O CEO que Eu Paguei
199 O Banquete de Histórias
A mesa estava posta com muito requinte, castiçais baixos com velas brancas, flores frescas em tons de verde e dourado, e uma porcelana impecável. Os funcionários circulavam com discrição, mas o ambiente, apesar do luxo, estava carregado de silêncio.
Helena, percebendo o peso do momento, foi quem decidiu romper.
— E então… como vocês se conheceram?
Afonso, que bufava de impaciência com a demora em ser servido, levantou os olhos com irritação — mas a pergunta de Helena o desarmou por um instante. Ele cruzou os braços sobre a mesa.
Renato pigarreou, desconfiado.
— Deve ter sido rápido… a cidade é pequena, né? — disse ele, bem sem graça.
Heitor engatou no raciocínio do pai com naturalidade.
— Deve ter sido algo assim mesmo… coincidência.
— Vocês dois podem calar a boca? — resmungou Afonso, com um olhar duro. — Já não basta eu ter que aturar ser servido como se fosse um inválido… agora querem contar a minha história por mim? Deixa eu falar, cacete.
Celina respirou fundo, com aquele tom paciente.
— Isso é cuidado, Afonso. Você e a dona Olívia não precisam se preocupar com nada. Só aproveitar.
Ele franziu a cara, mal-humorado.
— Aproveitar… tá.
— Não faz essa cara — disse Helena sincera, com um sorriso no rosto. — Dá pra ver que o senhor é muito querido por todos aqui.
Afonso levantou a sobrancelha, meio sem jeito. Emburrado. As mulheres da família sempre tinham esse jeito… insuportavelmente… encantador. Francamente!
Ele inspirou fundo. Menos irritado.
— Tá. Eu explico.
E começou.
— O carro quebrou — disse, seco. — Eu era jovem. A porcaria do carro quebrou no meio do nada. Por acaso, era perto da cidadezinha da sua avó. A família dela me ajudou.
Todos pararam os talheres.
Heitor não se lembrava disso na primeira vez que ouviu, tinha quase certeza que foi algo relacionado à avó. Mas, ele podia ter se enganado.
— Sério? — perguntou Helena.
— Sim. Me deram água. Me deram comida. Um lugar para dormir. Me trataram bem. — Afonso pigarreou. — Foi por isso que montei a filial lá. A cidade precisava crescer, então ajudei a crescer.
— Ocê fez isso? Difícil de acreditar, nunca imaginaria que era coisa sua. — disse Dona Olívia, surpresa, com os olhos arregalados.
— E o que isso quer dizer? — retrucou ele.
Celina segurou o riso, mas não conseguiu, ele saiu mesmo assim.
— Desculpa… — murmurou, olhando para o lado. Estava difícil se conter.
Foi como se uma trava tivesse caído da sala inteira. Um por um, os risos surgiram. Baixos, sinceros.
Renato, com um sorriso contido. Heitor, rindo com a cabeça baixa. Helena, cobrindo a boca. Até Dona Olívia se encostou na cadeira, soltando uma gargalhada gostosa.
Afonso ficou vermelho de vergonha.
— Tá. Já chega. Agora vou contar algo que realmente vale a pena de se escutar. — disse, recuperando o fôlego e já mirando Renato. — Você sabe, Helena, como esses dois ficaram juntos? — Afonso disse mostrando com o dedo Celina e Renato.
Renato parou de rir imediatamente. O rosto perdeu a cor. E depois ficou vermelho. Até as orelhas.
— Não é o foco da conversa — tentou Renato dizer.
— Eu adoraria saber. Se não for um problema — respondeu Helena, divertida.
— Problema nenhum. — Afonso já esfregou as mãos. — Até porque eu vou contar a parte que vocês nunca ouviram.
Renato se segurou para não afundar na cadeira.
Heitor tocou o braço de Helena, sorrindo.
— É ótima. A minha avó Maria Lúcia vivia contando.
O clima ficou melancólico por um instante. Todos lembraram de Maria Lúcia. Helena sabia que ela havia falecido há alguns anos e que era muito querida por todas e principalmente por Heitor.
