O CEO que Eu Paguei

200 Até onde um laço estica?


A sala de jantar, agora silenciosa, parecia maior. Vazia demais. As louças finas ainda tilintavam ao fundo, levadas pelos funcionários. Mas a presença mais pesada ali era o passado.

Afonso pigarreou, apoiando-se na bengala, e olhou para a senhora sentada na ponta oposta da mesa. Havia ali algo que ele não conseguia nomear — algo que o irritava e, ao mesmo tempo, doía.

— Vamos tomar um ar, Olívia? — resmungou, sem delicadeza, como se pedir algo fosse admitir fraqueza.

Ela apenas assentiu, ajeitando a barra da saia. Caminharam, em um ritmo bem diferente de décadas atrás, em silêncio até a varanda lateral, onde se via o jardim todo decorado para o natal. Era do jeito que os Monteiro sempre faziam, o natal era a data favorita da família. O império de Afonso podia ser de concreto, mas o que o mantinha em pé eram os laços familiares.

Ele olhou o jardim com desdém fingido, como se não se importasse. Mas essa também era a data festiva favorita dele.

— Então... parece que meu neto e a sua neta tão juntos. — soltou, como se comentasse o tempo.

Olívia continuou olhando os enfeites, sem pressa.

— Parece que tão mesmo... — respondeu. — Mas eu gosto do Heitor. Ele é... bem diferente do senhor.

Afonso virou o rosto com um estalo de irritação.

— Heitor não é tão diferente assim de mim, não. Ele carrega o meu mesmo sangue. E esse bebê que sua neta tá esperando também. Gostando ou não, a senhora vai ter que aceitar.

Olívia finalmente olhou para ele. O olhar dela era calmo, firme e cheio de história.

— Aceitar a gente aceita. O que tá feito... tá feito. Mas, se eu soubesse antes... mesmo gostando muito desse menino... eu não deixava minha neta se enroscar com alguém com sangue seu.

A bengala bateu no chão com força. Afonso franziu o cenho, o maxilar travado.

— Por que esse ódio todo, Olívia? — a voz dele subiu um tom. — Quem devia odiar aqui... sou eu.

Ela sentiu algo dentro do peito rachado, algo antigo. Era como um vaso, colado tantas vezes... e ainda assim, partido.

— Porque o senhor... amaldiçoou minha família.

Afonso recuou um passo, surpreso. Piscou devagar, o corpo velho tentando puxar da memória algo mais do que as sombras do que foi.

— Eu já ouvi isso muitas vezes... mas eu nunca fiz nada pra sua família. Muito pelo contrário. A senhora devia me agradecer. Coloquei empresa na sua cidade, dei emprego, botei comida na mesa de muita gente. Inclusive da sua neta. Helena tá feliz... por causa da existência generosa e gloriosa da minha pessoa!

Os olhos de Olívia se encheram de lágrimas. Afonso, convencido de que ela estava emocionada de gratidão, ergueu o queixo orgulhoso.

Mas ela respondeu com a voz embargada:

— O meu filho morreu... e foi por causa do senhor.

Afonso sentiu o mundo parar por um segundo. Seus dedos apertaram o cabo da bengala. Tentou buscar na mente algum acidente fatal, algum processo judicial, algo que justificasse aquilo. Mas, nem algum amputamento ocasionado no processo de construção havia acontecido naquela pequena cidade, disso ele tinha total certeza. E o mais importante, nenhum trabalhador morreu trabalhando para ele, independente da filial.

— Do que... a senhora tá falando?

— O senhor me praguejou. Disse que eu ia sofrer. E eu sofri. Perdi meu filho. Agora minha neta foi embora... eu tô sozinha. A praga funcionou.

Ele abaixou a cabeça. Aquilo era... possível. Talvez tivesse dito mesmo. Mas, ele nem se lembrava mais do que havia dito. Só se lembrava de algumas coisas mais odiosas para ele.

— Eu sinto muito pela perda do seu filho. — murmurou. — De verdade. Já fiz muita coisa na vida, mas não tenho nada haver com o falecimento dele. Mesmo sem conhecer a história posso afirmar isso.... se ajuda a ser mais fácil para você, pode continuar me culpando e a me odiar também.

