O CEO que Eu Paguei
207 Meu Quentinho Tá Diferente
POV HUMBERTO MONTEIRO
Tudo começou normal.
Bem normal.
Quentinho.
Apertadinho.
Do jeito certo.
Eu acordei todo dobrado, como sempre. Cabeça pra baixo, perna atravessada, braço todo espremido. É assim que eu durmo agora. Antes eu rodava por toda parte, agora eu tô meio parado.
Eu tentei me espreguiçar.
Ou… tentei tentar.
Meu pé saiu um pouquinho e já bateu na parede. Minha mão fez força e só encostou em mim mesmo. Eu fiz uma careta, ou algo parecido com isso.
“Ué…”
Eu tentei de novo.
Força.
Mais força.
Nada.
Aí eu fiquei orgulhoso.
“Nossa. Eu fiquei grandão mesmo.”
Antes eu dava voltinhas. Girava. Rodava. Fazia dança de bebê nadador. Agora não. Agora meu mundo é pequeno, mas ele é todo meu. Eu encosto em tudo ao mesmo tempo.
O tum-tum da mamãe estava calmo. Bem calmo.
Tum… tum… tum…
Quando o coração dela fica assim, eu fico feliz também. Eu dei um chutinho pequeno, só pra avisar que eu acordei.
Ela sentiu.
Claro que sentiu.
A mamãe sempre sente agora.
A mão dela veio por fora, passando devagar, bem onde eu tinha tocado. Eu fiquei todo quentinho por dentro. Meu rosto fez aquela coisa gostosa de novo, aquela que acontece quando eu fico muito contente.
Eu acho que isso é sorrir.
Eu fiquei todo convencido:
“Viu? Sou eu. Você me ouviu mamãe, você é muito boa nisso.”
Eu tentei chutar de novo. Demorou. Precisei fazer força. Consegui. Cansa mais agora. Antes era fácil. Agora é tipo empurrar o mundo inteiro com um pé só.
Mas eu consegui, então tá ótimo.
A mamãe falou comigo. Eu não entendo nada, mas eu sei que é comigo. A voz dela entra aqui como cobertor.
Tudo estava certo.
O mundo estava certo.
O quentinho estava certo.
Eu estava certo.
Eu pensei em dar uma voltinha.
Só uma.
Comecei a mexer o corpo, tentando girar o ombro, depois a perna… e nada. Nada mesmo. Eu fiquei preso no mesmo lugar.
“Ué… ué… ué…”
Eu tentei me desvirar.
Não deu.
Tentei levantar a cabeça.
Não deu.
Tentei virar pro outro lado.
Também não deu.
Eu fiquei quietinho um segundo, pensando do meu jeito de bebê.
“Tá… acho que agora é assim.”
Tudo bem.
Eu me encaixei de novo.
Apertado, mas confortável.
Só que…
alguma coisa estava estranha.
Veio um empurrão.
Não forte.
Só… diferente.
Não era o aperto normal, gostoso. Era outro tipo. A casa ficou dura. Dura demais.
“Hmm… isso é novo.”
Veio outro empurrão.
Maior.
Eu deslizei um pouquinho pra baixo.
Pouquinho.
Mas eu nunca tinha ido pra baixo antes.
“Ei… eu não costumo ir pra baixo.”
Eu tentei subir. Fiz força com as pernas. Nada. A parede estava muito dura.
Veio mais um empurrão.
Mais forte.
Eu desci de novo.
Meu coraçãozinho bateu rápido.
Tum-tum-tum.
Eu tentei fingir que estava tudo bem. Eu sou um menino corajoso. Pelo menos gosto de achar que sou.
“Calma… deve ser brincadeira do mundo.”
Mas o mundo não parou.
Ele apertou de novo.
E de novo.
Cada vez eu ia um pouquinho mais pra baixo.
Agora não era só estranho.
Agora dava medo.
Eu fiquei bem quieto. Bem quietinho. Tentando não chorar, porque eu não queria preocupar a mamãe.
“Vai passar… vai passar…”
Mas não passou.
A casa estava dura.
E ela me empurrava.
Eu tentei chamar a mamãe com um chute, mas o chute saiu fraco. Meu corpo estava cansado. Tudo estava muito apertado. Bem mais que antes.
“Mamãe…?”
Ela respirou diferente.
Eu conheço essa respiração. Quando a respiração dela muda, é porque alguma coisa grande está acontecendo lá fora.
Veio outro empurrão.
Eu desci mais.
Agora eu não consegui fingir.
Meu peito ficou apertado.
