O CEO que Eu Paguei
217 Ecos do Passado
POV HEITOR
Dois meses.
Dois meses inteiros sem transar com a mulher mais gostosa que eu já vi na minha vida.
E que, por sorte — ou maldição divina — é minha.
Desde que o Humberto nasceu, eu fiz o que qualquer homem decente faria: respeitei.
Ela tava vulnerável, com o corpo sensível, se adaptando, além disso teve o agravante psicológico causado pelo merda do Antônio.
E eu prometi que ia esperar ela estar pronta e me procurar.
Mas agora?
A médica já liberou.
O tempo passou.
Só que ela... ela ainda não disse nada.
E eu tô vivendo no limite.
Hoje, ela entrou no quarto enrolada na toalha. O cabelo ondulado, a pele quente do vapor, os seios fartos mais se contendo, a curva da bunda desenhando o tecido molhado.
Ela se inclinou pra pegar o brinco. A toalha subiu. E eu vi.
Aquela pele morena, esticada e farta.
A bunda dela.
A barriga com aquela leve saliência linda que só quem é homem de verdade consegue achar a coisa mais sexy do mundo.
Ela me olhou por cima do ombro e disse:
— Tá pronto?
E eu só consegui assentir, com a garganta seca, porque se abrisse a boca...Ia pedir.
Pedir pra ela me deixar tocar.
Pedir pra ela subir na cama e ficar ali — aberta, entregue e minha.
Mas eu prometi.
Então esperei ela sair do quarto…
Fechei a porta do banheiro…
Encostei na parede…
E tive que me aliviar.
É, isso mesmo. Sozinho.
Pensando nela.
Com a mão firme, imaginando aquele corpo por cima de mim, aquela boca sussurrando meu nome, aquele som que ela faz quando eu pego do jeito certo.
Me senti um adolescente.
Um idiota apaixonado.
Mas era isso ou eu sair de casa com a calça marcando.
Agora tô aqui.
Festa do Isaac.
Cerveja gelada, papo com os caras.
E ela... ela tá do outro lado do salão.
Vestido azul curto até os joelhos, marcando cada curva do novo corpo.
A pele morena dela parece brilhar.
O cabelo tá naquele penteado de lado que me deixa louco.
Ela cruza a perna. O vestido sobe um pouco.
E eu abaixo o copo pra não mostrar a reação.
— Monteiro, tu tá bem? — Davi pergunta, me olhando.
— Tô ótimo. — respondo, com a mandíbula travada.
— Dois meses sem nada? — Raul pergunta, rindo.
— Dois meses com esse monumento dentro de casa. — falo, quase entre os dentes. — Eu tô sendo testado por Deus.
Eles riem.
Mas sabem.
Todo homem sabe.
É um tipo de fome que não dá pra explicar.
É físico. Quente. Cru.
É ela.
A mulher que eu amo, que eu respeito, que eu protejo…
Mas que eu também quero com uma vontade obscena.
E o pior de tudo?
Ela sabe.
Sabe que tá me torturando.
Eu tenho certeza que ela sabe disso, porque não é possível que tudo isso seja inocente.
E eu tô aqui. Firme.
Por honra. Por palavra.
Mas o dia que ela vier...
O dia que ela me puxar, me encostar na parede e disser “quero”…
Eu vou acabar com ela.
E começar de novo.
Até ela esquecer que ficou dois meses sem me ter.
Balancei a cabeça, tentando sair dos devaneios — mas tava impossível.
Não conseguia nem manter uma conversa decente com os caras sobre o Brasileirão.
Minha mulher tava do outro lado da festa, rindo, passando as mãos nos cabelos, com aquele vestido colado no corpo.
E eu tava me desgraçando em silêncio.
Respirei fundo e fui até ela.
Percebi que uma das esposas comentou alguma coisa — acho que a do Davi — porque a Helena virou o rosto na minha direção com um sorriso tão lindo que me senti... atordoado.
Ela se despediu das amigas e veio até mim com aquele andar tranquilo, mas provocante.
— Monteiro, que cara é essa? — ela perguntou, já passando a mão pelo meu peitoral. Me olhou desconfiada. — Quanto você bebeu?
— Quase nada — falei com um sorriso de canto, tentando disfarçar o caos interno.
Ela revirou os olhos e ficou bem na minha frente. Me puxou pelos ombros, me fazendo inclinar.
— Deixa eu sentir. — disse, desconfiada.
Me aproximei. Não resisti.
Beijei.
Quente, direto, querendo mais.
Minha boca encontrou a dela com pressa, e minha língua já buscava a dela quando ela se afastou.
Franziu o nariz daquele jeito que me deixa completamente vendido.
— Melhor parar, Monteiro. Você já tá com um cheiro irritante de álcool. E olha que o Isaac nem chegou ainda.
Desci a mão pela lateral do vestido dela até chegar na cintura.
Apertei de leve, só o suficiente pra sentir meus dedos se afundando na carne macia.
— Verdade. Que tal então você ficar um pouco comigo? — murmurei, aproximando o rosto do pescoço dela. — Tô louco pra saber as fofocas…
Ela sorriu. Daquele jeito que me deixa sem defesa.
E começou a contar tudo.
Que o Davi e a Fernanda estavam tentando o segundo filho, que a Sofia tava de bode com o Levi porque ele esqueceu o aniversário de casamento, e que a Paula… bom… a Paula andava trocando mensagens com um cara do Facebook.
— Ela tá traindo o Raul? — perguntei, meio indignado.
— Parece que ela quer chamar atenção dele, sabe? — Helena respondeu com naturalidade, colocando a mão no meu bolso de trás. — Disse que anda se sentindo sozinha.
— Isso é traição, Helê. — falei, sério. — Se ela se sente mal, devia conversar com o Raul. Não procurar outro.
— A gente falou isso pra ela. Mas ela tá convencida de que ele é quem tem que correr atrás.
— Amor… me promete uma coisa? Se um dia você se sentir sozinha, distante, qualquer coisa... me chama. Não guarda pra você. Não procura desculpa. Me procura.
Ela revirou os olhos, impaciente.