— Sua avó adorava mesmo essa história — disse Afonso, com uma voz mais baixa, nostálgica. — E já que ela não tá aqui… eu vou contar. E não só a parte boa.
Renato baixou a cabeça. Pousou o cotovelo na mesa e cobriu discretamente o rosto com a mão.
— Porque se tem algo que meu filho nunca foi — Afonso olhou para Helena — é racional com a Celina. Não sei a quem ele puxou, faz tudo que a mulher quer. Renato é… meio bobo.
— Pai! — Renato protestou, quase se engasgando.
— É verdade! — disse Afonso, erguendo a mão. — Deixa eu falar, capeta.
Ele se virou para Helena com um sorriso terno e diabólico.
— Desde pré-adolescente, Renato andava atrás da Celina igual cachorro atrás de caminhão. Só faltava lamber o chão que ela pisava.
Celina ficou vermelha, pegou o copo d’água e disfarçadamente, o bebeu, o corpo estava meio de lado.
— Namoraram, né… com muito custo — disse Afonso. — Eu não sei como, mas aconteceu. Porque Renato tava tão devagar que parecia parado. E depois o besta conseguiu perder a mulher. Ficou pelos cantos, igual alma penada.
Renato balançava a cabeça.
— Não foi assim…
— Foi sim. Ficou magro. Triste. Não comia. Ficava trabalhando até às onze da noite todos os dias. — Afonso contava com prazer — Parecia um palerma, ficava mexendo nos arquivos da empresa, reorganizava as pastas até na sala de arquivo e até passou a reorganizar as próprias gavetas em casa. Ficou obcecado por contratos, maníaco por organização. Até gastrite ele deu. Uma vez, me ligaram dizendo que ele estava no escritório com as luzes do prédio todas apagadas. Só a dele acesa. Tive que arrastar o panaca de lá.
Celina olhou para Renato, surpresa. Mas, Renato estava constrangido demais para a encarar de volta.
— Você se sentiu assim? Eu não sabia disso…
— Ele está exagerando, sabe como o meu pai é.
— Nem Celina, nem ninguém sabia — disse Afonso. — Mas o pior foi quando o seu noivado, Celina, saiu no jornal. O menino virava a noite no escritório trabalhando. Até que desmaiou lá de tanta exaustão. Internaram ele. E quando voltou para casa, eu já não aguentava mais ouvir “Nothing Compares 2 U” e “With or Without You”.
Renato queria desaparecer.
— Pai…
— Calma. Tô chegando na melhor parte.
Todos esperavam, perplexos. Ninguém da família sabia daquela parte.
— Véspera do casamento. Ele chega em casa, se jogou no sofá e chora igual menino. Diz “ela vai ser de outro, vai dar filhos a outro”. Eu olhei meio perdido com aquela cena toda, mas a Marilu já tava chorando também abraçando o Renato. — Afonso se fez de pensativo — como ele disse mesmo? Lembrei! “Não vou aguentar ver isso, não posso deixar acontecer”.
Afonso voltou o olhar para o filho.
— Aí… — Afonso abriu os braços — ele fez algo que eu nunca achei que veria. Tomou uma decisão emocional. Impulsiva, nada haver com ele. Comprou a igreja. Literalmente. Pagou um absurdo. Comprou o lugar, os direitos de cessão, os direitos de uso por um mês inteiro.
Heitor riu, animado. Era a parte que ele sabia.
— A vó dizia que ele foi igual um louco pro cartório. A papelada não acabava nunca. Quando saiu, o vô já tava buzinando na porta. E ele entrou no carro e lá trocou de roupa. A gravata tava torta, todo descabelado, mas parecia um príncipe.
Celina sorria emocionada. Suspirando.
— E ele estava mesmo. Ele entrou na igreja na hora que o padre disse “se alguém tem algo a dizer…” — Celina olhou para Helena, com os olhos marejados. — E ele disse “eu tenho algo a dizer”.
Sorrisos e suspiros se espalharam pela mesa.