— O senhor nunca devia ter falado aquelas barbaridades pra mim. Eu ajudei o senhor. Cuidei, dividi o que tinha...

Afonso engoliu seco. Era verdade.

— Eu nunca fui um homem fácil. — suspirou fundo. — Mas você e sua família me ajudaram. Eu fui um ingrato. Só percebi depois. Bem depois. E se serve de alguma coisa... eu queria agradecer. E pedir desculpa. Por tudo que causei. Por ter te ferido.

Olívia respirou fundo, o peito apertado.

— Dói até hoje.

— Eu entendo.

— Entende nada... — ela soltou com raiva, os olhos marejados. — O senhor é ruim demais. Não tem coração.

Afonso enfiou as mãos no bolso da calça. O corpo dele parecia cansado, mas a dor que veio a seguir... não era física.

— Eu perdi minha filha. A minha menina... ela era só uma criança. E depois, perdi a Maria Lúcia. Minha mulher. — a voz de Afonso estava carregada de dor. — Você veio desacompanhada. Imagino que o Zé também tenha partido, né?

Olívia assentiu devagar. A voz saiu baixa:

— Já faz uns anos... mas nunca se supera.

— Então eu a entendo melhor do que imagina.

— Eu lamento suas perdas. De verdade, Afonso.

— Eu agradeço. — ele respondeu, encarando o jardim à frente. — Eu tinha tanto dinheiro... e nem isso salvou minha filha. A gente se ilude achando que pode tudo... mas nada substitui quem se ama.

— Ela era muito jovem?

— Tinha cinco anos. E depois disso... minha esposa não quis mais ter filhos. E o Renato… sofreu tanto que anos depois, quando Heitor nasceu, não quis dar um irmão a ele. — ele sorriu com pesar. — Faz alguns anos que eu até digo pra ele dar um jeito e ter outro filho, porque o Heitor não parecia dar conta de aumentar essa família.

Olívia sorriu pela primeira vez. Um sorriso contido, mas verdadeiro.

— O senhor não precisa se preocupar mais com isso. Vai ter um bisneto agora.

— E a senhora também. — ele respondeu mais suave. — O seu filho... morreu jovem?

— Já era homem feito. Mas ainda era meu menino. Henrique... — ela engoliu o choro. — Era o mais apegado à família.

— Meus sentimentos.

Ficaram em silêncio. Um silêncio pesado, mas de partilha.

Afonso então quebrou a pausa.

— A senhora... se casou com o Zé?

Olívia sorriu com orgulho:

— Casei sim. Ele era bom. E era valente. O senhor sabe disso.

Afonso riu com gosto pela primeira vez naquela noite.

— Seria engraçado encontrar ele aqui hoje, viu? A Maria Lúcia ia adorar ouvir essa história. Ia rir da minha cara, como sempre fazia.

— E como ela era? — perguntou Olívia.

— Um anjo. Feita sob medida por Deus para mim. A única mulher que me amou e eu amei. — ele sorriu e apontou o dedo para Olívia. — Então pode tirar o cavalinho da chuva, viu? Porque esse homem aqui é eternamente da Maria Lúcia. Nem pense em se apaixonar por mim.

Olívia piscou, incrédula. Ela não sabia da onde aquele homem tirou tamanho absurdo.

— Eu nunca quis nada com o senhor e isso não mudou agora. Ainda bem que encontrou alguém para amar. Deve ser por isso que parece ter melhorado um tiquinho.

— Eu sempre fui ótimo.

Ele estendeu a mão. A mão marcada pelo tempo, mas firme apesar da idade.

— A gente pode fazer as pazes? Agora estamos ligados, Olívia. Pelo Humberto.

Ela olhou a mão estendida, olhou os olhos dele — mais velhos, mais cansados, mas menos frios e explosivos do que lembrava. E então apertou.

— Tá certo. O senhor não parece mais tão ruim quanto eu lembrava.

— Eu sou a criatura mais pura desse planeta. — ele disse, com o orgulho cínico de sempre.

