconfortante, as palavras tinham peso, envolviam como um cobertor. Helena sentiu o rosto aquecer, uma mistura de constrangimento e alívio.

— Mas, Lelê… poderia só dessa vez abrir uma exceção para mim? — a voz dele desceu um tom, suave, quase implorando. — Aqui no saguão não é o local para conversarmos. Sei que acabamos de nos conhecer, mas pode confiar em mim. Eu, mais do que qualquer pessoa desse planeta, quero só o seu bem.

Helena franziu a testa.

— Por quê? — perguntou, estranhando as palavras dele.

Paulo suspirou fundo.

— Meus filhos sempre falam muito bem de você. E a minha esposa também. Acabei me afeiçoando… como se fosse minha filha. — o sorriso dele era genuíno, quase dolorido.

Helena abaixou o olhar.

— Isso é estranho mesmo… Paulo…

Ele assentiu, com gentileza.

— Não quero que se sinta desconfortável. Mas, realmente precisamos conversar. É sobre o Heitor.

Helena ergueu o rosto, assustada.

— Aconteceu algo com o Heitor?

Paulo inclinou a cabeça, os olhos suavizando:

— Fique calma. Podemos subir?

Ela fez que sim, mesmo com a garganta apertada, os olhos já marejando.

Paulo ofereceu o braço, um gesto de cavalheiro.

E, com passos lentos, mas firmes, foram em direção ao elevador blindado.

O barulho dos passos deles ecoavam como um tambor no peito dela.

O coração batia rápido, muito rápido.

Paulo entrou atrás dela, o tom do ambiente mudou completamente quando o elevador se fechou.

O som metálico das portas se fundiu ao zumbido distante da cidade lá embaixo. Aquele silêncio era pesado, parecia conter o mundo inteiro.

Helena estava com o coração disparado, o peito subindo e descendo rápido demais. Duas seguranças caminhavam logo atrás, eram altas, sérias e discretas.

Paulo notou o nervosismo dela e disse, com uma voz baixa e firme que parecia conter todas as tempestades:

— Eu trouxe essas duas para nos acompanhar. Imaginei que se sentiria mais confortável assim.

Helena assentiu, tensa. As mulheres eram intimidadoras, mas estranhamente reconfortantes, não eram tão assustadoras quanto os homens.

Quando entraram no apartamento, Mel veio correndo — e, para surpresa dela, foi direto até Paulo.

O governador se abaixou, o terno se curvando, e começou a fazer carinho na cabeça da cachorrinha com naturalidade.

— Que moça linda você está, hein? Cresceu muito! — murmurou, com um sorriso breve.

Helena observava, desconcertada.

Ele parecia… deslocado demais para alguém que estava ali em nome de uma tragédia.

Ela o convidou a se sentar. Paulo agradeceu, ajeitou o paletó e cruzou as pernas.

Helena sentou-se no sofá da frente, o corpo rígido, o coração batendo forte.

— Então, Paulo… o que tem pra me falar?

Ele demorou um segundo antes de responder.

O olhar dele era melancólico, mas havia ternura demais ali, uma tristeza que parecia vir de algo mais profundo.

— Primeiramente, quero que saiba que está tudo bem. — começou, escolhendo as palavras com cuidado, como quem pisa sobre vidro. — Heitor está no hospital.

O mundo de Helena parou.

O corpo dela reagiu antes da mente: os olhos se arregalaram, o ar faltou.

Ela se levantou bruscamente, as mãos no peito, começando a hiperventilar.

— O quê? O quê?! — a voz dela falhou, o tom alto e trêmulo. — Como assim no hospital?!

Paulo também se levantou — rápido, mas contido — e a segurou pelos ombros.

— Helena. — disse o nome dela como quem ancora um barco em meio a uma tempestade — Fique calma, filha. Ele está bem.

Ele a puxou com delicadeza, mas firmeza, para um abraço.

Um abraço forte, protetor, onde Helena desabou completamente.

As lágrimas vieram com força.

O corpo dela tremia, o choro saía em soluços descontrolados.

— Filha, ele está bem. — repetia, com a voz grave e pausada. — Passou por uma cirurgia, está em observação. Fora de perigo, ouviu? Fora de perigo.

