O CEO que Eu Paguei
216 O Amor Mora Aqui
Helena estava feliz.
Era um sentimento estranho, ainda delicado, como se pudesse se quebrar ao menor descuido — mas era real. Estavam indo para casa. Para a casa deles. Com o filho nos braços da vida, finalmente longe daquele ambiente hospitalar que, mesmo seguro agora, ainda carregava lembranças difíceis demais para ignorar.
As imagens do que aconteceu com Antônio ainda surgiam de vez em quando, como sombras insistentes no fundo da mente. Mas, à medida que o carro se afastava da maternidade, algo dentro dela começava a respirar de novo. Como se o corpo entendesse antes da cabeça: acabou. Você sobreviveu.
Helena estava no banco de trás da Audi A7 preta de Heitor. Ao seu lado, Humberto dormia profundamente no bebê conforto, tão pequeno, tão perfeito, que às vezes parecia irreal. Na frente, Heitor dirigia com uma leveza quase infantil, cantarolando “Caso Indefinido” com um sorriso sincero nos lábios. Ele olhava o retrovisor vez ou outra, e cada vez que seus olhos se encontravam com os dela, Helena não conseguia segurar o sorriso..
Ela encostou a cabeça no vidro, observando as árvores altas e as estátuas elegantes da alameda desfilarem lá fora.
— Pois é, Humbertinho… — Heitor disse, cheio de satisfação, como se estivesse apresentando o próprio legado. — Pensar que você foi concebido nesse carro e agora tá indo pra casa nele.
Ela estreitou os olhos, já imaginando onde aquilo ia dar.
— E quando for pra escolinha pela primeira vez, vai ser nesse carro também. — ele continuou.
Ela revirou os olhos, mas o canto da boca denunciou o sorriso. Aquela era a essência dele. E ela amava isso.
— Para de falar essas coisas pro menino, Heitor.
— Relaxa, amor — ele respondeu, olhando para ela pelo retrovisor e piscando, daquele jeito convencido que só ele tinha. — Tô falando mais pra você do que pra ele. Essa Audi é a história do nosso primeiro filho. Mas quando a gente for fazer o segundo, aí é no Aston Martin. Um filho por carro favorito.
— Não inventa moda, Monteiro — ela retrucou, balançando a cabeça. — Ainda bem que eu já me precavi de você.
O olhar de Heitor brilhou de curiosidade, e ela sabia que ele entendeu do que ela estava falando.
E, sem perceber, sua mão foi até o braço, tocando de leve o ponto quase imperceptível onde o chip anticoncepcional estava implantado.
Durante a gravidez, ela tinha conversado longamente com a doutora Ana Flávia sobre o pós-parto. Sabia que o método mais seguro seria a camisinha — em teoria. Mas também sabia, com a certeza incômoda de quem conhecia o homem que tinha, que Heitor sempre dava um jeito de convencê-la do contrário. Ele tinha esse talento irritante: fazia tudo parecer lógico, inevitável… e delicioso.
O DIU estava fora de cogitação. Helena tinha lido relatos demais, histórias demais, dores demais. Já tinha passado por sofrimento suficiente. Então optou pelo chip. Prático. Discreto. Cientificamente confiável — pelo menos era isso que ela repetia para si mesma.
Mesmo assim, às vezes olhava para o braço e pensava, meio desconfiada: tomara que funcione mesmo.
Heitor soltou uma gargalhada ao perceber o pensamento dela. Era como se ele a lesse.
— O melhor de tudo é que nunca mais vamos precisar usar camisinha! — disse, eufórico. — Nem acredito. Oficialmente livre!
Humberto se remexeu, abrindo os olhos. Helena pegou a mãozinha dele, encantada com os dedinhos minúsculos, e falou com a voz mais fofa do mundo:
— O papai é muito bobo, né, filhinho?
— Bobo nada — Heitor respondeu. — Só eu e Deus sabemos o quanto você me fez sofrer com aquela borracha. Tadinho de mim. Esse chip foi tipo um presente divino de compensação por eu ser um excelente homem pra você.
— E você se controla — Helena disse, agora séria, erguendo o olhar para o retrovisor. — Eu não te perdoo nunca se pular a cerca.
Ele não riu dessa vez. Apenas respondeu com firmeza tranquila:
— Meu pau só sobe por você, amor. E se prepara… quando você estiver recuperada, vou dispensar todos os funcionários, o Humberto vai dormir na casa dos meus pais com a sua avó… e eu vou estar sedento por você.
Helena riu, balançando a cabeça. Amava aquele homem mais do que era razoável admitir.