— Hum... — Olívia balançou a cabeça. — O senhor é muita coisa. Mas puro? Isso aí é história pra boi dormir.

Olívia riu, não que Afonso tenha sido alguém tão relevante na sua vida, se ele não tivesse a praguejado talvez nem se lembraria daquele garoto do Rio de Janeiro.

— Quantos filhos você teve mesmo, Olívia? — perguntou curioso.

Ela estava com as mãos nos cabelos, amarrando os cabelos acinzentados rebeldes e respondeu com doçura.

— Três. O mais velho mora em São Carlos, o do meio ficou em Belo Horizonte. E o caçula... — hesitou, mas completou — é o que virou saudade.

Afonso pigarreou e depois deu uma risada divertida.

— Zé foi esperto, viu... três filhos já. Eu devia ter feito o mesmo com Maria Lúcia, nem dar tempo dela pensar.

— Os filhos foram meu maior orgulho. E do Zé também. — disse com um sorriso triste, porém sincero.

Afonso bufou com ar zombeteiro, o sorriso torto surgindo nos lábios.

— Vou dar um conselho pro Heitor: a amamentação impede gravidez. — disse, com um brilho provocador nos olhos e o sorriso maldoso. — Se tudo correr como eu quero, vou ter vários bisnetos em pouco tempo. Ele que não venha me perder tempo!

Olívia riu com aquele riso abafado, sacudindo os ombros franzinos.

— Eu já tenho uns bisnetinhos por aí... mas tô curiosa é com esse agora. Quero ver se o bebê da Helena vem com olho azul.

Afonso estufou o peito, todo convencido.

— Se vier, vai ser herança minha. O sangue Monteiro é forte. Vai realizar seu desejo de ter um familiar com os olhos mais lindos desse país. Que por coincidência, são os mesmos que os meus.

Olívia franziu a testa e deu um sorrisinho provocador.

— Ah, tomara que puxe os do Heitor. São muito mais bonitos que os seus. Um azul quentinho... coisa de televisão.

Afonso virou-se pra ela com uma cara indignada.

— A senhora tá me provocando, hein?

— Um tiquinho só... — disse, com os olhos brilhando de divertimento.

Eles então ouviram passos. Quando viraram, Helena surgia de mãos dadas com Heitor, andando devagar.

— Demoraram. — comentou Olívia, com as sobrancelhas arqueadas.

Heitor sorriu meio cabisbaixo, coçando a nuca.

— A gente podia ter demorado mais... — disse, tentando parecer inocente. — Foi só o tempo da Helê comer o banoffe.

Helena acariciou a barriga com carinho, sorrindo.

— E estava maravilhoso. Até o bebê aprovou. — disse, e levou a mão livre até os lábios e deu beijo, depois levou novamente até a barriga.

Heitor, encantado, não perdeu tempo e colocou a mão na barriga dela também. Seus dedos deslizavam devagar sobre o tecido leve do vestido, ele amava tanto aqueles dois.

— Ele já sabe que é meu parceiro número um. — disse Heitor, a voz totalmente derretida.

Helena o olhou com ternura. Por um instante, até esqueceu do mundo. Depois, virou-se para a avó.

— Vó, posso falar com a senhora um minutinho?

Heitor percebeu que aquela era sua deixa, deu um beijo na bochecha dela.

— Vou ali conversar com o meu avô... já volto.

Afonso deu aquele sorriso largo, debochado e maldoso.

— Isso mesmo, moleque. Tenho umas lições importantes pra te passar. — disse.

Helena franziu o nariz, desconfiada, mas não falou nada. Puxou a avó para um abraço apertado enquanto Heitor e Afonso saiam da varanda.

— Ele falou alguma besteira pra senhora? A senhora tá com os olhos um pouco vermelhos...

Olívia afastou-se um pouco, acariciando o braço da neta com a palma enrugada.

— Não, minha filha... é só emoção mesmo. Muita lembrança de uma vez só.

Helena a olhou com doçura e seriedade.

— Se ele ou qualquer coisa tiver incomodando, a senhora fala. Eu resolvo.

