O CEO que Eu Paguei
233 O Gosto do Perigo
Notas iniciais
O domingo terminou muito diferente do que Heitor tinha imaginado.
Na cabeça dele, aquele seria um daqueles dias perfeitos que ele gostava de guardar na memória. Ia jogar bola, ouvir Helena gritando por ele no campo, provocar os amigos no churrasco, passar a tarde na lancha com ela agarrada na cintura dele, talvez até convencer a noiva a subir no jet ski. Tinha acordado animado como um garoto, exibido mesmo, querendo impressionar Helena em cada segundo.
E conseguiu.
Só não imaginou que o dia desandaria daquele jeito.
Depois da briga entre Helena e Ana Alice, ele praticamente arrancou Helena dali e levou direto para a casa dos pais. O problema foi chegar com a noiva cheia de marcas e ele também arranhado. O silêncio que tomou conta da sala quando Celina abriu a porta foi tão pesado que Heitor percebeu na hora o que tinham pensado.
E piorou quando Renato olhou primeiro para o rosto da Helena… e depois para ele.
Por alguns segundos, ninguém falou nada.
Heitor sentiu o estômago gelar.
— Pai, antes que vocês pensem merda…
Precisou explicar tudo.
Do começo.
A briga, as provocações, Ana Alice, os comentários, o ciúme da Helena, o caos no quarto.
Mesmo assim, demorou até o clima aliviar de verdade.
Lorena foi a que ficou mais abalada. Ela alternava entre indignação e preocupação, andando pela sala enquanto falava que sabia que tinha “alguma coisa errada” naquela menina. Disse que procuraria Isaac imediatamente, entenderia o que aconteceu e já começaria a ver com os advogados uma forma de afastar Ana Alice da família antes que aquilo piorasse ainda mais.
Os Monteiro também acionaram os deles.
Tudo discreto.
Sempre discreto.
Ninguém queria respingar na campanha do Paulo Medeiros, e muito menos transformar aquilo em escândalo social. Ainda assim, um médico foi chamado para examinar Helena, que acabou passando o resto da tarde com bolsas de gelo no rosto enquanto Celina praticamente rondava ela igual uma águia nervosa.
Heitor se sentia péssimo.
De verdade.
Cada vez que olhava para o roxo surgindo devagar na bochecha dela, alguma coisa apertava no peito dele. Helena tentava minimizar, dizendo que estava tudo bem, mas não estava. Não para ele.
Por sorte, os ferimentos dele eram menores. Alguns arranhões, alguns socos perdidos no braço e no peito, além da pele vermelha do sol por causa do jogo. Mesmo assim, Renato já tinha avisado que ele teria que esconder aquilo nos próximos dias.
— Última coisa que você precisa é aparecer arranhado perto da Helena e começarem fofoca de agressão doméstica.
E Heitor sabia que o pai tinha razão.
A reputação dele já era complicada demais para dar margem à imprensa inventar qualquer coisa.
Aquilo também aumentava a culpa que ele já estava sentindo.
Porque, no fundo, parte dele se culpava por tudo.
Foi ele quem dispensou Oséias naquele dia. Queria privacidade, queria aproveitar a festa só com Helena, sem segurança grudado. E no final… deu naquela merda.
Só de imaginar se a briga tivesse sido pior, se alguém tivesse machucado Helena de verdade, o sangue dele fervia.
Fizeram uma refeição leve para ela no fim da tarde, e Heitor percebeu o clima estranho entre Helena e Lorena o tempo inteiro. Não era hostilidade exatamente. Era distância. Um cuidado excessivo de um lado e uma resistência silenciosa do outro.
Lorena tentava.
Helena permitia até certo ponto.
E no meio disso tudo, Humberto parecia completamente alheio, feliz no colo de Renato.
Na volta para casa, finalmente conseguiram conversar direito.
Foi ali, dentro do carro, que Helena contou toda a conversa que ouviu no quarto. Cada detalhe. Cada frase nojenta. Cada comentário sobre ela, sobre Humberto… sobre ele.
E então Heitor entendeu de verdade.