— Claro, né, Monteiro.
Mas a resposta dela não me deixou tão seguro assim.
— Você sabe que tô um pouco enrolado com a inauguração da nova filial. Atrasaram o cronograma original e… enfim, virou um caos. Mas você é minha prioridade. Número um. Se me ligar, mandar mensagem, ou só quiser um abraço, eu largo tudo pra ir até você. — falei, olhando nos olhos dela. Convicto. Claro.
Ela me encarou por um segundo.
Depois sorriu.
Me desmonta com um sorriso.
— Heitor… já falei antes, mas vou repetir: a fofoca dos outros não tem nada a ver com a gente. Eu sei que você tá atolado. Sim, sinto saudade. Mas eu sou madura o suficiente pra entender que essa fase vai passar. Vai se regularizar.
Ela falou com leveza. Com firmeza.
Mas eu senti o ar dos meus pulmões pesar.
Meu coração também.
Será que era por isso que ela não me procurava?
— Você não precisa sentir saudade, amor. — falei baixo. — É só me ligar. Eu me viro. Dou um jeito. Não quero que você fique assim.
Ela balançou a cabeça, rindo, e me apertou a nádega.
— Sem paranoia, Monteiro. Eu tô louca pra abertura da filial. Você viu como melhorei no inglês? E tô acompanhando os e-mails também. Quero estar lá contigo. Como sua noiva… e como sua parceira de negócios. — piscou pra mim.
Fiquei olhando pra ela, meio idiota.
— Certo. Mas qualquer coisa... você vai me chamar, né?
— Já falei que sim, seu idiota. — Ela pegou minha mão. — Vamos ver o Humbertinho? Tô com saudade do nosso bebê.
Os olhos dela brilharam. E o meu peito... se encheu.
— Claro, amor. Eu também tô.
Caminhamos de mãos dadas até a sala principal.
Admito que fiquei incomodado com aquela história da Paula. Não entra na minha cabeça.
Todo mundo ali era homem de negócios, cheio de responsabilidade, cabeça cheia — mas apaixonado pelas mulheres que tinha em casa.
Custa nada a Paula puxar uma conversa decente com o Raul, ao invés de começar a dar ideia em pau aleatório da internet.
Essas coisas começam assim… e daqui a pouco vira efeito dominó. Vai encorajando as outras.
Anotei mentalmente: vou chamar o Raul pra conversar.
Homem pra homem. Nada de alarde.
— O Isaac tá tão atrasado... já devia ter chegado há um tempão. — Helena comentou, olhando a decoração da mansão dos Medeiros.
— Verdade. Mas a sua mãe… quer dizer, a Lorena, foi clara: nada de mensagem, senão ele desconfia.
A casa tava toda decorada com tema de CLT. Até o painel tinha mini carteiras de trabalho coladas.
Isaac finalmente tinha sido efetivado no banco, e todo mundo ali tava reunido pra comemorar.
Os carros estavam escondidos na garagem subterrânea.
Isaac já devia ter chegado há três horas.
No meio do caminho, parei e puxei a Helena de leve, abraçando pela cintura.
Ela olhou pra mim, rindo desconfiada.
— O que você tá fazendo?
Abracei mais forte.
Encostei o rosto no pescoço dela e respirei fundo.
Ela arrepiou.
E, eu confesso, isso reacendeu uma chama de esperança em mim.
Porra... dois meses segurando esse fogo, e ela me dá um arrepio desses? Eu fico como?
— É que você tá tão linda… e cheirosa. Tô orgulhoso de estar com você do meu lado. Só isso.
Ela riu, meio sem graça, e me abraçou de volta.
— Que brega.
— Apaixonado. Isso sim.
Ela se afastou, ainda sorrindo, os olhos brilhando.
— Vamos tirar mais umas fotos?
— Com toda certeza.
Peguei o celular do bolso, puxei ela pro meu lado e tiramos algumas selfies.
Ela fez pose, me deu beijo na bochecha, me apertou.
Queria tatuar cada segundo daquilo.
Seguimos andando e já ouvimos aquela risada que sempre explode o peito da gente.
Humberto tava no colo do meu pai, gargalhando das palhaçadas que ele e o Paulo faziam.
Nosso moleque era um espetáculo à parte.
Extrovertido, carinhoso e expressivo.
— Olha quem vem ali, Humbertinho… — minha mãe falou, mexendo no narizinho dele.
Ele ria, mexendo os braços. Paulo balançou um brinquedo colorido, e os olhos azuis do nosso filho seguiram até encontrar os nossos.
Helena acenou.
Na hora, ele fez aquele bico dramático — igualzinho à mãe, diga-se de passagem —, esticou os bracinhos e começou a resmungar.
— Brincadeira, hein, Humberto… é só me ver que já faz essa cara? — Helena disse, tentando segurar o riso.
Ela pegou ele no colo.
Na hora, ele chorou, como se estivesse pedindo desculpa por ter se divertido sem ela.
Me aproximei, fiz carinho nas costas dele enquanto ela ninava.
— Ele já trocou a fralda. Tá brincando desde que você saiu. Não parece com sono. — Paulo falou, juntando os brinquedos espalhados no sofá.
— Obrigada por ficarem com ele um pouco. Pelo horário, já já ele vai querer mamar e depois dormir. — Helena respondeu.
Fiz uma careta engraçada pra Humberto, que foi parando de chorar.
Logo depois, abriu um sorrisão.
Aquela boca banguela me desarma todo.
Helena me olhou, rindo, enquanto eu esfregava o rosto no bracinho dele, fazendo ele se contorcer de tanto rir.
— Pessoal! — Lorena apareceu, ofegante. — Recebi a ligação da portaria, o Isaac chegou!
Virou um caos.
Luzes apagadas, todo mundo se escondendo, gente tropeçando em almofada, uma verdadeira correria.
Humberto olhava tudo, com os olhinhos arregalados, atento, curioso, soltando uns "aaa" e "eee" baixos, como se tentasse avisar que algo tava errado.
Ficamos num cantinho.
Peguei ele no colo, e ficamos nós três ali.
Eu, Helena e nosso filho.
