O CEO que Eu Paguei

112 O Filho da Senhora Monteiro


— Tu sabe que seu nome ainda assusta geral aqui, né?

Isaac apoiou o cotovelo no balcão e girou o gelo no copo com uma mão, tentando parecer casual. Mas o olhar… aquele era o olhar de quem cresceu ouvindo histórias do homem à frente dele.

Heitor ergueu a sobrancelha e deu um sorriso enviesado, aquele que ele guardava pra quando sabia que dominava o ambiente.

— Assusta ou incomoda?

— Um pouco dos dois. — Isaac deu de ombros. — Tu some por meses, volta de aliança no dedo e ainda com cara de quem manda prender e soltar.

— E mando mesmo. — Heitor deu um gole no uísque e falou com calma, sotaque carioca arrastado, com gosto de deboche no final. — Mas só quando preciso.

Isaac soltou um riso abafado, mas o brilho nos olhos era real.

— Sério mesmo aquela parada na serra?

— Qual delas?

— O caminhão. A pasta. O barranco. A loucura.

Heitor girou o copo na mão, como se repassasse o momento.

— Real. Caminhão cruzou na curva, quase me levou. Neblina pesada. Aro 22 atolado no barro.

— E aí?

— Peguei a pasta da empresa, enfiei embaixo do pneu. Engatei, acelerei, passei a dois dedos da borda. Vida que segue.

— Tá de sacanagem…

— Tô, não. Só não conta pra minha mãe. Ela já acha que eu sou inconsequente. Isso aí era motivo pra me internar num retiro budista até o fim do ano.

Isaac soltou uma gargalhada.

— Pô, tu vive como se fosse roteiro de série cara da Netflix.

— Ainda bem. O que me ferra é que, aqui, muita gente quer escrever essa série. — Heitor ergueu o copo, brindando sozinho.

Isaac ia responder, mas o som dos saltos finos cruzando o saguão interrompeu o ar da conversa. Heitor não precisou olhar. Sentiu no perfume. Reconheceu no silêncio.

Isaac virou o rosto, já abrindo um sorriso automático.

Heitor não precisou se virar para saber quem era.

Celina Monteiro.

A matriarca da família Monteiro caminhava com o porte que fazia parecer que desfilava por um tapete vermelho — mesmo que fosse apenas o corredor da casa onde morava há décadas. Os cabelos loiros levemente ondulados caíam com elegância sobre os ombros, as mechas brancas não escondidas, mas integradas com naturalidade ao estilo, como se o tempo tivesse aprendido a ser gentil com ela. Vestia um conjunto claro de linho e seda, colar de pérolas, anéis discretos, mas visivelmente caros. O batom era vermelho, como sempre — o mesmo tom desde que Heitor se entendia por gente.

Ela avistou o filho, e o sorriso brilhou antes de chegar.

— Olha só quem voltou para casa. — a voz era suave, mas firme. Uma mistura de afeto genuíno com encenação social.

Heitor pousou o copo no bar, sorriu de lado, e se virou. Baixou a cabeça com naturalidade para recebê-la nos braços. O abraço veio com perfume francês e um leve tremor contido de emoção.

Ela o segurou pelos ombros e afastou um pouco o rosto dele, como se o examinasse por um raio X materno. Os olhos ficaram tempo demais na mão direita.

— Meu Deus... você tá lindo. Mas é claro, né? É o meu filhinho.

— Filhinho, mãe... — Heitor riu abafado, entre satisfeito e constrangido. — Eu tenho trinta e nove anos. Já não dá mais pra isso.

— Pra mim, você sempre vai ser o menino que corria descalço nessa casa com o uniforme sujo da escola e um brigadeiro na mão — ela rebateu com um olhar nostálgico. — Não me interessa se é CEO agora. Ainda é o mesmo que caía da escada e chorava de vergonha.

Isaac prendeu uma risada, Heitor revirou os olhos.

Celina deu dois tapinhas no peito do filho e então... arqueou uma sobrancelha com falsa inocência.

— Mas precisava vir me ver tão simples assim?

Heitor franziu o cenho com leveza. Olhou para si: camisa vinho escuro da Lacoste, calça de alfaiataria bem cortada, cinto de couro Hermes, relógio suíço de caixa prata no pulso esquerdo.

