O CEO que Eu Paguei

113 Limites não se tocam


Heitor já se preparava para sair, quando ouviu a voz suave às suas costas:

— Você pode me dar cinco minutos? Só por respeito ao que a gente teve.

Ele parou. O maxilar travou discretamente. Virou o rosto com lentidão, como quem avalia o custo da paciência.

— Cinco minutos. — disse seco. — Mas seja breve, Marcela.

Ela fez um gesto com a cabeça e indicou o jardim lateral, mais reservado. Ele a seguiu com passos contidos, a expressão fechada. O ar da noite parecia mais frio naquele trecho da casa.

Quando pararam sob a pérgola de heras bem cuidadas, Marcela o encarou com um olhar que misturava nostalgia, desejo e frustração.

— Eu só… fiquei surpresa.

— Com o quê?

— Com o fato de você não sentir nada. — ela respondeu, com um sorriso pequeno, triste — A gente esteve junto por muito tempo. Eu achei que… você poderia hesitar.

Heitor sustentou o olhar dela por alguns segundos. Depois abaixou os olhos brevemente, apenas para mostrar que não havia hesitação alguma.

— Não tem nada aí, Marcela.

Ela engoliu seco. Deu um passo à frente.

— Nem respeito? Nem afeto?

Heitor respirou fundo e cruzou os braços.

— Eu te respeitei enquanto durou. Mas respeito não é sinônimo de volta. Nem de sentimento.

Marcela deu uma risadinha amarga. Parecia a ponto de desmontar, mas se manteve ereta.

— Você me procurou. Depois do término. Você quis ficar comigo.

— Sexo. — Heitor respondeu, frio. — Era só isso.

— Você não me chamava de Marcela naquela época.

Silêncio.

O olhar de Heitor endureceu.

— Você é apenas isso agora.

A frase caiu como um tapa. Um eco brutal no jardim imaculado da mansão Monteiro.

Marcela recuou um pouco. O rosto, pálido. Os olhos brilharam, mas ela não deixaria a lágrima cair. Nunca ali, nunca diante dele.

Heitor não completou a frase. Nem pediu desculpas. Ele não devia nada.

— É só isso? — ele perguntou.

Marcela abriu a boca, mas nenhuma frase sairia que não fosse um erro.

Ele entendeu o silêncio. E se virou para voltar ao salão.

— Boa noite, Marcela.

Foi a última coisa que ele disse.

E a única coisa que ela não queria ouvir.

Marcela permaneceu ali, parada, como se ainda tivesse algo a dizer. Heitor já ia se virar quando a voz dela o chamou de novo, dessa vez com um tom mais ácido:

— Aquela moça... Helena, não é?

Ele parou, mas não se virou.

— Bonita. Jovem. Tem um quê selvagem. Vi as fotos.

Heitor girou o corpo lentamente. O olhar dele era lâmina cravada.

— Não fale dela.

Marcela sorriu, como quem pisa mais forte onde sabe que o chão afunda.

— Ela me mandou uma foto sua dormindo. Não sei se era pra me provocar... ou só mostrar o prêmio.

Heitor manteve o rosto firme, mas um músculo da mandíbula tremulou.

— Você mandou mensagem pra ela.

— Claro. — respondeu, inocente como veneno doce. — Curiosa. Assustada. Mulher simples demais pro seu mundo. Eu até fiquei com pena.

Silêncio.

— Disse a ela que você tem um padrão. — Marcela deu um passo. — E que ela não é isso.

Foi quando Heitor se aproximou. O olhar azul dele agora não era o do executivo, nem do filho obediente — era o do homem.

O homem de Helena.

Ele parou perto o suficiente para que ela sentisse o peso da presença dele.

— Eu estou sendo cordial, Marcela. — a voz baixa, grave, perigosa. — Mas se você ousar insultar a minha mulher de novo, eu juro por tudo que eu tenho... que vou descer o nível dessa conversa.

