O CEO que Eu Paguei

218 Entre Mentiras, Medos e o Amor


POV HELENA


— Que isso... nem me deixou terminar de falar. — murmurei, olhando pro celular.

Fiquei ali, encarando a tela. A ligação tinha mesmo caído? Ou ele desligou?

Esperei um pouco, esperando que ele me ligasse de volta.

Nada.

Tentei retornar. Chamada não completava. Respirei fundo e gravei um áudio, tentando manter a voz suave, mesmo com o coração um pouco apertado:

— Você desligou antes de eu terminar de falar. Bom trabalho, tá? Te amo.

Talvez ele estivesse chateado com o que aconteceu no carro hoje.

E se tiver... ele tem motivo.

Ele me olhou daquele jeito... me beijou da forma que me faz esquecer o meu nome. Eu sinto o corpo inteiro tremer só de lembrar. Queria tanto ter cedido. Eu queria ele. Com todas as forças. Mas... meu corpo mudou tanto depois do parto. As estrias... a barriga ainda mole... minha pele mais sensível.

O pós-parto mexeu com meu corpo. Comigo. Sei que o Heitor não liga, ele sempre me olha como se eu fosse a mulher mais bonita do mundo. Mas... eu me importo.

Não quero que ele só me deseje. Eu quero que, quando ele me olhar, se perca.

E nesse momento... eu ainda não me sinto assim.

A dermatologista disse que com mais dois dias de tratamento, as marcas vão estar quase invisíveis. Eu estou contando as horas. Mas, sinceramente... hoje vai ter que ser a noite. Não vou aguentar mais.

Já combinei com os pais do Heitor pra ficarem com o Humberto. Minha avó e o senhor Afonso vão junto. E o Jonas já sabe que não é para vir para cá hoje.

Vou dispensar os funcionários.

Deixar a casa só pra nós dois.

Vou cozinhar o que ele mais gosta.

Vai ser a nossa noite.

Eu sei que ando difícil.

Os hormônios, o sono quebrado, a exaustão… tudo parece estar me levando ao limite. A psicóloga me disse que é normal. Mas mesmo assim... eu me sinto em dívida com ele. Com tudo que ele faz por mim, com o jeito que me olha como se eu ainda fosse a mulher mais linda da face da terra.

Vou passar um hidratante por cima e tentar esconder essas linhas quase invisíveis que ainda me incomodam.

Só quero me sentir mulher de novo. A mulher dele.

Mas antes... eu tinha outro problema.

Recebi uma ligação do Rafael. Meu ex.

Apareceu aqui no Rio do nada, dizendo que queria me ver. Que “se preocupou comigo”. Sinceramente? Eu conheço o Rafael. Sei que ele nunca saiu da nossa cidade e do nada aparece aqui no Rio? Ele é desorganizado, impulsivo e… perdido. Sempre foi.

Mesmo assim, não consegui ignorar.

Fiquei nervosa.

Mentir o nome pro Heitor foi errado. Eu sei.

Mas fiquei com medo da reação dele. Medo de parecer algo que não era.

Falei “Luís” no impulso, porque… porque me deu medo. Medo de como ele reagiria se soubesse que o Rafael estava vindo aqui.

Mas quando o Heitor chegar em casa, eu conto. Olho nos olhos dele e explico.

Respirei fundo, liguei pra portaria e liberei a entrada do Uber do Rafael.

Fiquei ali na entrada esperando. Quando ele saiu do carro e me viu, abriu aquele sorriso que me dava vergonha alheia. Um sorriso que não combinava mais com nada do que eu sou hoje.

— Lelê… você tá ótima! — ele disse, abrindo os braços. — Posso te abraçar?

Arregalei os olhos.

— Melhor não, Rafa. Só as mãos mesmo. — estendi a mão, direta.

Ele fez uma cara de cachorro molhado e apertou minha mão devagar.

Foram cinco anos juntos, mas a verdade é que nos últimos três ele era mais companhia do que qualquer outra coisa. Hoje, olhando pra ele, percebo o que sempre soube, eu não devia ter nem começado esse namoro. A culpa foi minha, eu não estava apaixonado por ele, mas aceitei o namoro mesmo assim porque achei que era o certo a se fazer.

— Tudo bem… — disse. — Não vim atrapalhar. Só queria ver se você tava bem. Fiquei sabendo das coisas… demorei, eu sei, mas precisei juntar grana pra vir.

— Não precisava ter feito isso. Por que não mandou mensagem?

Ele desviou o olhar.

— Achei que ia ser legal te fazer uma surpresa. A gente é amigo, lembra?

— Rafa... — cruzei os braços. — Eu tô com outra pessoa. Um homem que eu amo. Tô construindo uma família. Você realmente acha que isso aqui é apropriado?

Ele fez a mesma cara magoada de quando a gente terminou. Uma que sempre me deixou irritada.

— Você tem onde ficar?

Sabia que não.

— Não. Ainda não.

Suspirei. Sabia.

— Comprou passagem de volta?

— Ainda não…

Fechei os olhos por um segundo.

Inacreditável. Mas tão típico dele.

Peguei o celular.

— Vou pedir pra alugarem um hotel pra você hoje e comprar uma passagem pra amanhã cedo.

— Espera, Helena. Não me manda embora assim. Eu vim ver você. Foi por você que eu vim.

— Sem necessidade, né Rafael?! — explodi. — Faz seis anos que a gente terminou! Eu tenho um bebê de dois meses. Um filho com o homem da minha vida. Você realmente acha que isso faz algum sentido?

— Você não consegue ver o sacrifício que eu fiz? Fiquei sabendo das merdas que aconteceram com você, e vim pra dar apoio!

— Eu não preciso do seu apoio.

Mandei a mensagem pro mordomo chefe da casa resolver tudo. Só queria que isso acabasse.

Ele deu um passo em minha direção. Dei dois pra trás.

— Pode pelo menos me ouvir? Eu vim de longe!

Suspirei.

— Tá. Cinco minutos. Só isso.

Virei as costas e entrei em casa.

Cinco minutos.

E depois, isso ia ficar no passado — de onde nunca devia ter saído.

Na sala, minha avó me esperava, com o controle da TV na mão.

A gente tava maratonando A Usurpadora desde que cheguei do almoço.

Assim que o Rafael entrou, ela arregalou os olhos e me lançou aquele olhar que só vó sabe dar. Revirei os meus, já de saco cheio.

— Senta aí. — falei seca, apontando pro sofá.

— Ué, Rafael? O que ocê tá fazendo aqui? — minha avó perguntou, claramente sem entender nada.

Ele sorriu, todo sem graça, e tirou a mochila das costas, colocando no sofá como se aquilo fosse normal.

— Vim visitar a Helena. Trouxe uns presentinhos pra vocês.

Abriu a mochila e tirou uma sacola plástica. De dentro, veio um pacote de sequilhos. Ele entregou pra minha avó.

— Pra senhora. Sei que são os seus favoritos.

Ela pegou, sem saber onde enfiar a cara.

— São mesmo… os sequilhos que eu gosto.

— Eu lembrei. São da nossa região. Aqui no Rio não tem igual.

— Obrigada, menino… — disse minha avó, com um sorriso amarelo, antes de aceitar o abraço forçado que ele deu.

Depois, voltou animado pra mochila e tirou dois embrulhos: um da Cacau Show e outro com papel de bichinhos, provavelmente pro Humberto.

— Trouxe pra você também, Lelê. E pro seu filho.

Peguei a sacola da Cacau Show, abri. Era chocolate em formato de coração.

Entreguei de volta na mesma hora, o estômago revirando.