— Ocê sempre foi assim, né? — respondeu Olívia, sorrindo com afeto. — Sempre querendo resolver tudo sozinha, desde pequena. Coração grande demais.

As duas se sentaram em poltronas vizinhas, acolhidas pela luz morna do sol batendo no jardim.

— Talvez isso seja de mim mesmo... — disse Helena, encostando-se melhor. — Mas agora... tudo mudou. E tão rápido. Passei a vida toda correndo atrás de notas, diploma, trabalho, cargo e resultado. Agora não tenho que atualizar meus cursos e trabalhar até altas horas. Ser diligente com o trabalho era tão rotineiro que nunca tive muito tempo para pensar em outras coisas que não fossem melhorar meu currículo.

Helena deu uma pausa, tomou ar e continuou.

— Eu só conhecia isso… agora… eu estou conhecendo tantas coisas. Pode parecer estranho, mas eu passei tanto tempo tentando ser alguém que eu nunca fui eu mesma. — ela continuava com o olhar perdido no jardim. — Agora eu vivo experiências que eu nunca imaginei, que antes pareciam perca de tempo e de dinheiro.

Ela deu um sorriso tímido e olhou para a avó.

— Sabe o que eu tô adorando fazer? Se chama scrapbooking é um tipo de recorte e colagem de fotos e imagens. Há algumas semanas eu nem sabia o que era isso, mas agora é tão prazeroso! Eu nem me sinto culpada em gastar meu tempo com isso.

— Tá querendo parar de trabalhar? — perguntou Olívia, com uma sobrancelha arqueada.

Helena sorriu de canto, um sorriso novo, de uma mulher que se reconhece diferente no espelho.

— Não parar, vó. Mas quero viver melhor. Hoje eu trabalho pros Monteiro, e sei que tô criando um legado pro meu filho. Mas quero equilíbrio. Não quero ser só a Helena que trabalha. Quero ser também a Helena namorada, a Helena mãe, a Helena que faz colagem e escuta podcast de romance investigativo. E ainda existem muitas Helenas para mim que quero descobrir.

Olívia olhou a neta com um carinho que só uma avó pode entender. Tocou a mão dela e disse:

— Eu tô feliz por você, minha filha. Sempre achei que ocê era séria demais... E sempre gostei muito do Heitor. Desde a primeira vez.

Helena riu, baixinho.

— Nem sei como, mas... hoje eu não me imagino mais sem ele.

— E tá feliz?

Helena olhou para o céu um instante, como quem procura uma palavra certa. E então respondeu, com um sorriso largo, tão sincero que fazia doer de bonito:

— Nunca estive tão feliz.

Dona Olívia assentiu, os olhos marejando mais uma vez. Ela havia criado Helena com tudo que tinha. E agora... ver sua menina tão inteira, era como ser recompensada por tudo.

— Seu avô... — disse com voz embargada — Ele teria muito orgulho de ocê. Ia ficar bobo com o Humbertinho.

Helena suspirou emocionada.

— Eu imagino que sim.

As duas permaneceram em silêncio por um tempo, de mãos dadas.

Helena passou o polegar com carinho pela pele enrugada da mão da avó. A pele era fina como papel de carta antigo, e o calor que irradiava dali era familiar, seguro… amoroso. Mas o que ela precisava dizer ameaçava abrir feridas que jamais haviam cicatrizado de verdade.

Respirou fundo. O momento havia chegado.

— Vó… eu encontrei a minha mãe.

Olívia congelou. Foi como se tivesse ouvido uma gota cair no meio do silêncio, e tudo nela endureceu. Não virou o rosto. Ficou ali, olhando o vazio com os olhos semicerrados. A boca dela se apertou numa linha fina, as rugas ao redor dos lábios se aprofundaram.

— Lorena?

O nome saiu áspero. Como farpa teimoso enterrada na pele e no tempo.

A voz de Helena veio num sussurro melancólico.

— Sim…

A avó piscou devagar, e a garganta dela mesmo seca, falou.

— Onde? — ela perguntou, e a voz veio rouca, cansada, como se tivesse se desprendido do fundo do peito. — Quando?