Porque, até aquele momento, uma parte dele ainda estava tentando montar o quebra-cabeça. Helena era intensa, sim, mas não era violenta. Não daquele jeito.
Agora fazia sentido.
Ele ficou em silêncio por um tempo depois que ela terminou.
Com raiva.
Muita.
Porque era uma coisa desejarem ele. Heitor estava acostumado com isso desde adolescente. Outra completamente diferente era humilhar Helena daquele jeito.
Ainda mais pelas costas.
Naquela noite, ele pensou várias vezes em mandar mensagem para Isaac.
Queria saber como ele estava. Queria ter certeza de que o garoto não tinha enlouquecido sozinho. Mas acabou não fazendo.
Quem mandou foi Helena.
Isaac respondeu pouco. Disse apenas que tinha terminado com Ana Alice e que ela não precisava se preocupar. Helena ainda insistiu em ligar, preocupada, mas ele recusou com carinho e disse que precisava ficar sozinho.
Ela respeitou.
Mesmo sofrendo por ele.
Era um momento delicado para todo mundo, mas, na cabeça de Heitor, aquilo finalmente estava acabando. Ana Alice seria dispensada, voltaria para Minas e sairia da vida deles de vez.
Ou pelo menos era isso que ele esperava.
Na manhã seguinte, ainda cedo, Heitor ligou para Gaspar.
Conversou sério com ele.
Disse que queria Ana Alice longe, mas precisava fazer aquilo direito. Não queria prejudicar a filial nem os amigos da Helena que trabalhavam lá. Precisava de algo profissional, limpo, sem margem para processo ou drama.
Gaspar ouviu tudo em silêncio.
E, quando Heitor terminou, a resposta veio calma:
— Deixa comigo. Vou ficar de olho nela.
Era quinta-feira daquela mesma semana e Heitor estava tentando trabalhar.
Tentando.
Porque, na prática, fazia uns vinte minutos que ele olhava para a mesma planilha sem realmente enxergar nada. O cursor piscava na tela enquanto a cabeça dele estava longe, presa em pensamentos muito melhores do que qualquer reunião financeira.
Dia dos Pais.
O primeiro dele.
Só aquilo já fazia alguma coisa estranha acontecer dentro do peito dele. Toda vez que lembrava, vinha uma mistura de orgulho, ansiedade e uma felicidade quase infantil que ele nem tentava esconder mais.
E ainda tinha Helena.
Ela tinha dito que estava preparando uma surpresa.
Desde então, andava misteriosa, cheia de sorrisinhos, fugindo quando ele perguntava demais, dizendo que ele precisava “aprender a esperar”. Heitor adorava aquilo. Adorava ver Helena empolgada com alguma coisa envolvendo ele.
O problema era que naquele dia ela estava ocupada demais.
Nem uma mensagem.
Nem um “bom dia, amor”.
Nada.
E ele sentia falta até disso.
Helena tinha ido para o comitê da campanha passar o dia com Paulo e Jonas, conhecer melhor o lugar, tirar fotos e participar de algumas reuniões mais leves. O roxo da briga praticamente tinha sumido, graças a Deus, então ela finalmente podia sair sem precisar esconder o rosto.
Humberto tinha ido junto.
E isso deixava Heitor dividido entre orgulho e frustração.
Era o primeiro passeio “oficial” do filho.
Ele queria estar lá.
Queria ver Humberto no colo do Paulo, queria rir vendo Jonas fazendo graça pro sobrinho, queria acompanhar Helena naquele ambiente novo. Mas não dava. Quinta-feira era infernal na empresa, ainda mais depois dos problemas daquela semana.
Ele suspirou e voltou a encarar os números na tela.
Foi quando o telefone da mesa tocou.
— Alô?
— Senhor Monteiro? — a voz de Verônica veio do outro lado — chegou uma encomenda pro senhor.
Heitor passou a mão no rosto devagar, ainda olhando para o computador.
— É de fornecedor?
— Não. — ela respondeu, e ele já percebeu um sorrisinho na voz dela — é da sua noiva.
O humor dele mudou na hora.