— Não posso aceitar isso.

Ele franziu a testa.

— Por quê? Você sempre gostou desses.

— Rafael... se toca. Eu sou noiva de outro homem. Como você acha que eu vou aceitar chocolate de coração de um ex?

— Mas não tem nada a ver... São só sabores que você gostava.

Perdi a paciência. Entreguei o outro presente de volta também, nem abri.

— Leva. Não quero nada de você.

Ele pegou de volta, parecendo entender que insistir ia ser inútil. Se sentou no sofá ao lado da mochila, esfregando as mãos, olhando pro chão.

— Fala logo, Rafael.

— É que... desde que você se envolveu com esse cara, sua vida virou uma bagunça. Eu pensei que talvez...

— Bagunça? — endireitei a postura. — O que você quer dizer com isso?

— Todos aqueles escândalos… o hospital, a imprensa, aquele caso de agressão...

— Nada disso foi culpa do Heitor. Ele me defendeu em tudo. Em tudo. — disse entre os dentes. — Pelo amor de Deus, Rafael. O que você tá fazendo aqui? Depois de tanto tempo?

— Eu pensei que… você podia estar arrependida. Que tinha percebido que não vale a pena estar com alguém só por dinheiro, quando se sofre tanto.

Senti o sangue subir.

— Você tá me chamando de interesseira?

— Não foi isso que eu...

— EU TÔ COM O HEITOR PORQUE EU AMO ELE, CARALHO! — explodi.

Foi aí que o Oséias apareceu.

— Dona Helena, tudo bem por aqui? — perguntou, os olhos fixos no Rafael.

Respirei fundo.

— Só estou terminando uma conversa. Daqui a pouco, ajuda esse cara a sair da minha casa, por favor.

— Sim, senhora. — ele assentiu, mas ficou ali, em pé, como uma sombra pronta pra agir.

— Helena... não precisa me tratar assim. A gente nunca conversou direito depois do fim. Eu vi o cara que você tá. Vocês dois não têm nada a ver.

— Quer falar da nossa “relação”? Vamos falar então. Nossa relação não existe. — olhei direto nos olhos dele. — A gente terminou porque eu não te amo. Nunca mais amei. E você veio aqui tentando me fazer sentir culpa. Igual sempre fez.

Me levantei.

— Eu sei quanto você recebe, Rafael. Trabalha no mesmo lugar desde os 15 anos. Se quisesse mesmo vir me ver, podia ter feito isso antes. Mas não. Preferiu aparecer agora, quando sabe que eu tô vulnerável. Pós-parto. Emocionalmente cansada. Você veio aqui achando que ia me confundir. Parece que não me conhece!

— Helena... eu amo você.

— VAI PRA PUTA QUE PARIU COM ESSE SEU AMOR.

Minha voz cortou a sala inteira.

— Quer saber? Chega. Oséias, leva ele pra fora. Já mandei mensagem pro mordomo-chefe. Ele vai cuidar do resto.

Rafael se levantou, a mochila pendurada num ombro só.

— Por que você tá sendo assim comigo? Eu vi o cara hoje. Ele nem é tudo isso.

Meu corpo inteiro gelou.

— Espera… como assim você viu o Heitor?

— Fui na empresa que você trabalha. Achei que conseguiria seu endereço por lá. Acabou que esbarrei com ele. A gente se conheceu.

Tudo ao meu redor ficou mudo. Só ouvi a frase.

“A gente se conheceu.”

— Ele é um babaca, Helena. Arrogante. Nem combina com você...

Não ouvi mais nada.

A mão tremia. O estômago embrulhado. Peguei o celular e tentei ligar pro Heitor.

Chamada não completada.

Tentei de novo. E de novo.

Meu peito apertava. Meus olhos ardiam.

Como eu pude mentir?

Como eu pude...

Ele viu. Ele viu o Rafael. Me ouviu falar outro nome. Ele sabe que eu menti.

Deixei o celular cair no sofá e levei as mãos à cabeça, tentando controlar a respiração. Meu corpo inteiro tremia.

Como eu pude fazer isso com o homem que mais me ama no mundo?

Minha avó voltou da cozinha com um copo de água na mão.

— Uai… cadê o menino? — ela perguntou, mas parou no meio da frase quando me olhou direito. — Helena… o que deu em ocê, minha filha? Tá branca que nem papel.

Não consegui responder.

Minha garganta fechou. O ar parecia não entrar direito nos pulmões.

Ela largou o copo na mesa e veio rápido até mim. Foi o toque dela no meu braço que me fez desabar.

— Vó… — comecei, mas a voz saiu quebrada. — Eu menti pro Heitor… e ele descobriu da pior maneira possível.

As palavras saíram atropeladas, pesadas demais até pra mim.

Ela arregalou os olhos, assustada.

— Menina… por que ocê fez isso?

— Eu achei que fosse uma mentirinha boba… achei que estava protegendo a gente… — levei a mão ao peito, tentando respirar. — Mas ele descobriu. E agora… agora ele deve estar me odiando.

O choro veio forte, descontrolado, daqueles que doem no corpo inteiro.

— Vó, eu preciso ir lá. Agora. — segurei o braço dela. — A senhora pode ficar com o Humberto? Por favor… eu preciso falar com ele antes que seja tarde demais.

Ela não discutiu. Só assentiu.

— Vai, minha filha. Eu cuido do pequeno. Vai atrás do seu homem.

Saí do jeito que estava. Sem pensar. Sem olhar no espelho. Com o celular na mão, tentando ligar pra ele de novo e de novo.

Nada.

Cada chamada que não completava era um tapa na minha cara.

Eu me sentia tonta. Desorientada. Como se tivesse feito algo irreversível sem perceber. Achei que era inofensivo. Achei que estava evitando um conflito. Mas conhecendo o Heitor como conheço… ele devia estar devastado. Decepcionado comigo.

— Dona Helena? — a voz do Oséias surgiu atrás de mim. — Aconteceu alguma coisa?

— Eu preciso ver o Heitor. Agora. — falei com dificuldade, sentindo o peito apertar.

— Vou chamar o Carlos imediatamente.

O trajeto até a empresa foi o mais longo da minha vida.

Eu ligava. Mandava mensagem. Nada era entregue. Meu coração batia tão rápido que doía. Foi quando percebi que a foto do perfil dele não aparecia mais.

Aquilo me fez parar de respirar por um segundo.

Ele me bloqueou.

Ou pior…

Ele não queria nem me ver.

Tentei ligar pela linha telefônica. Caixa postal.

Quando o carro finalmente parou, limpei o rosto com as mãos trêmulas. Eu não estava em condições de entrar ali. Mas isso não importava. Nada importava além dele. Preciso esclarecer isso!

Entrei. As pessoas sorriam, perguntavam do Humberto, comentavam como ele estava lindo. Eu respondia no automático, sem ouvir direito, até chegar ao elevador e apertar o andar do Heitor.

Quando as portas abriram, fui direto à mesa da Verônica. Ela me olhou assustada.

— Helena… você tá bem?

— Eu preciso falar com o Heitor. Agora.

Ela assentiu e pegou o telefone.

— Senhor Heitor, a Helena está aqui na recepção.

Silêncio.

— Ela disse que precisa falar com o senhor… parece urgente.

Mais silêncio.

— Apenas ela.

Meu coração batia na garganta.

— Certo.

Ela desligou devagar. Quando me olhou, havia desconforto no rosto dela.

— Ele disse que não pode atender agora. Está resolvendo um problema muito sério. Não sabe que horas vai sair. Disse que vocês conversam quando ele for pra casa.