Quando chegaram à mansão, o coração dela acelerou. A casa. O portão se abrindo. O jardim impecável. Tudo parecia envolvê-los num abraço silencioso que apenas o lar era capaz de proporcionar.
Na porta, os empregados aguardavam ansiosos, sorrisos abertos, olhos marejados. Heitor desceu primeiro, ajudou Helena com cuidado e depois pegou a cadeirinha de Humberto.
Desejaram longa vida ao bebê, bênçãos, saúde. Agradeceram a força de Helena. Encantaram-se com a fofura do pequeno. Ela ouviu até alguns empregados mais velhos comentando, em tom cúmplice, sobre a virilidade de Heitor — o que o deixou absurdamente exibido.
Helena não sabia como ainda aguentava aquele homem.
Assim que entraram na casa, um rabinho abanador surgiu no corredor. Mel veio rebolando, choramingando, completamente tomada pela saudade.
— Oi, filhotinha… — Helena disse, se inclinando um pouco para acariciá-la.
Mel segurou o braço dela com a boca, delicadamente, como se dissesse: você não vai embora nunca mais. Aquilo apertou o peito de Helena de um jeito inesperado. Ela riu, emocionada, e coçou atrás da orelhinha da cachorrinha.
— E o papai, hein, Mel? — Heitor fez bico. — Vem cá que eu vou te apresentar seu irmãozinho.
Mel caminhou até ele, puxando Helena pelo braço, o rabinho não parava um segundo. Sentiu um cheiro diferente. Novo. Curiosa, aproximou o focinho do bebê conforto.
Heitor se agachou, segurando-a com cuidado. A cachorrinha inclinava a cabeça, tentando entender quem era aquele ser tão pequeno.
— Melzinha… — ele falou baixo. — Esse é o Humberto. Você vai cuidar bem dele, ouviu? Ser uma boa irmã mais velha.
Helena puxou devagar a meia do pézinho do bebê. Heitor afrouxou o braço aos poucos, permitindo que Mel se aproximasse. O narizinho dela encostou na pele morna de Humberto.
Ela cheirou. Uma vez. Depois outra.
O rabinho começou a balançar mais rápido.
Mel deu algumas lambidas no pézinho, e Humberto mexeu como se estivesse sentindo cócegas. Helena sentiu os olhos arderem. Aquela cena simples, silenciosa, dizia tudo: eles eram uma família agora. Completa.
Subiram pelo elevador. Mel seguiu colada, o focinho no pé do bebê, absorvendo aquele cheiro novo, precioso.
No quarto deles, onde Humberto passaria as primeiras noites, Helena parou por um instante.
Respirou fundo.
Estava em casa.
Helena deu de mamar a Humberto sentada na poltrona do quarto, com o corpo levemente inclinado para protegê‑lo. Aquele era, sem dúvida, um dos seus momentos favoritos. O filho ainda era tão pequeno que cabia inteiro no seu colo, e mesmo assim já parecia ocupar tudo dentro dela.
As mãozinhas miúdas se fechavam e abriam devagar, como se testassem o mundo, e às vezes ele interrompia a sucção só para encará‑la com aqueles olhos azuis curiosos, atentos demais para um bebê recém nascido. Helena sentia o peito apertar toda vez que ele fazia isso, como se estivesse confirmando que era ela, que ainda estava ali.
— Oi… — murmurava baixinho, passando o dedo de leve na bochecha dele.
Depois de arrotar e cair num cochilo tranquilo, Helena queria tomar um banho em casa e Heitor estava com a ideia fixa na cabeça de a ajudar.
— Vem… deixa eu lavar seu cabelo hoje — disse, simples, sem transformar o pedido em algo maior do que era.
Helena hesitou por um segundo. Não por ele — nunca por ele —, mas por si mesma. A barriga ainda estava ali, mais macia, mais presente do que ela gostaria. As estrias surgiam como marcas recentes de um processo que ainda estava acontecendo, e mesmo usando as pomadas indicadas, ela se sentia exposta.
Ainda assim, assentiu.
No banheiro, sentada enquanto ele ajustava a temperatura da água, Helena fechou os olhos quando sentiu as mãos dele começarem a molhar seus cabelos. O toque era cuidadoso e relaxante, a fazendo dar alguns arrepios. Heitor não tinha pressa, nem curiosidade indevida. Apenas cuidava.
— Tá quente? — perguntou, atento.
— Não… tá bom.
