O CEO que Eu Paguei
222 O Corpo da Noite
Helena ainda sentia ele dentro de si.
O corpo forte e quente de Heitor repousava sobre o dela, os cabelos levemente bagunçados, o rosto com aquele sorriso exibido que apenas ele tinha.
Helena nem lembrava mais do vestido que tinha colocado para sair, nem da maquiagem leve que havia feito minutos antes. Agora estava com o vestido puxado até a cintura, as pernas entrelaçadas nas dele e os lençóis embolados sob o corpo.
Heitor passou o nariz pelo pescoço dela, aspirando com prazer. O gemido que escapou de Helena foi baixo, involuntário, carregado de sensualidade. Ainda havia desejo entre suas pernas, um resquício vivo do que haviam acabado de fazer. Era como se o corpo dela ainda gritasse por mais, mesmo depois de tanto.
— Esse seu cheiro… me deixa louco, sabia? — ele murmurou, com os lábios tocando a pele sensível de seu pescoço. Deixando beijos lentos e úmidos pelo caminho
Helena passava os dedos entre os fios do cabelo dele, sentindo a pele suada e quente colada à sua. O coração dela batia em paz e em excitação. Um misto que só Heitor despertava.
Os beijos dele subiram, suaves, apaixonados e lentos, até alcançarem sua bochecha. Ele parou ali por um instante e sussurrou, com a voz rouca:
— Te amo muito.
Ela abriu os olhos e encontrou os dele. Os olhos azuis dele estavam claros como céu limpo. Era impossível não sorrir para ele.
Desceu a mão pelo rosto dele, acariciando sua pele, puxando de leve a bochecha. Ele era lindo. Lindo demais. E ela amava cada detalhe dele também.
— Eu também te amo… cada dia mais.
Ele retribuiu o sorriso, e passou o polegar devagar pelas sardas dela, como se já não tivesse memorizado cada detalhe dela.
— É a mesma coisa comigo. Não tem um só dia que eu não te deseje mais.
Helena sorria, ainda com a respiração descompassada.
— Podemos ficar? — ela perguntou, num tom manhoso, passando a mão pelo peitoral dele. — Sinceramente, não queria passar a noite com a Ana Alice.
— A Ana Alice vai estar lá? Achei que seria só você e o Isaac. — Heitor disse em um tom de brincadeira e riu depois.
Ela riu também, mas suspirou em seguida, sentindo o calor entre as coxas.
— Preciso tomar banho de novo… mas não tô com a menor vontade de sair de baixo de você.
— Duas coisas — ele respondeu com a voz arrastada, os lábios roçando na clavícula dela. — Você não precisa sair de baixo de mim. E também não precisa de banho.
— Heitor… a gente tá cheirando a sexo.
— E eu acho isso deliciosamente excitante — ele sussurrou.
— A gente vai buscar o seu filho no andar de baixo com esse cheiro? — ela resmungou.
Ele suspirou, vencido.
— Tá… tem razão — disse, e selou um beijo preguiçoso nos lábios dela. — Mas ó… nem conta como sexo mesmo. Foi só uma rapidinha. A gente tá tecnicamente vestido. Minhas calças ainda tão nos joelhos e você tá de vestido. Relaxa.
Helena estreitou os olhos.
— Esqueceu que eu tô toda suja do seu… gozo?
Heitor riu, sem o menor pudor.
— Não fala assim, amor. Fala com carinho. É meu DNA, expelido com amor, com intenção de gerar outro bebê maravilhoso. Já fizemos um antes, lembra?
Ela revirou os olhos, mesmo sorrindo.
— Sim, e ele tá lá embaixo… esperando a gente.
— Um pouco de distância dos pais não vai matar o garoto.
Helena o olhava com tanto carinho que sentia seu coração se encher.
Ela deslizava a mão distraída pelo abdômen dele, e vez ou outra os dedos brincavam com os botões abertos da camisa. A outra subia até a orelha dele, um gesto distraído e íntimo.
— Meu irmão tá esperando a gente — disse, tentando disfarçar o sorriso travesso. — É melhor irmos.
Heitor não respondeu de imediato. Seus olhos a encararam com intensidade e algo mais primitivo do que carinho acendeu ali.
Ele apoiou os antebraços ao redor do rosto dela e voltou a se movimentar com lentidão.
Helena gemeu baixo ao senti-lo a penetrar cada vez mais fundo, mesmo com o corpo cansado.
Ela o abraçou pelas costas, sentindo cada investida lenta e profunda, como se ele quisesse entalhar dentro dela o quanto a desejava.
Heitor a beijou, abafando os gemidos dela com a boca, o que só a deixava ainda mais molhada.
A fricção dos corpos, o barulho molhado e o calor compartilhado entre eles formavam uma sinfonia íntima, abafada pelas paredes daquele quarto.
Quando ele levou a mão até o topo da cabeça dela e rosnou de prazer, Helena sentiu o corpo todo vibrar. Ele se movia mais rápido agora, mais fundo, e ela gemeu alto, descontrolada.
Ele sussurrou entre os dentes, a respiração falha:
— Vou gozar… não aguento mais — ele disse com a voz grave, os olhos fechados de prazer.