Meu corpo ficou tenso.
“Não… eu gosto daqui!”
Eu pensei no meu quentinho.
No tum-tum.
Na mão da mamãe.
E no papai.
Eu chamei o papai.
Não sei falar.
Então chamei do jeito que eu sei.
Eu me mexi.
Devagar.
Com esforço.
“PAPAI! ME AJUDAA!!”
Nada aconteceu.
Não veio aquela sensação boa.
Não veio aquela vibração conhecida.
Eu chamei de novo.
“Papai…?”
Veio outro empurrão.
Eu desci mais.
Agora eu fiquei preocupado de verdade.
Normalmente o papai vem.
Normalmente ele aparece.
Mas agora…
ele não estava aqui.
“Papai… cadê você?”
Eu tentei ser forte. Eu tentei muito. Mas estava difícil. Muito difícil. A casa não era mais só quentinha. Ela estava me levando pra um lugar que eu não conhecia.
“Eu não quero ir…
Eu quero ficar…
Esse é meu lugar…”
Veio outro empurrão.
Eu desci mais um pouco.
Eu chamei de novo, agora mais apertado por dentro:
“Mamãe… eu tô com medo…”
Nada.
Só o empurrão.
Só a casa dura.
Só a descida.
Eu fiquei triste. Um triste pequeno, mas pesado. Porque eu não entendia por que, dessa vez, o papai não vinha.
“Ele sempre vem.”
Eu me agarrei no que eu tinha.
No tum-tum da mamãe.
Na respiração dela.
No carinho que ainda vinha quando eu mexia.
A mamãe estava ali.
Ela sempre está.
Então eu fiquei quietinho. Bem quietinho. Eu sou muito corajoso, vai ficar tudo bem.
A casa empurrou de novo.
Eu desci mais um pouquinho.
Sem entender.
Sem querer.
Sem saber que tudo estava acontecendo rápido.
Eu só sabia que meu mundo estava mudando…
e que, dessa vez, eu estava indo sem o papai por perto.
E isso me dava muito medo.
A casa apertou de novo.
Dessa vez não foi de surpresa.
Foi forte.
Bem forte.
Eu desci um pouquinho mais, mesmo sem querer.
Eu fiquei quieto, tentando entender. Eu não entendo quase nada, mas eu sinto tudo. E agora eu sentia que o meu quentinho estava… diferente. Não era mais só abraço. Estava duro. Muito duro.
“Mundo… por que você tá assim?”
Eu tentei me mexer.
De verdade.
Com toda a força de bebê grandão que eu tenho.
Meu pé empurrou… não foi.
Meu joelho tentou ajudar… também não foi.
Eu fiquei preso do jeitinho que eu não gosto.
Antes, quando eu mexia, a mamãe sentia. Sempre sentia. Ela passava a mão, falava comigo, respondia.
Mas agora…
Eu mexi.
E nada aconteceu.
Não veio a mão.
Não veio o carinho.
Meu peito ficou apertado de um jeito estranho.
“Mamãe…?”
Eu tentei de novo. Um chutinho pequeno, meio tímido, porque eu já estava cansado.
Nada.
O mundo estava duro demais. Tão duro que eu nem conseguia sentir a mamãe direito. Isso nunca tinha acontecido.
“Mamãe… você tá brava comigo?”
Essa ideia entrou devagarinho, como um frio pequeno dentro do quentinho. Eu não sabia por quê, mas fiquei com medo. Eu amo tanto a mamãe. Ela é tudo. Ela é minha casa, meu som, meu mundo, meu cheiro, meu tudo.
“Eu fiz bagunça demais?”
Veio outro empurrão.
Eu desci mais.
Meu coraçãozinho começou a bater rápido. Tumtumtum. Eu não gosto quando ele bate assim.
A respiração da mamãe mudou de novo.
Eu senti.
Ela estava fazendo força. Muita força. A casa inteira fazia força junto com ela.
“Mamãe tá cansada…”
Eu fiquei preocupado de verdade agora.
“Será que eu tô machucando ela?”
Eu tentei ficar bem quietinho. Bem parado. Do jeitinho mais educado que um bebê consegue ser e que eu nunca tinha sido antes.
“Desculpa, mamãe… eu tento não mexer…”
Mas a casa não parou.
Ela empurrou de novo.
E eu fui pra baixo.
Meu corpo ficou tenso. Eu queria chorar. Então eu fiz a única coisa que eu sei fazer quando o mundo fica diferente.
Eu pensei no cheiro da mamãe.
Ah…
o cheiro dela.