Automaticamente.
Ele até se ajeitou melhor na cadeira.
— Ah é? Então pode trazer aqui.
— Sim, senhor.
Mal teve tempo de desligar.
Segundos depois, Verônica apareceu na porta segurando uma sacola de uma confeitaria que Heitor conhecia muito bem.
E amava.
— Não acredito… — ele murmurou sozinho, já sorrindo.
Era cheesecake.
O favorito dele.
Verônica entregou o embrulho ainda rindo da cara completamente desmontada do chefe.
— A Helena é muito romântica.
— Ela é mesmo. — respondeu sem nem tentar esconder o orgulho.
Porque era.
Helena lembrava das coisas.
Dos detalhes.
Do tipo de doce que ele gostava, do horário que ele normalmente ficava estressado, do jeito que ele esquecia de comer quando trabalhava demais.
E Heitor era completamente apaixonado por isso.
Foi então que viu o cartão preso ao pacote.
Pegou imediatamente.
Só aquilo já bastava pra fazer ele sorrir igual idiota.
“Hoje foi um dia difícil, não foi?
Quero compensar o tempo longe de você.
Me encontre às 18h no endereço abaixo, quarto 1104.
É um segredo essa fugidinha.
Já deixei tudo pronto.
— Helena Ribeiro Campos.”
Heitor terminou de ler e soltou um riso baixo, satisfeito demais.
Encostou na cadeira olhando para o cartão outra vez.
— Gostei disso… — murmurou sozinho.
Verônica ainda estava ali quando ele levantou o olhar.
— Ainda bem que dessa vez ela colocou o nome. — comentou com naturalidade — das outras vezes ela mandava essas coisas sem assinatura e eu nem ficava sabendo.
Verônica sorriu de lado, já acostumada com aquele lado completamente desmontado do chefe quando o assunto era Helena.
— Vou deixar o senhor aproveitar o lanche então, com licença.
Assim que ela saiu da sala, Heitor ficou alguns segundos olhando o cartão outra vez. Helena costumava ter vergonha de demonstrações públicas de afeto. Tanto que, ele só descobria que ela tinha enviado algo quando ele chegava em casa e ela perguntava a respeito.
Inclusive já tinha reclamado disso.
“Pelo menos coloca seu nome. Todo mundo sabe que você é minha, não é segredo há muito tempo Helê.”
E agora ela tinha colocado.
Heitor abriu um sorriso sozinho imaginando Helena no comitê, provavelmente toda vermelha enquanto ditava o bilhete para a confeitaria.
Quase conseguia visualizar.
Pegou o celular imediatamente e ligou por vídeo.
Chamou.
Chamou de novo.
Nada.
Ele fez uma careta decepcionada, então tirou foto do cheesecake, do cartão e mandou para ela.
Heitor:
“Ora ora… o que temos aqui?”
“Então alguém vai me recompensar pelo sumiço de hoje 👀”
“Gostei dessa surpresa. Já tô louco pras 18h.”
“E como estão as coisas por aí? Não deixa o Humberto gostar muito de política não, senão eu perco ele kkkkk”
“Quando conseguir me responde, tá?”
“Te amo gostosa.”
Mandou e ficou esperando.
Nada.
Heitor suspirou baixo, apoiando a cabeça na cadeira.
Ele franziu o cenho olhando a embalagem. Estava diferente. Não era o padrão que costumavam mandar quando ele pedia delivery.
Será que ela tinha ido pessoalmente?
A ideia fez ele sorrir de novo.
Talvez tivesse passado ali rapidinho e ficado com vergonha de subir.
Pegou o celular imediatamente e mandou um áudio.
— Amor, você veio aqui? Porque não entrou? — a voz dele saiu manhosa sem ele perceber — você sabe que eu nunca tô ocupado pra você. Eu ia amar receber uma visita surpresa sua e do Humberto… Se você ainda estiver por perto, sobe. Depois a gente deixa o pequeno onde você combinou e vai junto pro hotel.
Enviou.
Ficou olhando a conversa.
Ainda nada.
Aquilo começou a emburrar ele um pouco.