Ela sentiu o corpo dele tenso, o quadril pressionando o dela com força, até que ele se derramou dentro dela com um suspiro rouco e satisfeito.
O preenchimento quente a fez arfar, enquanto ele fazia mais duas ou três investidas firmes antes de parar completamente, ofegante, os olhos fechados.
Heitor saiu de dentro dela devagar e desabou sobre os seios dela, como se o corpo tivesse perdido as forças.
Helena passou as mãos pelo cabelo dele, acariciando as costas por cima da camisa. Ainda sentia ele pulsando dentro dela, e o calor entre suas pernas era a lembrança viva de como pertenciam um ao outro.
— Heitor… — ela sussurrou.
— Hm?
— Eu sou muito feliz por ter tido um filho seu. O nosso filho.
Heitor ergueu o rosto, os olhos azuis agora calmos e apaixonados. Depois sorriu daquele jeito que só ele sabia sorrir para ela.
— E eu também sou — ele respondeu. — Você é a única mulher que poderia carregar o meu filho. A única que quero passar a minha vida.
Helena sentiu os olhos arderem. A verdade era que… mesmo que tentasse, ela nunca conseguiria explicar para ninguém o que era aquele amor.
Ela só sabia que era dele.
E que ele era dela.
Eles ainda trocaram alguns beijos, rindo entre carícias descompromissadas, mas Helena teve que se afastar antes que a coisa começasse a esquentar de novo. O corpo ainda pulsava, e o cheiro de sexo no ar a deixava tonta — uma mistura inebriante de desejo saciado e provocação latente.
Seguiu até o banheiro, sentindo o vestido colar de leve na pele. Se lavou o mais rápido que conseguiu, trocou o vestido e fez a maquiagem, mesmo com os pensamentos desconcentrados. Olhou o próprio reflexo e mordeu o lábio inferior: tinha ficado marcada. Por dentro, por fora, por inteira.
Enquanto isso, Heitor, prático como sempre, usou um lenço umedecido no membro e ao redor, ajeitou a calça e lavou as mãos como se fosse só mais uma sexta-feira qualquer. Helena suspirou. Ser homem era uma facilidade injusta.
Quando ela saiu do quarto ajeitando os brincos, ele já a esperava no corredor, impecável. Mas não por muito tempo.
— Vem Helê, antes que eu te jogue na parede de novo — ele murmurou, rindo, e a puxou para perto, abraçando-a forte, as mãos quentes na cintura dela.
— Heitor, a gente vai se atrasar — ela disse, entre risos.
— Nunca estou atrasado se estou com você — ele provocou, colando a boca no pescoço dela.
Ele começou a subir os beijos e logo já estavam se beijando novamente, Heitor a prensou na parede, Helena arfou. Quando se separaram por um instante, Heitor tinha um sorriso safado no rosto e Helena o observou, surpresa.
Soltou uma risada divertida quando viu o estado da boca dele, estava toda suja do batom vermelho que ela usava. Sem pensar duas vezes, puxou o celular da bolsa e tirou uma foto.
— Tá lindo viu, CEO da Monteiro Inc., de batom.
Heitor sorriu, a boca e ao redor tudo sujo de batom.
— Então me deixa marcar você também — ele disse, fazendo um biquinho todo provocador.
Antes que ela pudesse escapar, ele tentou deixá-la com uma marca de batom no rosto. Helena saiu correndo, rindo alto pelo corredor do andar de cima. Ela tropeçou de leve, rindo mais ainda, até ser alcançada por ele.
— Ah, agora você vai ver, dona Helena! — Heitor a encheu de beijos estalados no rosto, pescoço, onde conseguiu alcançar, deixando-a toda marcada de volta.
— Você é ridículo! — ela falava entre risos, tentando limpar o rosto.
— E você tá maravilhosa — ele respondeu, ainda a segurando pela cintura. — Pronta pra mais um round?
Ela bateu de leve no peito dele, fingindo bravura.
— Anda, a gente precisa descer. — E então sorriu, rendida. — Mas antes, vamos limpar esse seu rosto.
No banheiro de apoio, Heitor reclamou, todo manhoso, enquanto ela removia as manchas de batom com o demaquilante.
— Por que você compra um batom que gruda mais que promessa de político?
— Porque ele é à prova de babões abusados como você, pelo menos, era o que eu achava. — ela respondeu, passando por ele e dando um tapinha divertido na bunda dele, enquanto seguia para buscar mais do produto.
A sorte era que tinham se arrumado com antecedência, Heitor e sua obsessão por pontualidade cronometrada. Bom, pelo menos era assim em momentos em que eles não estavam juntos.
Por fim, desceram pelo elevador de mãos dadas. O toque dos dedos entrelaçados era simples, mas carregava tudo: cumplicidade, calor e desejo. Helena se sentia flutuando.
Quando chegaram à ante sala, o som que ouviram os fez voltar a sorrir.
A gargalhada do filho.
Doçura pura. Um som cheio de vida, capaz de aquecer o mais gelado dos dias. O coração de Helena se encheu, os olhos brilharam.
Entraram na sala e encontraram a cena: o pequeno estava deitado sobre o tapete de atividades, gargalhando alto para Afonso, que fazia uma voz engraçada e perguntava:
— Cadê o bebê do vovô? Sumiu? Sumiu?!