— O pai dela, meu outro avô, levantou puto — disse Heitor, rindo. — Mas o meu pai só ergueu um papel e falou “o senhor vai me desculpar, padre, mas hoje quem autoriza essa cerimônia sou eu”.
Helena levou a mão à boca, encantada e chocada.
— Foi… tão bonito, apaixonado mesmo. — disse Dona Olívia, emocionada.
— Meloso demais — disse Afonso, rindo. — Eu acho que quase fiquei diabético nesse dia.
Heitor passou o braço ao redor de Helena, os dois se olhavam como cúmplices.
— E ele olhou diretamente para mim e ainda disse… — Celina agora contava, tocando o ombro de Renato — “Eu tentei respeitar sua decisão. Juro que tentei. Mas não consigo te deixar ir. Você foi meu primeiro amor. Minha melhor lembrança. A única coisa que nunca consegui superar.”
— A igreja inteira parou de respirar — completou Heitor, rindo.
— E ele continuou — Celina limpava os olhos — “Se ainda existe um pedaço seu que me ama… um só… não casa hoje. Não se torne esposa de outro homem.”
Renato, incapaz de aguentar mais, se levantou.
— Com licença. Preciso… banheiro.
E saiu apressado.
Celina levantou pouco depois, com o rosto corado e os olhos úmidos.
— Desculpem. Eu vou ver como ele está.
Afonso gargalhava.
— Isso sim é que é história .
Heitor segurou a mão de Helena e a beijou com ternura.
— Eu só conhecia a parte da igreja. Mas agora eu entendo por que a vovó adorava tanto essa história.
Helena sorriu, com os olhos brilhando de emoção.
— Eu também.
Afonso se remexeu na cadeira, estalando os dedos de impaciência. O olhar dele varreu a mesa, até pousar no neto — alvo escolhido.
— E o Heitor — começou, com a voz carregada de ironia — puxou direitinho o Renato. Não sei se você sabe, Helena, mas esse moleque moveu o mundo e os fundos pra ficar contigo.
Helena virou o rosto para Heitor, surpresa. Sabia que os pais de Heitor eram contra o relacionamento deles no inícios, como são todos unidos, ela nem imagina quanto ele deve ter sofrido. Mas, achava que era apenas isso.
— Eu… não sabia disso — disse, desconfiada.
Heitor piscou devagar para ela, aquele jeito malandro e encantador que ele fazia questão de usar com ela.
— Eu não fiz nada demais. Só sabia que nunca ia abrir mão de você. Principalmente depois que você me pediu pra assumir a gente.
Helena arqueou as sobrancelhas num misto de incredulidade e desafio.
— Eu? Te pedi isso? Você entendeu tudo errado! Eu queria que a gente ficasse no sigilo. Você fez o contrário, idiota.
Heitor deu uma risada alta, debochada e apaixonada.
— Eu nunca ia ficar no sigilo com você, coração. Você me enfeitiçou na primeira vez que eu te vi. Não parei de pensar em você nem por um minuto.
Helena ficou vermelha e virou o rosto, levando o copo aos lábios.
— Idiota — murmurou.
— Mas ele cuidou tão bem da minha neta — comentou Dona Olívia, nostalgica. — Tirou ela da balada de madrugada. Fazia tempo que eu não sentia tanto desgosto.
Helena engoliu seco, lançando um olhar afiado para Heitor.
— Ele também estava na festa, vó. Beijou na boca de outras mulheres e quase saiu no tapa com um cara na boate.
— Misericórdia. — Dona Olívia balançou a cabeça.
Afonso deu um resmungo indignado.
— Com toda certeza, esse daí não puxou a mim. Eu jamais passaria um mico desses.
— Helê me maltratou tanto naquela época que eu não tinha escolha — disse Heitor, dramático. — Ia seguir em frente, sabe? Mas... te ver naquele vestido curto, com aquele malandro… Não podia permitir que desonrasse a senhora sua avó!
— Ah, por favor! — Helena revirou os olhos. — Você é insuportável. E mais idiota ainda por ter me assumido na empresa inteira! Daquela forma super constrangedora.