Ela prendeu a respiração.

— E quando eu desço... — ele sorriu, frio. — ...eu deixo quem merece exatamente onde pertence.

Marcela ficou muda.

Heitor continuou, sem pressa:

— Helena não precisa se encaixar em nada. Ela não precisa entender esse mundo. Esse mundo é que vai ter que aprender a respeitá-la. E você vai ser a primeira da fila.

Ele deu um passo para trás.

— E antes que pergunte — não, não foi uma foda.

Ele olhou nos olhos dela com firmeza, sem raiva, apenas convicção.

— Foi o começo da melhor parte da minha vida.

Marcela engoliu seco. A mão se movia irritada. O rosto firme tentando sustentar a queda.

— Boa noite, Marcela.

E desta vez, quando ele virou as costas, foi definitivo.

Ele saiu para a outra área do jardim com o maxilar travado e a respiração mais lenta do que deveria estar. O som abafado dos risos e das taças tilintando ficou para trás, junto com os sorrisos falsos e os jogos de guerra fria entre cristais de champanhe.

Marcela. Sua mãe. O teatro inteiro.

O ar da varanda era mais leve — ou ele fingia que era.

Se apoiou no parapeito de mármore, observando as luzes da Gávea recortarem o horizonte do Rio.

Lá embaixo, a cidade pulsava... mas nenhuma daquelas luzes era dela.

Helena.

O nome dela lhe veio como um alívio — e uma necessidade.

Fechou os olhos por alguns segundos, e era como se ela estivesse ali.

A boca quando ironizava. O som arrastado do “Heitor, pelo amor de Deus” quando ele falava besteira.

O jeito como ela jogava o cabelo pro lado...

E como, quando sorria de verdade, o mundo parecia mais fácil.

Ele abriu os olhos e murmurou, quase num suspiro rouco:

— É ela.

Era.

E aquilo — a mansão, os nomes importantes, os elogios envenenados — não significava nada perto de uma mensagem dela antes de dormir.

Marcela podia ter todo o currículo do mundo, todas as conexões...

Mas Helena tinha uma verdade que ninguém ali conhecia.

Heitor tirou o celular do bolso, desbloqueou com o polegar e abriu o WhatsApp.

“Acabei de sair de uma conversa que me fez ter ainda mais certeza.”

Helena ❤️❤️ “Certeza do quê?” – ela respondeu na mesma hora.

Ele sorriu de lado.

Aquele sorriso que só ela arrancava.

“De que quero você comigo. Na minha vida. No meu mundo. No meu quarto. Na minha cama. No meu colo. No meu sobrenome se você deixar.”

Digitando...

Mas não chegou a vir resposta.

Só uma ligação de vídeo surgindo na tela.

Heitor atendeu com o coração acelerado.

— Fala, Helê... — disse, a voz mais baixa e grave, já com um sorriso no rosto. — Tava com saudade de ouvir sua voz.

Do outro lado, ela apareceu com o rosto corado, os olhos castanhos bem abertos, o moletom de estimação e uma touca na cabeça.

— Tô de touca porque lavei o cabelo, tá? — foi a primeira coisa que disse, com aquele jeito todo dela.

Heitor riu.

— Tá linda. Juro. Parece até que lavou o cabelo só pra mim.

Ela bufou, mas sorriu.

Ele ficou só olhando por uns segundos. E então disse, com aquele tom que só ela entendia:

— O mundo pode girar o quanto quiser... mas toda vez que eu paro, é você que eu vejo.

E do outro lado da tela, ela corou.

Mas não respondeu.

Só ficou ali. Olhando de volta.

Como se o silêncio dissesse mais do que qualquer frase de efeito.

Em um dos jardins da mansão Monteiro, no coração do Rio de Janeiro, Heitor Monteiro entendeu uma coisa simples:

Amar Helena era o único risco que ele fazia questão de correr.