Dona Olívia, como sempre, corrigia.
— É bisavô, Afonso. Não vovô.
— Ah, bisavô é muito feio. Parece nome de relíquia antiga. Eu sou jovem demais pra isso — ele resmungava, mesmo com os olhos sorrindo.
Heitor apertou a mão de Helena e a puxou de leve para mais perto.
Se despediram dos mais velhos com abraços demorados, palavras gentis e sorrisos agradecidos. Helena foi a última a soltar a mão de Afonso, o gesto silencioso de uma mulher que confiava os cuidados e o afeto do lar àquela figura que, no fundo, agora também era sua família.
Heitor já estava pronto. A bolsa do bebê pendurada em um dos ombros, o outro braço ocupado com o pequeno Humberto, que sorria como se a noite fosse a melhor coisa do mundo. O bebê balançava as mãozinhas no ar, encantado com os botões do terno do pai e os reflexos da luz do corredor. Heitor falava com ele num tom mais doce que qualquer sobremesa do restaurante que visitariam. E embora Humberto se distraísse com a voz grave e divertida do pai, era sempre o olhar da mãe que ele buscava.
Sempre o dela.
E quando encontrava, o sorriso se alargava com a urgência dos sentimentos puros. Um sorriso que não pedia nada, apenas devolvia tudo. Como se dissesse: é você. Eu sei quem você é, é a minha mamãe.
O coração de Helena apertou com doçura. Nunca imaginou que amar um filho fosse algo tão… visceral. No começo, ela teve medo. Medo de falhar, de não saber o que fazer, de não conseguir ser suficiente. Mas, ao longo dos meses, a maternidade havia feito florescer um lado dela que ela mesma desconhecia — protetor, intuitivo e generoso.
Ela se aproximou dos dois e passou os dedos levemente pela bochecha do filho, que soltou um gritinho animado. A cada dia ele ficava mais esperto. Aprendia novos sons, novos olhares e novos movimentos. Crescia rápido demais, e Helena queria aproveitar cada segundo, como se quisesse gravar cada memória na pele.
— A vovó pode ficar com ele, só essa noite — insistia Dona Olívia pela terceira vez, sorrindo com ternura.
— Eu sei — Helena respondeu com doçura, olhando para o filho. — Mas eu prefiro levar. A noite é nossa, e ele também faz parte disso. E o Isaac quer muito o ver.
Heitor observava a cena em silêncio, os olhos azuis fixos nela com aquele brilho que só Helena conseguia despertar. O tipo de olhar que dizia: eu faria qualquer coisa que você pedisse. Então ele apenas assentiu, respeitando a decisão dela.
Afinal, não era só um jantar. Era o jantar deles. Isaac e Ana Alice estariam lá, mas o restaurante H. Monteiro estava reservado apenas para os quatro — e agora, cinco. Heitor tinha fechado o local por completo, como costumava fazer sempre que queria dar a ela tranquilidade, segurança e um mundo só deles.
Na garagem subterrânea, o som dos passos ecoava com leveza. Helena caminhava devagar, ainda ajeitando a bolsa pequena que levava no braço, enquanto Heitor, sempre meticuloso, optava por trocar de carro.
— Hoje vamos com a BMW — disse com aquele orgulho discreto. O carro novo, um I7 preto elegante, foi um presente para si mesmo no final de 2025. Mas, como tudo nele, agora também era para a família.
Heitor havia solicitado com antecedência que o carrinho de Humberto fosse colocado no porta-malas e a cadeirinha instalada com cuidado. Cada detalhe planejado. A cada gesto dele, Helena se apaixonava mais. Não por ostentação, mas por responsabilidade. Pela forma como ele cuidava de tudo sem que ela precisasse pedir.
Humberto foi colocado na cadeirinha com delicadeza. Estava tão lindo. O macaquinho branco da Moncler envolvia o corpinho dele como uma nuvem. O capuz com orelhinhas de ursinho o deixava irresistivelmente fofo. Heitor usou o touch da tela do carro para acender a luz suave sobre o banco de trás, criando um clima acolhedor. Um brinquedinho pendurado na alça do bebê conforto balançava suavemente prendendo a atenção do bebê.
Helena observava tudo com um leve sorriso. Aquelas pequenas coisas. O cuidado. O carinho. O zelo. Heitor não era apenas o homem da vida dela. Era o pai que ela sempre sonhou para os filhos que nem sabia que teria.
Depois de beijar o filho, Heitor fechou a porta e se sentou ao volante. Helena já estava no banco ao lado, ajeitando o vestido e conferindo se Humberto estava confortável.
O carro deslizou pela noite silenciosa, o motor sussurrando com elegância. E então… veio o som.
— Aaah… guuuh… — murmurou Humberto do banco de trás.
Helena se virou na mesma hora, o coração inflando de ternura.
— Mamãe tá aqui, meu amor — disse com a voz doce, quase cantada.
— A gente tá te ouvindo, campeão — completou Heitor, os olhos na estrada, mas o sorriso evidente nos lábios.
— Você vai passear com a mamãe e o papai. Tá feliz? — ela falou de novo, voltando o rosto para a frente, mas mantendo o olhar no espelho. — Eu estou muito feliz por você estar aqui.