Mesmo com a casa dura, mesmo com o empurrão, o cheiro dela ainda estava ali. Quentinho. Conhecido. Meu.
Isso me acalmou um pouquinho.
Meu rosto quase fez aquela coisa gostosa… quase sorriu… mas não deu. Eu estava preocupado demais.
“Mamãe… eu tô aqui… eu te amo… não fica brava porque eu faço bagunça”
Eu chamei o papai.
Chamei do meu jeito.
Com um mexido pequeno.
Com um esforço grande.
“Papai…?”
Nada.
Não veio aquela sensação boa.
Não veio a vibração.
Eu fiquei mais preocupado ainda.
Normalmente, quando a mamãe fica assim, o papai aparece. Ele ajuda. Ele segura. Ele acalma tudo.
Mas agora…
ele não estava aqui.
“Será que o papai se perdeu?”
Essa ideia me deixou triste. Um triste apertado, do tamanho certinho do meu peito pequeno.
A casa empurrou de novo.
Eu desci mais um pouquinho.
Agora estava muito apertado. Muito, sério. Não parecia brincadeira. Parecia que algo grande estava acontecendo… e eu não entendia nada.
“PAPAI! EU TÔ AQUI!”
Eu queria ser forte. Eu queria ajudar a mamãe. Eu queria ficar quietinho e obediente. Mas o medo estava ali, fazendo barulho dentro de mim.
“Mamãe… a casa tá muito estranha! Não sou eu! É ela!”
O carinho da mamãe não vinha mais como antes. A casa estava dura demais. Mas o cheiro dela continuava.
E isso me salvava um pouquinho.
Veio outro empurrão.
Eu desci mais.
“Papai… vem logo…
mamãe tá fazendo força…
eu tô com medo…”
Eu segurei o cheiro da mamãe com tudo que eu tinha. Eu me agarrei nele como se fosse uma mão invisível.
Porque mesmo com medo…
mesmo sem entender…
mesmo descendo…
eu sabia de uma coisa:
a mamãe estava comigo.
e eu amava ela mais do que tudo.
E eu continuei descendo…
bem devagar…
bem apertado…
esperando o papai achar o caminho
e esperando a casa parar de empurrar.
Eu fiquei bem quietinho.
Quietinho de verdade.
Minha cabeça estava lá embaixo, bem presa, bem encaixada. Eu não gostava muito disso, mas tentei não reclamar. Talvez fosse assim que eu ajudava. Talvez a mamãe precisasse que eu não me mexesse tanto agora.
“Tá bom, mamãe…
eu fico quieto…”
A casa estava dura. Muito dura.
Não era mais o meu quentinho de sempre. Era como se ela tivesse decidido alguma coisa sozinha.
Eu tentei segurar.
Tentei ficar no mesmo lugar.
Mas a casa empurrou.
E eu desci mais um pouquinho.
Eu não mexi.
Não chutei.
Não reclamei.
“Eu tô ajudando…
tô ficando quietinho…”
Mas não adiantou.
A casa empurrou de novo.
Era como se ela estivesse dizendo que eu tinha que ir. Mesmo eu não querendo. Mesmo eu gostando tanto daqui.
Meu peito ficou apertado de medo.
“Mamãe…
não é que eu queira ir…
eu gosto tanto daqui”
Eu senti o cheiro dela de novo. Mesmo diferente, mesmo tudo apertado, o cheiro ainda estava ali. Meu. Conhecido. Seguro.
Isso me fez aguentar mais um pouco.
“Mamãe… eu te amo…”
A casa empurrou outra vez.
Eu desci mais.
Agora era claro: eu não estava indo porque eu queria.
A casa estava me mandando embora.
Eu fiquei triste. Um triste pequeno, mas fundo.
“Eu queria ficar com você mamãe…”
Eu tentei ajudar do único jeito que eu podia: ficando quietinho. Bem quietinho. Como se, se eu não fizesse barulho, talvez ela desistisse de me empurrar.
Mas a casa não desistiu.
Ela empurrou de novo.
E eu estava indo.
Mesmo com medo.
Mesmo sem entender.
Mesmo querendo ficar.
Eu me agarrei no cheiro da mamãe com tudo que eu tinha.
“Mamãe…
fica comigo…
me protege…
não me deixa sozinho…
não me deixa ir embora”
Eu não sei pra onde eu tô indo.
Eu só sei que não quero ir.
Enquanto a casa me empurrava…
eu fui descendo…
bem quietinho…
torcendo para a casa não me mandar embora e não levar a mamãe também.
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