Senti o chão desaparecer.

— Veio alguém aqui hoje chamado Rafael? — perguntei quase num sussurro.

Verônica hesitou.

— Sim. O senhor Heitor atendeu um homem com esse nome.

— E… foi ruim?

Ela não respondeu diretamente.

— Não foi uma conversa tranquila.

Eu sabia.

— Vou esperar. — disse, sentando antes que minhas pernas cedessem.

— Helena… ele pode demorar bastante. Tem certeza?

— Tenho.

Peguei o celular com as mãos tremendo e fui pro Instagram.

Comecei a digitar como se minha vida dependesse daquilo — porque dependia.

@helena_rbc:

Heitor, eu sei que você tá muito chateado. Mas, por favor, me perdoa. Eu errei. Eu menti porque fiquei com medo da sua reação, não porque tinha algo a esconder.

@helena_rbc:

O Rafael não significa absolutamente nada pra mim. Nada. Eu só quis saber o que ele queria e mandar ele embora.

@helena_rbc:

Você é o homem da minha vida. Eu te amo. Nunca te trocaria por ninguém. Nunca.

@helena_rbc:

Por favor… me responde. Você tá bem?


Nada.

O silêncio era ensurdecedor.

— Helena, você precisa de alguma coisa? — Verônica perguntou com cuidado.

— Falar com o Heitor.

— Agora não vai ser possível… mas se quiser água, café…

— Você pode me arrumar um notebook? — interrompi.

Ela piscou surpresa, mas assentiu.

Minutos depois, um funcionário da TI me entregou um. Abri minha conta da empresa. Entrei no Teams. Abri nossa conversa.

HELENA RIBEIRO CAMPOS:

Amor?


Enviei.

Ele estava como ocupado.

Continuei.


HELENA RIBEIRO CAMPOS:

Pode me receber, por favor?

Foi um mal-entendido. Eu preciso te explicar.


Nada.


HELENA RIBEIRO CAMPOS:

Heitor… por favor. Vamos conversar.


Suspirei fundo. Tentei ligar por ali.

Chamada recusada.

Tentei de novo.

Recusada.

Meu peito doía tanto que parecia que algo estava rasgando por dentro.

Eu fiz isso.

Eu causei isso.

E o pior medo começou a se formar, pesado, sufocante:

E se dessa vez eu tiver ido longe demais?

A tarde foi passando.

Minha avó me mandava fotos mal tiradas do Humberto, como sempre. Em todas ele saía meio tremido ou com o pezinho aparecendo cortado. E mesmo assim, meu coração doía de saudade.

Enquanto isso, eu seguia enchendo as caixas de mensagem do Heitor. No Instagram. No Teams. E nenhuma visualização.

Cada vez que eu levantava os olhos e olhava pra porta fechada da sala dele, me sentia… insignificante.

Pequena. Como se não tivesse mais lugar ali.

Como se tivesse traído ele.

Mesmo sem ter feito nada.

Mas mentira também é uma forma de traição.

E essa culpa estava me esmagando.

Já era quase 18h quando a Verônica começou a organizar as coisas dela. O som das gavetas, dos papéis… tudo parecia mais alto num silêncio tão desconfortável.

— Eu já finalizei meu expediente, Helena. — ela disse com doçura. — Já tá bem tarde. Quer que eu te leve pra casa?

Balancei a cabeça devagar.

— Não… eu vou esperar por ele.

Ela hesitou. A postura dela era profissional, mas havia algo no olhar… empatia, talvez.

— Escuta, eu não tenho nada a ver com isso… mas ele tá muito chateado. Eu realmente não sei se vai sair da sala hoje. Às vezes, é melhor dar um tempo. Quando as coisas esfriarem, vocês conversam melhor…

Assenti, mas minha decisão já tava tomada.

— Eu entendo… mas vou esperar.

Ela me deu um meio sorriso.

— Vocês vão se resolver. — disse gentilmente.

— Obrigada… eu vou esperar até umas 19h. Se ele não sair, eu vou embora também.

— Certo. Até mais, Helena.

Vi o elevador se fechar atrás dela.

E assim que sumiu… meu corpo foi sozinho até a porta da sala dele.

Tentei girar a maçaneta.

Estava trancada.

Meu peito apertou.

Eu nem sabia que essa porta tinha tranca.

Bati de leve, timidamente.

— Heitor? Sou eu… pode abrir?

Nada.

Apoiei a testa na madeira por alguns segundos.

— Eu vou ficar aqui… te esperando… no seu tempo.

Voltei devagar pra poltrona. Me sentei. E fiquei só olhando pra porta. Como se isso pudesse fazer ela abrir.

Passou um tempo e comecei a sentir um desconforto no peito. Olhei pra blusa…

Molhada.

O leite vazando. Era hora do Humberto mamar.

Fui até o banheiro. Me limpei com papel higiênico mesmo, no que deu.

Meu corpo ainda era esse caos desregulado… mas ao mesmo tempo, tão generoso.

Dou tanto leite que além de guardar, estou doando para o banco de leite do SUS.

Suspirei.

O instinto falou mais alto.

Peguei o telefone e disquei.

— Alô?

— Vó? Como o Humberto tá?

— Tá aqui tomando a mamadeira, Dona Celina tá dando. — disse com tranquilidade. — Já tá com o Heitor?

Fechei os olhos.

— Ainda não…

— Ó… não se preocupa com o menino. Tá bem cuidado. Agora vai cuidar do homem aí.

— Tá bem, vó… obrigada.

Voltei pra poltrona.

Minutos depois, ouvi o som do elevador. Me levantei num pulo.

Mas não era ele.

Era um segurança com dois pacotes de Ifood nas mãos.

— Helena? Chegou pra você.

Franzi a testa.

Peguei os pacotes. Li o nome no recibo.

CLIENTE: HEITOR MONTEIRO

Meu peito se aqueceu.

E doeu ao mesmo tempo.

Ele ainda se importa.

Mesmo com raiva. Mesmo com a mágoa.

Ele ainda pensou em mim.

— Obrigada… — murmurei pro segurança.

Ele se afastou.

Abri o primeiro pacote: um combinado de sushi — do lugar que eu mais gosto.

O segundo… suco natural e um pedaço de bolo de prestígio.

Prestígio… meu preferido desde a adolescência.

Ele lembrou.

Fui até a porta da sala dele. Fiquei ali na frente.

— Amor… você quer um pouco? Eu posso guardar pra você… sei que nem deve ter comido nada desde aquela hora. Eu… eu vou deixar separado, tá?

Esperei.

Só silêncio.

Voltei pra minha poltrona, comi devagar, engolindo com dificuldade.

A comida era boa.

Mas o nó na garganta…

Esse não descia.

Já eram quase 21h30 quando a porta da sala dele finalmente se abriu.

Me levantei no mesmo instante.

Heitor saiu devagar, como se o corpo estivesse mais pesado que o normal. O rosto estava vermelho, os olhos cansados, úmidos — e aquilo doeu mais do que qualquer grito teria doído. Ele parecia… ferido.

Segurei o choro com todas as forças.

— Vamos pra casa. — disse ele, com a voz baixa, falhada.

Dei um passo na direção dele.

— A gente pode conversar?

Ele desviou o olhar por um segundo, como se estivesse juntando coragem pra não desmoronar ali mesmo.

— Vamos. — respondeu. — Aqui, na minha sala.

Ele voltou e segurou a porta aberta pra eu entrar. O gesto automático, educado… distante. Aquilo me rasgou por dentro.

Entrei, mas antes que ele se afastasse, segurei a mão dele.

Heitor suspirou fundo.

