O CEO que Eu Paguei
206 O Espaço Que Faltava
O sol da manhã filtrava-se com suavidade pelas amplas janelas da mansão Monteiro, projetando retângulos dourados sobre o chão de madeira clara. Era sábado. E embora o calor típico do Rio já anunciasse que seria um dia quente, havia uma leveza no ar que Helena sentia no peito. Com os pés ligeiramente inchados e a barriga já pesando nos movimentos, ela havia acordado cedo, contrariando a lógica do cansaço. Era ansiedade — e uma vontade quase infantil de ver um sonho tomar forma. Pela primeira vez, o quarto do seu filho deixaria de ser apenas imagens no Pinterest, rabiscos em caderninhos, e conversas com a equipe de arquitetura. Ele ia existir. Ali, dentro daquela casa que agora era da sua família.
Ela havia escolhido tudo com o coração. Heitor, claro, esteve ao lado dela durante o processo, dando suas opiniões, como sempre, mas a decisão final foi dela. Esse era o mundo do filho dela, o que ela queria para ele. Ela o imaginava correndo pelos cantos, brincando e até rindo nesse quarto.
Sozinha, ela abriu a porta do cômodo com cuidado. O cômodo ainda estava em grande parte vazio, mas o que estava ali já dizia muito. O revestimento em boiserie branco cobria metade das paredes com elegância, contrastando com o azul profundo da parte superior — um azul que ela mesma escolheu dentre tantas opções. Os detalhes em dourado contornavam os painéis. As prateleiras estavam instaladas. O closet, vazio, esperava pequenas roupas. Helena sorriu.
Mel, a seguiu em silêncio e deitou aos pés dela, a cachorrinha também queria participar daquele momento. Encostou o focinho no pé de Helena e deu um lambeijo.
— O que foi, mocinha? Gostou do quarto também?
Mel se virou de barriga para cima, o rabinho agitando com entusiasmo. Helena riu, mas ao tentar se abaixar para fazer carinho, sentiu o peso da barriga encostar na coxa. Prendeu a respiração, apoiou a mão na parede e depois a levou até o ventre.
— Filho… você tá muito grande, meu amor... um bebê urso, só pode!
Nesse instante, a barriga se projetou em uma saliência curiosa. Helena ficou imóvel, maravilhada, observando Humberto se espreguiçar ali dentro.
— Exibido... igual ao seu pai. Não é, filhinho? — ela então começou a falar com uma voz mais doce — Quem é o bebê mais lindo do mundo todinho? Fala pra mamãe...
A resposta veio em forma de um chute leve. E Helena riu, surpresa como se fosse a primeira vez. A doutora Ana Flávia sempre dizia que Humberto era ativo porque se sentia seguro — e isso, mais que tudo, a deixava feliz. Era o que ela mais queria: um bebê feliz. Um lar saudável. Um amor inteiro.
Mel, no entanto, começou a esticar as patinhas para ela, como se achasse que toda a conversa fosse com ela.
— Humberto! Você tem que aprender a dividir, a irmãzinha quer carinho também.
— Pois é, meu filho tem que aprender a dividir... como vai dividir a mamãe comigo, hein?
A voz surgiu por trás das costas dela. Heitor a envolveu num gesto instintivo, encaixando o corpo alto no dela, como se fossem peças de um mesmo quebra-cabeça.
Helena sorriu e se virou.
— Vocês vão ter que ter uma conversa de pai para filho sobre isso — provocou.
Ele riu. Com um movimento calmo, puxou o vestido dela para cima, deixando a barriga à mostra, e passou a mão grande e quente sobre a pele esticada.
— Pode deixar, amor. Eu resolvo isso com ele. É meu filho. A gente se entende.
Helena mal teve tempo de olhar para o rosto de Heitor e já foi recebida com um beijo um pouco demorado.
— Bom dia, Helê.
A mão dele deslizava com carinho, mas também com firmeza. Então, abaixou-se de joelhos e beijou a barriga devagar, com um carinho tão delicado que Helena sentiu os olhos marejarem.
Ele subiu o olhar para ela, depois voltou-se para o filho:
— Bom dia, meu garoto... Como tá a sua casa aí dentro, hein? Tá ficando pequena já? Hoje a gente termina o seu quartinho, e eu aposto que você vai adorar.