Durante todo o trajeto, qualquer som que Humberto fizesse recebia resposta. Uma sílaba, um gritinho, uma risada banguela — tudo virava conversa. Humberto interagia com eles como se soubesse exatamente o que estavam dizendo. E talvez soubesse. Talvez aquele laço fosse mais profundo do que palavras. A voz de Helena preenchia o carro com palavras doces e uma animação sincera. O bebê balbuciava, dava gritinhos e ria em resposta, criando uma sinfonia alegre que acompanhava o trajeto litorâneo.
Helena observava tudo com ternura. A conexão que sentia com o filho era enorme, mas era impossível ignorar como ele puxava ao pai, não só nos traços, mas na personalidade também. Era comunicativo, expressivo, já um pequeno encantador de sorrisos. Um verdadeiro xerox de Heitor Monteiro.
Mas foi o próprio Heitor quem desviou o rumo leve da conversa com uma provocação repentina:
— Nossos avós… não acha que andam passando tempo demais juntos?
Helena franziu o cenho, surpresa, e o olhou de lado. Ele mantinha os olhos na estrada, mas tinha aquela expressão que ela conhecia bem — a cara de “olha como eu sou um anjo inocente”, que nunca significava coisa boa.
— Eles são amigos. É normal — ela respondeu, desconfiada, já sentindo a armadilha verbal se formar.
Heitor não disfarçou o sorriso malicioso. Virou um pouco a cabeça, provocativo.
— Indo aos lugares juntos… fazendo caminhadas de manhã no jardim, almoçando juntos, cuidando do Humberto como se fossem uma equipe de pais de primeira viagem… — ele deu uma pausa dramática — Você não acha que tem alguma coisa ali?
— Pode parar com isso, Heitor Monteiro! — ela disse rápido, já se abanando como se afastasse o pensamento. — Os dois são bons amigos. Não inventa moda.
Heitor riu alto, e como sempre acontecia, Humberto respondeu com uma gargalhadinha animada no banco de trás. Helena virou o rosto para trás, encantada. A risada do filho era mágica, como se Deus tivesse guardado um som especial só pra eles.
— Achou divertido, filho? — Heitor disse em tom de brincadeira. — Papai só tá irritando a mamãe.
Ele então esticou a mão direita e entrelaçou os dedos nos de Helena com calma e carinho. O gesto, tão simples, a fez relaxar de novo.
— Eu sei que os dois são só amigos — disse com sinceridade, o tom menos provocador. — E o meu avô… é um pouco desafiador.
Helena riu e ouviu, mais uma vez, a risada do filho. O eco de felicidade se espalhava dentro do carro como perfume bom.
— Um pouco? — ela provocou, arqueando a sobrancelha com humor.
— Tá bom, muito. Mas ele melhorou desde a sua gravidez. E principalmente depois do nascimento do Humberto — ele levou a mão dela até os lábios e deu um beijo demorado no dorso, como se agradecesse silenciosamente.
Helena fechou os olhos por um segundo. Ouvia ao fundo os barulhinhos doces de Humberto, e aquilo a completava. Era uma paz cheia. Um contentamento que vinha da alma.
— Minha avó também parece bem mais animada depois do Humberto — disse, olhando pelo retrovisor, onde podia ver o bebê mexendo os bracinhos animadamente na cadeirinha.
— Criança em casa muda tudo. É alegria da família — comentou Heitor, sorrindo.
— Concordo.
— E o melhor de tudo é que sua avó finalmente desistiu da ideia de ir pra Belo Horizonte.
Helena deu um sorriso contido, mas seu olhar baixou. Aquele assunto ainda doía um pouco. A ideia de perder a avó — de perdê-la para outra cidade — a deixava com uma sensação de abandono que ela mal conseguia nomear.
— Ela ainda não falou nada sobre isso — murmurou, incerta.
Heitor apertou de leve sua mão entrelaçada.
— Ela tá feliz aqui. E quando a gente tá feliz, a gente não sente vontade de ir embora. Ela tem atenção, tem saúde monitorada, tem atividades, tem amor. O plano dela já mudou, mesmo que ela não tenha dito em voz alta ainda.
Helena assentiu em silêncio. Sabia que era verdade. A avó fazia exames com os melhores médicos, cuidava da hortinha pessoal no quintal — com direito a uma cozinha só dela para as receitas tradicionais. E o olhar dela ao ver Humberto? Era puro ouro.
Mas antes que o pensamento se aprofundasse demais, Heitor mudou o assunto com a habilidade de quem sabia exatamente o que a noiva precisava:
— Isso me lembra… você não me contou o que conversou com a Ana Alice aquele dia.
Helena imediatamente soltou um suspiro exausto, como se aquele nome pesasse o triplo.
— Perguntei o que ela queria com o Isaac — disse direto. — Ela disse que eles se amavam. Eu falei que era muito conveniente esse amor de repente pelo meu irmão. Ela retrucou que foi coincidência. Perguntei o que ela estava tramando. Ela jurou que nada. Disse que era só amor.
— E você acreditou?
Helena o olhou com ironia.
— Claro que não. Aí eu avisei: se ela estiver usando o Isaac, eu acabo com ela.
Heitor riu baixo.