Mesmo assim abriu a embalagem e começou a comer.
O primeiro gosto estava normal.
Bom.
Mas, em algumas partes, vinha um sabor estranho. Meio amargo. Metálico quase. O famoso gosto de remédio. Gosto que não era bem um gosto.
Heitor fez uma careta imediatamente.
— Que porra é essa…
Tentou mais uma colherada.
Pior.
Largou na hora.
Pegou o telefone da mesa e chamou Verônica.
Ela entrou rápido.
— Chamou, senhor?
— Liga na confeitaria e pede pra trocar isso aqui. Tá com gosto estranho. — ele empurrou o prato na direção dela — prova aí.
— Não precisa, eu resolvo. — respondeu imediatamente, pegando a embalagem.
Heitor voltou para os documentos da mesa enquanto ela saía.
Ainda nenhuma mensagem da Helena.
Aquilo começou a incomodar de verdade.
Pegou o celular e ligou para Oséias.
— Diga, senhor.
— Opa. É o Monteiro. Como tão as coisas aí? — perguntou enquanto afrouxava um pouco a gravata.
Do outro lado, o segurança respondeu imediatamente:
— Tudo certo. Estamos no comitê do senhor Paulo Medeiros.
Heitor soltou o ar aliviado.
— E a Helena? E o Humberto?
— A senhora tá tirando umas fotos agora com o pequeno e o Paulo.
Aquilo melhorou o humor dele na mesma hora.
— Ela tá se divertindo?
Oséias deu uma risada curta.
— Bastante. A senhora Helena tá indo de um lado pro outro o tempo inteiro. Parece uma celebridade. O Humbertinho já tirou várias sonecas no colo do pessoal.
Heitor sorriu sozinho.
Conseguia imaginar perfeitamente.
— Imagino… — murmurou — liguei só pra saber se tava tudo bem.
— Tá sim, senhor.
Heitor hesitou alguns segundos antes de perguntar:
— Vocês passaram aqui pela Monteiro Inc hoje?
— Não, senhor. Ficamos o dia inteiro no comitê.
O cenho dele franziu devagar.
— Hm… certo então. Valeu, Oséias.
Desligou olhando o celular pensativo.
Então aquilo não tinha vindo dela pessoalmente.
— Porra… nem pra embalar direito hoje em dia essas lojas sabem. — reclamou sozinho, voltando ao computador.
Tentou focar.
Mas algum tempo depois começou a sentir o corpo estranho.
Os olhos pesaram primeiro.
Depois veio um cansaço esquisito, rápido demais.
Ele apertou a ponte do nariz e se levantou da cadeira.
— Caralho…
Foi até o banheiro da sala, jogou água no rosto e se encarou no espelho por alguns segundos.
Já tinha sentido aquilo antes.
Parecia gripe começando.
E aquilo era uma merda.
Se realmente estivesse ficando doente, não podia chegar perto do Humberto nem da Helena daquele jeito.
Voltou para a mesa, abriu a gaveta e tomou um remédio pra gripe mesmo sem ter certeza. Talvez fosse só cansaço. A semana tinha sido infernal.
Não dava pra parar agora.
Pouco depois entrou na reunião com RH e COO e aquilo piorou ainda mais o humor dele.
O turnover do setor de operações estava ridículo. Dez por cento de saída em oito meses. Não era problema isolado de filial pequena. Era empresa inteira.
E Heitor sabia exatamente o que aquilo significava.
Gestão ruim.
Pressão errada.
Coordenação incompetente.
Ou salário incompatível.
Enquanto os dois falavam, ele tentava manter o foco, mas sentia o corpo pesado, estranho.
Mesmo assim segurou a reunião inteira.
Cobrou.
Pressionou.
Questionou números.
No final, já estava irritado de verdade.
— Quero isso resolvido em um mês. — falou firme, olhando direto para o COO — se tiver que trocar gerência, troca. Coordenador, troca também. Eu não quero mais esse índice.
Saiu da sala ainda incomodado.
Pegou o celular imediatamente.
Nada da Helena.
Mesmo assim mandou mensagem.