— Me desculpa não ter te recebido antes. — disse Heitor, sem me olhar. — Às vezes eu esqueço o quanto você é teimosa.

Segurei também a outra mão dele e o forcei, com cuidado, a me encarar.

— Me perdoa. — falei com a voz embargada. — Eu menti pra você.

O olhar dele encontrou o meu. Tinha mágoa ali. Muita. Uma dor contida que ele claramente não queria mostrar.

— Eu fiquei com medo da sua reação. — continuei. — Medo de você ficar bravo por eu ter encontrado meu ex. Mas eu percebi… foi muito pior mentir.

Ele ficou em silêncio por alguns segundos. Engoliu em seco.

— Você… — a voz dele saiu rouca — ainda gosta dele?

Meu coração quase parou.

— Claro que não! — respondi na hora, sem hesitar. — Heitor, eu te contei tudo da minha vida. Inclusive sobre ele. Você sabe exatamente por que terminou. Você sabe o quanto aquilo já ficou no passado.

Ele passou a mão pelo rosto.

— Então por que você teve que se encontrar com ele?

— Porque ele apareceu no Rio do nada. — expliquei, sentindo o peso da situação. — E mesmo eu não sentindo absolutamente nada por ele, eu não podia simplesmente fingir que ele não existia.

— E por que não me contou a verdade? — ele perguntou, agora olhando direto pra mim. — O que me machucou não foi o encontro. Foi a mentira.

Respirei fundo.

— Porque você é ciumento.

Ele franziu o cenho na mesma hora.

— Eu não sou tão ciumento assim. Sou protetor. É diferente.

Revirei os olhos, apesar da situação.

— Ah, é mesmo? — suspirei. — Você esqueceu da vez que a gente foi à praia e você quase brigou com dois caras no calçadão?

— Você tá exagerando. — ele rebateu, tenso. — Os caras te secando na minha frente. Não dá pra fingir que isso é normal.

— Amor… — segurei a mão dele com mais força — eles estavam olhando a minha barriga enorme de grávida.

Ele bufou, contrariado.

— Barriga da minha mulher grávida.

— O que eu quero dizer — falei com calma — é que eu preciso que você confie em mim. Eu escolhi você. Escolhi dividir minha vida com você. Eu não jogaria isso fora por nada. Nem por ninguém.

Ele ficou em silêncio, o maxilar travado.

— Eu confio. — disse por fim. — Mas tenta se colocar no meu lugar. E se fosse eu? Se eu tivesse mentido pra você e ido encontrar uma ex?

Engoli em seco.

— Eu ficaria muito chateada.

— Tá vendo? — ele respondeu, a voz baixa, sofrida. — Eu não tô exagerando.

— Mas você podia ter me chamado pra conversar. — rebati, sentindo a garganta apertar. — Você também me escondeu que tinha se encontrado com ele. Eu só descobri depois.

Ele fechou os olhos por um instante. Quando abriu, estavam marejados.

— Eu te amo, Helena. — disse, finalmente deixando a armadura rachar. — E foi justamente por isso que doeu tanto. Porque eu nunca imaginei você mentindo pra mim.

Meu coração se despedaçou.

Dei um passo à frente e encostei a testa no peito dele.

— Me desculpa… — sussurrei. — Eu errei. E nunca mais vou fazer isso com você.

— Helena, eu sinto que tem algo errado. — a voz dele veio baixa, mas firme. — Você tá distante... me evitando. Tá fria comigo.

Ele suspirou, os olhos buscando os meus.

— Tem algo que você queira me contar?

Levantei o olhar devagar. Mordi o lábio inferior, envergonhada. Falar aquilo parecia tão... pequeno. Mas me consumia por dentro.

— É que... eu não tô satisfeita com o meu corpo. — confessei, quase num sussurro. — Engordei muito, e... tem as estrias também.

Heitor piscou, como se não acreditasse no que estava ouvindo.

— Não é possível que seja só por isso. — ele disse, inclinando levemente a cabeça. — Não tem outro cara na jogada?

Senti o rosto queimar na hora.

— Claro que não! Nunca teria. — rebati, firme, apesar da vergonha. — Eu só... tava esperando as estrias sumirem. Eu queria me sentir bonita de novo pra você.

Ele ficou em silêncio por dois segundos, e então riu — um riso incrédulo, meio surpreso.

— Helena... você tá gostosa pra caralho. — disse do jeito mais natural e direto possível. — Eu virei o maior punheteiro da história por sua causa.

Fiquei paralisada. O calor subiu do pescoço até as orelhas. Meu corpo reagiu antes mesmo da mente acompanhar — a calcinha umedecendo, o coração acelerando.

— Você… você se masturba por minha causa?

Ele se aproximou um pouco mais, com aquele sorriso de canto de quem sabe exatamente o efeito que causa em mim.

— Sim. — respondeu sem hesitar. — Você tá tão deliciosa que eu não passo um dia sem sentir minhas bolas doerem e meu pau latejar de vontade de estar dentro de você.

Arregalei os olhos. Meu olhar desceu por impulso até a virilha dele. Mesmo sob a calça social, era impossível não notar o volume. Não importava o ângulo ou o estado — Heitor sempre foi impressionante. Mas saber que ele ainda me desejava assim, mesmo com o meu corpo mudado… me deixou surpresa.

Levantei o olhar e encontrei aquele sorrisinho sacana no rosto dele. Pra ele, não existia “corpo de antes”. Existia o meu corpo. E ele queria exatamente assim.

Meus olhos desceram para as mãos dele. Acariciei os dedos longos, firmes, que eu conhecia tão bem. Cada toque fazia meu ventre contrair, como se o corpo gritasse: é ele, o meu homem.

Até que parei. O dedo da aliança… estava sem nada. A pele estava marcada, arranhada nas laterais. Algo dentro de mim afundou.

— Cadê a sua aliança? — perguntei, encarando os olhos dele. — Heitor?

Ele travou.

— Eu… tirei. — admitiu, com o semblante abatido.

Meu coração afundou.

— Por que você fez isso?

Soltei as mãos dele. Dei um passo pra trás, sem saber se chorava ou explodia.

Ele arregalou os olhos, aflito.

— Eu fiquei desesperado, Helena. Quando me ligou, quando vi tudo... eu achei que estava me traindo. Perdi o controle. Mas eu vou colocar agora, eu juro, eu…

— Você pegou pesado. — cortei, tentando manter a voz firme, mas falhando. — Eu sei que errei por mentir. Mas na primeira paranóia... você já tirou nossa aliança?

As lágrimas chegaram antes da próxima frase.

— Isso aqui... isso é o nosso símbolo. A nossa promessa. Não se joga fora assim.

Ele colocou as mãos nos meus braços, me segurando com cuidado.

— Helê, por favor, me perdoa. Eu sei que errei. Fui impulsivo, fui burro. Eu tava com medo de perder você. Mas eu nunca devia ter tirado.

— Tem coisas que a gente não faz. — sussurrei. — Não importa o quanto esteja doendo.

Ele abaixou a cabeça, como um garoto levado.

— Nem quando fui entubado eu tirei essa aliança. — murmurou. — Eu… eu tô meio paranoico ultimamente.

Olhei pra ele com o peito apertado. Ele parecia envergonhado, vulnerável. Abaixei os ombros. Amar alguém é também aprender a conviver com os medos dele. E os meus também.

— Quer conversar sobre isso?

Ele passou a mão pelos cabelos, desviando o olhar.

— Vamos pra dentro.

A mão dele desceu pelo meu braço até pousar na minha cintura. Seguimos lado a lado até uma parte da sala que eu não conhecia. Um canto novo, com um sofá elegante e iluminação aconchegante.