Ele massageou o couro cabeludo dela devagar, com movimentos firmes e tranquilos, como se estivesse tentando aliviar não só o cansaço físico, mas tudo o que ela ainda carregava dentro de si.
Helena percebeu, com uma pontada de emoção, que ele não desviava o olhar para o corpo dela. Não analisava, não comparava. Para ele, ela era a mesma mulher — talvez até mais.
E isso a deixou estranhamente segura.
Heitor tinha sido claro desde o início: não iria procurá‑la até que ela se sentisse pronta. E, conhecendo‑o como conhecia, Helena sabia que aquilo exigia mais autocontrole do que ele jamais admitiria. Ainda assim, ali, ele se mantinha inteiro no respeito, escolhendo o cuidado em vez de qualquer impulso.
Mais tarde, veio o momento mais aguardado do dia por Heitor.
— Helê… filma, por favor — ele pediu, com o sorriso mais bobo que ela já tinha visto nele — Quero esse momento registrado pra sempre!
Ele estava só de cueca boxe, Humberto enrolado na toalha e perfeitamente acomodado em seus braços. Helena pegou o celular, já sorrindo antes mesmo de começar a gravar.
— Cuidado com o ouvido dele. — ela alertou, por instinto.
— Relaxa. Eu sei o que tô fazendo. — ele disse com aquele tom convencido, mas carinhoso.
Heitor olhou para o filho e o sorriso dele mudou. Ficou mais suave. Mais cheio.
— Filho… agora é o nosso momento.
Helena já estava com a câmera ligada há algum tempo filmando os dois.
— Olá — ele disse, olhando para o celular. — Helena do futuro. E nossos filhos do futuro também. Esse aqui é o primeiro banho do irmão mais velho de vocês.
— Que história é essa, Monteiro? — ela riu, do outro lado da tela.
— História de família. É bom registrar.
Ele testou a água com cuidado, regulando a pressão até ficar suave.
— Pronto. Agora sim.
Entrou de costas sob o chuveiro primeiro, protegendo o bebê do impacto da água. Só então deixou que a água escorresse devagar sobre Humberto. O pequeno fez uma careta imediata, abrindo os olhos confuso, como se estivesse tentando entender aquela nova sensação.
Helena e Heitor riram juntos, baixo, para não assustá‑lo.
— Olha a cara dele…
— Que delícia de água, não é meu bebê? — Heitor disse, divertido.
Humberto se mexeu um pouco até encostar o rosto no peito do pai. O corpo dele relaxou quase imediatamente, como se reconhecesse aquele ritmo conhecido. As batidas do coração de Heitor pareciam acalmá‑lo.
— Dizem que ele sente como se estivesse no útero — Heitor comentou, passando a mão devagar nas costas do filho — Fortalece o vínculo.
— E eu li que isso era pra mãe fazer. — ela provocou.
— Poxa, Helê… deixa o papai ter o segundo lugar nessa competição. Primeiro é a amamentação, tudo bem. Mas esse aqui é meu momento. — Ele olhou para o filho, com a mão acariciando devagar as costas dele. — Fala pra mamãe parar de ser ciumenta.
Humberto resmungou um som indecifrável e Heitor ficou todo alegre.
— Escutou isso, Helê? Ele tá me respondendo.
Helena não respondeu. Só sorriu, derretida, observando a cena.
Heitor falava baixo com o filho, coisas que não eram para a câmera. Eram só deles. Ele esperara muito por aquilo. Por segurar um filho no peito, por ser aquele lugar seguro.
As noites seguintes foram exatamente como haviam imaginado — ou pior. Humberto acordava o tempo todo, fralda molhada, cólica ou fome. Bastava ser colocado no moisés para protestar, chorando até ser pego no colo novamente. E, mesmo depois de se acalmar, esticava a mãozinha, tateando o ar, como se precisasse confirmar que a mãe ainda estava ali.
Helena sorria com isso, mesmo exausta.
— Igualzinho ao pai — murmurava.
Heitor também tinha aquele hábito antigo: mesmo dormindo, procurava por ela, puxando‑a para perto até sentir o corpo dela encaixar no dele.
Os dias e as noites começaram a se confundir. Estavam cansados, mas cercados. A rede de apoio foi essencial. Dona Olívia, incansável. Celina, presente e amorosa. Afonso exigiu um quarto fixo na mansão — e ninguém teve coragem de dizer não. Renato também fazia questão de passar tempo com o neto.
Helena, apesar do cansaço, sentia-se profundamente grata. E, principalmente, amada. Pela família. Pela proteção. Pela rede de afeto que envolvia seu filho e a ela.