Heitor:
“Amor, leva minha bermuda azul da Palm e meu chinelo por favor.”
Guardou o celular no bolso e voltou para o seu andar.
Quando entrou, Verônica já estava esperando com outra embalagem da confeitaria.
— Senhor Monteiro, eles pediram desculpas. Disseram que não sabem o que aconteceu. Mandaram outro pedaço e um cupom de desconto.
Heitor pegou a embalagem bufando.
— Hoje em dia as coisas só funcionam quando a gente reclama. Impressionante.
Entrou na sala ainda irritado, largando a nova embalagem sobre a mesa enquanto tentava ignorar o peso estranho que começava a tomar conta do corpo dele.
O final da tarde passou arrastado para Heitor.
Ele tentava focar nas últimas pendências do dia, mas o corpo parecia cada vez mais pesado. Os olhos queimavam, a cabeça começava a latejar devagar atrás da nuca e ele precisou reler alguns e-mails mais de uma vez porque simplesmente esquecia o que tinha acabado de ler.
Aquilo estava estranho.
Talvez gripe mesmo.
Ou só exaustão.
A semana tinha sido uma merda atrás da outra.
Ainda assim, ele se recusava a deixar aquilo estragar a noite.
Quando Verônica voltou mais tarde perguntando sobre o segundo cheesecake, Heitor nem quis olhar.
— Leva pra casa pra você. — empurrou a embalagem na direção dela — perdi a vontade de doce hoje.
Verônica pareceu surpresa.
— Tem certeza?
— Tenho. Se eu comer mais açúcar hoje vou entrar em coma.
Ela riu e agradeceu antes de sair.
Pouco depois, Heitor também deixou o escritório. Saiu junto dela, afrouxando a gravata enquanto caminhava pelo corredor da empresa. Passou no refeitório antes de ir embora e pegou dois energéticos gelados.
Precisava acordar.
Tomou metade de um ainda no elevador.
Quando chegou ao endereço do cartão, ficou alguns segundos encarando o prédio de dentro do carro.
Hotel corporativo.
Discreto.
Elegante.
Cheio de gente de social entrando e saindo.
Homens de terno.
Mulheres arrumadas segurando maletas contra o peito.
Heitor franziu o cenho olhando aquilo.
— Que escolha estranha, Helê… — murmurou sozinho.
Pegou o celular e ligou pra ela outra vez.
Chamou.
Chamou.
Nada.
Ele bufou baixo, jogando a cabeça contra o banco do carro por um instante.
— Pô, amor… responde pelo menos minhas mensagens.
Então mandou um áudio.
— Que hotel é esse que você arrumou? — começou rindo — caralho, Helena, era mais fácil ter me levado pra um motel logo.
A voz dele saiu divertida, baixa, cansada no final.
— Agora tô curioso pra saber o que você inventou… Só falta eu chegar aí e não ser nada do que eu tô pensando.
Depois de enviar, ainda digitou:
“Escuta baixo 👀”
Guardou o celular no bolso e saiu do carro.
O corpo ainda estava estranho. Meio pesado. Meio mole. Mas só de pensar em encontrar Helena, já sentia alguma coisa melhorar.
Estava com saudade dela.
Do cheiro, da voz, da mão dela segurando a camisa dele, do jeito que ela olhava pra ele quando estavam sozinhos.
Entrou no hotel ajeitando o paletó no corpo e foi direto para a recepção.
— Boa noite. — apoiou o braço no balcão — pode avisar a Helena do quarto 1104 que o noivo dela chegou? Heitor Monteiro.
O recepcionista reconheceu o nome imediatamente e abriu um sorriso educado.
— Claro, senhor. Um instante.
O rapaz conferiu alguma coisa no computador e então pegou um cartão magnético.
— Certo. Ela deixou autorizado. Pode subir.
Heitor pegou o cartão e abriu um sorriso satisfeito.
— Valeu, garoto.
Já estava virando quando voltou dois passos e puxou a carteira do bolso.
Tirou uma nota alta e entregou discretamente.
