Ele desligou o motor com calma, como quem retarda o inevitável. O interior em couro escuro do Aston Martin branca refletia suavemente a luz dourada da fachada da mansão, e ele aproveitou o último momento de paz antes de entrar.

Estava bonito. Elegante. Exalava poder sem esforço.

Usava uma camisa de linho vermelho escuro da Lacoste, com caimento perfeito sobre os ombros largos e o peitoral definido. Dois botões abertos — o bastante para parecer casual e ainda assim letal. A calça era de alfaiataria preta italiana, com costura à mão. O cinto era Hermès, fivela discreta, mas inconfundível para quem sabe ver. Nos pulsos, o relógio Patek Philippe de caixa azul e pulseira de couro, presente do avô. Tênis branco da Ferragamo. O perfume era amadeirado e caro.

Tudo milimetricamente pensado para parecer que ele não pensou em nada.

Mas ele tinha pensado. Porque sabia que Celina, sua mãe, ia notar cada detalhe.

Suspirou fundo ao lembrar da conversa no telefone, pouco antes de sair.

“— Provavelmente a Marcela vai estar lá — ele disse, com naturalidade, testando a reação.

Helena ficou em silêncio por meio segundo. Nem um “hum”. Nem um “ah tá”.

E então respondeu, com a voz tranquila e debochada:

— Ótimo. Tudo que você fizer hoje, lembra da aliança no seu dedo. Tá aí pra isso, não tá?”

Nada de cena. Nenhuma crise. Só uma frase que grudou no pensamento dele desde então.

Era isso que mais mexia com Heitor.

Helena não implorava, não berrava, não chorava. Mas quando ela falava, ele ouvia com o corpo inteiro.

Queria que ela tivesse dito que não queria que ele fosse. Que era só dela. Que ficasse.

Mas Helena não era assim. E talvez por isso, fosse ainda mais perigosa.

“Essa mulher vai me matar”, pensou, com um sorriso enviesado nos lábios.

Tirou o celular do bolso e tirou uma selfie ali mesmo, no carro. O rosto ainda bronzeado, sem a barba, aquele olhar de quem sabia o que carregava no sangue, e os cabelos bem penteados, ele estava ansioso para ele se igualar logo, não queria o cabelo grande, apenas um corte mais maduro agora.

Tudo por causa dela.

Por Helena.

Ele sentia falta do toque dela, das mãos delicadas enfiadas no cabelo dele, puxando de leve quando queria provocar. Só de imaginar, o corpo reagiu — o volume cresceu rápido na calça, e ele prendeu a respiração, virou o rosto, tentou pensar em qualquer outra coisa.

— Porra, Helena… — murmurou, quase um aviso, quase uma prece.

Ele olhou ao redor, tentando mudar os pensamentos. E ele viu a fachada branca com colunas neoclássicas e janelas em arco estava mais imponente do que ele lembrava. Jardins perfeitamente podados, refletores discretos apontando para a estrutura como se fosse um monumento. Seguranças postados nas laterais com fones discretos e ternos sob medida. A entrada da elite do Rio de Janeiro.

Casa de presidente de banco, como ele costumava dizer em tom de deboche na adolescência.

Outros carros já ocupavam a área lateral — BMWs, Audis, um Porsche cinza-chumbo que ele sabia ser do padrinho. A noite ia ser longa. E, provavelmente, indigesta.

Ele pegou o celular.

Digitou:

"Mal posso esperar pra vir nesses jantares com você."

Ela respondeu rápido:

Helena ❤️❤️"Não esquece a sua aliança. E seu juízo. Boa sorte, CEO."

Ele riu. E doeu. Porque queria que ela estivesse ali.

Antes de sair, olhou para o banco do carona. Pegou a pasta com os relatórios da Mel, sua golden retriever. Fotos impressas, bilhetes da creche, observações sobre a alimentação e o humor.

Ele abriu um dos papéis e leu uma frase rabiscada com caneta rosa:

“Sentiu MUITA falta do pai. Cavava o portão 3 vezes por dia.”

— Eu também, pequena — murmurou, acariciando a pasta como se fosse a cabeça dela.

Ele não via a hora de apresentar Helena e Mel. Heitor queria que as duas se dessem bem logo de cara.

Guardou a pasta com carinho, puxou o ar e saiu do carro.