O bebê se mexeu com força, como se confirmasse. E Heitor sorriu, a doutora havia dito que aquela seria a fase mais agitada do bebê e ela estava certa. Toda aquela agitação que ele mostrava no ultrassom, agora mostrava na barriga dela.
— Minha mãe e a sua avó estão animadíssimas com o chá de bebê — continuou ele, agora fazendo beijos barulhentos na barriga e em troca vendo o filho se mexer.
— Estão fazendo o maior mistério. — disse Helena, se fosse do nível da festa de aniversário que ganhou, seria incrível. A avó dela deve que estava adorando participar.
— Mas você vai ver, moleque, vai ser uma festa do caramba.
Enquanto Heitor falava, a mão livre coçava distraidamente a barriga da Mel, que fazia sons de satisfação. Helena, por sua vez, afundou os dedos nos cabelos dele, afagando devagar.
— Será que o Humbertinho vai ter um cabelo igual ao seu?
— Difícil saber… a médica falou que a cor e textura ainda podem mudar depois do nascimento.
Helena revirou os olhos.
— Heitor! Nada de fatos médicos. Imagina nosso filho!
Ele entendeu finalmente o que ela queria. E sorriu daquele jeito que sempre desarmava ela.
— Tá bom… então eu imagino ele com cabelo cacheado, igual o seu, da sua cor. Mas com os meus olhos. O moleque vai dar trabalho. — ele ri.
— Eu queria que ele fosse mais parecido com você — ela disse num sussurro.
— Helê, a cada ultrassom ele tá mais minha cara. Daqui a pouco vão achar que eu me clonei.
Helena riu, envergonhada.
— Idiota…
— Mas o que eu não faço por você, meu amor… — Ele se levantou devagar, passou os braços ao redor dela e a puxou para perto. — Se Humberto não vier assim, o próximo vem.
— Heitor! Vai demorar um tempão pro segundo!
— A gente não pode esperar muito, Helê… Eu sou um touro, você sabe disso. Não quero ser pai velhinho.
— Você já é meio velho.
— Sou experiente… e em ótima forma.
Ela ergueu as sobrancelhas.
— Aham.
Heitor a apertou contra si, olhando de cima para baixo com aquele sorriso maroto.
— Você já tá pronta?
— Já.
Ela o analisou também. Estava com uma bermuda de moletom preta, chinelo e… sem camisa. A tatuagem à mostra. E, observando bem… sem cueca também.
— Heitor Monteiro… a gente vai receber visita. Vai se vestir.
— Já tô vestido.
Ele apertou a bunda dela com a mão quente e firme.
— Mas… tô a um passo de não estar.
Helena mordeu o lábio, traída pela onda de desejo que a gravidez parecia provocar sem piedade. Ultimamente, bastava ele olhar. Houve até um dia em que ligou chorando pedindo que ele voltasse correndo porque ela o queria naquele exato momento. E ele foi. E ela não se arrependeu.
Acariciou os braços dele, passou os dedos pela cicatriz leve no antebraço, subiu os lábios e começou a beijá-lo.
— Hmm…
Ele riu e encostou a boca na orelha dela.
— Vou te levar pro nosso quarto e te fazer gozar igual ontem… foi tão delicioso.
Ela arfou.
— Vamos, então.
Ele abriu um sorriso vitorioso.
Mas aí…
Toque, toque, toque.
Os dois congelaram. Era uma das funcionárias.
— Senhora Helena, as visitas chegaram.
Helena respirou fundo.
— Pede pra eles aguardarem um pouco, por favor. A gente já vai.
— Sim senhora.
Helena olhou pra Heitor, que já estava com as mãos travadas na cintura dela.
— Podemos continuar?
— Claro, minha gostosa. Por mim, toda hora é hora.
Ela segurou a mão dele. Mas, dessa vez, não cedeu ao impulso. Respirou fundo, firme. Tinha que tentar se controlar pelo menos um pouco.
— Vai colocar uma camisa. E uma cueca também.
— Como assim? Não era esse o combinado!
— Não tem combinado. Vai logo.
— Poxa, Helê…
— Nada de poxa Helê. Vamos receber visita e meu noivo tem que estar, no mínimo, apresentável.
Ele fez um drama, bufando.