A porta da sala se abriu.
— Que breu é esse? — ouvimos a voz do Isaac.
— Será que estão dormindo? — uma mulher perguntou.
Helena apertou meu braço, como se falasse: “Ele tá com alguma mulher, olha isso.”
— Devem ter saído pra resolver algo da campanha. — Isaac respondeu. E acendeu a luz.
No mesmo instante, todo mundo gritou:
— SURPRESA!
Os confetes voaram como uma chuva de papel colorido descendo em câmera lenta do alto da escada.
O barulho da explosão fez Humberto arregalar os olhos no meu colo — por um segundo ele se assustou, ficou com o lábio inferior tremendo, mas aí…
Ele viu.
As bolinhas coloridas no ar, caindo por cima da gente como uma tempestade mágica.
E os olhos azuis dele — iguais aos meus — brilharam.
— Olha isso, filhão… — falei baixinho, apontando pro céu de cores que descia ao nosso redor.
Helena riu baixinho, maravilhada, e passou a mão pelos cabelinhos macios dele, guiando a cabecinha pra cima.
— É festa, meu amor. Olha só quanta coisa linda!
Humberto mexia os bracinhos como se pudesse pegar tudo. Ele ainda não tinha uma boa coordenação motora, ainda não conseguia abrir as mãozinhas quando queria. Alguns confetes pousaram bem no rostinho dele — um no nariz, outro no queixo, e vários no cabelo.
Ele não se aguentou.
Soltou uma gargalhada daquelas que preenchem qualquer vazio do mundo.
Aquela risada de bebê que desmonta qualquer pessoa.
Helena estava ao nosso lado, pegou a mãozinha dele e abriu, deixando os confetes caírem ali, devagar.
— Viu, meu amor? Tá chovendo arco-íris! — ela disse, encantada.
Vi os confetes caindo sobre ela também.
No cabelo solto, nos ombros, grudando na pele morena do colo, entre as curvas do vestido.
E naquele momento, olhando pros dois ali, meus dois amores cobertos de cores e sorrisos…
Eu quase perdi o ar.
Puxei os dois pra perto.
Humberto no meio, rindo, fazendo sons que só ele entende.
Helena de um lado, me olhando com aquele brilho que só ela tem.
E eu ali, no centro do mundo que eu escolhi pra viver.
— Você ficou uma gracinha todo colorido assim. — ela riu, limpando um confete que ficou preso no meu cabelo.
— Que bom que gostou do meu novo look. E gostou tanto que está igualzinha — falei, beijando o topo da cabeça do nosso filho.
Era simples, mas todos os momentos com eles eram os momentos mais importantes da minha vida.
Afinal eles são a minha família.
Meu bem mais precioso.
Meu motivo.
Meu lar.
Foi quando percebi que Helena congelou no meio da sala.
Franzi o cenho, confuso, e segui o olhar dela.
Do outro lado, Isaac estava cumprimentando os convidados com uma mulher ao lado.
As duas estavam se encarando daquele jeito que dispensa legenda.
Duas palavras: treta instaurada.
Olhei de novo pra mulher e senti aquela sensação irritante de déjà-vu. O rosto não me era estranho… mas não conseguia lembrar de onde.
Helena me olhou com os olhos arregalados.
— Não acredito nisso, Heitor. É a Ana Alice.
Aí me veio.
Ana Alice. A colega mineira da Helena. Aquela que se vestia como se fosse pra balada todos os dias e ainda achava que tinha postura pra falar das outras. Tinha aquele cheiro de perfume caro que todo mundo tem.
A mesma que assumiu o projeto da Fort Group depois que Helena saiu.
E — detalhe importante — a mesma que fez de tudo pra prejudicar minha mulher quando ela tava por baixo.
— E o que ela tá fazendo aqui? — perguntei, já fechando a expressão.
— Não faço ideia.
Caminhamos até eles. Helena nem tentou disfarçar. Porque ela não conseguia, Helena sempre foi péssima em fingir emoções.
— Ana Alice? O que tá acontecendo? — Helena perguntou, fria.
Isaac se virou com aquele sorrisinho de quem não tá entendendo o caos prestes a acontecer.
— Oi, Lelê! Ia marcar pra apresentações mais formais, mas… — ele entrelaçou os dedos nos dela — Essa é a Ana Alice. Minha namorada.
Meu queixo e o da Helena caíram ao mesmo tempo.
Zero reação. O silêncio foi quase cômico.
E como se não bastasse o absurdo, Lorena apareceu do nada e já foi puxando Ana Alice pra um abraço entusiasmado.
— Que linda você é! Bem-vinda à família, querida. Eu sou a Lorena, sua sogra. Mãe do Isaac, do Jonas e da Helena.
Ana Alice deu um sorriso sem jeito.
— Pelo jeito… somos família agora.
— Vocês duas se conhecem? — Lorena perguntou, empolgada.
— Elas são amigas, mãe! — Isaac respondeu todo animado. — As duas são daquela cidadezinha, trabalharam juntas na Monteiro Inc. A Ana Alice disse que eram inseparáveis.
Inseparáveis.
Se eu não me controlasse, teria soltado uma gargalhada ali mesmo.
Helena só suportava Ana Alice por questão de educação e profissionalismo.
Ela vivia me contando das sabotagens veladas, dos comentários maldosos, da falsidade.
E pra completar, Ana Alice foi uma das delatoras ocultas a favor dos Fortenelle, na época em que Helena tava sendo massacrada pela mídia.
A mulher é o que chamam de cobra com salto alto.
Helena virou o rosto, com aquele olhar afiado.
Foi direto ao ponto.
— Como vocês se conheceram?
— No Instagram — Isaac respondeu, ainda sorrindo. — Ela comentou uma foto minha com você, Lelê, depois me chamou no direct. A gente começou a conversar...
— Não brinca. — Helena disse, com a voz quase trincando.
— Eu o achei tão bonito… pensei em tentar a sorte. — Ana Alice respondeu, se agarrando nele como se fosse uma adolescente apaixonada.
— E eu, quando recebi o direct dela, nem acreditei. Temos tanta coisa em comum. O melhor é que nós dois gostamos de você, Lelê.