— Simples? — ele resmungou, em tom leve. — Mãe, isso aqui custa mais que o sofá da sala de jantar...

— Custa, mas não parece, querido — ela respondeu com aquele tom doce de quem dá uma patada sorrindo. — Você tem esse dom de vestir Versace e parecer que foi à padaria.

Heitor soltou uma gargalhada.

— Eu vim confortável, pra casa. Não vim pra entrevista na CARAS.

Celina estendeu a mão, com o anel solitário reluzindo sob o lustre do saguão.

— Venha. Seu pai está se servindo de uísque, mas está numa daquelas fases... — e então completou, com aquele sorrisinho enigmático: — Vai ser uma noite interessante, meu amor.

Heitor assentiu, tocou de leve a mão dela e voltou a encarar Isaac, que assistia tudo com o mesmo olhar de quem vê um filme bom demais para interromper.

— A senhora está linda — Isaac comentou em voz baixa

— Agradeço o elogio Isaac. Pelo menos você repara. Diferente de alguém que nem notou a escova nova. — Celina respondeu olhando meio de lado para Heitor.

Heitor riu e respondeu no mesmo tom:

— Nem tive tempo — ele se virou e deu um beijo na bochecha dela — você é linda mãe… hoje só vejo uma outra versão de ser linda vindo de você.

Celina deu um lindo sorriso e seus olhos azuis tiveram um brilho de aprovação.

— Boa resposta filho.

O salão principal da mansão era amplo e iluminado. As cortinas brancas filtravam a luz quente dos lustres de cristal, refletindo sobre as taças de vinho e os sorrisos polidos dos convidados. Os Monteiro recebiam como sabiam: com uísque de 18 anos, bufê francês e música instrumental ao fundo — sempre em volume calculado para não interromper as conversas importantes.

Celina cruzava o salão com o braço entrelaçado ao de Heitor, desfilando com a elegância de uma mulher que sempre esteve naquele lugar. Não precisava de um aviso antecipado que Celina era a anfitriã, seu jeito de se caminhar, cumprimentar e conversar mostravam os anos de experiência de quem nasceu para aquela vida.Heitor caminhava ao lado, imponente com sua postura reta, os olhos atentos e o meio sorriso discreto de quem estava presente, mas alerta. Cumprimentava um e outro com um leve aceno de cabeça, sem se deter.

Celina sorria como uma rainha. Ele, como o herdeiro silencioso de um trono antigo.

Até que os olhos de ambos encontraram Renato.

O patriarca Monteiro estava de pé, ao lado da adega embutida, com um copo de uísque na mão e expressão impenetrável. O terno cinza-claro sob medida, camisa branca perfeitamente passada, cabelo penteado para trás — cada detalhe no lugar. Mesmo parado, ele exalava a mesma autoridade que impunha na sala do conselho.

Os olhos de pai e filho se encontraram.

A tensão não era gritante — era pior: era sutil, refinada, embebida em décadas de regras silenciosas.

A sala parecia mais fria por um instante.

Heitor firmou a mandíbula, mas caminhou com a mesma calma.

Renato foi o primeiro a falar, com a voz controlada:

— Filho.

Heitor inclinou levemente a cabeça.

— Pai.

Os dois se olharam por um segundo a mais que o aceitável.

Celina, como quem dirigia uma peça de teatro, soltou o braço do filho e apoiou a mão no ombro do marido, com a outra mão ainda tocando o de Heitor. Era quase simbólico: um elo entre os dois.

— Os dois homens da minha vida. Tão parecidos… — disse com um sorriso pequeno, mas Heitor sentiu a mensagem por trás.

Façam o jogo. Mantenham a pose. Esse não é o lugar para guerras.

Renato olhou para o filho com a mesma expressão que usava nas assembleias: neutra, analítica, superior.

— Espero que esteja aproveitando o retorno à cidade — comentou com leve acidez.

Heitor sorriu, polido.

— Ainda me lembrando dos atalhos, mas sim. É sempre bom voltar pra casa.

— Casa... — murmurou Renato, olhando ao redor, antes de tomar um gole do uísque. — Espero que tenha em mente o significado disso.

Heitor inclinou a cabeça para o lado, e o sorriso cresceu meio centímetro.

— Tenho, sim. Inclusive pretendo apresentá-lo a alguém que tem me ensinado muito sobre significado.