Helena olhou para ele, o rosto molhado, as mãos tremendo.

As palavras dela eram só sons entrecortados.

— E-eu... não entendo... o que... o que aconteceu com ele? — conseguiu dizer, a voz fraca e sufocada.

Paulo suspirou, dolorosamente contido.

— Ele parece ter entrado em luta corporal com outro homem. Ficou bem machucado e precisou de transfusão de sangue.

Helena sentiu o chão desaparecer.

O peito apertou, o ar não vinha, e o choro se transformou num gemido baixo, de desespero.

Ela se abraçou, andando sem rumo pela sala, até que murmurou, quase sem voz:

— Ele perdeu sangue? Então ele não só se machucou! O que houve? Quem fez isso com ele?

Paulo hesitou um instante, e então disse:

— Heitor entrou em briga corporal com Antônio Fortenelle.

O nome caiu como um tiro.

Helena parou de chorar.

O corpo dela ficou imóvel, os olhos fixos em nada.

A culpa veio como um soco no estômago, cortando-lhe o ar.

— ...foi minha culpa. — ela murmurou. — Foi minha culpa! — a voz subiu, quebrada, histérica. — Eu pedi pra ele ir! Eu falei pra ele encontrar o Antônio! Eu fiz isso com o pai do meu filho!

As pernas dela cederam.

Paulo a segurou antes que caísse, amparando-a com força, o rosto sério.

— Não, Helena. Não. Não foi sua culpa. — disse firme, segurando o rosto dela com as mãos. — Não se sabe o que houve, mas eu tenho certeza que Heitor só se defendeu. Já acionamos os advogados. A família Monteiro está cuidando de tudo.

Helena balançava a cabeça, chorando sem parar, o corpo inteiro trêmulo.

— Fui eu… eu causei isso…

Então veio a dor.

Uma cólica súbita, aguda, cortante.

Ela levou a mão à barriga, arqueando o corpo, um som de dor escapando dos lábios.

— Helena?! — Paulo a segurou, alarmado. — O que houve?!

Ela não conseguiu responder.

O rosto dela se contraiu, o suor brotando na testa.

— Rápido! Tragam água! — ordenou Paulo às seguranças, com a autoridade de quem está acostumado a ser obedecido.

Ele a pegou nos braços, literalmente, e a deitou no sofá.

Sentou-se ao lado dela e segurou a mão dela firme, os olhos fixos nos dela.

— Olha pra mim, Helena. Respira comigo. Vamos lá. Inspira... isso. Agora solta devagar. Isso. De novo.

Ele começou a respirar junto, rápido no início, depois desacelerando, guiando o ritmo dela até que o corpo dela começou a ceder, o peito diminuindo o compasso.

A segurança trouxe a água, e Paulo ajudou Helena a se sentar, a mão dele sempre firme em suas costas.

Ela tomou um gole, tremendo.

— Eu quase matei o Heitor… — sussurrou, com a voz quebrada. — Por que eu fiz isso? Eu quase perdi o homem da minha vida… o meu amor...

As lágrimas voltaram em ondas, quentes, incontroláveis.

O peito arfava como se o ar tivesse peso, como se respirar fosse um castigo.

As lembranças começaram a se misturar — as visitas ao cemitério, o reflexo da pequena Helena na poça d’água e a avó apontando para esse reflexo “esse é o rosto da mulher que matou seu pai”.

Helena demorou a perceber que aquela que ela via era ela mesma e não a sua mãe.

A mulher que ela aprendeu a odiar.

A mulher por quem o pai morreu.

Helena apertou as mãos contra o rosto, os dedos tremendo.

Agora, o eco daquela tragédia voltava — cruel, inevitável.

Assim como a mãe destruiu o homem que amava, ela também tinha destruído o dela.

Assim como o pai dela morreu por amor, o pai do seu filho podia morrer também.

A história se repetia.

Com precisão.

Com crueldade.

Tudo girava. Tudo doía.

O arrependimento tinha gosto de ferro, de sangue, de desespero.

Helena sentia o corpo inteiro pulsar entre culpa e medo.

E o pensamento, por mais que tentasse calar, insistia em sussurrar:

“Eu sou igual a ela.”