— E esse novo cantinho aqui? — perguntei, curiosa.

— Depois da sua última visita. — ele disse, com um sorrisinho torto. — Mandei o arquiteto dar um jeito. Queria que tivesse um espaço confortável... se você resolvesse me visitar de novo.

Revirei os olhos, tentando não sorrir. Isso era tão Heitor.

— Confortável pra quê, hein?

— Pra você vir me ver. Com o Humbertinho ou… Sozinha. — respondeu, me lançando aquele olhar safado que me desmontava inteira.

Suspirei e me sentei. O sofá era impermeável. Sorri de canto — desde que manchamos o sofá do apartamento, ele jurou que nunca mais compraria estofado comum.

Ele percebeu meu olhar e sorriu como um garoto travesso. Foi até a mesa dele, pegou a aliança ao lado do monitor e a colocou de volta no dedo.

Depois, pegou o blazer na cadeira e veio até mim.

Com cuidado, colocou sobre meus ombros.

Heitor se sentou do meu lado, os olhos ainda um pouco vermelhos.

— Se quiser trocar de camiseta, eu tenho uma camisa extra ali. — disse, olhando para a mancha no meu peito.

— Depois, Monteiro. Agora… me fala o que tá pegando de verdade.

Ele suspirou fundo, demorando um pouco para responder.

— Lembra do Miguel, que faleceu mês passado?

— Lembro sim.

— A viúva dele… já tá com outro cara.

Arregalei os olhos. Aquilo me pegou desprevenida.

— Como assim? Ela mal se aguentava no velório! Pediu pra Deus levar ela junto! — falei, incrédula.

— Eu vi no Instagram hoje. Ela postou uma foto com o cara, a maior declaração de amor escrita embaixo.

Fiquei em silêncio por um segundo, sem entender onde ele queria chegar.

— Tá… mas o que isso tem a ver com a gente?

Ele hesitou, engolindo em seco.

— É que… a Paula tá conversando com outro cara, a Gisele superou o Miguel… E eu fiquei com medo, sabe? De você me trocar também. Quando o seu ex apareceu, eu achei que vocês tavam se falando, e eu aqui… atolado de coisa, cansado…

Fiquei olhando pra ele. Sabia que a mentira tinha doído, mas o buraco dele parecia mais profundo. Peguei a mão dele entre as minhas.

— E de onde vem essa insegurança, hein?

O rosto dele ficou ainda mais vermelho. Ele desviou o olhar, claramente constrangido.

— Agora que vou falar em voz alta… parece um motivo meio besta.

— Fala logo, Heitor. Eu me expus. Sua vez.

Ele ficou mexendo nos próprios dedos, e murmurou:

— É que… você não quis mais… transar comigo.

Fiquei em choque. Arregalei os olhos.

— Repete.

— A gente não tava transando. — disse mais alto, olhando pra frente.

Levei a mão ao rosto, incrédula. Respirei fundo.

— Heitor, a gente não tava transando porque eu tava de resguardo. A médica proibiu, lembra?

— Mas depois que ela liberou, você não me procurou. — ele disse, ainda sem coragem de me encarar. — E eu achei que... talvez tivesse se cansado de mim.

Suspirei.

— E você não pensou em falar comigo? Eu achei que você tava respeitando meu tempo.

— E eu tava. — finalmente me olhou, os olhos cheios de afeto, mas magoados. — É que você tá tão gostosa, Helê. Tô subindo pelas paredes. Acordo e durmo pensando em meter em você. Mas você nem pega mais no meu pau. Nem de zoeira. Achei que…

— Monteiro, a gente foi na psicóloga junto. Ela explicou que o desejo pode demorar pra voltar. Ainda mais depois de um parto e tudo o que passamos com o Antônio.

Ele encolheu os ombros, envergonhado.

— Eu sei… É egoísmo meu. Eu não devia te pressionar. Você tá passando por tanta coisa…

Fiquei observando aquele homem que eu amo. Mesmo com as suas falhas, mas tão verdadeiro. Tão meu. Suspirei.

— Meus hormônios tão me deixando maluca, Heitor. Tudo fica maior. Às vezes sinto demais, até o que nem existe.

Fiz uma pausa.

— E talvez por isso… eu esteja te querendo muito mais do que deveria. — admiti.

Os olhos dele se acenderam de um jeito instantâneo.

— Você me quer? Tá querendo me dar?

Revirei os olhos, sem conter o sorriso, vermelha da cabeça aos pés.

— Você sabe que sim, idiota.

O estômago dele roncou alto, cortando completamente o clima. Comecei a rir.

— Vamos pra casa, Monteiro.

— Tudo bem. Mas troca a blusa antes? Tá transparente, e eu não tô conseguindo fingir normalidade.

— Tá bom. Mas… podemos fazer as pazes antes?

Ele se inclinou, com um sorriso suave, e colocou uma das mãos no meu rosto.

— Claro, amor.

O beijo dele veio doce, quente, e logo a outra mão dele me puxou pela cintura. O corpo dele encaixou no meu e eu quase me esqueci que estávamos na sala da empresa. Ele se afastou devagar, passando o polegar na minha bochecha.

— Te amo, Helê.

Os olhos dele estavam brilhando. Sorri, derretida.

— Também te amo, Heitor.

Ele se levantou, abriu um armário discreto e puxou uma camisa azul clara, que estendeu pra mim.

— Toma. Veste essa.

Peguei a camisa, mas quando ele virou de costas:

— Vai se trocar no banheiro? Tem algo aí que eu não vi? Impossível.

Coloquei a língua pra ele, rindo. Se ele tivesse me soltado um pouco mais no sofá, eu já teria desistido de qualquer coisa. Mas vou tentar manter o autocontrole. Vou recompensar ele em casa, do jeitinho que ele merece.

Tirei a camiseta suja, limpei o excesso de leite com ela, coloquei papel higiênico no sutiã, ajeitei a alça. Me perguntei se o Humberto estava bem. Devia estar, com os avós mimando ele até dizer chega. Ainda bem que nosso bebê é tão risonho e sociável.

Me olhei no espelho enquanto abotoava a camisa do Heitor. Fiquei surpresa. Mesmo nesse estado, com o corpo em transição, me senti bonita. Sexy até. Tinha algo de poderoso em vestir algo dele.

Talvez o amor, quando é verdadeiro, vista a gente por dentro também. Nossa, estou falando igual à ele, isso que é convivência.

Quando saí do banheiro, encontrei Heitor encostado na mesa, devorando a metade do sushi que eu tinha deixado para ele. Não consegui segurar a risada — ele estava faminto, e não só de comida.

Bastou o olhar dele pousar em mim para eu sentir. A mudança. O jeito que ele engoliu seco, o pomo de adão subindo e descendo, os olhos colando no meu corpo como se não soubesse decidir onde mirar primeiro. Fiquei quente, como se uma onda de calor começasse pelas minhas coxas e subisse queimando cada centímetro de pele.

Ele passou os dedos pelos lábios, limpando com calma, e a forma como os dedos sumiram na boca me fez arfar. O jeito que ele puxou a calça pra ajustar… eu conhecia. Eu sabia o que significava.

— Uau. — Ele se aproximou com aquele sorriso que só ele tem. — Minha camisa nunca teve tanta sorte.

— Fico sexy nela?

— Sexy pro meu caralho.

— Monteiro… se controla. A gente vai pra casa, lembra? Lá eu prometo que você vai esquecer todos esses dias de jejum.

Ele não perdeu tempo. Pegou minha mão e começou a puxar.