Helena respirou fundo.
Era nítido que ela tava a um fio de perder a linha.
— Posso conversar em particular com você, Ana Alice? — ela soltou, sem rodeios.
Ana Alice assentiu.
As duas saíram em direção a um dos corredores da casa.
Fiquei parado, segurando o Humberto no colo, acompanhando Helena com o olhar até ela desaparecer pela porta.
O ambiente ao redor pareceu baixar alguns graus.
— Que coincidência, né, Heitor? O mundo é muito pequeno. — Isaac comentou, tentando parecer natural.
— Bota pequeno nisso… — respondi, ainda digerindo a cena. — Mas parabéns por ter sido efetivado, maninho. — bati com firmeza no ombro dele. — Parabeniza o teu tio.
Isaac virou pro Humberto, falando com aquela voz ridícula de bebê.
— Quem é o nenenzinho mais lindo do mundo? É você, é!
Humberto começou a rir com força, todo feliz.
Inocente, no meio dessa novela.
Mas bastava olhar de longe pra saber que a conversa da Helena e da Ana Alice não tava indo pra lugar bom.
— Bom que agora a gente pode sair em casal, né? — Isaac falou animado.
— Pois é… — murmurei, sem nenhuma empolgação.
Depois de um tempo, Helena voltou.
O semblante dela dizia tudo: os dois realmente estavam namorando.
— Vamos subir? Preciso de um ar. — ela disse.
Fomos até o quarto dela na mansão.
Fechei a porta.
Ela andava de um lado pro outro com os braços cruzados.
Eu e Humberto sentados, só observando.
— Eu não acredito nisso. Ela se envolveu com o meu irmão, Heitor. O pior é que ela sabia quem ele era!
— Você acha que ela tá com ele por interesse?
— Segundo ela, foi tudo natural. Viu ele numa foto, achou bonito, puxou assunto… e se deram bem. Mas eu conheço a Ana Alice. Aquela mulher não dá ponto sem nó.
— Que merda, hein? — falei, tentando manter a calma.
— Pois é… Ana Alice sempre foi Ana Alice, sabe? Eu tolerava ela porque era minha colega. Agora cunhada? Isso é uma piada de muito mau gosto.
Ela se sentou do meu lado.
Estiquei o braço e comecei a acariciar suas costas, devagar, sentindo a tensão que ela carregava.
— Vamos acompanhar de perto. Se ela for uma oportunista, e tudo indica que é, o Isaac vai perceber. Ele pode estar cego agora, mas não é burro.
Helena suspirou e se deitou, com um dos braços sobre os olhos.
— Eu não acredito nisso… sério mesmo…
Fiquei ali, olhando as duas pessoas que mais importam no mundo pra mim.
Minha mulher… e o nosso filho.
E pensei comigo mesmo: “ se essa cobra estiver armando alguma, ela vai ter que passar por mim primeiro.”
Porque ninguém mexe com a minha família.
Ninguém.
A gente acabou não ficando muito tempo na festa.
Helena não conseguia mais fingir que estava tudo bem, e eu não insisti. Quando ela chega nesse ponto, é melhor dar espaço.
Antes de irmos, puxei o Raul num canto e dei uma cortesia do H. Monteiro pra ele levar a Paula pra um jantar especial — por conta da casa. Ele ficou visivelmente tocado.
Espero que funcione. Um empurrãozinho nunca faz mal, e vai que salva alguma coisa.
Nos despedimos de todo mundo, e quando cheguei perto do carro, Helena já estava com a chave na mão. Ela deve ter tirado do meu bolso enquanto eu estava encantado com ela.
— Eu dirijo — ela disse.
— Eu nem bebi tanto assim…
— Mas bebeu. Entra.
Sabia que não adiantava discutir. E, pra ser sincero, ela no volante também era uma cena que eu gostava de ver.
Humberto tinha mamado antes de sairmos, então estava dormindo feito um anjinho na cadeirinha, no banco de trás.
Eu, no carona, só observava.
Helena estava de cara fechada, foco total na estrada.
Linda pra caralho, mesmo irritada.
— Sabe, Helê… sei que a gente combinou de começar a organizar o casamento quando o Humberto fizesse um ano. Mas… eu andei pensando. Não vejo motivo pra esperar tanto.
Ela suspirou, sem tirar os olhos da pista.
— Heitor… tem tanta coisa acontecendo. Eu dei à luz, quase fui sequestrada. Além disso, quero voltar a trabalhar. Quero ver o Humberto crescer de perto. Não é hora de falar em casamento.
— Eu entendo, de verdade. Mas e se a gente casasse no civil? Nada grande. Só pra dividirmos o sobrenome. Ano que vem, com calma, fazemos a cerimônia religiosa.
Ela não respondeu de imediato.
E eu... eu sei que ela tem razão.
Mas me incomoda.
Nosso filho foi registrado como se fôssemos dois estranhos que transaram por acidente uma vez.
Eu já fui noivo antes. Sei bem que noivado acaba num estalar de dedos.
Casamento, não.
Casamento é promessa de vida.
— Não é hora pra isso, Heitor. Eu não tô com cabeça pra me casar. E por favor, não vamos falar mais nisso.
A conversa morreu ali.
Mudamos de assunto.
Teorias sobre a Ana Alice começaram a surgir. A mais provável? Ela sabia quem era Isaac desde o início. E se aproximou por interesse. Afinal, ele é filho do candidato à presidência.
Jonas é experiente o bastante pra perceber uma cilada, mas Isaac ainda era muito verde.
Chegamos em casa.
Colocamos o Humberto no berço — ele nem se mexeu.
Tomamos um banho, cada um no seu tempo, e eu já tava no quarto, pronto pra deitar, quando senti os braços dela me abraçando por trás.
— Ainda tá cedo. Que tal um filme?
Sorri.
— Achei que você nunca ia perguntar.
Ligamos a babá eletrônica, pegamos uma coberta e descemos pra sala de cinema.
Me sentei primeiro, ajeitei os travesseiros no colchão.
— Eu queria que você deitasse no meu colo. — ela disse.