— Tá saindo uma ótima irmã mais velha.
Helena abriu um sorriso largo. Era verdade. Conhecia os irmãos há pouco tempo, mas já os amava como se sempre tivesse crescido ao lado deles.
Mas, ao lembrar de Ana Alice, o sorriso desapareceu.
— Heitor… ela sempre foi assim. Interesseira, vulgar e invejosa. Eu tenho medo dela usar o Isaac. E se estiver… como eu ajudo ele sem quebrar o coração dele?
Ele pensou um pouco antes de responder.
— Helê… ele é adulto. Vai se magoar, sim. É inevitável. Mas isso faz parte. Quando a gente quebra a cara, a gente amadurece. Se não for ela, ele vai saber reconhecer o que não quer em alguém.
Helena o olhava com atenção, absorvendo cada palavra. Mas a implicância apareceu:
— Tá sabendo muito, hein, Monteiro?
Ele riu, provocador.
— E você se esqueceu de quando me deu um fora? Depois de eu me declarar pra você?
Ela corou na hora e virou o rosto para a janela.
— Isso é passado! — rebateu, como se encerrasse o assunto.
Mas o sorriso nos lábios a denunciava. Ele sempre a fazia sorrir no final.
Quando saíram do carro, Heitor foi direto ao porta-malas, abriu o compartimento e com toda a naturalidade de um pai experiente, puxou o carrinho de bebê. Helena, por sua vez, se inclinou sobre o banco traseiro e retirou Humberto da cadeirinha. O pequeno estava sorridente, animado em rever os pais. Mas mesmo com aquele rostinho feliz, Helena sentia o peito apertar toda vez que o prendia de costas no carro. Era o certo, ela sabia. Mas não poder ver o rostinho dele a cada segundo… doía mais do que esperava.
Antes mesmo de alcançarem a porta, Helena sentiu a mão de Heitor envolver a sua. O gesto simples fez com que ela diminuísse o passo sem perceber. Ele a puxou levemente para mais perto e passou o olhar por ela devagar, de cima a baixo, uma, duas, três vezes — como se quisesse gravar cada detalhe. O sorriso dele era largo, orgulhoso, quase exibido.
— Helê… você é a mulher mais linda que eu já vi. Ficou perfeita nesse vestido.
O calor subiu imediato pelo rosto dela. Helena sentiu as bochechas arderem, aquele rubor que sempre a entregava quando ele a olhava assim. Mesmo sem conseguir responder de imediato, sorriu.
— Eu amo como você fica de terno — disse, tocando o tecido do paletó dele, ajeitando-o mais por hábito do que por necessidade.
Heitor se inclinou e beijou sua bochecha, demorado, íntimo. Por alguns segundos, Helena teve a sensação de que o mundo ao redor simplesmente desaparecia. Não havia barulho, nem pressa, nem expectativa, só os dois, presos naquele instante silencioso, familiar e cheio de cumplicidade.
O momento foi quebrado por um balbucio suave.
Helena desviou o olhar e sorriu ainda mais ao encontrar o rostinho atento de Humberto. O coração dela se expandiu num gesto automático. Inclinou-se, encostou o nariz no dele e respirou fundo. O cheiro do filho, ela amava aquele cheiro de bebê.
— E você também está muito lindo, meu filho.
Ela murmurou baixinho, como se fosse um segredo só deles, sentindo que, ali, entre o homem que amava e o filho nos braços, tudo fazia sentido.
Entraram os três no restaurante. O lugar, como sempre, os recebeu com uma mistura de elegância e conforto. Mas nada disso importou quando os olhos dela pousaram sobre Ana Alice.
Estava sentada ao lado de Isaac, com aquele sorriso exagerado que Helena conhecia bem demais. O estômago dela se revirou, mas ela respirou fundo. Por Isaac. Pelo irmão.
Isaac se levantou no mesmo instante ao vê-los. Veio apressado e com o brilho de sempre nos olhos.
— Lelê! Que bom ver você! — disse, a puxando para um abraço lateral e um beijo carinhoso na bochecha.
Humberto reclamou imediatamente. Um resmungo sonoro, emburrado, ofendido.
Helena olhou para o bebê nos braços, e o que viu fez seu peito inchar de amor e riso contido: o filho estava com uma expressão emburrada, as sobrancelhas franzidas e os olhos fixos no tio como se dissesse “essa intimidade toda com a minha mãe não vai rolar.”
Isaac percebeu e deu um tapinha teatral na testa.
— Onde estão meus modos? Oi, Humbertinho! Como você tá, campeão?
O bebê virou o rosto para o pai, como que buscando confirmação — olhos atentos, pupilas fixas. Heitor sorriu, calmo, como se dissesse “tá tudo certo, filho”. Foi o que bastou. Humberto abriu um sorriso largo, daqueles que faz o queixo vibrar.
Isaac esticou os braços para pegá-lo e o fez com um carinho que Helena não ignorou. Era visível o quanto o irmão a amava — e amava aquele bebê. Ela respirou fundo, agradecida.
Os dois homens se cumprimentaram com um aperto de mão e sorrisos cúmplices.
— Olha o cara do momento — Heitor provocou.
Isaac corou.
— Que isso… eu não sou o cara… — murmurou, tentando disfarçar a empolgação.