— Filha... calma. — disse Paulo, num tom sereno e poderoso. — Você precisa ser forte. Forte por você e pelo bebê que está carregando.

— Mas eu… — ela soluçava.

— Mas você é uma mulher incrível. — interrompeu ele, a voz cheia de convicção. — Uma namorada amorosa, uma parceira comprometida. Você ama o Heitor, ama o seu bebê. Você nunca machucaria a sua família. Você é a Helena.

Ele segurou o rosto dela entre as mãos, com cuidado, como quem segura algo precioso.

O olhar dele era tão intenso que ela mal conseguia respirar.

— Não é verdade?

Ela o fitou, tentando se agarrar àquelas palavras, ao calor da voz dele.

As lágrimas caíam mais devagar agora.

Ela assentiu.

Paulo sorriu, gentil.

— Então diga. Você, Helena, ama sua família, não ama?

— Sim... eu amo. — respondeu, a voz fraca e trêmula.

— Ótimo. E você não tem culpa do que aconteceu. Certo?

Ela hesitou, e ele a envolveu com um “shhh” suave, paternal, acariciando seus cabelos.

— Eu... não tenho culpa. — repetiu, chorando.

— Muito bem, querida. Você foi ótima.

Paulo a abraçou de novo.

O calor do abraço dele era quase sufocante — firme e protetor — mas ao mesmo tempo… familiar.

Havia algo ali que ela não sabia nomear: um tipo de segurança antiga, que não vinha das palavras . Aquele abraço trouxe lembranças que ela nem sabia que guardava.

Por um instante, Helena pensou no avô.

Naquele abraço havia o mesmo tipo de amor silencioso, que não exige nada em troca, que apenas está.

Naquele instante suspenso no tempo, as defesas dela cederam.

Pela primeira vez em muitos anos, Helena chorou de verdade.

Chorou como uma filha — não como mulher, nem como trabalhadora e nem como adulta.

Chorou porque ela se lembrou da pequena Helena chorando e recebendo o mesmo abraço do avô.

Helena respirava com dificuldade, tentando conter o tremor nas mãos. Os olhos ainda marejados denunciavam o cansaço do choro e da ansiedade.

— Eu quero ver o Heitor. — disse com firmeza, a voz ainda trêmula. — Pode me levar até ele? Por favor.

Paulo a observou em silêncio por um instante.

Aquela súplica,aquele olhar cheio de amor e desespero, fez o peito dele apertar.

Ele respirou fundo antes de responder, escolhendo as palavras com cuidado, num tom paternal e sereno:

— Helena... ele ainda está em observação. — falou baixo, quase num sussurro. — Se for até lá, não vai conseguir vê-lo. Só amanhã. Além disso, você está grávida. O ambiente hospitalar é perigoso pra você nesse período. É cheio de riscos.

Helena balançou a cabeça em negação, os olhos marejados.

— Eu quero estar lá quando ele acordar. — insistiu, a voz falhando no fim.

Paulo suspirou e apoiou as mãos nos joelhos, inclinando-se um pouco pra frente.

— O que acha de ir comigo pra casa? — perguntou com doçura. — Minha esposa está lá, e ela pode cuidar de você hoje. Amanhã, eu mesmo te levo até o hospital. O que acha?

Helena ergueu o rosto, e o olhar determinado, aquele brilho teimoso e corajoso, o fez sorrir de leve.

— Eu quero estar com o Heitor. — disse com convicção. — Se ele está no hospital, eu tenho que estar lá com ele.

Paulo a olhou por alguns segundos, em silêncio.

Aquela expressão... aquele olhar decidido...

Era o mesmo olhar que ele via na esposa e nos filhos.

Um sorriso cansado, mas sincero, surgiu em seus lábios.

— Tudo bem. — cedeu. — Se arrume, pegue um chinelo e uma muda de roupa. Eu te levo.

Helena abriu um sorriso aliviado, agradecendo num sussurro:

— Obrigada, Paulo. De verdade.

Ela se levantou e desapareceu no corredor, os passos apressados ecoando.

Paulo ficou ali, imóvel por alguns segundos, observando o apartamento silencioso.

Pegou o copo d’água meio cheio sobre a mesa e o esvaziou de um gole só, o olhar perdido em algum ponto distante.