Virei pra ela, surpreso.
— Tem certeza?
— Claro que tenho.
Ela se ajeitou, e dessa vez eu que deitei com a cabeça nas coxas dela.
Os dedos dela começaram a passar pelos meus cabelos, devagar. Me arrancando alguns suspiros.
— Faz tempo que não somos só nós dois. — ela disse, num sussurro.
— Nessa fase do Humberto é mais difícil mesmo. Mas daqui a pouco, quando ele estiver maior, vamos tirar tempo só pra gente. Prometo.
O carinho dela me acalmava.
E ao mesmo tempo, me desarmava.
A voz dela veio baixa:
— Não é que eu não queira me casar. Eu quero. Mas eu quero curtir os preparativos. Com calma.
— Eu sei. Não quis te pressionar. É só que… eu queria te apresentar como minha esposa na inauguração da nova filial.
Ela sorriu, sutil.
— Fico feliz que você queira isso. Mas ser noiva não é tão ruim, né? Tem um ar chique.
Sorri de lado.
— Se você tá feliz, tudo bem por mim.
Ficamos um tempo escolhendo o filme.
Quando ela citou a atriz de Cinquenta Tons de Cinza, eu achei que vinha algo promissor — aquela chama acendeu de novo.
Mas aí ela escolheu Amores Materialistas. O tal filme romântico com o Chris Evans.
Não era bem o que eu esperava.
Paciência.
Mas o roteiro… foi demais.
A protagonista tinha tudo pra viver um bom futuro com um cara decente. Eles podiam construir algo juntos. Mas não — escolheu o ex. Um cara que nunca moveu um dedo por ela. Que não fazia esforço, não sonhava, não crescia.
E o pior?
A Helena tava do lado da personagem.
— Como assim, Helê?! O cara não faz nada por ela! Não tem iniciativa, não tem ambição, não tem nem orgulho próprio.
— Nem só os ricos amam, Heitor. Os pobres também têm sua forma de amar.
— Não é sobre ser rico ou pobre. É sobre ser homem. Um homem de verdade passa fome, mas não deixa faltar pra mulher que ama. É sobre responsabilidade. Sobre ação.
Ela me olhou.
Aquelas discussões que começam pequenas e vão fundo.
— Fácil pra você falar. Sempre teve tudo. Eu já dividi conta em encontro, já passei aperto, e entendi perfeitamente.
Me sentei, irritado.
— Helena… você acha normal um cara de quase quarenta anos ficar correndo atrás de um sonho que não dá retorno há mais de uma década? Quando ele podia buscar um emprego estável, uma casa simples, estudar de noite, fazer acontecer?
Ela ficou em silêncio. Eu acredito que estavamos pensando na mesma pessoa.
No ex dela.
O mesmo que ela me contou que terminou porque não tinha ambição, porque não tinha atitude de homem com ela. E que ela esperou anos por um amor que nunca apareceu.
— Se você estivesse na situação do John, eu ainda estaria do seu lado. — ela disse, com firmeza.
— Eu nunca estaria na situação desse otário. Eu teria largado esse sonho de ser ator, arrumado um trampo digno, dois se fosse preciso. Nem que fosse em um barraco, eu ia dar um jeito de crescer. E de cuidar da minha mulher.
Ela não respondeu.
Levantou e foi direto pra cama.
Nem boa noite.
No dia seguinte, quando saí cedo pra trabalhar, ela nem se mexeu.
Fiz a coisa mais plausível.
A enchi de beijos e abraços enquanto pedia perdão. Mas, ela só me mandou ir logo para o trabalho. Ainda estava irritada comigo.
Fui trabalhar, mas o corpo foi sozinho.
A cabeça ficou em casa.
Nela.
Eu odeio ficar brigado. Sempre odiei. Posso até sustentar uma discussão, manter a postura, achar que tenho razão — mas depois aquilo começa a corroer por dentro. Fica martelando. Tirando o foco. E naquele dia, eu não rendia nada.
Peguei o celular no meio da manhã, quase por reflexo.
Abri o Instagram.
Story da Helena.
Cliquei.
Humberto vestido de ursinho. Gordinho, sorridente, com aquele olhar curioso que parece que entende mais do mundo do que devia.
Meu peito afrouxou na hora.
Sorri. Um sorriso automático, besta.
Comentei algo carinhoso, só pra marcar presença. Pra ela saber que eu tava ali, mesmo longe.
Voltei pra tela principal do aplicativo.
E travei.
Gisele.
Viúva do Miguel.
Meu amigo.
Uma declaração de amor escancarada pro personal trainer. Foto dos dois colados demais. Texto íntimo demais. Um “amor da minha vida” que não devia existir ali.
Miguel não tinha morrido fazia nem três semanas.
Senti um aperto no peito.
Não foi raiva. Foi desalento.
Miguel sempre teve orgulho de ser casado com ela. Doze anos juntos. Doze.
Falava da Gisele como quem fala de casa, de porto seguro.
E agora… parecia que ele nunca tinha existido.
Fechei o aplicativo devagar.
E pensei em mim.
Eu também andava trabalhando demais. Virando noite. Dormindo pouco.
Tentando dar conta de tudo.
Mesmo assim, nunca deixei de levantar de madrugada pra ajudar com o Humberto. Nunca.
Mas e se isso não fosse suficiente?
E se um dia eu simplesmente… caísse?
A pergunta veio sem aviso, pesada.
Helena seguiria em frente?
Outro homem no meu lugar?
Outro carregando meu filho no colo?
A ideia me deu náusea.
Eu não quero virar lembrança.
Chamei a Verônica e pedi pra marcar uma consulta de rotina com um cardiologista. Nada urgente. Nada dramático.
Mas eu precisava me cuidar.
Eu tinha gente demais dependendo do meu coração.
Encostei na cadeira, respirei fundo…
E mesmo assim, o peso não saiu.
Outro pensamento veio, mais baixo, mais cruel:
E se ela estiver se cansando de mim? Talvez também pensar em procurar um “amigo” online.
Peguei o celular e liguei.
Chamou.
Chamou.
Nada.