— E foi pior ainda — emendou Afonso, pronto pra completar a frase constrangendo o neto e abrindo o jogo — porque o Heitor...
— Já deu, vô. — Heitor interrompeu, com a voz firme e seca. Um comando. Não era um pedido.
O silêncio caiu como uma pedra na mesa.
Afonso, para surpresa geral, se calou. Helena olhou de lado, surpresa com a mudança repentina do clima e com a firmeza na voz do namorado.
— O que você tá escondendo de mim? — perguntou, estreitando os olhos. — O que aconteceu?
Heitor sorriu com aquele charme natural e enfiou a mão no bolso. Tirou o celular e abriu o WhatsApp. Procurou por “Figueiredo” e virou a tela para Helena.
— Você lembra que eu já quis ser cozinheiro, né?
— Lembro.
Ele mostrou algumas mensagens trocadas com o amigo. Falavam sobre a ideia de abrir um restaurante.
Helena arregalou os olhos.
— Você ia mesmo abrir um restaurante?
— Eu ia — respondeu ele, olhando nos olhos dela. — A Monteiro Inc. é uma gigante em construção, mas você já deve ter percebido nos arquivos que a gente tem outras empresas, certo?
— Sim. Mas eu não sabia que você pensava nisso…Digo, no ramo de culinária…
Heitor tocou de leve uma mecha do cabelo dela e sorriu.
— A Monteiro Inc. é grandiosa. Mas as empresas relacionadas a MONTEIRO Inc., são de ramos que tem certa similaridade com a construtora.
— Que ladainha é essa? — resmungou Afonso, impaciente. — Restaurante! O que um restaurante poderia acrescentar ao império dos Monteiro?
Heitor deu um sorriso de canto.
— Absolutamente nada. Por isso mesmo que eu nunca faria isso ligado à Monteiro Inc.
Afonso bufou, indignado.
— Tá explicado por que o cronograma da filial nos Estados Unidos tá atrasado. Ficou perdendo tempo olhando tralha! Sempre foi distraído!
Ele virou o rosto para Helena, com raiva.
— E você sabe que esse moleque aí já quis largar tudo pra virar jogador de futebol?
Helena, que já ouvia com os olhos apertados, se inclinou ligeiramente.
— Sei também que ele tem levado a abertura da nova filial muito a sério. Fica até tarde da noite trabalhando. Tenho que brigar com ele pra parar! Então, com todo respeito, senhor Afonso... não faça pouco caso do esforço do Heitor.
Silêncio. Um daqueles de respeito, de impacto.
Heitor olhou para Helena como se fosse vê-la pela primeira vez. Um sorriso nasceu em seu rosto — amplo, orgulhoso e encantado. Aquela era a mulher dele.
Ele se inclinou e lhe deu um selinho.
— Ôpa! — resmungou Dona Olívia, arregalando os olhos. — Nada de beijos à mesa!
Helena, toda vermelha, murmurou:
— Não foi culpa minha...
Heitor, malicioso, deu outro beijo.
— Você não tá ajudando! — disse Helena, semicerrando os olhos, mas sorrindo no fundo.
Ela passou a mão pela barriga, num gesto quase automático.
Heitor então se aproximou do ouvido dela, a voz baixa e carregada do sotaque carioca:
— Preparei uma surpresa pra você na cozinha… Vem comigo?
Helena sentiu o corpo amolecer com o calor daquela voz. O sotaque dele sempre mexia com ela.
— Tá bom… eu vou. — murmurou, levantando-se sem graça.
— Ir onde? — perguntou Dona Olívia, desconfiada. — Posso ir junto?
Heitor pigarreou.
— Pode sim, dona Olívia. Eu já volto pra buscar a senhora. É que agora… é uma surpresa só pra Helena. Mas é coisa boa, eu juro.
Dona Olívia o olhou desconfiada, mas deu um sorrisinho.
Helena estreitou os olhos.
— Que você tá aprontando, Heitor?
— É assim mesmo — resmungou Afonso, com desprezo. — Abandona os velhos. Igualzinho o Renato. Pau mandado de mulher.