O som da mansão chegou primeiro — vidros tilintando, risadas de gente que nasceu com sobrenome, passos rápidos de criados uniformizados.

Heitor fechou o carro, cruzou o jardim em passos firmes, e abriu a porta sem bater.

Ele não precisava pedir licença para entrar na própria origem.

Estava em casa. Mas não era mais o mesmo homem que saiu dali meses atrás.

A porta dupla da mansão Monteiro se abriu.

O saguão principal estava exatamente como ele lembrava: imenso, impecável, iluminado por um lustre de cristal veneziano que parecia ter parado no tempo. O piso em mármore claro reluzia o brilho das luzes, refletindo os passos de convidados discretamente elegantes. Tapetes orientais corriam até as escadas de madeira de lei. E o ar... tinha aquele cheiro específico de velas caras, polido com o tempo, com o poder e com os segredos da elite carioca.

Vários rostos conhecidos estavam espalhados em pequenos grupos, taças nas mãos, conversas suaves — ou disfarçadamente afiadas.

Mas foi a figura parada à esquerda da porta, mexendo no botão da camisa como quem não sabia onde pôr as mãos, que atraiu o olhar de Heitor.

Isaac Medeiros.

O irmão mais novo de Jonas estava encostado perto do piano de cauda da sala de música, com um copo de uísque na mão e um blazer meio torto no corpo. Heitor não conseguia olhar para aquele garoto sem lembrar do moleque desengonçado com sardas no nariz e bochecha que o seguia pela mansão dos Medeiros com um skate debaixo do braço e perguntas sobre qualquer coisa no mundo.

Agora ele estava ali. 22 anos, estudante de Economia, já estagiando em um banco na área de investimentos. Barba mais cheia, corpo mais definido, os cabelos castanho-claros ondulados jogados para trás até a nuca cobertos de gel, como se tivesse saído de um comercial da Hugo Boss.

Heitor arqueou uma sobrancelha e sorriu torto.

— E aí, projeto de Thor?

Isaac virou na hora e abriu um sorriso grande, verdadeiro.

— Pô, que honra, hein? — largou o copo em cima da mesa e veio em direção a ele.

Eles se abraçaram de maneira informal, um aperto forte no ombro, aquele tipo de gesto entre dois homens que não precisam dizer que se gostam — porque o gesto já diz.

— Tá bonito, hein, moleque — Heitor falou, puxando o queixo de Isaac com dois dedos, como quem analisa o rosto dele. — Mas vou te falar... tu encolheu?

Isaac rolou os olhos, meio emburrado.

— Tu que é grande demais, Heitor. Isso é desleal. E ainda vem elegante assim... quer matar de complexo?

— Relaxa — Heitor riu baixo. — Baixinho Mucilon está em alto hoje em dia. Eu sou muito tiozão já.

— Tiozão? Tu tá com 39 e cara de editorial da GQ.

Heitor soltou um riso curto, aquele sorriso de irmão mais velho.

— Sabe que é bom te ver, né? — disse, dessa vez sincero. — Tá mais homem. Com cara de que aguenta tranco agora.

— E eu sempre quis ouvir isso vindo de você.

Isaac ajeitou a manga da camisa com uma rapidez nervosa. Ainda tinha aquele traço de querer impressionar Heitor, como um irmão mais novo que queria ser aprovado. Queria mostrar que cresceu. Que agora ele também fazia parte daquele mundo.

Heitor viu isso. E não falou nada — só deu um tapinha no peito do garoto, com um olhar firme.

— Vamos beber alguma coisa? Ou tá com medo da sua mãe achar que tá desviando do foco?

Isaac riu e relaxou de vez.

— Se for para te acompanhar, eu até esqueço do contrato de confidencialidade do banco.

— Aí é problema seu, playboy. — Heitor lançou um olhar divertido enquanto os dois seguiam para o bar. — Só sei que se tu derrubar bebida no tapete da minha mãe, é contigo, não comigo.

Eles seguiram juntos, e por alguns instantes, Heitor esqueceu o peso do sobrenome Monteiro, da reunião da manhã, e do olhar frio do pai. Ali, com Isaac, era como estar com Jonas. Era como voltar para um pedaço do que havia de mais leve na própria vida.

Mas logo mais, viriam os tubarões.

E Heitor sabia: essa era apenas a calmaria antes da mordida.