Enquanto os dois conversavam, Humberto observava tudo. Os olhos atentos entre o pai e o tio, como se absorvesse cada detalhe e cada emoção. Heitor percebendo o olhar curioso do filho, ajeitou o capuz do macacão de ursinho e as orelhinhas fofas se firmaram no topo da cabeça do bebê, Helena achou aquela cena simplesmente irresistível. Pegou o celular.
— Isaac, vira só um pouquinho... isso.
Tirou a foto. E claro, Humberto sorriu no mesmo instante em que viu o celular.
Ela revirou os olhos enquanto sorria. Definitivamente puxou o pai.
E então… Ana Alice se aproximou.
— Oi, pessoal! Humbertinho! Como você está lindo!
O tom animado, o brilho exagerado nos olhos, tudo nela fazia Helena querer encolher os ombros em desconforto. Não era exatamente o que Ana Alice dizia. Era como ela dizia. Era a leve tensão que tomava conta do ar sempre que ela chegava.
Helena sentiu cada músculo do corpo enrijecer. Não conseguiu disfarçar. O sorriso dela desapareceu no mesmo instante, e seus olhos encararam Ana Alice com um frio contido.
Humberto, no colo do tio, notou. Olhou a mãe. Depois, olhou Ana Alice. O sorriso que ainda estava nos lábios do bebê sumiu. Os olhinhos encararam a mulher, e o bico surgiu devagar, como uma nuvem escura subindo o céu. Um bico grande, ofendido.
— Poxa Humbertinho, por que fez esse bico? — Ana Alice perguntou com um risinho nervoso.
— É a titia, garotão! Mostra seu sorriso pra ela! — Isaac incentivou.
Mas Humberto não sorriu. Nem pensou em sorrir. Só continuou de bico, agora olhando Ana Alice com desconfiança. Helena sentiu uma satisfação quase cínica subir no peito. Mas disfarçou.
— Ele deve estar cansado. — comentou, fingindo pesar.
Ana Alice então se virou para Heitor com aquele mesmo sorriso de sempre, aquele que Helena sabia que era mais ensaiado que espontâneo, e esticou a mão.
Heitor apertou, educado. Mas quando ela tentou se aproximar para um abraço, o corpo dele mudou. A postura, antes aberta e descontraída, fechou-se imediatamente. Ele deu um leve passo para trás.
Helena congelou. Ela tentou mesmo?
Ana Alice levou as mãos à boca.
— Isso foi muito errado da minha parte! — disse, com aquele tom dramático que Helena já conhecia.
Heitor não deixou passar.
— Sim. Foi TOTALMENTE errado. — respondeu seco, com o semblante mais fechado do que Helena via há semanas.
— Desculpa, Heitor… desculpa, Helena… — Ana Alice recuou, aflita. — Ainda estou me acostumando com as regras da alta sociedade...
— Tá tudo bem, amor. Estamos entre família. — Isaac tentou aliviar, tocando de leve as costas dela.
Helena apenas observava. Nariz levemente franzido. Olhar direto. Firme. Cortante.
Heitor, percebendo o clima, esticou a mão e chamou por ela num gesto suave.
— Vem cá, amor.
Helena segurou a mão dele e se aproximou. O toque do noivo acalmava seu incômodo. Mas não apagava.
— Acho que agora eu aprendi. — Ana Alice disse, estendendo a mão para Helena.
Helena considerou ignorar. Mas ao olhar para o irmão — aquele olhar doce, esperançoso — ela engoliu o orgulho. Pegou a mão de Ana Alice. Fria. Rápida. Controlada.
Seguiram até a mesa, Humberto começou a querer chorar e Helena o pegou de novo no colo..
Sentaram-se à mesa e, por um instante, tudo pareceu bem. Helena ajeitou Humberto no colo com cuidado, a cabeça dele recostada suavemente contra seu peito, os olhinhos atentos demais para um bebê de quase três meses. Era como se quisesse entender tudo à sua volta. Como se estivesse observando os adultos para aprender sobre o mundo e, principalmente, sobre os sentimentos.
A conversa fluía com naturalidade. Isaac, como sempre, estava animado, contando sobre o trabalho e como ele e Ana Alice haviam se conhecido. Entre uma frase e outra, Humberto entrava na conversa com sons agudos, fofos e bem-humorados, como se soubesse que era o centro das atenções. Helena sorria a cada som do filho, tentando não demonstrar o leve incômodo que crescia silenciosamente dentro dela.
Ana Alice, à sua frente, parecia uma personagem recortada de uma capa de revista. O vestido vermelho longo desenhava cada curva, a fenda generosa revelava toda a perna até a coxa — um visual impactante e sensual. Helena sabia que ela estava linda. Sexy. Confiante. E por mais que Heitor fosse o homem mais devoto que ela já conheceu, aquela velha frase — "homem é homem" — cutucava um canto escuro da mente.
Ela tentou se manter firme. Mas então veio o comentário.
— Então, Helena… você mudou muito desde a última vez que nos vimos. — Ana Alice sorriu com suavidade, como quem disfarça veneno com mel.