Heitor suspirou, com uma cara triste, quase teatral.
— Não é abandono, vô. É que a Helena gosta de exclusividade… e eu faço tudo por ela.
— Não me põe no meio disso! — disse Helena, rindo.
— Vergonha pra essa família! — Afonso completou, dramático. — Um pau mandado. Igual ao pai. Tudo fraco!
Heitor apenas deu de ombros, já puxando Helena pela mão com um sorriso travesso nos lábios.
— E feliz, vô. Fraco, mas feliz.
E sumiram pela porta, deixando para trás uma Dona Olívia meio desconfiada… e o Afonso ainda bufando indignado.
Helena deixou-se guiar por Heitor pelos corredores da mansão com a mão entrelaçada à dele. Os dedos firmes, entre os seus, faziam o coração dela aquecer de um jeito que nem os meses juntos conseguiam acostumar. O toque dele a fazia sentir-se mais do que amada… fazia sentir-se preciosa. E Helena adorava ser dele. Ser do Heitor.
O silêncio entre eles era confortável. Helena observava o jeito que os passos dele a conduziam sem pressa, com domínio, depois seus olhos subiram para o entrelaçar das mãos. Ela só percebeu que tinham entrado na cozinha quando ouviu o barulho de alguma louça sendo guardada. Havia dois funcionários ajeitando utensílios e organizando bandejas. Ela lançou um olhar curioso ao redor e se aproximou Heitor, como sempre fazia quando queria atenção — mão leve no bíceps dele, os dedos apertando de leve o músculo.
— O que a gente tá fazendo aqui? — sussurrou, desconfiada,
Heitor virou o rosto na direção dela e deu um selinho com gosto de travessura.
— Pedi pra prepararem algo pra você comer. Especialmente pra você, Helê.
Ele a puxou com aquele jeito mandão de sempre, como se ela fosse uma boneca feita de seda. Helena revirou os olhos, mas deixou-se levar. Sempre deixava.
— E por que tá pagando nutricionista e chef, então? Se vai me fazer fugir da dieta toda vez... — retrucou com sarcasmo, mas já rindo.
Heitor parou e virou o rosto pra ela, com uma expressão séria que beirava o cômico de tão forçada.
— Porque aquele cardápio não é suficiente. Não confio naquele monte de folha e chia. Aquilo ali não alimenta nem o bebê, muito menos você.
Helena gargalhou. Gargalhou mesmo. A risada ecoou no peito e ela teve que se apoiar nele.
— Ai, Heitor… você é um idiota! — falou com carinho, as mãos agora no peitoral dele, pressionando de leve.
— Idiota que anda pesquisando tudo sobre gravidez. — Ele ergueu a sobrancelha com orgulho. — Já sou praticamente um obstetra. Se duvidar, entro na justiça exigindo meu CRM.
Helena o observou. Ele estava tão… bonito. Tão Heitor. Tão dela. A cada novo dia ela descobria um motivo a mais para se apaixonar por ele. Era ridículo o quanto ela gostava daquele homem.
Ela mordeu o canto do lábio, sem perceber, deixando o olhar descer pelo corpo dele devagar. Heitor notou. É claro que notou.
— Tá gostando do que vê, Helena? — ele perguntou com aquele sorriso safado que só ele sabia dar.
Ela levantou os olhos devagar, provocante.
— Tô. Adoro.
— E o que mais você adora? — ele deu um passo mais perto, o volume no calção só começava a ficar mais marcado, reagia com a fome que ele nunca fazia questão de esconder.
Helena olhou em volta — estavam sozinhos agora — e então deslizou as mãos pelo peitoral dele, devagar, como se precisasse tocar para mostrar.
— Adoro seu peitoral… tão sexy, tão… firme. Já te falei isso?
— Nunca. — Ele sorriu, os olhos escurecendo. — Mas eu quero ouvir mais. Vai, Helê… do que mais?
Ela mordeu o sorriso, o olhar derretido, e passou as mãos até os ombros dele.
