O CEO que Eu Paguei
116 No Passado, Ele Já Tinha Um Futuro
Heitor encostou-se na mureta lateral da varanda, a brisa da noite carioca aliviando o calor do corpo e da alma. O celular ainda tremia em sua mão — o rosto de Helena ainda vívido, mesmo com a chamada encerrada. Ele passou a mão pelos cabelos, tentando controlar o sorriso idiota que se formava sempre que ela falava alguma besteira. A saudade corroía o peito. E o resto do corpo… ainda reagia.
Sua calça ainda carregava o volume do desejo não saciado. Ele soltou o zíper devagar, tentando se recompor — e foi nesse exato instante que uma voz feminina surgiu atrás dele:
— Bonita a vista daqui — disse Marcela, com a voz arrastada, como se estivesse vendo mais do que só a paisagem. Os saltos dela pararam a poucos passos de onde ele estava.
Heitor quase teve um mini infarto. Virou o rosto com um palavrão na boca:
— Porra, Marcela. Tá maluca? Chegar assim?
— Achei que você estivesse sozinho. — Ela disse, com um sorriso de canto. — Ou... quase.
O olhar dela caiu sobre a calça dele, e mesmo sem dizer mais nada, o ar de malícia ficou evidente.
— Relaxa. Já tava acabando. Mas confesso que murchou só de ver tua cara.
Ela riu, surpresa com a grosseria. Mas tentou manter a pose:
— Você não era assim comigo…
— As coisas mudam.
— Essa casa também é minha, lembra? — Ela se aproximou mais, cruzando os braços. — E essa varanda... bom, nem sempre foi só sua. Lembra daquela vez, foi ali mesmo que você me pressionou na parede e subiu o meu vestido?
Heitor ajeitava as calças, visivelmente desinteressado.
— Lembro. Lembro que a gente transava quando dava vontade. Só isso.
— Você não voltou para a festa, achei que estivesse passando mal... — ela disse, com a voz polida. Mas o olhar dizia mais.
Heitor deu uma risada baixa. Aquela risada dele que vinha com o peso de quem já viu muito e não se impressiona mais com nada.
— Preocupada? Não precisa. Tô ótimo.
— Percebi. — ela rebateu, olhando para a calça dele como quem queria provocar. — Imagino com quem.
Heitor nem reagiu. Só a encarou. Um olhar reto, direto. De homem para mulher. Não mais de ex para ex.
— Se você veio até aqui pra falar dela... pensa bem no tom que vai usar. E se você tentar desrespeitar ela, nem essa sua pose nem seu sobrenome vão te proteger do que eu sou capaz de dizer.
Marcela vacilou por um segundo, mas segurou o impulso. Não era tola. O tom dele não era de ameaça vazia. Era firmeza.
— Não vim brigar. Só… conversar. Pelo que fomos. Por respeito.
Heitor apoiou as mãos no parapeito. Respirou fundo. E assentiu com a cabeça.
— Fala.
Marcela respirou. E por um instante, ela não era mais a mulher da alta sociedade, das festas e do sobrenome forte. Era só uma mulher que não foi escolhida.
— A gente teve história, Heitor. Eu te conheci como ninguém. Você se abria comigo. Me escrevia à noite. Me puxava pela cintura sem motivo. Me olhava como se eu fosse o mundo.
Heitor não negou. Ele não era covarde com o passado.
— É. Eu olhava. — ele disse. — Mas não era amor, Marcela. Eu queria acreditar que era. Porque você era tudo certo. Bonita. Educada. Inteligente. A mulher que minha mãe sempre sonhou pra mim.
— E você não?
— Eu não sabia o que sonhava naquela época. Eu só... obedecia.
Ela se calou. E ele continuou.
— Sabe quando eu percebi que nunca seria amor? Quando te ouvi dizendo que não me amava. Que só queria se casar comigo porque eu era o Monteiro.
Marcela baixou os olhos. E então ergueu o queixo com orgulho ferido.
— Aquilo foi uma fraqueza. Mas você também me usava.
— Eu não nego. A gente se usava. A gente se fazia companhia. A cama era boa. O resto era aparência. E você sabe disso.
— Você me chamava de “minha”. Me escrevia poemas, Heitor...
Ele sorriu, com pesar.
— Eu me esforço pra ser bom com quem divide o tempo comigo. Mas... nunca chamei você como eu chamo ela. Nunca olhei pra você e quis te proteger do mundo. Nunca perdi o sono imaginando o que te fazia feliz. — Ele parou, o olhar brilhando. — Com a Helena… é diferente. É visceral. É alma antes do corpo.
Marcela fechou os olhos por um segundo. A dor em seu rosto era real. Mas não era de amor perdido — era de não ter sido suficiente.