— Me fala uma coisa… ela comentou alguma coisa? Viu ela chegando? — perguntou num tom cúmplice.
O recepcionista pegou a gorjeta quase assustado e olhou rapidamente para os lados antes de responder mais baixo:
— Vi ela levando várias coisas pro quarto.
Heitor abriu um sorriso imediatamente.
— Tipo?
— Uma vasilha de sorvete… uma sacola com vinho… essas coisas.
Heitor riu pelo nariz.
— E só isso?
— Depois ela subiu com uma mala.
— Mala? — ele arqueou a sobrancelha, divertido — olha… agora fiquei interessado.
O rapaz acabou rindo também.
— Ela tá lá em cima então?
— Está sim, senhor.
— Perfeito.
Heitor guardou a carteira no bolso ainda sorrindo.
— Até mais, parceiro.
Foi andando em direção ao elevador sentindo a animação voltar aos poucos, abafando o cansaço estranho do corpo.
Enquanto o elevador subia, começou a imaginar o que Helena tinha preparado.
Talvez realmente quisesse passar a noite ali escondidos.
Talvez tivesse comprado lingerie nova.
Talvez quisesse fazer alguma surpresa pro primeiro Dia dos Pais dele.
Só de pensar nela esperando naquele quarto, Heitor sentiu o corpo reagir imediatamente. O membro já começava a marcar discretamente na calça social e ele soltou uma risada baixa sozinho.
— Que saudade de você, gostosa…
Quando a porta do elevador abriu, ele saiu praticamente sem paciência, andando mais rápido pelo corredor.
O carpete abafava os passos, mas o coração dele parecia bater mais forte a cada porta.
Até parar diante do quarto 1104.
Finalmente.
Heitor abriu a porta do quarto já sorrindo, apressado demais para manter qualquer pose.
O quarto estava escuro, iluminado só pela luz baixa de um abajur perto da cama.
— Amor? Cheguei. — disse enquanto trancava a porta atrás de si.
Já foi soltando os primeiros botões da camisa social, sentindo o corpo quente e cansado ao mesmo tempo. O dia tinha sido longo demais, mas a expectativa de encontrar Helena ali fazia ele ignorar boa parte do desconforto.
Andou pelo quarto procurando por ela.
Nada.
Olhou perto da cama.
Nada.
Então viu a porta do banheiro fechada.
Sorriu na hora.
— Ahhh… tá aí.
Se aproximou devagar, divertido.
— Amor? O que cê tá fazendo escondida aí dentro?
Silêncio.
Heitor encostou a testa na porta, rindo baixo.
— Porra, Helê… que tratamento de silêncio é esse hoje? Sumiu o dia inteiro, não respondeu mensagem… esqueceu que é praticamente casada já? — falou num tom manhoso e safado ao mesmo tempo — vou ter que ganhar uma chupadinha como pedido de desculpa.
Nada.
O sorriso dele diminuiu um pouco.
— Helê?
Tentou abrir a porta.
Trancada.
A preocupação veio rápido demais.
— Amor, tá tudo bem aí?
Forçou a maçaneta mais uma vez.
— Helena?
Foi então que um papel apareceu por baixo da porta.
Heitor abaixou devagar e puxou.
A visão estava estranha outra vez, meio pesada, meio embaçada. Ele esfregou os olhos antes de ir até o abajur e aproximar o papel da luz.
“Senta na poltrona e vai comendo.
Já tô saindo.”
Ele soltou um riso pelo nariz.
A letra parecia esquisita, mas ele não quis implicar com aquilo agora. Helena provavelmente tinha escrito correndo.
— Tá bom então, mandona.
Apagou a luz principal outra vez e largou o papel sobre a mesa.
Tirou o cinto, os sapatos e afundou na poltrona, cansado de verdade agora que tinha parado.
Foi aí que viu o pote de sorvete cheio de salgadinhos caseiros.
Aquilo fez ele sorrir de novo.
— Da onde você tirou tempo pra isso, hein…
Pegou um.
Mordeu.
O gosto estranho voltou imediatamente.
Amargo.
Metálico.
Heitor fez uma careta.