Helena já nem se impressionava com os comentários de Ana Alice. Sabia exatamente do que Ana Alice estava falando: do corpo que mudou, das curvas mais reais, dos seios fartos de leite, das olheiras que às vezes insistiam em ficar. Mas ela não cairia nesse jogo.
— Sim, acabei virando noiva — disse, olhando para Heitor, que estava com a mão sobre sua coxa, quente e firme — e mãe. — completou, beijando a testa de Humberto.
— Isso é tão fofo, Helena! — disse Ana Alice, apertando a mão de Isaac com um sorriso angelical. — Mas agora que contamos como nos conhecemos, que tal vocês dois contarem de vocês?
Helena respirou fundo, sentindo a irritação com aquela voz que parecia forçada demais. Mas Isaac, empolgado como sempre, endossou a ideia:
— Ótima ideia, amor! Eu nunca soube como foi… conta pra gente.
Helena olhou para Heitor. E ele… ele a olhou como se ela fosse a única coisa naquele restaurante. O sorriso que ele deu, só dela, foi o suficiente para dissolver uma parte da insegurança. Era assim: ele a amava com o olhar.
— Cheguei um dia antes de começar na filial — começou ele, com aquele tom calmo e firme que Helena conhecia bem. — Estava na rua, perdido… e foi quando a vi. Nossa… nunca vi uma mulher tão linda. Me chamou atenção de cara. Fiquei encantado. Pedi uma informação só pra ter um motivo pra falar com ela. E quando a gente se separou… eu não conseguia parar de pensar nela.
Helena sentiu o rosto esquentar. A verdadeira história era bem diferente, algo que com toda certeza eles nunca contariam para ninguém, mas isso não muda os sentimentos que sentiram um pelo outro.
— Tentei achar ela nas redes sociais, mas nem o nome eu sabia. E então… fui trabalhar. E ela estava lá. Na mesma empresa. A mulher que vi naquela calçada. A mulher dos meus pensamentos.
— Mas o que exatamente viu nela? — Ana Alice interrompeu, com os olhos brilhando de curiosidade. — Imagino que várias mulheres deviam te desejar. O que foi que a Helena fez?
Helena sentiu o veneno naquela pergunta disfarçada de doçura. Mas Heitor nem hesitou. Olhou diretamente para Ana Alice e respondeu com a voz carregada de orgulho:
— Ela não precisou fazer nada. Eu a achei linda. De verdade. E não só linda… diferente de todas. Eu já viajei muito, conheci muita gente… mas nenhuma mulher me prendeu como ela. A forma como ela falava, como se portava. Ela era tão profissional, tão firme…
Ana Alice soltou uma risada curta e debochada.
— O que é engraçado, Ana Alice? — Helena perguntou com a sobrancelha arqueada, sem tirar o filho do colo.
— Ah, nada demais! — disse Ana Alice, erguendo os ombros. — Ri da forma como ele fala de você… muito fofo. Não tem nada a ver com o seu profissionalismo, juro.
Helena manteve o olhar firme, mas Heitor já havia assumido a dianteira da resposta.
— Continuando… — disse ele, com o olhar quente pousado sobre a mulher que amava. — Ela era absurdamente dedicada. Trabalhadora. Meiga com quem merecia. Forte com quem precisava. Eu observava os detalhes… o jeito que ela organizava a mesa, a forma como ela falava com os colegas, como pensava rápido e ia direto ao ponto. E desde o início a voz dela… a voz da Helena… me derrete por dentro. Não estou exagerando.
Helena sentiu um nó na garganta. O coração dela parecia cheio demais dentro do peito. Heitor não apenas estava ali, na frente de todos. Ele estava orgulhoso dela. Ele se orgulhava em amá-la. Em escolhê-la.
— Eu olhei pra ela e soube. Não foi por causa da aparência, apesar de ela ser a mulher mais linda que já vi… foi a essência dela. Eu senti. Eu sabia que era ela. A mulher da minha vida. E fiz o que foi preciso pra ter ela comigo. E faria tudo de novo.
Silêncio.
Humberto balbuciou alguma coisa, como se sentisse a emoção no ar — e Heitor olhou para o filho e sorriu. Helena olhou também.
Helena estava corada.
As palavras de Heitor ainda ecoavam dentro dela, quentes, doces e carregadas de um amor que parecia iluminar tudo à volta. E mesmo não sendo do tipo que se declarava com facilidade… mesmo sentindo que o coração gritava mais do que a boca era capaz de dizer… ela não conseguiu segurar.
Porque ele merecia ouvir.
— Quando eu vi o Heitor… — ela começou, com a voz um pouco trêmula, mas decidida — eu nunca tinha visto um homem tão bonito.
Heitor virou-se de lado na cadeira, sorrindo como quem acabou de ganhar o mundo.
Helena o olhou, o rosto corado, mas os olhos brilhando de verdade.
— Depois do dia em que a gente se conheceu, eu não conseguia parar de pensar nele. — Ela sorriu, quase tímida — Não queria admitir. Mas esperava o dia inteiro pra vê-lo. Mesmo que de relance. Às vezes… eu clicava na foto dele no Teams só pra olhar um pouco mais.
Heitor riu baixo, com aquele sorriso convencido que Helena conhecia bem. Mas agora era diferente — ele estava com aquele brilho nos olhos de homem amado e orgulhoso, e ela sabia.