— Você não precisa me humilhar.
— Não tô te humilhando. Tô te libertando. Você merece alguém que veja você com verdade, não com conveniência. E eu também mereço isso.
Silêncio. Então, ela tentou de novo:
— E se não der certo com ela?
Heitor a encarou.
— Eu não penso nisso. Porque desde o dia que ela entrou na minha vida, tudo que era “talvez” virou certeza. — Ele tocou a aliança no dedo. — Eu sou dela. E pior... sou dela desde antes de conhecer ela. Eu só não sabia.
Marcela deixou escapar uma risada abafada. Mas os olhos estavam marejados.
— Então é isso? A mulher que te virou do avesso?
— É. A mulher que me viu como ninguém. E me quis mesmo assim.
Marcela engoliu seco. E tentou, mais uma vez:
— Você ainda é o Heitor que me pressionou naquela parede, subiu meu vestido e falou que me queria todos os dias?
Ele sorriu, mas não havia mais doçura ali. Era só clareza.
— Aquele Heitor… era só um eco. O homem que te puxava, procurava, mandava mensagem… não tava inteiro em nada. Agora eu tô. E isso tem nome. Helena.
Marcela olhou para o chão, engolindo tudo que ficou preso na garganta. Depois levantou o rosto.
— Ela tem sorte.
— Eu que tenho sorte. — ele corrigiu, suave. — Ela é o meu inferno e meu céu, às vezes no mesmo minuto. Mas é minha.
E virou-se para ir.
— Heitor... — ela chamou. Ele parou.
— Não vou tentar mais. Prometo. Mas obrigada por não ter mentido.
Ele assentiu. Olhou nos olhos dela uma última vez.
— Obrigado você. Por tudo. Mas agora… segue em paz. Porque eu já encontrei a minha.
Heitor já se afastava, mas a voz de Marcela o chamou uma última vez, mais baixa:
— Heitor… será que algum dia… a gente pode ser amigo?
Ele parou.
Virou devagar. O rosto sério. Não havia raiva. Nem rancor. Mas também não havia espaço para esperança.
— Não. — disse com firmeza, mas sem agressividade.
Marcela pareceu murchar um pouco. Ele deu um passo à frente, sem se aproximar demais.
— Eu tenho muito respeito pelo que a gente viveu. De verdade. Mas eu não quero que a Helena duvide nem por um segundo que eu sou inteiro dela. E... amizade entre ex, nesse caso, não é honestidade. É ponto mal encerrado.
Ela respirou fundo. A dor era evidente nos olhos dela — mas também a aceitação.
— Você realmente a ama, né?
Heitor não hesitou.
— Com tudo que eu sou.
Marcela deu um sorriso triste. Um daqueles que não alcançam os olhos.
— Eu queria que tivesse sido comigo. Que tivesse sido a minha história com você.
Ele olhou para ela. Havia tristeza também nos olhos dele — não por ela, mas pelo tempo que não volta.
— Eu também quis que fosse. Na época. Tentei fazer caber... mas tudo isso aqui — ele tocou o peito, com a aliança no dedo — sempre foi dela. Só esperei ela aparecer pra descobrir.
Marcela assentiu, os olhos marejando. Ela engoliu em seco antes de dizer, num tom mais calmo:
— Não sou má pessoa, Heitor.
— Eu sei que não. — ele respondeu, sincero. — Você vai encontrar alguém que combine com você. Que admire o que você é. Que queira construir com você e por você. Não pelo sobrenome.
Marcela desviou o olhar, lutando para manter a compostura. Depois soltou um riso sem graça:
— Isso dói, sabia?
— Eu sei. — ele disse. — Dói crescer. Mas a gente sobrevive.
Por fim, ela ajeitou os ombros, mantendo o orgulho mesmo ferido.
— Um dia... talvez... eu gostaria de conhecer a Helena. A mulher que fez você... enfrentar tudo isso. — os olhos dela passearam pela casa, pelos convidados, pelos ecos da elite — ...por ela.
Heitor deu um riso baixo, desviando o olhar como quem tenta disfarçar o embaraço.
— A Helena é... uma força. Não tem como não ver. Mas imaginar vocês duas juntas... — ele balançou a cabeça. — Sinceramente? Me dá calafrio.
Marcela sorriu de leve.
— Boa sorte, Heitor.
— Não é sorte. — ele respondeu, com a segurança de quem sabe o que tem. — É escolha. E eu já fiz a minha.
Ele se virou. Dessa vez não houve chamada. Nem outro “espera”. E ele também não olhou para trás.
Porque quem ama de verdade… não deixa dúvida.
E Heitor Monteiro era inteiro dela. E só dela.
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