Soltei o ar devagar pelo nariz. Não forcei de novo.
Mas também não consegui ficar quieto.
Gravei um áudio. A voz saiu mais mansa do que eu planejei.
— Oi, amor… dormiu bem?
— Só queria dizer que tô pensando em você. Tô com saudade.
— Me desculpa por ontem. Eu não queria te deixar chateada.
— A gente pode fazer as pazes?
— Me liga quando puder, tá?
Enviei.
Fiquei olhando a tela por alguns segundos, esperando aqueles três pontinhos aparecerem.
Não apareceram.
— Chega disso, Heitor. Resolve.
Foi o que pensei. Me levantei da cadeira, atravessei a sala sem dar chance pra dúvidas.
— Verônica — falei assim que alcancei a mesa dela — cancela tudo da manhã. Tô indo pra casa. E vê esse cardiologista logo. Quero garantir que esse coração funcione por muitos anos ainda. Tem gente demais dependendo dele.
Voltei com uma certeza: não importa quem estava certo na discussão. Importa ela. Importa o nós.
E às vezes, ser homem de verdade é isso — baixar a guarda antes que o orgulho destrua o que mais importa.
Assim que estacionei, senti aquele frio idiota no estômago. Entrei em casa devagar, como quem invade o próprio lar depois de errar.
Os brinquedos do Humberto estavam espalhados pelo tapete. E lá estava ela. De costas. Cabelo preso de qualquer jeito, falando baixinho com o nosso filho.
Me aproximei. Ela virou.
— Voltei — falei baixo, quase num sussurro. — Porque percebi que não quero passar mais uma hora sem você bem comigo.
Os olhos dela se arregalaram, mas ela ficou firme. Sempre fica.
— Heitor…
— Eu fui um idiota ontem. Você tinha razão em ficar chateada. E eu… eu tava certo também, mas do pior jeito possível. E daí se eu tava certo? Não vale se isso te afasta de mim.
Toquei o rosto dela. Ela não recuou.
— Vamos fazer as pazes? Prometo tentar ser menos cabeça dura. Ou pelo menos errar mais bonito.
Ela riu baixinho, abafado. Me puxou pra um abraço. Humberto nos olhou de baixo pra cima e soltou um gritinho animado, como se dissesse: “Agora sim”.
— Eu só quero que você entenda que eu te amo pelo que você é. Não pelo dinheiro. — ela disse.
— Eu sei, Helê. Nunca duvidei. Até porque, né? Lembra o tanto que você me rejeitou?
Ela sorriu, debochada.
— Realmente… você é muito insistente.
— Só quis dizer que quando a gente ama de verdade, a gente melhora por quem ama. Como você melhorou sobre a camisinha.
Ela me empurrou de leve.
— Idiota. Não consegue falar sério nem por um segundo?
— Consigo. Mas prefiro fazer você sorrir.
Brincamos com o Humberto. As atividades de um bebê de dois meses parecem mais uma sessão de fisioterapia, mas eu adorava. Logo ele ia estar engatinhando, derrubando tudo, fugindo da gente… Ninguém segura aquele moleque.
Mais tarde, a avó dela ficou com o nosso pequeno, e fomos almoçar juntos no nosso restaurante. Fazia tempo que não íamos lá. Ela continua sendo a minha melhor companhia e a única com quem eu quero dividir uma mesa, um teto e uma vida.
Só que…
Não posso negar: eu estou inseguro.
Não estou tão presente quanto gostaria. Não temos tempo juntos como antes. E, pra piorar, eu tô numa abstinência sexual cruel.
Cruel mesmo.
O tipo de tortura que faz homem começar a conversar com o box do chuveiro.
Acho que vou comentar com o cardiologista.
Se ele me der uma receita dizendo que eu “preciso de sexo”, será que conta como quebra de acordo se eu entregar pra ela?
Dirigindo com uma mão, a outra na coxa dela. Ela brincava com meus dedos. Amo isso. Os dedos dela são pequenos, delicados… mas quando tocam os meus, tudo parece certo.
Estacionei na frente da mansão.
Antes que ela abrisse a porta, toquei o rosto dela. A pele quente, macia. Me aproximei devagar, e antes que ela dissesse qualquer coisa, eu a beijei.
Encostei minha boca na dela e senti ela hesitar por meio segundo — e então, me devolver na mesma intensidade. Passei a língua entre seus lábios, e ela abriu espaço como se estivesse esperando por isso desde o começo da manhã.
Afundei minha mão na nuca dela, puxando de leve o cabelo preso. Minha outra mão desceu até a cintura e apertou com força. Senti os dedos dela se enroscarem na minha camisa, me puxando mais. A outra… foi direto onde eu mais precisava. Quando tocou por cima do meu pau, eu gemi.
Ela mordeu meu lábio inferior. Eu gemi, baixo, rouco, completamente entregue. Levei a boca pro pescoço dela e lambi devagar, subindo até a orelha. Quando mordi de leve, ela soltou aquele suspiro abafado que acaba com qualquer homem apaixonado e sem transar há meses.
Minha calça ficou apertada na hora. Doía.
Desci a mão pela lateral do corpo dela, sentindo cada curva, cada centímetro da mulher que é minha.
— Porra, Helena... — murmurei, minha voz mais grave que o normal.
Ela me puxou de novo pra outro beijo, mais agressivo. Nossas línguas se encontraram com voracidade.
Dei um clique no botão do banco pra reclinar. Já ia puxar ela pro meu colo, enlouquecido.
— Heitor…
Olhei. O rosto dela estava vermelho, ofegante. Linda pra caralho.
— Vai trabalhar. — ela disse. Balde de água fria. — A gente fez um acordo. Lembra?
Fiquei ali, incrédulo. Travado. A poucos segundos da glória.
Mas respirei fundo. Segurei o volante. Não era a hora de explodir.
— Tudo bem. Nos vemos mais tarde. — murmurei.
Ela me deu um selinho casto.
— Boa tarde de trabalho.
Saiu do carro.
Fiquei ali, observando ela entrar.
Levei as mãos ao rosto. Esfreguei com força.