Jonas praticamente se mudou para lá, dizendo que Helena precisava de um representante dos Medeiros. Paulo ligava todos os dias, mesmo em meio à campanha. Isaac aparecia nos finais de semana. E Lorena, ainda insegura, mandava mensagens constantes.
Ela se sentia cercada de amor. E era. Mas nenhum amor era igual ao que recebia dos dois que dividiam a cama com ela.
Helena já havia acordado, sabia que era de manhã pelos raios de luz entrando pelas cortinas entreabertas. O corpo, acostumado à nova rotina caótica, parecia programado para despertar junto ao bebê. Abriu os olhos devagar e, como já era hábito, encontrou outro par de olhos a observando com atenção.
— Ei, você já tá aí me espionando, é? — sussurrou, sorrindo.
Humberto mexia os bracinhos e pernas com energia, o olhar fixo nela como se estivesse contando uma história silenciosa. Embora ainda não soubesse sorrir de verdade, Helena já reconhecia os sinais — ele a reconhecia. E a queria por perto.
— Bom dia, amor — disse baixinho, tocando de leve a barriguinha dele.
— Bom dia… Helê… — a voz veio arrastada e sonolenta de trás dela.
Helena riu sozinha. Heitor achava que era com ele.
Virou o corpo com cuidado, passou os dedos entre os cabelos escuros do noivo e deu um beijo demorado na bochecha dele. Heitor, mesmo dormindo, sorriu de canto e puxou Helena pela cintura, colando o corpo dela ao dele.
— Você ainda tá dormindo, Monteiro. — ela murmurou.
Ele balbuciou algo que não deu para entender. Do outro lado, um resmungo indignado interrompeu o momento. Humberto os observava com uma expressão claramente contrariada. Helena mordeu o lábio para não rir.
— Calma, bebê — ela se inclinou e beijou a testa do filho. — A mamãe tá aqui.
Pegou sua mãozinha e ficou brincando com os dedinhos, fazendo carinho. Nesse meio tempo, Heitor a puxava mais uma vez, encaixando o rosto na curva do pescoço dela com a respiração quente roçando sua orelha. Helena se viu dividida — literalmente — entre dois homens, um de quarenta anos e outro de vinte dias.
Humberto, desconfiado, soltou um som baixinho, como se estivesse protestando. Helena sorriu e conferiu se ele estava molhado ou com cólica, mas não — só queria atenção.
Ela voltou a brincar com ele, mexendo nas mãozinhas e nos pezinhos até que o barulho do despertador cortou o silêncio suave do quarto. Heitor se virou devagar e desligou o alarme com um toque preguiçoso.
Helena esperou alguns minutos. Nada dele se mover.
Ela já sabia como funcionava. Durante a gravidez, tinha aprendido: se ele saísse tarde, voltava tarde. Melhor fazê-lo levantar logo.
— Heitor, tá na hora de você ir — disse, sentando-se com Humberto apoiado nas pernas.
Heitor soltou um gemido arrastado, sem abrir os olhos.
Helena esticou a mão e começou a fazer carinho no rosto dele e nos cabelos. Ela amava a textura macia dos fios escuros entre os dedos.
— Amor… — disse com doçura. — Tá na hora de ir trabalhar.
— Vou… mais tarde… — ele murmurou, esticando a mão por debaixo da coxa dela com um sorriso bobo. — Hmm…
Helena segurou Humberto melhor, pegou sua mãozinha e a encostou no rosto do pai.
— Papai, vai trabalhar… comprar minhas fraldas.
— O papai ainda está de licença paternidade — respondeu ele, olhos ainda fechados.
Helena riu.
— Sua licença acabou há catorze dias, idiota.
Heitor finalmente abriu os olhos, pegou a mão do filho e a beijou com carinho. Em seguida, olhou para os dois com expressão sonolenta e desconfiada.
— O que você tá tramando, mocinha?
— Do que tá falando?
— Tá doida pra me mandar embora cedo… não gostei disso.
— Ai, para Monteiro. Queria que você ficasse como tem ficado, mas o seu telefone não para. O pessoal da nova filial tá te cobrando.
Ele se espreguiçou, a mão apoiada por baixo da cabeça, olhando para Helena e o filho com aquele ar calmo e observador dele.
— Li o relatório ontem. O cronograma tá atrasado. O problema é que agora… a gente só vai se ver à noite — ele disse, com um tom mais baixo e chateado. — E eu não vou conseguir passar tanto tempo com vocês.
Helena o olhou com carinho.