— Tá legal. Quer ir comigo?
— Não.
— Nossa… sou muito maltratado nesse relacionamento.
Ela revirou os olhos e o empurrou de leve, rindo.
— Anda logo, Heitor.
Ele deu um beijo demorado nela e foi saindo do quarto.
Helena ficou ali. Sozinha de novo. Passou a mão pelos pêlos da Mel, que estava sentada ao seu lado..
— O que eu faço com esse homem, hein?
Helena saiu do quarto, desceu pelas escadas com calma — ainda recusando o elevador que logo se tornaria rotina — Helena ajeitou alguns fios teimosos atrás da orelha e seguiu até a entrada. A decoradora já estava lá, em pé com sua prancheta e o olhar atento, pronta para coordenar a montagem final. Era uma mulher elegante e eficiente, mas naquele momento parecia quase tímida diante do dia que se anunciava.
Minutos depois, os primeiros a entrar foram Isaac e Jonas.
Isaac veio com um boné virado para trás, camiseta branca básica, bermuda jeans desbotada e chinelo Rider. Um visual confortável e despretensioso. Jonas, como sempre, parecia ter saído de algum ensaio fotográfico improvisado: uma camisa do Flamengo, bermuda de surfista e tênis Vans.
— Oi, Helena! — Isaac sorriu, a abraçando de leve. — Espero que a gente não tenha chegado cedo demais.
— Vocês chegaram na hora certa — ela respondeu, retribuindo o abraço com um meio sorriso.
Jonas deu um chute fraco na canela de Isaac, que se afastou praguejando:
— Porra, cara! Tá de tênis! Que caralhos foi isso?!
— Para você parar de ser otário — Jonas retrucou, puxando Helena para um abraço mais apertado. — Fica esperto, pô! E você, maninha? Como tá? E meu sobrinho?
Helena revirou os olhos, mas sorriu.
— A gente tá bem. Ele tá brincalhão hoje, olha só — ela apontou para a barriga.
Os dois irmãos se abaixaram quase em sincronia quando viram a saliência sob o vestido. Uma pontada visível, um empurrãozinho do pequeno Humberto.
— Lêlê… posso pôr a mão? Só um pouquinho… — Jonas perguntou, surpreso com a própria emoção.
Isaac também encarou Helena, hesitante:
— Eu também quero… se puder, claro.
Helena sentiu as bochechas esquentarem, mas assentiu:
— Podem, devagar. Ainda é meu corpo, tá?
Jonas riu, meio sem graça:
— Eu sei, né…
Jonas esticou a mão em direção, mas Isaac foi mais rápido. A mão dele pousou primeiro na barriga, e ele arregalou os olhos.
— Caraca! Tá empurrando a minha mão! — ele olhou para ela — Tá doendo?
— Não. No começo me assustava, mas agora já conheço os movimentos dele. É quase uma língua diferente que eu tô aprendendo — disse Helena, com um carinho sincero na voz.
— Porra, Zac! Minha vez! — Jonas bufou.
— Espera aí, Humberto tá massageando minha mão, pô.
Isaac sentia os movimentos do sobrinho até que cessaram.
— Ué… parou — Isaac constatou, rindo, ainda com a mão no mesmo lugar. — Acabou, foi?
— Acho que sim — respondeu Helena, rindo.
— COMO ASSIM?! — Jonas fez um bico quase infantil. — Eu quero sentir também!
Isaac tirou a mão, e Jonas colocou a dele rapidamente.
— Vamos lá, cara… sou eu, seu tio favorito. Fiquei sabendo que você gosta de um show. Que tal me mostrar um agora, hein?
Ele olhou para Helena, pedindo ajuda com os olhos. Ela suspirou:
— Calma. Já já ele aparece de novo.
Nada. Jonas tirou a mão decepcionado.
Foi quando Paulo chegou. Camisa polo azul clara, calça branca de linho dobrada na canela, sandálias. Casual, elegante. Aquele jeito de homem público que sabe o que seu visual representa. Trazia uma caixa de ferramentas nas mãos e um sorriso sincero no rosto.
— Helena… — ele disse com ternura e depois olhou para a barriga dela. — O seu filho tá enorme…
Helena sorriu. Fazia alguns meses que não o via, e, por mais estranho que fosse, sentia falta dele — uma falta sutil, parecida com saudade do que nunca teve.