As palavras de Renato Monteiro ainda ecoavam na mente. O telefonema tinha sido curto… mas devastador.

Heitor estava entre a vida e a morte. Havia acabado de ter a segunda parada cardíaca durante a cirurgia.

Paulo sentiu o sofrimento estampado na voz do amigo — um timbre rouco, trincado por algo que nem um dos homens mais poderosos do Rio conseguia disfarçar.

Renato não era só o império, o sobrenome, ou o CEO temido.

Era o irmão que a vida lhe dera.

O parceiro de infância.

O homem com quem aprendeu o que era lealdade, com quem dividiu sonhos, brigas, vitórias e silêncios.

Foi padrinho do seu casamento, padrinho do seu filho, e agora… confiava-lhe o futuro do seu legado: Helena.

“Cuida dela, Paulo. Ela está sozinha. E grávida. Não vai ser uma notícia fácil”

Aquela frase soava como um peso impossível.

Cuidar dela.

Proteger.

Manter o mundo de pé enquanto tudo ruía.

Mas o que Renato não sabia — o que jamais poderia imaginar — era que, ao entregar Helena aos seus cuidados, estava unindo o passado e o presente num golpe só.

O destino, por mais demorado que havia sido, o reuniu com sua filha.

Ele passou a mão pelos cabelos castanhos, tentando aliviar a tensão que latejava na nuca.

Tantas emoções vinham de uma vez — o choque, o medo, a raiva… e, por baixo de tudo, um orgulho inesperado, profundo, que o desarmava.

Seria avô.

A palavra reverberou dentro dele como um trovão silencioso, cheio de peso e ternura.

Por um instante, o coração pareceu esquecer o compasso do medo.

Um nó subiu pela garganta.

Ainda não conhecia a filha de verdade — não do jeito que queria —, e agora, de repente, havia uma nova vida entre eles.

Um neto.

Um pedaço dela… um pedaço dele também.

Era como se a vida, teimosa, estivesse lhe oferecendo uma segunda chance: a de viver ao lado dela o que o destino lhe havia tirado uma vez.

Pensou em Lorena.

Ela ainda não sabia.

Conseguiu imaginá-la, emocionada, rindo e chorando ao mesmo tempo.

E por um breve instante, o peito se aqueceu.

Mas o calor virou fogo.

O sangue ferveu.

“Maldito Monteiro…”, pensou, cerrando os punhos até sentir os nós dos dedos estalarem.

“Como ele pôde tocar nela? Engravidá-la sem sequer estarem casados?”

O impulso de reagir o atravessou com força — o velho instinto de homem e de pai.

Mas, desta vez, ele respirou fundo.

Segurou o próprio orgulho pelos ombros e o forçou a se calar.

Não era hora de pensar como político, nem como o homem que o Rio inteiro conhecia.

Era hora de pensar como pai.

Como avô.

Agora, mais do que nunca, ele e os Monteiro eram família.

Sorriu de leve, sincero.

Se essa era a escolha da sua filha, ele a honraria.

Aceitaria Heitor Monteiro não apenas como o namorado de Helena, mas como o homem que daria seu nome e sangue ao seu neto.

Agora, ele e os amigos de infância estariam ligados por algo que ia muito além da amizade — um laço de sangue, de destino e de família.

Ouviu passos suaves.

Helena voltou, agora mais calma. Carregava uma mochila azul da nas mãos.

— Peguei as coisas do Heitor também. — disse, a voz ainda fraca, mas firme.

Paulo se levantou, caminhou até ela e, com gentileza, pegou a mochila de suas mãos.

— Muito bem, querida. — disse com um pequeno sorriso. — Vamos, então.

Ela assentiu.

Antes de sair, fez um último carinho em Mel, que a olhava com o rabinho balançando, sem entender.

— Eu volto logo, tá? — murmurou para a cachorrinha.

Paulo observava aquela cena com um brilho triste nos olhos.

Naquele instante, soube que faria qualquer coisa por ela.

Qualquer coisa para garantir que nunca mais passasse por uma noite como aquela.

Os dois saíram juntos, o som dos passos ecoando no corredor, até que a porta se fechou atrás deles — levando consigo o último resquício da paz que Helena conhecia.