— Dos seus ombros largos… braços fortes… essa barriga que não é chapada exagerada, suas costas largas, nossa… o desenho das suas costas me deixa enlouquecida. Você é gostoso demais, Heitor Monteiro.
Ele estava rendido. Bastava uma palavra dela e ele quebrava todas as leis da física por ela.
Então, ele pegou a mão dela e guiou até o volume bem marcado no calção.
— E disso aqui… você gosta?
Helena ergueu uma sobrancelha, com aquele ar debochado que só ela sabia fazer. E o sorriso bem atrevido.
— Gosto. Gosto muito. Aliás, é mais do que pedi. Bônus do destino.
— Quer que eu te mostre como eu sei usar? — ele murmurou, colando os lábios no pescoço dela.
— Quero. — Ela sorriu. — Mas só mais tarde.
Heitor colou o corpo no dela e a envolveu com os braços. As mãos firmes desceram até a cintura dela, segurando com desejo.
— Vai ser gostoso, Helê… só pra você desestressar. Sei que tá tensa. Eu tô também. E esse vestido tá me matando.
Ela riu baixinho, com o rosto escondido no peito dele.
— Tinha alguma coisa que você queria me mostrar, não tinha?
Heitor deu um suspiro dramático, frustrado como uma criança sem sobremesa.
— Você realmente não vai me dar nada agora?
— Nem um belisco. Você tá maravilhoso, mas eu tenho que focar. Tenho que pensar no que vou falar com a minha avó.
Ele a abraçou, escondendo o rosto no pescoço dela.
— Você não precisa contar nada agora.
— Preciso sim, Heitor. Amanhã é véspera de natal. Não quero que a vovó tenha a mesma surpresa que eu tive. Imagina se ela acaba encontrando a Lorena sem saber de nada?
Heitor soltou o ar, ela tinha razão.
— Tá bom. Mas não me deixa assim, trombudo, que vão perceber. — ele disse choramingando e pressionando o volume nela.
— Então abaixa essa tromba, porque você ainda tem a noite toda pra fazer o que quiser. — Ela piscou.
— Difícil. Você tá uma visão grávida… deliciosa. Eu fico faminto, Helê.
Helena afastou o rosto e riu, empurrando o peito dele com carinho.
— O que você arrumou pra eu comer?
Heitor sorriu torto, um sorriso orgulhoso de quem fez algo incrível. Foi até a geladeira, ainda com a “barraca” armada, e Helena cobriu o rosto, sorrindo e morrendo de vergonha por ele andar assim pela cozinha da casa dos pais.
Ele tirou de lá uma pequena cumbuca de vidro e puxou uma colher da gaveta. Voltou até ela, todo faceiro.
Pegou uma colherada e aproximou da boca dela.
— Experimenta. Vai. Confia.
Ela comeu e seus olhos se arregalaram.
— Nossa… isso tá muito bom!
Ele quase pulou.
— Eu que fiz. Só pra você.
Helena olhou para ele, surpresa e encantada. Era tão raro ele ter tempo pra isso agora.
— Eu sinto falta disso. De quando você cozinhava pra mim. O chef é ótimo, mas… a sua comida é diferente.
Heitor arregalou o sorriso, mas ela já sabia: ele tinha entendido tudo errado.
— Claro que é diferente. Minha comida é a melhor que você já levou na vida. Você sempre engoliu tão direitinho… E é… vou dispensar o chef. Não quero outro homem tentando por nada na sua boca. Isso é comigo. Só comigo.
Helena deu um tapa leve no peito dele.
— Você é insuportável.
Heitor apenas sorriu, vitorioso. E dentro daquele sorriso, ela leu tudo: o amor, o desejo, a gratidão por tê-la… e a certeza convencida e possessiva dele, que ela era dele.
Ela o amava. E sabia que podia contar com ele.
Logo, contaria tudo à avó. Não sabia como ela reagiria, mas querendo ou não, Lorena fazia parte daquele círculo e em algum momento, as duas iriam ao menos se ver.
Mas, por agora… ela só queria ser a mulher que ele amava. E ser amada de volta, do jeitinho exagerado e insuportavelmente fofo que só Heitor sabia ser.
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