— Tá crescendo bem. A doutora disse que ele é grandão… igual ao pai — ela falou, com humor.
Eles se aproximaram meio sem jeito, os dois hesitando, ela, com a dúvida se o abraçava… ele, estendendo a mão justo quando ela se inclinava para o abraço. Riram. E Paulo tomou a iniciativa, abraçando-a com firmeza e doçura. Helena se deixou ficar ali por um instante, envolvida num afeto que não sabia que precisava. Ela não estava pronta para admitir, mas ele a fazia se sentir bem.
Isaac, do lado, chamou a atenção:
— Pai! O bebê mexeu na minha mão. Sério! Foi demais.
— Deve ter sido incrível, filho.
— Foi sim! Acho que ele gosta de mim.
— Gosta nada — Jonas resmungou. — Ele até parou de se mexer.
— Para, Jonas — Helena ralhou, divertida. — Não seja chato.
— Eu? Chato? Tô sendo sincero!
— Ninguém é chato aqui — Paulo já estava acostumado com as provocações dos filhos, mas ver Helena participando, deixando o seu coração quentinho. — Vamos pôr as mãos na massa, vai.
Isaac, provocando, puxou o boné da cabeça e colocou na Helena.
— Pronto. Agora é arquiteta oficial do quartinho.
Helena colocou a mão no quadril.
— Esse boné é meu agora. Ficou ótimo em mim.
— Nem brinca com isso — Isaac falou meio sério. — Gosto muito desse boné…
— Então compra outro. Esse é meu — ela disse, fazendo careta.
A chegada de Renato interrompeu a brincadeira. Como sempre, pontual. Camisa bege de linho, bermuda caqui, mocassim. Mesmo ali, parecia pronto pra uma reunião do conselho da Monteiro Inc.
Tirou os óculos escuros e cumprimentou Paulo com um aceno discreto. Eles não precisavam de palavras para entender a importância daquele momento: amigos desde sempre, agora montando o quarto do neto juntos.
— Ainda bem que trouxe reforços. Não quero sair daqui com hérnia de carregar cômoda — disse Renato, tentando ser engraçado e não se saindo nada bem.
— Relaxa — respondeu Paulo, com um sorriso. — Eu trouxe ferramentas e juventude.
Renato foi até Helena. O abraço entre eles foi contido, mas sincero.
— Bom dia, Helena. Está bem?
— Bem… e ansiosa. Mal dormi.
— Vai valer a pena.
O olhar de Renato caiu na barriga, que se projetava visivelmente para o lado esquerdo.
— Olha só… meu neto já quer participar da montagem.
Helena acariciou o ventre, rindo.
— Ele adora uma movimentação. Herdou isso do pai, certeza.
Renato olhou ao redor.
— E cadê o Heitor?
— Nos esperando lá em cima. Já deve estar nervoso com a demora.
— Então vamos subir — Paulo disse, posicionando-se ao lado dela.
— Melhor irmos logo — Isaac completou, enquanto coçava a cabeça de Mel, que balançava o rabinho alegre.
Jonas já estava com a ‘cachorrinha’ no colo, indo na frente.
E assim subiram todos.
Os cinco homens. Uma decoradora. Uma mulher grávida. Uma cachorrinha.
E uma nova história prestes a ser escrita dentro de um quarto azul e dourado chamado Humberto.
O corredor do segundo andar da mansão Monteiro estava tomado por sons abafados de risadas e passos desordenados. Helena vinha à frente, subindo devagar por causa da barriga, e atrás dela estavam Renato, Paulo, Jonas e Isaac. E todos vinham rindo, comentando sobre como nunca tinham montado um quarto na vida.
Ao abrirem a porta do quarto do bebê, deram de cara com Heitor já ali, ajoelhado no chão de madeira nobre, com peças desmontadas espalhadas ao redor. Ele usava uma camisa tricolor do Fluminense, o mesmo short de moletom preto, agora claramente de cueca, e chinelo. Estava concentrado, com a testa levemente franzida enquanto conferia uma das peças do berço. Ouvia o som de um leve sertanejo tocando de uma caixa de som ao fundo.
— Tinha que ser, né? — Jonas resmungou ao ver a camisa. — Esse moleque vai nascer achando que o Fluminense é bom.