— Aqui no Rio… já tem um tempo. Aconteceu por acaso. Ela só apareceu de repente.

Olívia arregalou os olhos, o brilho neles denso e doído. Não era emoção bonita. Era uma dor antiga, uma raiva embrutecida por décadas, que Helena conhecia desde criança, mas nunca tinha visto transbordar daquele jeito.

— O que aquela desgraçada queria? — a avó murmurou, como se tivesse cuspido veneno.

Helena prendeu a respiração por um segundo, lutando para manter a voz firme.

— Disse que queria me ver… conversar… saber de mim.

A mão de Olívia subiu até o peito, e ela apertou a blusa com força, como se quisesse segurar o coração para ele não cair no chão.

— E ocê… conversou?

— Conversei. — admitiu, a voz falha. — Eu precisava. Precisava ouvir alguma coisa, vó. Saber o que ela tinha pra dizer. Entender…

A avó fechou os olhos com força. Duas lágrimas escaparam — grossas e pesadas — e ela limpou com raiva, como se nem as próprias lágrimas merecessem cair por aquela mulher.

— E o que ela disse? — a voz vinha baixa, embargada, mas havia uma agressividade ali, como se cada palavra ferisse a língua.

Helena hesitou por um instante. E então, resolveu não mentir.

— Disse que era jovem demais. Que fugiu porque achava que ia arruinar a vida. Disse que pensou que eu seria mais feliz sem ela.

Olívia bateu a mão com força no braço da poltrona, o estalo ressoando como uma bofetada.

— Feliz?! FELIZ SEM MÃE?! — gritou, a voz quebrada pela indignação. — Ela matou o seu pai, Helena! E depois teve a coragem de te deixar! Sabe quantas noites eu passei ajoelhada, pedindo pra Deus não deixar ocê repetir a história dela? Para que fosse diferente?

Helena fechou os olhos por um momento, tragando o choro com esforço. Era difícil ouvir, difícil reviver. Mas necessário.

— Eu sei, vó. Eu sei de tudo isso. — murmurou. — Mas eu… eu precisava olhar pra ela. Precisava ver quem ela era. Saber se… ela me quis alguma vez.

— E ocê sentiu o quê, Helena? — a avó cortou, a voz de súplica e medo. — O que ocê sentiu quando viu aquela… criatura?

Helena respirou fundo. Sentia os olhos úmidos, o coração pulsando doído.

— Raiva. Pena. Curiosidade. Um vazio gigante, vó. E... um fim. Eu precisei entender quem ela foi pra poder fechar aquela porta. E deixar pra trás.

Olívia chorava agora. Não soluçava, mas as lágrimas escorriam com a lentidão de quem já chorou demais ao longo da vida. Chorava por ela mesma, por Henrique, pelo bisneto que ainda não conheceu, pela neta que sofreu tanto, pela mulher que ainda não sabia perdoar.

Helena se inclinou e passou a mão com carinho pelos cabelos da avó.

— Vó… eu não vou colocar ela na minha vida. Eu vi quem ela é. E é exatamente a mulher que a senhora disse que era.

A dor, o orgulho e a lealdade. Tudo queimava dentro de Helena.

Olívia ergueu os olhos marejados.

— Ela te fez alguma coisa, minha filha?

Helena balançou a cabeça, com tristeza.

— Ela só mostrou quem realmente é. E isso… já foi o bastante.

A avó segurou a mão da neta com as duas mãos, como se quisesse protegê-la do passado. Da vida.

— Não veja mais essa mulher, Helena. Pelo amor de Deus!

Helena engoliu em seco.

— Eu gostaria de evitar, vó… Mas não posso. Acontece que... a nova família dela é muito próxima da do Heitor. O marido dela… é um homem bom, me ajudou quando precisei. E eu tenho dois irmãos. Meus meios-irmãos. E eu... eu quero conhecê-los melhor. Quero manter contato com eles.

Olívia arregalou os olhos, o pânico reaparecendo.

— Ela tá aqui?