— Mas é só até passar essa fase. Você nunca tem que trabalhar tanto assim — ela provocou com um sorriso torto.
Heitor sorriu também, o sotaque mais carregado quando fingia indignação.
— Que isso, Helê. Eu trabalho demais.
Ela colocou a mão sobre o peito dele e foi descendo até a tatuagem.
— Não me faz repetir, Monteiro.
Ele suspirou, derrotado, e se esticou para deixar um beijo na testa do filho.
— Bom dia, filhote. Dormiu bem?
Humberto o olhava com atenção, como se reconhecesse a voz. Helena via nos olhos do filho o quanto ele gostava do pai.
Heitor subiu e deu um selinho nela, seguido de um beijo no pescoço que a fez rir, encolhendo os ombros.
Depois do banho de Heitor e de Helena escovar os dentes, ela o ajudou a abotoar a camisa. Ele pegou Humberto no colo e foi abrir a porta do quarto, mas ela estava trancada.
Ele lançou um olhar de canto para Helena.
— De novo?
Ela apenas deu de ombros, com um sorrisinho culpado. Desde o episódio com Antônio, trancar as portas havia virado um hábito quase automático.
Do lado de fora, Mel já os aguardava. No andar de baixo, Afonso e Dona Olívia estavam na cozinha, tomando café e — como sempre — falando do bisneto.
— Olha só quem acordou! — Afonso se levantou animado. — Bom dia, campeão.
Heitor entregou o bebê nas mãos do avô. Humberto ficou observando tudo com o olhar atento de sempre.
Sentaram todos para o café juntos.
— Bom… é isso. Vou pra empresa — disse Heitor com certa tristeza na voz. — Qualquer coisa me liga, tá?
— Pode deixar. A casa vai estar cheia, mas se eu precisar… te chamo.
Heitor se inclinou e deu um beijo demorado em Helena.
— Certo, amor.
— Vai lá trabalhar… enquanto eu aproveito a minha aposentadoria brincando com meu bisnetinho — disse Afonso, rindo.
No colo da avó, Humberto seguia curioso com os jogos de esconder com o paninho que Dona Olívia fazia.
Jonas apareceu na cozinha, terno alinhado e cara de quem dormiu mal.
— Já tá indo, cunhado? Me dá uma carona até a sede da campanha? — Ele se aproximou de Helena e bagunçou o cabelo dela. — Bom dia, maninha.
— Claro, te deixo lá.
— Jonas, para. — ela afastou a mão dele com um tapa — Eu ainda não entendi por que você tá dormindo aqui.
— Como assim não entendeu? Não é óbvio?
— Não — todos responderam em coro.
Ele pigarreou, dramático.
— Dois motivos: pra passar um tempo com minha irmã e meu sobrinho… e pra descansar da campanha, não à encontrar dentro de casa.
— Argumento válido — disse Afonso.
Jonas pegou um misto da mesa, enrolou no guardanapo e se aproximou de Helena outra vez.
— Além disso, sou o favorito do Humberto. Se ele não sentir minha presença, chora. Igual você, Helena.
Ela balançou a cabeça em negação.
— Melhor vocês irem antes que se atrasem. Me liga depois, tá? — disse a Heitor.
— Antes… — Jonas apontou para a gravata. — Me ajuda com o nó?
Helena revirou os olhos. Desde que o ajudou uma vez, ele nunca mais quis tentar fazer sozinho novamente.
Foi aí que ouviram um resmungo indignado.
Humberto, no colo da avó, fazia sons como se estivesse protestando.
— Já tô aqui, Heitor Júnior — disse Helena, pegando o bebê no colo.
Heitor disfarçou o sorriso.
— Muito bem, filho. Vigia a mamãe e me conta tudo depois.
— Tô enrolada mesmo — disse ela, rindo.
Depois que Heitor e Jonas saíram, o dia correu devagar. Era estranho não ter Heitor por perto — afinal, haviam passado vinte dias quase grudados. Mas Helena sabia o quanto ele estava se esforçando com a nova filial americana.
E por isso, decidiu não ficar parada. Pegou os materiais e começou a estudar inglês por conta própria. Pensou em pedir ajuda para Lorena, mas acabou recorrendo à Celina.
Para sua sorte, Humberto ficava muito bem com os outros membros da família. Isso lhe permitia alguns cochilos durante o dia, para recuperar o sono da madrugada.
Mas tinha um detalhe curioso: o bebê só se irritava de verdade quando via a mãe falando com outra pessoa… e ele não estava junto.
Sim, igualzinho ao pai.
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