Heitor ergueu o olhar, com um sorriso de canto.
— Melhor isso do que nascer achando que 1981 foi ontem, né?
— Tão metido que quer montar o berço sozinho — completou Jonas, provocando.
— Vai querer ajudar, Jonas? — Heitor provocou de volta. — Ou tá com medo de estragar a manicure?
Isaac soltou uma risada abafada, entrando logo atrás. Helena, já dentro do quarto, apenas observava a cena com um sorriso. Sentou-se com cuidado na poltrona branca, puxando uma caixa para começar a abrir os objetos de decoração como fora orientada. Sua barriga se acomodou entre os braços e ela deu uma olhadinha para a lateral, onde estavam as caixas das decorações.
Mel havia ficado de fora, tinham peças muito pequenas e todos sabiam que a cachorrinha não podia ver nada que já pegava.
A decoradora, uma moça elegante e calma, já esperava por todos com um rolo de anotações e lista de tarefas em mãos. Ela estava animada com a energia daquele ambiente.
— Que bom que chegaram todos. Vamos organizar as funções. Heitor…
— O berço é meu — ele cortou antes mesmo que ela terminasse, já abrindo a caixa com uma chave philips na mão. — Sozinho.
— Senhor Heitor, esse modelo é complicado…
— Nada é complicado pra mim — Ele respondeu, firme, ainda com um sorriso no canto da boca.
Helena riu baixinho.
— Tudo bem — disse a decoradora, sorrindo sem insistir. — Senhor Renato e senhor Paulo, eu vou precisar que montem essas gavetas embutidas e instalem essas portas dos armários planejados. Está tudo aqui, já separado.
Renato olhou para Paulo com a típica expressão contida dele, mas deu um breve aceno de cabeça.
— Vai dar trabalho, hein — comentou Paulo, já puxando a primeira peça. — Mas se é pelo meu neto… a gente monta até castelo.
Helena olhou para ele surpresa. Ainda não estava acostumada a ouvir “meu neto” saindo da boca dele com tanta naturalidade. Mas ali, naquela hora, não soou estranho. Soou bonito.
— Jonas e Isaac — continuou a decoradora — vocês dois vão organizar os móveis pequenos conforme esse desenho. Nada pode ser fora da planta. Tudo aqui, nesse papel.
— Móveis pequenos? — Jonas ergueu uma sobrancelha. — A gente não vai montar algo grande, tipo a cama?
— O bebê não vai dormir numa cama de casal, né, gênio? — Isaac ironizou, pegando o papel das mãos dela.
— Vocês dois — Helena apontou, balançando a cabeça. — Vão acabar montando uma estante de cabeça pra baixo.
— Vai anotando aí, maninha — Jonas disse, inflando o peito. — A gente vai fazer isso aqui parecer uma suíte de hotel cinco estrelas. Melhor, seis estrelas.
Enquanto isso, Heitor lutava com as primeiras peças do berço, claramente ignorando as instruções. Ele franzia o cenho, olhava a peça, depois olhava para a caixa como se ela fosse culpada por tudo.
— Tá com dificuldade, Monteiro? — Paulo provocou, sem tirar os olhos das dobradiças que encaixava.
— Não. Tô só respeitando o tempo do móvel. Ele vai se curvar à minha vontade em breve.
— É... igual você, né? Arrogante até com madeira — comentou Jonas, tirando sarro.
Helena assistia a tudo de camarote. Abria com calma uma caixa atrás da outra: os quadros, os enfeites de parede, as almofadas, a mantinha azul naval da Little Giraffe. Cada item que saía das caixas parecia tornar tudo mais real.
Um lar estava nascendo ali.
Um espaço feito para o filho deles.
E ver aqueles homens — tão poderosos, tão acostumados a serem servidos — ajoelhados, suando para encaixar peças e discutir parafuso… foi uma cena que Helena nunca pensou que viveria.
Ali, no meio do caos, do calor, das provocações e das peças sendo montadas ao contrário… havia amor.
Muito amor.
E por um instante, ela fechou os olhos, ouvindo as vozes ao redor. E sentiu: seu filho era mesmo muito querido.
— Ei, Helena — chamou Isaac, estendendo uma peça. — Isso aqui é parte da decoração ou é lixo mesmo?