— Caralho…
Mas então pensou na gripe outra vez. O cheesecake tinha parecido estranho também. Devia ser ele.
Devia.
Abriu a segunda lata de energético tentando espantar o cansaço e foi comendo mais devagar, mesmo sem sentir direito o sabor das coisas.
Só que, alguns minutos depois, o corpo começou a piorar rápido demais.
Muito calor.
As mãos começaram a suar.
O coração acelerou forte no peito.
Heitor puxou o ar mais fundo e afrouxou mais dois botões da camisa.
— Que porra…
A cabeça parecia lenta, mas os pensamentos corriam rápidos demais ao mesmo tempo. Uma ansiedade estranha começou a subir pelo corpo inteiro.
Ele nunca tomava energético.
Talvez tivesse misturado errado com o remédio da gripe.
Era só o que faltava.
Tentou respirar fundo outra vez.
A lata escorregou da mão dele e caiu no carpete.
Heitor apoiou os cotovelos nos joelhos, passando a mão pelo rosto molhado de suor.
Alguma coisa estava muito errada.
Muito.
“Droga…”
O peito disparava cada vez mais rápido.
Mesmo assim, a primeira preocupação dele foi Helena.
Não queria estragar aquilo.
Ela claramente tinha preparado tudo com carinho.
— Helena… — chamou rouco, respirando pesado — eu não tô me sentindo muito bem, amor… acho que tô ficando gripado…
O celular tocou bem nessa hora.
Ele quase deixou cair tentando pegar no bolso.
A visão já escurecia nas laterais, mas conseguiu enxergar o nome na tela.
Helena.
Atendeu imediatamente.
— Monteiro, que história é essa? — a voz dela veio irritada do outro lado — eu não te mandei nada! Tá querendo me irritar? Porque conseguiu!
O estômago dele gelou.
Na hora.
Uma sensação horrível atravessou o corpo inteiro.
Tentou responder.
Nenhuma palavra saiu.
— Heitor? — a irritação dela virou preocupação instantaneamente — amor? O que tá acontecendo? Me responde!
O coração dele acelerou ainda mais.
Precisava levantar.
Precisava sair dali.
Tentou apoiar o braço na poltrona, mas o corpo simplesmente não respondeu.
Foi então que ouviu a porta do banheiro abrindo.
Devagar.
Heitor tentou olhar.
Não conseguiu erguer direito a cabeça.
— Heitor? HEITOR! — a voz da Helena vinha abafada pelo celular agora.
Passos.
Mais de uma pessoa.
Uma delas foi para trás da poltrona.
Outra apareceu na frente dele.
Uma mulher.
Desconhecida.
Ela tirou o celular da mão dele e desligou a ligação.
Então empurrou o ombro dele para trás, obrigando Heitor a se afundar novamente na poltrona.
A raiva veio imediata.
Violenta.
Muito mais forte que o medo.
— Ele é bonito mesmo de perto… — a mulher murmurou olhando diretamente para ele.
Heitor tentou falar alguma coisa.
Nada.
O peito continuava disparado.
A mão dele foi até o próprio coração quase por instinto.
A mulher franziu o cenho.
— O que foi?
Outra voz feminina surgiu atrás dele.
Familiar.
Muito familiar.
— Droga! Ele tomou energético!
A mulher da frente xingou baixo e olhou rapidamente para trás.
— Merda… então vai ter que ser rápido. — respondeu seca — não vai desistir agora. A ideia foi sua.
Heitor tentou abrir os olhos direito outra vez.
Tentou entender.
Quem eram aquelas pessoas?
O que estava acontecendo?
Por que ele não conseguia mexer o próprio corpo?
Então sentiu mãos passando pelos cabelos dele devagar.
A mulher atrás dele.
— O seu cabelo é muito macio… — ela murmurou quase tímida — pena que você não vai lembrar de nada depois.
Heitor reuniu força mais uma vez.
Tentou levantar.
Tentou socar alguém.
Qualquer coisa.
Mas o corpo já não obedecia mais.
A última coisa que sentiu foi a visão ficando completamente preta.
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