— Me surpreendi muito ao vê-lo no trabalho… a química entre a gente era absurda. E mesmo tentando evitar, já era. Eu tava entregue e nem percebi.
Heitor encostou mais perto, o olhar fixo nela. Ele não era bom em disfarçar quando estava completamente apaixonado. O sorriso escancarado, quase bobo, deixava claro. Ele esticou a mão e acariciou de leve o braço dela.
— Eu não queria ter te deixado esperando, Helê… — disse com a voz baixa e cheia de carinho — Mas você sabe. Sempre que me chamar, eu vou encontrar você.
E, sem hesitar, a beijou.
Um beijo terno, que fez o ambiente ao redor desaparecer por um momento. Humberto, no colo da mãe, fez um resmungo baixinho. Helena riu contra os lábios de Heitor.
Heitor se virou pro bebê e apoiou os dedos nas bochechas gordinhas do filho.
— Esse bico é igual ao da sua mãe… — disse em voz baixa, apertando de leve com carinho — Tô enrolado.
Isaac, sentado ao lado, assistia à cena com um sorriso verdadeiro, visivelmente tocado com a declaração da irmã. Ele sabia que Helena não era de falar muito. Sabia o quanto aquilo significava.
Já Ana Alice, com o copo na mão, tentava manter o sorriso protocolar. Mas seus olhos não disfarçavam. Havia uma pontada de inveja, incômodo… talvez até dor. Queria ser amada daquela forma. Queria que alguém falasse dela assim. Queria o olhar de Heitor — inteiro, firme e apaixonado.
Mas era Helena quem o tinha.
Inteiro.
Sem sombra de dúvida.
Helena estava encabulada.
Era curioso, com tudo que havia mudado em sua vida, com toda a força que descobriu possuir, ainda se sentia tímida quando Heitor demonstrava afeto em público. Tinha melhorado, claro. Já não desviava os olhos como antes, nem fugia dos carinhos. Mas aquilo ainda mexia com ela. Bastava um gesto, um olhar ou um beijo mais prolongado e… pronto: o corpo inteiro aquecia.
E foi exatamente assim que se sentia naquele instante, o peito acelerado, o rosto quente e os pensamentos fugindo do controle.
Quando sentiu a fralda de Humberto mais pesada, viu a deixa perfeita para levantar, respirar… e se recompor.
O garçom chegou no mesmo momento, trazendo as refeições e as bebidas.
Helena se virou para Heitor, sorrindo.
— Amor, vou no banheiro trocar a fralda do Humberto. — disse com a voz suave, ajeitando o bebê no colo.
— Eu posso ir lá. Não se preocupe. — Heitor respondeu prontamente — Fica aqui com seu irmão e a Ana Alice.
Helena sorriu de canto, inclinando-se até ele, e cochichou baixinho em seu ouvido:
— Preciso olhar se o leite tá vazando muito também…
Heitor abriu um largo sorriso. Um daqueles que vinham acompanhados de olhar faminto e sotaque arrastado:
— Eu te ajudo...
Helena revirou os olhos, rindo baixinho. Ainda se sentia boba perto dele. Ainda era a mulher apaixonada pelo CEO que apareceu na sua vida como um furacão — e ficou.
— Você tá bem, Lelê? — Isaac perguntou, observando-a com leve preocupação.
Antes que ela respondesse, Ana Alice se adiantou, com um tom docemente estranho:
— Quer ficar aqui e descansar, Helena? Eu posso ir ajudar o Heitor a trocar a fralda.
O sangue de Helena ferveu na hora.
Ela ergueu a sobrancelha com aquele olhar afiado que nem tentava disfarçar — Como é que é?
Mas antes que ela pudesse responder, Isaac, totalmente alheio à tensão, sorriu orgulhoso da noiva e falou com gentileza:
— Você é muito bondosa, amor. Mas o Heitor sabe trocar, né? Melhor ficarmos aqui e fazer companhia pra Helena.
Helena quase suspirou de alívio.
— Isso mesmo — ela completou, mantendo o tom mais calmo possível — o Heitor é ótimo nisso, não precisa de ajuda.
Quase conseguiu esconder o tom ríspido.
Quase.
— Mas eu vou lá sozinha mesmo. Vão comendo antes que a comida esfrie.
— Certeza? Eu posso segurar ele depois… — Heitor insistiu, atencioso.
— Não precisa, lembra que aqui tem o banheiro da família? — respondeu com um sorriso confiante.
Heitor assentiu satisfeito. Estava contando os dias para Helena se acostumar com esses momentos simples da rotina. E com aquele banheiro em especial — com trocador, poltrona para amamentação, iluminação suave… e memórias futuras que ele já imaginava construir no restaurante com ela e com o filho.
Helena se levantou, deu um beijo carinhoso na testa de Heitor e seguiu com o filho nos braços.
Humberto resmungou no caminho.
Mas não era fome, era fralda. Helena sabia. Ela conhecia cada som daquele bebê como se fosse extensão dela. Sabia o que era sono, o que era manha, o que era saudade… Ser mãe era como ter superpoderes.
Ela não era mais a garota insegura do interior. Era mulher. Mãe. Noiva. E acima de tudo… amada.
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