— Peça — ela riu. — Mas obrigada por perguntar antes de jogar fora. Já tá evoluindo.
Heitor, ainda focado no berço, parou por um instante. E, sem olhar para ninguém, apenas falou:
— É isso mesmo.
Jonas estava ajoelhado no chão, cercado por barras de alumínio, rodinhas, alças e travas que pareciam não conversar entre si. Ele olhou de novo para a peça na mão, depois para o que já tinha encaixado. Franziu a testa. Aquilo com certeza não era o encaixe certo. Disfarçado, esticou o braço e puxou o manual que tinha deixado de lado.
Heitor não deixou passar.
— Ihhh… pegou o manual? — soltou com um sorriso debochado, sem desviar os olhos do berço que já ganhava forma no centro do quarto. — Não era tudo “intuitivo”?
Jonas rebateu rápido, balançando o papel no ar:
— O manual só voou, pô. Tava no vento aqui. Nem preciso disso.
— Claro que não. — Heitor riu, enquanto encaixava duas peças com precisão cirúrgica.
Heitor terminou de encaixar uma das laterais do berço com um clique firme e ajeitou a camisa tricolor que colava levemente no corpo por causa do calor. Com a expressão satisfeita, limpou as mãos nos shorts de moletom e olhou diretamente para Helena, que estava sentada na poltrona abrindo mais uma caixa.
— Tá vendo isso aqui, amor? — ele chamou, todo orgulhoso, batendo levemente na estrutura já erguida. — É precisão, técnica e uma dose generosa de talento natural. Fala aí, tá ficando bonito, né?
Helena riu, balançando a cabeça.
— Tá ficando maravilhoso… você é mesmo muito bom nisso.
— É que eu sou esforçado. — ele piscou para ela, exibindo aquele sorriso convencido que só ele sabia dar. — Essas peças dos pés são quase iguais às das laterais. Pegadinha das brabas, mas eu vi a diferença.
Antes que ela respondesse, Isaac apareceu ao lado com um sorriso, apontando para o canto onde o trocador já estava no lugar.
— Ei, Helena! Viu como eu montei rápido? Esse trocador aí, ó — disse com orgulho. — Alinhado, nivelado e sem sobrar peça nenhuma!
— Rápido mesmo — ela elogiou com carinho. — Parabéns, ficou ótimo.
Do outro lado do quarto, Jonas não quis ficar de fora:
— E esse carrinho aqui, hein? Já tá tomando forma. Tá gostando, Lêlê?
Ela olhou para ele, para as rodas ainda desencaixadas, e tentou conter o riso.
— Tô sim, Jonas. Eu adorei esse modelo quando vi na loja. É próprio pra recém-nascido, super prático.
— Claro, né — ele levantou o queixo com fingida superioridade — carrinho de qualidade... e montador melhor ainda.
Renato pigarreou alto, chamando a atenção.
— Só pra constar, as portas estão perfeitas. Alinhadas, bem espaçadas e sem nenhum arranhão. Obra de arte.
Paulo, com a parafusadeira eletrônica na mão, ergueu a voz logo em seguida:
— Eu já acabei as gavetas. Só avisando. E com acabamento profissional, que fique registrado.
Helena segurou o riso, olhando para cada um deles com os olhos brilhando de carinho. Pareciam crianças querendo mostrar um desenho para a professora.
— Gente… vocês estão incríveis. De verdade. Um time de primeira.
Ela voltou a mexer nas caixas, rindo sozinha. Estava quase terminando de abrir a última quando sentiu um movimento suave, um pequeno chute dentro de si. Levou a mão até a barriga com ternura.
— E você também tá sendo ótimo, meu amor — murmurou para o bebê, sorrindo de lado, o bêbê também queria atenção.
A voz dela era baixa, mas Heitor ouviu. Parou o que estava fazendo e olhou na direção dela, com um brilho nos olhos.
O quarto já estava praticamente montado quando começaram os detalhes. Aquele tipo de tarefa final que exige paciência: limpar os móveis com paninhos úmidos, guardar cada roupinha no lugar certo, escolher onde vai a manta, onde vai a naninha. Tudo feito com cuidado, como se qualquer erro pudesse acordar o bebê antes da hora.