Tem alguma coisa errada, eu sinto. Não é só cansaço.
Tem algo por trás disso tudo.
Essa distância, essa frieza, esse controle… Helena tá escondendo algo. E quando eu voltar hoje, nós vamos conversar. Nem que eu tenha que arrancar cada palavra dela com um beijo desses.
Porque se tem uma coisa que eu não admito…
É o amor da minha vida dormindo ao meu lado e eu sentindo que ela tá longe.
Segui pro trabalho destruído por dentro. Ainda bem que hoje não tinha reunião com nenhum cliente — porque se alguém abrisse a boca no meu escritório, eu juro que não responderia como um homem civilizado.
Estava tentando revisar o relatório da entrega atrasada do condomínio de Fortaleza, mas a cabeça não ajudava. Lia três linhas e pensava nela. Naquela conversa maldita sobre aquele filme. Na recusa. No beijo cortado pela metade.
Foi quando o telefone da minha mesa tocou.
Atendi sem paciência:
— O que foi?
Do outro lado, a voz da Verônica hesitou:
— Senhor Heitor… o senhor está esperando alguém fora da agenda hoje?
Franzi a testa.
— Não. Por quê?
— A senhora Helena viria aqui na empresa?
Fechei os olhos. Massageei minhas têmporas.
— Que eu saiba, não. O que está acontecendo, Verônica?
— Tem um homem no saguão que insiste em falar com ela. Disse que é amigo dela. Que o nome dele é Rafael Cardoso Silva.
Na hora, o nome explodiu na minha cabeça como uma sirene de alerta.
Rafael Cardoso Silva.
O ex dela.
Senti os músculos do meu corpo se enrijecerem. O estômago afundou. A raiva veio rápido, seguida de um medo tão profundo que me tirou o ar.
— Qual o assunto? — perguntei com a voz já ficando grave.
— Ele disse… que é pessoal.
Pessoal.
Pessoal uma ova.
Ficamos em silêncio. A tensão podia ser cortada com uma faca.
— Libera a entrada dele. — disse, gelado. — Vou atender pessoalmente.
— Sim, senhor.
Desliguei.
Fiquei ali parado. O celular já na mão. Abri o perfil da Helena. Fui nos seguidores. Digitei Rafael Cardoso.
Nada.
Mas quando abri a lista de quem ela seguia... lá estava ele. Perfil com avatar do Capitão America. Abri.
Ele estava ali.
Na conversa que tivemos no início, sobre ex-namorados, ela me contou de um tal Rafael. Esse Rafael. Na época, ele ainda comentava todas as fotos dela. Mandava meme. Tentava chamar atenção. Eu já não tinha gostado. E agora ele aparece. Do nada. Na minha empresa.
O sangue estava queimando nas minhas veias.
Então é por isso que ela tá distante?
Ela tá arrependida?
Tá em dúvida?
Quer voltar pro passado?
E o nosso filho?
E tudo o que a gente construiu?
Me levantei da cadeira. Comecei a andar de um lado pro outro como um leão enjaulado.
Respiração pesada. Maxilar travado. O nó na garganta crescendo.
Fui até o banheiro, lavei o rosto com água gelada. Olhei no espelho e vi um homem pronto pra guerra.
— Quem esse filho da puta pensa que é? — murmurei para o reflexo.
Não importava o motivo dele estar aqui.
Ele ia sair sabendo que nunca seria páreo pra mim.
Que essa mulher é minha. Minha parceira. Minha casa. A mãe do meu filho. E eu moveria o mundo pra protegê-la.
Voltei à sala, peguei o telefone.
— Verônica.
— Sim, senhor?
— Manda ele entrar.
Me sentei. Ajustei o relógio no pulso. Endireitei os ombros.
Quando aquela porta se abrisse, não seria só uma visita qualquer. Seria o ex da mulher que eu amo, entrando na cova do leão.
E hoje, o leão tá com fome.
Quando a porta abriu, eu soube na hora.
Rafael Cardoso Silva. O mesmo homem das fotos que vi no Instagram, só que pessoalmente ele parecia ainda pior. Cabelos desgrenhados, uma mochila surrada nas costas, camiseta da Marvel amarrotada. O tipo de homem que tenta parecer “profundo” porque nunca teve culhão pra ser responsável de verdade.
Assim que me viu, o olhar dele mudou. Fechou o semblante, firmou o queixo como se estivesse pronto pra bater de frente. Burro. Além de tudo, era burro. Se achou digno de disputar alguma coisa comigo, claramente não entendeu com quem tá lidando.
Levantei da cadeira com calma. Era visível que eu era mais alto, mais forte, mais homem. Mas o desgraçado sustentava o olhar como se isso aqui fosse uma competição justa.
— Rafael, né? — falei sem estender a mão. — Heitor Monteiro.
— Sei quem você é.
— Imagino. — pausei. — Noivo da Helena. Pai do filho dela.
O maxilar dele travou. Um segundo. Mas travou.
— Ela tá aqui? — perguntou.
— Não.
— Então me diz onde ela tá.
— Em casa.
— Qual casa? — ele já puxava o celular.
A veia do meu pescoço começou a pulsar.
— Não vou te passar o endereço da minha casa.
— Eu não sou um estranho pra ela.
— Pra mim, é.
Silêncio. Pesado.
— Vim ver uma amiga. — ele disse. — Achei que seria uma surpresa.
— Surpresa é quando a pessoa quer te ver. — respondi. — Quando não quer, é invasão.
Ele soltou um riso curto.
— Você sempre fala assim ou é só quando tá inseguro?
Dei um passo à frente. Ele não recuou.
— Não é insegurança. — falei baixo. — É o meu território.
— Engraçado… — ele inclinou a cabeça. — A Helena nunca gostou desse tipo de homem.
— Nunca gostou de você. — rebati. — Por isso terminou.
Os olhos dele escureceram.
— Eu conheço a Helena há dez anos. — disse. — Fui o primeiro dela.
O mundo parou.
Foi como se alguém tivesse puxado um fio dentro do meu peito e arrebentado tudo de uma vez.
Minha visão fechou.
O sangue subiu quente demais.