Renato não respondeu — não precisava. O silêncio dele era tão calculado quanto as palavras.

Celina, percebendo a temperatura da conversa, soltou uma risadinha diplomática.

— Vamos, Heitor. Preciso te mostrar o novo quadro no salão de música. Seu avô vai amar saber que você está de volta.

Heitor assentiu. Mas antes de sair, voltou os olhos para o pai. A expressão não era de desafio, nem de recuo. Era de alguém que não tinha mais nada a provar ali.

— A gente se vê na mesa.

Renato não respondeu de imediato, mas o encarou como quem mede uma espada.

— Estarei lá.

E os dois se afastaram.

Celina deslizou os dedos pelo braço do filho como quem arruma uma dobra inexistente na camisa, mas a intenção era outra — levar Heitor onde queria, como sempre fizera.

— Você precisa ver alguém, querido.

Heitor sabia. O tom era doce demais para ser neutro.

Ele apenas assentiu, sem dar espaço para perguntas. Caminhou ao lado dela pelo salão, onde os sorrisos eram treinados e os olhos calculavam status com a precisão de um escâner bancário. O perfume de especiarias e champanhe francesa pairava no ar, misturando-se aos acordes discretos de um piano ao fundo.

Passaram pelo grande espelho veneziano do corredor — e ali, Celina parou por um segundo.

Ela olhou diretamente para a mão esquerda do filho. A aliança.

O sorriso em seu rosto oscilou. Por meio segundo, piscou uma falha. Mas voltou. Refinado. Elegante. Gelado.

— Fico surpresa que esteja usando isso com tanta naturalidade, mesmo aqui.

Heitor manteve o olhar à frente. A resposta veio seca, mas sem perder o tom polido.

— Naturalidade vem com convicção.

Celina riu, como se tivesse ouvido uma piada de bom gosto.

— Claro. — disse apenas, como quem guarda uma peça no tabuleiro.

Viraram o corredor principal, onde os lustres refletiam os cristais da decoração. Quando o olhar de Heitor pousou na figura à frente, soube exatamente quem "você precisa ver" significava.

Marcela.

Estava parada ao lado de um sofá de linho branco, com uma taça de champanhe em mãos. Vestia um vestido longo verde esmeralda que realçava os ombros e a cintura fina. O cabelo castanho caía em ondas controladas, e os lábios vermelhos sorriam antes mesmo de ela se virar.

A presença dela era impecável. E calculada.

Mas para Heitor… era só ruído.

— Marcela.

O nome saiu de Celina como se apresentasse uma peça rara da Sotheby’s.

A mulher se virou com um sorriso que ensaiara no espelho dezenas de vezes.

— Heitor.

Heitor não respondeu de imediato. Seu rosto endureceu por um instante. A expressão de descontentamento não pôde ser disfarçada — e ele nem tentou.

— Boa noite. — disse, formal, frio, como quem falava com um sócio distante.

— Tão formal? — Marcela brincou. A voz macia, a postura ereta. — Depois de tudo que vivemos?

Heitor não respondeu. O silêncio dele foi um lembrete: não há mais nada aqui para ser vivido.

Celina percebeu. Mas não cedeu.

— Vocês dois têm muito o que conversar, com certeza. — disse com elegância impecável, pousando uma mão leve nas costas do filho, outra no ombro de Marcela. — Fiquem à vontade. Eu vou dar atenção aos convidados ali perto.

Sorriu. Virou-se. E saiu.

Ela jogara a peça no centro do tabuleiro e saiu para assistir o movimento.

Heitor permaneceu em pé, rígido.

Marcela deu um passo à frente, brincando com a taça nas mãos.

— Você está mais bonito do que eu me lembrava.

Heitor cruzou os braços.

— Você devia se lembrar menos.

Ela riu. Um riso curto. Ofendida, mas fingindo que não.

— E ainda assim… usa aliança. Me pergunto se é para provocar alguém ou convencer a si mesmo.

Heitor a olhou nos olhos — dessa vez firme, claro, limpo.

— É pra lembrar a todo mundo quem eu escolhi. Inclusive você.

O silêncio que veio depois dizia tudo.

Marcela não respondeu.

Mas o sorriso dela sumiu.

E Heitor… já estava pronto para sair.