Helena foi se sentar na poltrona de amamentação — a mesma que tinham testado juntos na loja e onde Heitor a obrigou a sentar cinco minutos inteiros para ver se era confortável “de verdade”. Com a barriga já pesada e as pernas começando a inchar, ela preferiu ficar ali coordenando e ajudando como podia. À sua volta, o clima era de leveza.
Ela retirou do cesto de roupas um bodyzinho branco com detalhes em azul claro.
Sorriu.
Acariciou o tecido, passando o polegar pela gola minúscula.
— Imagina isso aqui nele, gente… — disse, quase em tom de pensamento, com um sorriso derretido. — Meu Deus… vai caber um ser humano aqui mesmo?
Heitor se aproximou, suado, segurando um pano na mão.
— Um ser humano meio Monteiro, meio Ribeiro Campos. Acha mesmo que vai caber num bodyzinho assim?
— Vai ser do tamanho do pai quando nascer? — ela riu. — Coitada de mim.
— Tá dizendo que eu sou grande? — ele piscou, atrevido.
Paulo limpava as prateleiras com um pano e comentou de longe:
— Você não era assim tão grande quando era pequeno. Só cresceu depois dos doze.
— Cresci bem. — Heitor sorriu convencido, pegando a decoração que faltava.
Isaac ria enquanto organizava os paninhos e fraldas nas gavetas recém-montadas.
Jonas ajeitava os livros infantis no nicho, mas não perdeu a deixa:
— Se puxar à mãe vai ser bonito. Se puxar ao pai vai ser metido.
Heitor levantou a sobrancelha.
— Isso vindo de alguém com a camisa do Flamengo dentro da minha casa é elogio.
— Olha o respeito com o Mengão — retrucou Jonas. — Mas vou fingir que não ouvi porque hoje é dia de paz. Quarto do bebê, momento família.
Renato arrumava o cabideiro enquanto fingia que não ouvia as provocações. Paulo riu com a conversa e puxou outro pano.
O toque final veio com os quadros.
Heitor os pegou com reverência, foram os detalhes especiais que Helena pediu em homenagem a ele.
— Tá pronto pra pendurar, amor? — ele perguntou, virando-se para Helena.
Ela assentiu, se levantando.
— Tô. Eles são perfeitos.
Os quadros eram realmente delicados. Pinturas em aquarela de três ursinhos, um em cada quadro. O primeiro, chutando uma bola com focinho empinado, todo concentrado. O segundo, de pezinhos juntos, com a bola debaixo do braço e uma expressão quase séria, como se estivesse esperando o apito do juiz. O terceiro, com os bracinhos erguidos e um sorriso aberto, em clara comemoração. Todos com uniformes nos tons do quarto.
Heitor os posicionou na parede, fazendo questão de centralizar perfeitamente sobre o trocador.
— Esse aqui… — ele apontou para o primeiro — vai inspirar ele a chutar. O segundo é pra ele aprender a esperar o momento certo. E o terceiro…
— É pra ele saber comemorar quando vencer — Helena completou, olhando para o marido com ternura.
— Isso. — Ele sorriu, emocionado. — Tudo que um Monteiro precisa.
— E um Ribeiro Campos também — ela corrigiu.
Eles se entreolharam.
Aquele momento tinha algo de sagrado.
Paulo apareceu ao lado, colocando o móbile de ursinhos e estrelas no suporte.
Isaac ajeitava o tapetinho ao pé do berço.
Renato limpava os vidros da janela.
Jonas ajeitava a almofada no sofá do quarto.
Cada um, à sua maneira, participando daquele ritual de amor.
Helena olhou em volta. O quarto estava pronto. O bebê estava quase chegando. E ela… ela estava cercada dos homens mais importantes da vida dela. Sentia-se segura, protegida, amada.
Sentiu um leve chute.
— Ele também gostou — murmurou, acariciando a barriga.
Heitor se virou, percebendo o gesto.
— Ele chutou?
Ela assentiu.
Ele se aproximou, se agachou ao lado dela e encostou os lábios no ventre arredondado.
— Filho… você já tem seu reino. Agora só falta vir pra comandar — disse, em voz baixa.
Humberto como sempre, deu outro chute, respondendo o pai.
Aquela era a nova era dos Monteiro. E começava ali, naquele quarto que esperava um garotinho para chamar de seu.
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