— Então anda. Se eu demorar mais 10 minutos, a cueca explode. Não tô conseguindo nem pensar. Sei nem quanto é 2 + 2.

Ri alto, sem conseguir evitar. No elevador, ele me puxou pra perto, colando nossos corpos.

— Monteiro, tem câmeras aqui!

— Tô tentando esconder a condição que você me deixou. Não quero que tenha vídeo meu no RH com o pau duro.

Revirei os olhos. E quase gemei. Porque mesmo por cima da calça, o volume se encaixou atrás de mim, firme, quente e latejante. Ele puxou meu corpo pra mais perto e, por um instante, eu quis esquecer tudo e ali mesmo rebolar contra ele.

— Você me paga por isso. — rosnei.

— Hoje? Quem paga é você.

Durante o percurso, Heitor não conseguia manter os olhos na estrada. A mão dele apertava o volante com força demais, os ombros tensos, a respiração irregular. Era perigoso — eu sabia —, mas aquilo me excitava de um jeito absurdo. Me lembrava da primeira vez que transamos, daquela pressa, daquela fome que ele nunca soube esconder quando me queria.

Queria perguntar sobre a conversa com o Rafael. Queria.

Mas sabia que aquilo quebraria o clima na mesma hora. Depois. Agora não.

No caminho, tentei puxar assunto sobre a nova filial. Eu falava, perguntava, e ele só respondia com “uhum”, “depois vejo”, “tá”.

O pau dele marcava a calça de um jeito indecente. Não totalmente ereto — ainda —, mas inchado, grosso, pulsando sob o tecido apertado. Ele ajeitava a cueca de tempos em tempos, visivelmente desconfortável. Quanto mais eu olhava, mais ele parecia sofrer. Cheguei a sentir dó.

Quase.

Quando entramos na estrada litorânea, o céu já começava a escurecer. O cheiro do mar entrou pelo carro, mesmo com os vidros fechados. Algo dentro de mim cedeu.

Desabotoei o cinto.

— O que foi? — ele perguntou, confuso, jogando um olhar rápido pra mim.

Coitadinho.

Precisava de ajuda.

Inclinei o corpo na direção dele e estiquei a mão até o volume. Desabotoei o botão da calça. Depois o zíper, lentamente, sentindo o corpo dele enrijecer inteiro.

— Helena… — a voz saiu grave, carregada de tesão.

Afastei o tecido da cueca e libertei o pau dele.

Deus… eu tinha esquecido o quanto ele era grande.

Duro, quente e pesado na minha mão. A cabeça vermelha, brilhando, já úmida. Passei o polegar pela ponta e senti minha boca salivar de vontade. Envolvi com a mão, sentindo as veias saltadas sob a pele firme. Meu sexo pulsou imediatamente.

Me inclinei mais e levei a boca até ele.

Meus lábios o envolveram com facilidade — como se tivessem sido feitos pra isso. Desci devagar, sentindo ele preencher minha boca, a língua se moldando ao redor. O gemido que escapou dele foi tão baixo e tão excitante que me arrepiou inteira.

— Porra… aqui?! — ele disse, com dificuldade.

Não respondi. Afundei mais.

Engoli até onde consegui, sentindo a pressão na garganta, os olhos lacrimejarem levemente. Heitor gemeu alto dessa vez, uma das mãos dele largou o volante para segurar minha cabeça.

Se ele tivesse pedido qualquer coisa naquele momento, eu teria dado. Ainda bem que ele não o fez.

Os dedos dele se enroscaram nos meus cabelos, guiando meus movimentos. Eu não conseguia engolir tudo por muito tempo, então subi um pouco, desci de novo, trabalhando com a boca e a língua, sentindo cada reação dele.

— Merda… vou ter que parar o carro — ele murmurou, ofegante.

Mas não parou ainda.

Ele puxou meus cabelos de repente, tirando meu rosto completamente do pau. O contraste do ar frio com o calor da minha boca me fez gemer baixo.

— Espera… assim eu vou gozar rápido demais — ele disse, a voz quebrada. — Vai devagar, Helê.

Sorri.

— Tá falando demais, Monteiro — provoquei. — Quero te ouvir É gemendo.

Voltei pra ele quando a mão afrouxou. Desci mais lento agora, sentindo o quanto ele era grosso, o quanto preenchia minha boca. O gosto era intenso, familiar e delicioso. E ouvir ele gemer daquele jeito me deixava ainda mais molhada.

— Ah, Helena… mama o caralho do seu homem… porra… com essa língua eu não aguento…

O carro começou a desacelerar. Senti o movimento mudar.

— Fica tranquila… vou só encostar mais um pouco — disse, a voz carregada de malícia. — Pra você ficar bem à vontade.

Tirei a boca e olhei pra ele. Ele me lançou um sorriso tão safado que eu senti a parte interna das minhas coxas molhadas.

— Onde a gente tá?

Antes que eu levantasse a cabeça, ele apoiou a mão de novo e me guiou pra baixo.

— Não se preocupa com isso — murmurou. — Já cuidei de tudo.

Voltei à boca dele.

Enquanto uma mão dele segurava meus cabelos, a outra deslizou pelas minhas costas, lenta, firme. Arrepiei inteira. A mão entrou por dentro da minha calça e da calcinha, segurando minha nádega com força, me puxando mais contra ele.

Entendi o recado.

Arrebitei o quadril, facilitando o acesso. Ele não perdeu tempo. À medida que os dedos desciam pela minha pele, comecei a gemer em volta do pau dele, sentindo o som vibrar.

— Shhh… quietinha — ele murmurou, com aquele sotaque arrastado que me desmontava. — Se concentra só no meu pau agora… você tá molhada pra caralho… que delícia.

Tentava me concentrar no que tinha na boca, sentindo o líquido dele escorrer pela língua, mas era impossível com os dedos dele brincando na entrada da minha buceta. Ele fazia círculos lentos, torturantes, e meu corpo inteiro queria puxá-los pra dentro.

Comecei a rebolar, tentando mais contato. Ele desceu os dedos até meu clitóris e começou a massagear.

Não aguentei.

Apertei as coxas em volta da mão dele e gemi alto, perdida.

— Helê… concentra — ele empurrou minha cabeça de leve. — Olha como ele tá todo babado… engole tudo agora… isso… boa garota.

Afundei até a base, o máximo que consegui. A garganta queimava, mas o prazer era maior. Quando ele voltou a dedilhar meu clitóris, perdi o controle.

Chupei do jeito que sabia que ele não resistia: rápido, profundo, inteiro, a língua deslizando por toda a extensão.

Ele parou de me tocar.

A respiração ficou pesada.

Então senti o primeiro jato quente na boca.

Ele segurou minha cabeça e me afastou por um segundo.

— Porra, assim não… — a voz era puro desespero. — Não aguento… vou gozar… me chupa.

Ele me puxou de volta, firme.

Engoli tudo.

Senti o corpo dele se contrair, os gemidos ficarem mais graves, mais roucos. A mão dele relaxou nos meus cabelos enquanto eu mantinha o ritmo, sem facilitar.

Quando ele finalmente se soltou, subi devagar até a ponta e comecei a sugar, passando a língua ao redor com calma. Ele ofegava, jogado no banco com o peito subindo e descendo rápido.

— Você é tão sem coração comigo… — murmurou. — Dois meses sem você… meu pau tá sensível demais… nem consegui aproveitar.

Me levantei devagar, vendo ele relaxado, satisfeito, completamente entregue.

— Tá reclamando de quê? — provoquei. — Olha o estado que você ficou.