— Não, vó. Mas... amanhã eu queria apresentar os meninos pra senhora. São pessoas boas. Queria que a senhora os conhecesse.

Olívia abaixou a cabeça, respirando fundo. Lutava contra tudo que sentia, a mágoa, o medo e o amor. Tudo junto num só corpo envelhecido.

— Eu não sei…

— Eu vou estar com a senhora. Sempre. A senhora é minha família. E por isso quero que aceite essas pessoas que agora… também fazem parte da minha vida.

Helena olhou a avó, o rosto enrugado carregando décadas de histórias e feridas.

— Essa mulher foi ruim, Lêlê. Fez tanto mal. Eu… não sei se consigo aceitar isso. Me desculpe.

Helena sentiu uma pontada no peito. Era uma dor familiar, como aquela que sentiu ao encarar Lorena. Mas não era uma dor de raiva, era a dor de querer acreditar em uma ilusão. O peso de querer que tudo fosse diferente. E na realidade, nunca seria.

— A senhora consegue… tolerar? Só isso. Só... estar perto sem ter que falar com ela.

A avó hesitou. O silêncio entre elas parecia eterno.

— Eu não queria vê-la. Não quero... partilhar o mesmo teto com ela.

Helena segurou a mão da avó com firmeza e os olhos marejados.

— Vó, por favor… tenta por mim. Tudo bem?

Dona Olívia encarou o rosto da neta — tão parecido com o de Lorena, mas tão diferente em alma que chegava a doer. Será que Lorena se arrependia de tudo o que fez? Se arrependia de toda a dor que causou? Pelas palavras da neta… não.

— Eu não posso, minha filha. Ocê não conheceu seu pai e por isso talvez não entenda. Mas… eu não posso trair a memória dele. Quando seu filho nascer, ocê vai entender.

Helena apenas sorriu de lado. Não era um sorriso bonito. Era um sorriso quebrado, sem forma nem esperança. A verdade é que só uma mulher não soube ser mãe e essa mulher era justamente a mãe dela. Helena sabia que seria diferente, mas nem por isso deixava de ter medo. Medo de não ser mãe suficiente para aquele menino que crescia dentro dela. Medo de falhar. Medo de ser tudo o que ela sempre odiou.

— Tudo bem, vó… obrigada por me ouvir.

Dona Olívia ajeitou a postura e passou os dedos pela saia longa, preparando para algo mais.

— Seu tio me visitou esses tempos.

Helena arqueou uma sobrancelha, tentando entender aonde aquilo levaria.

— Qual deles?

— O Leonardo. Me chamou pra morar com ele em Belo Horizonte.

Por um instante, o mundo de Helena pareceu parar. Ela só conseguia escutar aquela frase se repetindo dentro da própria cabeça. A avó ia embora.

— Mas… a senhora vai?

— Vou. Desde que o Leonardo se divorciou, ficou tão sozinho… e agora que seus primos se casaram e quase não aparecem, ele tá lá, só. Agora que você também se mudou pro Rio… é hora de eu seguir a minha vida, Lêlê.

Helena sentiu o ar escapar dos pulmões. Um aperto desceu pelo peito como uma corrente pesada de ferro pesada, fria e inevitável.

— Vó… isso é por causa da minha mãe?

— Não. — A voz da mais velha saiu firme. — Eu também tinha essa conversa difícil pra ter com ocê, só não achei que fosse hoje.

— Mas… a gente sempre esteve junta. Quem vai cuidar da nossa casa? E do Tótó?

— Eu vou alugar a casa. E vou levar o Tótó junto, ora essa.

— Assim? Fácil assim? E as nossas memórias? Tudo o que a gente viveu? Os domingos no quintal, a máquina de costura, o café da tarde? A sua horta, a cadeira de balança no porta?

— Lêlê… meu amor… não tem por que eu ficar sozinha naquela cidade. Todo mundo seguiu a vida. Agora eu quero seguir a minha. Quero passar a velhice perto dos filhos que ainda tenho, dos netos que sobraram por lá. Eu não sou forte como antes, minha filha.

Helena tentou argumentar, mas a voz saiu falha, embargada.