Não pensei — reagi.
Avancei um passo brusco, o corpo inteiro tenso.
— Repete. — minha voz saiu baixa, perigosa. — Repete essa merda olhando na minha cara.
Ele sustentou o olhar, orgulhoso demais pra recuar.
— Você ouviu.
Aí eu perdi o controle.
Agarrei o colarinho dele com força e o joguei contra a parede. Não levantei do chão — mas prensei o suficiente pra ele entender o erro.
— Você nunca mais fala disso. — rosnei, os dentes cerrados. — Nunca mais usa o corpo da mulher que eu amo pra tentar me diminuir.
Ele respirava pesado.
— Isso não muda o fato—
— Muda tudo. — cortei. — Porque enquanto você ficou preso ao passado, eu construí uma vida com ela. Eu fiquei. Eu protegi. Eu fiz filho. Eu virei família.
Apertei mais um pouco, só pra marcar.
— Você foi o primeiro? — falei perto do rosto dele. — Parabéns. Alguns homens começam histórias. Outros terminam.
Soltei ele com um empurrão seco.
— Some da minha frente. — falei. — E nunca mais tenta ocupar um espaço que não é seu.
Ele ajeitou a camisa, respirando com dificuldade.
— Você acha que isso acabou?
— Pra você, acabou faz tempo. — respondi. — Só demorou pra aceitar.
A porta abriu. Os seguranças entraram.
— Senhor Monteiro?
— Acompanhem ele até a saída.
Rafael lançou um último olhar carregado de ódio e frustração.
— Isso não acabou.
— Acabou sim. — falei. — Porque ela não é mais o seu capítulo.
Ele saiu.
Soltei a gravata como se ela estivesse me sufocando. Abri o armário do bar e servi um whisky. Gole direto, forte. O gelo estalou dentro do copo e eu andava de um lado pro outro da sala, igual bicho preso.
O que esse filho da puta achou que tava fazendo?
Entrar aqui, na minha sala, me encarar daquele jeito, falar da Helena como se ainda tivesse algum direito de pensar nela. Como se ela fosse alguma lembrança dele, e não a mulher que dorme na minha cama, que carrega o meu nome no dedo e que deu a luz ao meu filho.
Minha vontade era de ter deixado os seguranças lá fora e ter resolvido do meu jeito.
Mas respirei fundo. Me controlei. Helena tá comigo. Eu sou o presente, o futuro. Ele é só um erro do passado que não soube ficar no lugar dele.
Foi quando o celular vibrou. Tava no bolso da calça.
Helena.
Mesmo com o ar-condicionado ligado, senti o suor escorrer pelas costas.
— Oi, amor. — atendi, tentando soar calmo.
— Oi. Tudo bem por aí?
Ouvir a voz dela... merda. Desarmou tudo. Meu corpo relaxou, um sorriso pequeno escapou.
— Só uns babacas me irritando, mas... tô bem. E com vocês?
— Também. Tudo certo por aqui.
— Que bom, amor... Tava pensando em você, sabia? Tô com saudades.
Fiquei encarando minha aliança de compromisso, girando ela com o polegar.
— Também tô. Mas logo você já vem pra casa.
— Sim. Hoje, por bem ou por mal, eu vou sair no horário.
— Posso te esperar pro jantar?
— Pode. — sorri. Um sorriso sincero.
Mas aí veio.
— Heitor...
— Sim?
— Um amigo meu, da minha cidade natal, veio me visitar aqui no Rio.
Parei de respirar.
O mundo... o chão... tudo cedeu. Me obriguei a me sentar, sentindo o peso do corpo triplicar. A voz dela continuava doce. Natural. Como se não tivesse... nada errado.
— Qual amigo? O Hugo? — perguntei, mesmo sabendo a resposta. Mesmo já sentindo a pontada no peito.
— Não... você não conhece esse.
Passei a mão pelos olhos. Me recusei a acreditar no que tava ouvindo.
— Qual o nome dele?
Silêncio. Dois segundos demais.
— Luís.
E foi aí. O golpe.
Ela mentiu. Assim. Na minha cara.
Helena.
Minha mulher.
A única pessoa no mundo em quem eu ainda acreditava de olhos fechados.
Fiquei ali... com o celular na mão e o coração dilacerado. As palavras dela continuaram vindo, mas eu não ouvia mais nada. Só sentia o gosto amargo na boca, a ardência no peito. A sensação de que tudo... tudo... podia estar ruindo.
— Ele vai jantar com a gente? — perguntei, mesmo sabendo que não. Era só pra ouvir o que ela teria coragem de dizer.
— Não. Ele veio rápido. Vai passar aqui em casa rapidinho e depois vai embora.
“Rapidinho”.
Cada sílaba me destruía mais.
— Ele vai aí em casa, então?
— Isso. Eu quis te ligar pra perguntar se você se importa. Já que você não vai estar... vai ser rápido.
Ela ainda tava pedindo permissão pra mentir. Isso que era pior.
Segurei as lágrimas até onde deu. Mas elas vinham. Quietas. Frias. Umedecendo meu rosto de um jeito que eu odiava.
— É seu amigo... Luís, né? Recebe ele.
— Vai ser rápido, amor.
Amor.
Meu Deus, que palavra suja ela ficou naquela hora.
— Beleza. Tenho que desligar. Preciso voltar pra reunião.
— Tá bom. Boa reunião, te am...
Desliguei.
Não deixei ela terminar.
Fiquei olhando pro nada, sentindo aquele tipo de dor que não grita. Que só consome. De dentro pra fora.
Não sei o que era mais forte.
A raiva.
A decepção.
O medo.
A traição.
Tirei a aliança do dedo com tanta força que quase rasguei a pele.
Ela queimava. Parecia que ia fundir na carne.
Joguei no canto da sala.
Ouvi o som seco quando bateu no chão.
Fiquei ali.
Respirando rápido. Sozinho. Esmagado por algo que nem tinha acontecido ainda.
Ou já tinha?
Não sei.
Só sei que o homem que confiava... morreu um pouco naquela ligação.
E não sei se o que nasceu no lugar dele vai conseguir perdoar.
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