Ele sorriu, cansado.

— Você sempre se supera nos boquetes. Minhas pernas tão bambas.

— Idiota — sorri.

Segurei o pau dele de novo, apertando no ponto que eu sabia que o deixava louco, deslizei o dedo para cima. Um pouco mais de gozo escapou. Passei a língua, limpando tudo, não vou deixar nenhuma gota.

— Adoro quando você não desperdiça nada — ele murmurou, a voz carregada de tesão.

Me ajeitei no banco, percebendo que estávamos parados na mata ao lado da estrada.

— Sem segundo round? — ele falou de um jeito sofrido.

— Você tá morto, Monteiro.

— Só um minuto de respiração — ele respondeu, com um sorriso torto. — Agora que a gente voltou a se pegar direito… vou virar aquele touro que aguenta muito mais.

Sorri devagar.

— Vou esperar ansiosa.

— Vai esperar pulando no meu pau — ele respondeu.

Ele levou a mão até meu rosto, acariciando com aquele olhar malicioso que eu conheço bem.

— Deixa eu ver? — perguntou, com a maior cara de safado.

— Ver o quê? — arqueei a sobrancelha, desconfiada.

— A boquinha… me mostra que engoliu tudinho?

Sorri de lado. Tão idiota. Mas tão meu. Ele passou o dedão nos meus lábios, devagar.

— Abre vai…

O problema de estar perdidamente apaixonada por alguém é que a gente topa cada coisa. Suspirei e abri a boca. Ele inclinou o rosto, atento.

— Isso… agora põe a língua pra fora. Deixa eu checar.

Revirei os olhos, mas fiz. O sorriso de satisfação dele era tão bobo que me arrancou uma risada. Ele se inclinou e começou a me beijar — e que beijo. Aquela mistura deliciosa de mordida, língua e desejo. Meu corpo arrepiou inteiro. A mão dele desceu até o meu peito por dentro da camisa e apertou de leve. Soltei um gemido na boca dele. Em troca, levei a mão até o pau dele, já duro de novo. Comecei a masturbar durante o beijo, e ele gemeu rouco. Era só o início de mais um round — até que ouvimos o som de uma sirene.

Congelei.

— Mas que merda! — ele murmurou, apressando-se em enfiar o membro de volta na cueca e fechar a calça. Também ajeitei minha roupa rapidamente, limpando o canto da boca com a manga da camisa dele.

Dois policiais desceram da viatura e vieram direto para o lado do Heitor. Ele abaixou o vidro.

— Boa noite, senhores — disse com um sorriso largo e aquele tom profissional que ele usava quando queria convencer o mundo de que era um santo.

— Boa noite — falei, sem graça, me sentindo uma adolescente pega no flagra.

O policial mais próximo acenou com a cabeça.

— Boa noite. Algum problema com o veículo?

— Nada. Paramos só um pouco. Tá tudo certo — Heitor respondeu, calmo como sempre.

A lanterna passou pelo banco de trás, pelo console, por nós dois. Parou no rosto dele.

— Documento do veículo e habilitação, por favor.

Heitor pegou o celular.

— Estão no app. CNH digital.

Mostrou com naturalidade. O outro policial se aproximou.

— E a senhora?

— É minha noiva — ele respondeu antes que eu abrisse a boca. — Estamos voltando pra casa.

— E o motivo da parada aqui?

— Cãibra — Heitor respondeu, mentindo na maior cara de pau. — Preferi encostar um pouco. Já passou.

Engoli seco.

O policial nos observou mais um segundo.

— Entendo. Essa estrada é monitorada. Área residencial. Qualquer veículo parado chama atenção.

A lanterna fez mais um tour pelo carro, como se fosse um aviso silencioso: “tô vendo tudo”.

— O senhor pode seguir. Mas evitem parar por aqui. Procurem um lugar iluminado, seguro.

— Pode deixar. Obrigado.

A viatura ainda ficou parada mais alguns segundos enquanto voltávamos à estrada. Só quando ganhamos distância respirei.

— Ufa. Se eles tivessem chegado um pouquinho depois…

— A gente era detido — completei. — Olha só onde você foi parar esse carro, Monteiro!

— Eu? — Ele riu. — Você que…

Ele parou no meio da frase, riu baixinho, e então mudou de assunto.

— Toda vez que vejo um policial, penso no seu pai. Eu estaria ferrado com ele.

Arregalei os olhos, surpresa.

— Vi a foto dele na casa da sua avó. O homem era enorme.

Assenti. É verdade. Meu pai era policial. Nunca o conheci. Ele tirou a própria vida antes de eu nascer. Tudo que sei dele são fragmentos de histórias e lembranças emprestadas de outras pessoas. Mas, de alguma forma… eu tenho carinho. Um tipo de afeto curioso, construído sem convivência, só por legado.

Heitor percebeu o silêncio e franziu a testa, cauteloso.

— Desculpa, amor. Eu falei na maior leveza, mas se te incomodou… juro que não foi por mal.

— Não, tá tudo bem. De verdade. Eu não cheguei a conhecê-lo. Só sei o que me contaram… Dizem que ele era rígido, corajoso e muito dedicado. E sim, você com certeza não teria me engravidado tão fácil se ele estivesse por aqui. — brinquei com um sorriso.

— Sorte do Humbertinho que eu sou muito persistente — ele respondeu, rindo.

— Verdade.

— Mas, Helê… acho mesmo que ele teria gostado de mim. Sou um cara bacana. A gente ia se dá bem. Eu ia conquistar ele. Ia agradecer por ter feito você.

— Monteiro, você era meu chefe. Tem dez anos a mais. Como eu ia explicar isso? “Pai, esse aqui é o dono da empresa onde eu trabalho, além disso ele é dez anos mais velho do que eu.” Ele ia te prender.

Heitor fez cara de ofendido.

— Dez anos não é tanto assim. Você tem 30, eu 40. Margem aceitável. E, pra constar, eu era dono do espaço físico, sua empresa era terceirizada.

— Isso não muda nada.

— E além disso, eu fui escoteiro, fiz tiro de guerra, amo futebol, churrasco e carros. Sou completamente apaixonado por você. Que pai não aprovaria isso?

— O meu, talvez.

— Qual era o time dele?

Pensei um pouco.

— Tinha uma moldura do Cruzeiro no antigo quarto dele.

— Então pronto. Ele seria Cruzeiro em Minas, e Fluminense no Rio. Ia ser tricolor comigo. Chamaria ele pra bater uma bolinha com os meus amigos.

Imaginei. Engraçado como Heitor conseguia pintar esses quadros com tanta clareza. Talvez fosse bonito pensar assim, mesmo sem saber. Talvez meu pai gostasse dele. Mas… o meu avô, esse sim teria adorado o Heitor.

— Eu queria levar o Humberto pra conhecer minha cidade natal… visitar o túmulo do meu pai e do meu avô.

Heitor apertou minha mão com carinho.

— E eu? Não quer me levar também?

— Você já é parte do pacote.

— Não, senhora. Quero ser citado. Com título completo: “Heitor, meu noivo, pai do meu filho”.

— Não vou dizer tudo isso.

— Mas deveria. Eu gosto. E, aliás, quero levar você e o Humberto pra conhecer o túmulo da minha avó também. Quero apresentar vocês.

Meu coração derreteu. Sorri.

— Eu queria tanto ter conhecido ela. Tudo que você conta me faz acreditar que a gente ia se dar muito bem.

— Ia mesmo. E o seu avô também teria me adorado. Eu e ele íamos fechar. Futebol e o amor pela neta mais brava do Brasil.

Ri alto.