— A senhora pode morar comigo… aqui no Rio. Eu cuido da senhora. A gente fez um quarto só pra senhora na nossa nova casa, eu e o Heitor. E... e eu já conversei com ele sobre te colocar num plano de saúde.

— Eu aceito o quarto, quando for te visitar. E o plano de saúde, aceito mais ainda. Mas morar aqui… não. Essa vida agora é sua, não minha. Ocê está começando, meu amor. Está se tornando mãe. Tem um mundo novo pra viver. E eu não quero ser uma âncora.

— A senhora nunca foi uma âncora — murmurou Helena. — A senhora foi meu porto.

As palavras se dissolveram antes mesmo de chegarem por inteiro à boca. Ela levou as mãos ao rosto e chorou. Chorou como há muito não chorava. Um choro de menina perdida, de mulher que foi forte demais por tempo demais e agora não aguentava mais segurar.

Dona Olívia sentou-se ao lado da neta e a puxou para um abraço. Um abraço apertado, com cheiro de seu perfume tão característico. Um abraço que curava e partia ao mesmo tempo.

— Meu amor… isso é a vida. Os pais criam os filhos para serem livres. Eu sempre vou estar com ocê, não vai se livrar de mim tão fácil assim não. Sempre vou vir te visitar e quero que também me visite. Além disso vou ficar para te ajudar no resto da gravidez e nos primeiros meses do meu bisnetinho. Ocê não tá sozinha, e mesmo que não estejamos no mesmo local, ainda estaremos juntas, ainda seremos família. Ocê sempre será uma parte de mim.

Helena enterrou o rosto no colo da avó como quando era criança, soluçando baixinho, deixando que o calor daquela pele conhecida a envolvesse como antes.

— Eu não quero que a senhora vá…

— Menina, eu andei de avião! Ocê não viu? Cheguei rapidinho aqui, gostei demais de voar, agora eu chego onde ocê estiver.

Silêncio.

Então, com voz baixa, a avó disse:

— Sabe… talvez eu queira conhecer os rapazes que ocê falou. Mas só eles. Quero ver se são bons o suficiente pra estar com ocê. Eu gosto do Heitor e da família dele. Ocê tá em boas mãos.

Helena assentiu com a cabeça, mas não disse nada. Porque naquele momento, ela já não sabia mais se era a neta, a mulher, a mãe… ou apenas uma menina segurando com todas as forças o que restava de suas raízes.

Ela sabia que aquele dia chegaria. E foi justamente por isso que o adiou por tanto tempo. Nunca quis mudar de vida — pelo menos, não antes de conhecer Heitor. Sempre se agarrou à rotina, à simplicidade dos dias com os avós, mesmo que isso significasse silenciar seus próprios sonhos. Fantasiava que seria para sempre só ela e os dois, naquele pequeno mundo onde o tempo parecia mais lento. Então a vida tirou seu avô, e foram então apenas as duas por alguns anos. E se dependesse de Helena, seria até o final dos seus dias.

Quando conheceu Heitor, tudo mudou. Pela primeira vez, ela quis mais.

Achou que trazer a avó para o Rio seria simples, mas a realidade se mostrou mais complexa do que esperava. Ainda assim, difícil não significava impossível. Talvez, no fundo, sua avó gostasse tanto daquela cidade que optasse por ficar. Talvez sua avó se apaixonasse pela cidade grande. Talvez gostasse tanto daquela terra onde Helena estava construindo a vida, que decidisse ficar.

E se ficasse... Helena garantiria que não faltasse nada. Que ela tivesse conforto, cuidados, tudo do bom e do melhor.

Mas, talvez ela não quisesse ficar e se isso acontecesse… O tio Leonardo nunca foi seu favorito… mas, ao que tudo indicava, seria ele o sortudo a dividir os dias ao lado da avó e colher os frutos de todo cuidado que Helena proporcionaria a ela em Belo Horizonte. Precisava conversar com Heitor sobre isso. Mas tinha certeza de uma coisa: ele não levantaria obstáculos. E sim pontes.

Estava tudo bem. No final, tudo ficaria bem.