— Só você mesmo.

Seguimos conversando mais um pouco, até passarmos pela guarita da estrada da nossa mansão. O segurança acenou e Heitor respondeu com um gesto automático.

— E o Humberto? — ele perguntou. — Passou a tarde e a noite sem a gente. Deve estar sentindo falta.

Dei um sorrisinho discreto. Não contei que ele estava com meus sogros e minha avó. Queria fazer uma surpresa.

— Ele deve estar brincando com o seu pai. O Humberto adora ele. Deve estar todo mimado agora por isso não percebeu.

Mas, por dentro, meu peito apertava. Eu sentia tanto a falta do meu pequeno. Do meu mini Heitor.

— Não fica assim, amor — ele murmurou, percebendo meus sentimentos. — A gente já tá chegando.

Estávamos quase em casa. E, com ele ao meu lado, a vida sempre parecia voltar pro lugar certo.

Chegamos em casa. Heitor franziu o cenho assim que fomos nos aproximando e observando a frente da mansão totalmente escura.

— Que estranho… — ele murmurou, diminuindo a velocidade do carro. — Tá tudo apagado. Vou ligar pra segurança. — Esticou a mão em direção ao celular. — Pode ligar pra sua avó também?

Antes que ele desbloqueasse a tela, coloquei a mão sobre a dele.

— Tá tudo bem, amor. — disse suavemente. Ele me olhou, confuso. — Eu que dispensei os funcionários. E seus pais levaram o Humberto e a minha avó pra passar a noite na casa deles.

Esperei só um segundo para ver se ele entendia.

— Somos só eu e você… nessa mansão… até o amanhecer.

O sorriso dele foi surgindo devagar, como se o corpo começasse a entender antes da mente.

— Ah, não, Helê! — Ele deixou o celular de lado e virou o rosto pra mim. — Devia ter me falado que ia fazer essa surpresa maravilhosa!

Revirei os olhos, mas não consegui conter o sorriso.

— Você tava magoado comigo, lembra?

— Já passou. — ele respondeu na hora. — Estamos resolvidos. E o melhor jeito de selar isso é... bem, do jeitinho mais tradicional possível entre um homem e uma mulher.

Típico. Homens parecem estar em outra sintonia. E com o Heitor, então… ele já tinha me dito uma vez: pra ele, toda hora é hora.

Suspirei.

— Heitor… é sério. — olhei bem nos olhos dele. — Não tira mais a sua aliança. Por favor. Se algo acontecer… qualquer coisa… vamos conversar antes. Não vamos permitir que o orgulho fale por nós.

Ele me escutou com atenção, o rosto mais calmo agora, mas o olhar ainda intenso.

— Nós temos uma comunicação boa — continuei. — Não vamos deixar isso se perder. É normal a gente se desentender. Mas o amor tá na forma que a gente resolve. Tá na escolha de continuar.

— Helê… — ele falou meu nome com tanta doçura que me desmontou por dentro. — Eu te juro… se precisar, colo essa aliança no dedo com Super Bonder. Nunca mais tiro. Dou minha palavra.

Falava sério, mas eu conheço aquele brilho nos olhos. A cabeça dele já estava em outro lugar e era embaixo.

— Tô falando sério, Heitor. Isso é importante pra mim.

Ele estacionou o carro dentro da garagem, puxou o freio e se virou pra mim com todo o corpo.

— Você é a mulher da minha vida. Minha noiva. Mãe do meu filho. — Ele disse tudo num fôlego só. — Eu nunca faria nada pra te magoar. E, sim, tirei a aliança achando que você tava com outro cara, e isso me destruiu. Eu não quero ser corno, nunca! Mas, porra, Helê… eu sou assim. Intenso. Grudado. Ciumento. E você, mesmo sendo tão diferente, escolheu se jogar nisso. Você me escolheu. Saiu da sua vida em Minas, do seu conforto, da sua rotina… só pra me amar. Você não faz ideia do quanto isso significa pra mim.

Ele respirou fundo, a voz carregada, olhos azuis fixos nos meus.

— Eu não sou fácil. Você sabe. Mas você ficou. E é por isso que eu sei… que não existe ninguém como você.

Ele ia continuar, eu sentia o loop emocional surgindo.

— Heitor… — segurei a mão dele. — Eu entendi. — sorri com ternura. — Estamos bem.

Ele suspirou. Como se aquele peso finalmente tivesse saído.

— Ótimo. — murmurou, aliviado. Depois levou as mãos aos meus ombros, me puxando de leve pra mais perto. — Helena, eu amo você. Nada nunca vai mudar isso.

Senti meus olhos marejarem, mas sorri.

— Sei disso, Monteiro. Eu também amo você.

Ele inclinou o rosto com aquele sorrisinho cafajeste que me derrete.

— Posso te beijar? Só pra garantir?

— Idiota… — soltei a risada e o puxei pelo colarinho.

Nos beijamos.

Aquele beijo doce, cheio de tudo que a gente já viveu, do que passamos, do que superamos. Quando nossos lábios se afastaram, o ar parecia mais rarefeito.

Ele me olhou com a cara de quem acabou de lembrar o motivo de me amar tanto.

— Vamos?

— Vamos. — respondi, com o coração quente, pronta pra tudo que a noite ainda ia nos reservar.

O lugar parecia outro. Vazio, silencioso… e, ao mesmo tempo, nosso. Me senti como uma adolescente de filme quando os pais viajam e deixam a casa inteira pra ela. Uma liberdade excitante, estranha e deliciosa.

Heitor pegou o celular e ligou as luzes pelo aplicativo. Assim que o ambiente se iluminou, ele abriu os braços como se tivesse ganhado um prêmio.

— Isso! — exclamou empolgado. — Vou te foder em todos os cantos dessa casa hoje!

Revirei os olhos.

— Não seja ridículo, Monteiro. — me aproximei e encostei a mão no braço dele, divertida. — Eu vou começar a fazer a janta. Vai lá tomar um banho enquanto isso.

Ele franziu a testa, claramente desapontado.

— Mas… e o sexo?

— Depois. Você tem que comer. Já tô cansada de ouvir sua barriga reclamando desde que a gente saiu.

— Poxa, Helê… mas se a gente comer, vou ter que fazer o quilo. De barriga cheia é difícil fazer os movimentos. — ele reclamou, daquele jeito dramático que só ele sabia fazer.

— A gente faz o quilo, Monteiro. Não se preocupa. — sorri. — Eu também quero você. Mas hoje eu quero cozinhar pra você. Faz tempo que não prova minha comida.

— Faz tempo que não provo você também — retrucou na mesma hora, num tom mais baixo, me encarando com aquele olhar perigoso.

— A gente resolve isso hoje. — prometi.

— Só não dorme, tá? — ele pediu, todo aflito. — Nada de sono! Proibido essa noite!

Ele tinha razão. Com o Humberto acordando em horários aleatórios, eu tinha pegado o hábito de cochilar sentada no sofá do lado dele. E às vezes nem via o sono me pegar.

— Vou tomar um energético depois, juro. Não vou dormir.

Ele vibrou com os braços no alto, como se tivesse ganhado uma partida.

— Uhuul! A noite vai ser maravilhosa!

E antes de subir, me deu um tapa na bunda que arrancou de mim um “Ai!” alto demais.

Ele só riu e me lançou aquele sorriso que sempre me fazia perder o juízo.

— Já volto, gostosa!

Notas finais
Oii pessoal! O capítulo ficou bem mais extenso que o normal, talvez tenha sido um pouco cansativo. Espero que apesar de tudo, tenham gostado. Agradeço muito pela leitura !