O CEO que Eu Paguei
117 Legado e Sangue
Heitor lavou as mãos na pia de mármore negro do lavabo social da mansão dos Monteiro, esfregando os dedos com mais força do que precisava. Sentia o cheiro do sabonete caro, a água morna deslizando, mas sua mente já estava longe dali. Leve. Limpo. Livre.
Marcela era passado.
Helena é presente. E futuro.
Ele ergueu os olhos para o espelho, secou as mãos com a toalha impecavelmente dobrada e saiu com passos decididos, o maxilar relaxado.
Assim que abriu a porta, o som abafado da festa o alcançou de novo — risos finos, taças tilintando, vozes conhecidas. Mas não deu dois passos no corredor de mármore que levava de volta ao salão principal antes de encontrar Jonas, parado ao lado de um aparador com vasos ornamentais de vidro veneziano.
— Aí, sumido. — Heitor disse com um meio sorriso, se aproximando. — Tava se escondendo de mim?
Jonas se virou, riu um pouco sem graça, mas sua expressão estava... estranha.
— Tu que sumiu, né, chefia? Tava por onde?
Heitor estreitou levemente os olhos e levantou uma sobrancelha.
— Lavando a mão de uma porra que tu não querer saber. — respondeu num tom leve e debochado, tentando quebrar o clima.
Jonas riu, mas desviou os olhos.
Heitor percebeu. O desconforto. O milésimo de segundo de hesitação.
Ele cruzou os braços.
— Que foi?
— Que foi o quê?
— Tu olhou pra mim como se eu tivesse voltado com um tiro no peito. — Heitor falou num tom mais baixo, direto. — Tá estranho. Tu tá estranho. O que aconteceu?
Jonas passou a mão no cabelo ondulado, suspirou.
— Tô de boa, irmão. Só… cabeça cheia. Uns rolos com o banco, reunião do congresso com meu pai, essas p0rras… Nada demais.
Heitor não respondeu de imediato. Só observou.
Ele conhecia Jonas desde garoto. Sabia quando ele tava tentando parecer normal. Sabia também quando tava escondendo coisa.
E agora ele tava escondendo coisa.
— Fala. — Heitor disse, sério. — Não vem com essa de “cabeça cheia”. Quando tu tá com a cabeça cheia tu liga e fala. Tu enche meu saco até eu resolver o problema pra tu. E agora não consegue nem me olhar direito.
Jonas riu, sem graça.
— Tá exagerando.
— Tô porra nenhuma. — Heitor respondeu com firmeza. Deu um passo mais perto. — Que merda tá acontecendo, Jonas?
Jonas abriu a boca, mas fechou logo em seguida. Olhou para o chão, depois para a parede.
— Não agora, tá? — murmurou. — Só... não é a hora. Tu tá voltando agora, reencontrando sua mãe, seu pai, o escambau... deixa eu me alinhar primeiro.
Heitor manteve o olhar nele. Firme. O silêncio entre os dois ficou mais denso que o ar abafado do corredor.
— Tu sabe que eu não gosto de coisa mal contada. — disse, num tom mais baixo.
Jonas respirou fundo, assentiu devagar.
— Eu sei. E por isso mesmo eu vou te falar. Só não agora. Me dá esse tempo.
Heitor não gostou. Mas respeitou.
Ele estalou a língua, descruzou os braços e deu um tapa leve no ombro do Jonas.
— Tá. Mas se tu demorar, eu vou arrancar isso na porrada. E vou usar minha aliança pra marcar.
Jonas riu, aliviado.
— Te amo também, seu desgraçado.
— Cala a boca. — Heitor respondeu, o tom voltando ao sarcasmo leve. — Bora voltar praquele zoológico lá dentro antes que minha mãe ache que eu sumi com alguma hostess.
Enquanto os dois seguiram pelo corredor, Heitor não demonstrava mais nada. Mas dentro dele, o desconforto seguia batendo como um tambor mudo.
Jonas sabia de alguma coisa. E aquilo envolvia ele.
Ou pior… Helena.
O som do tilintar de taças se confundia com risadas forçadas e cumprimentos rebuscados. A elite carioca estava no seu habitat natural: perfume caro demais, postura impecável, e uma leve disputa por quem parecia mais próximo da família Monteiro.
Heitor e Jonas estavam junto ao aparador lateral, terminando um gole de uísque quando um dos seguranças se curvou discretamente junto à entrada principal. Não foi preciso anunciar.
— Fodeu. — Heitor sussurrou, tentando se virar para o lado oposto.
Jonas olhou na direção indicada, e o salão pareceu se calar por um segundo.
Afonso Monteiro havia chegado.
Vestindo um terno cinza escuro sob medida, gravata vermelha e um bastão de madeira com entalhes antigos, Afonso atravessou o saguão da mansão como quem marchava para a guerra. O rosto vincado de idade carregava a expressão habitual: impaciência. Seus olhos de um azul desbotado não se demoravam em rosto algum por mais de um segundo.
Várias pessoas se apressaram em cumprimentá-lo. Ele não apertava mãos. Acenava com a cabeça, seco. Quando falava, era para cortar:
— Mais magro, Alencar. Parece doente.
— Maria Lúcia, ainda com essa boca torta de botox?
— Otávio, você não trabalha, não? Que faz aqui numa quarta-feira?
Jonas tentou disfarçar o riso. Heitor, porém, já olhava discretamente para o fundo do salão.
— Nem pensa. — disse Jonas, baixinho. — Ele já te viu.
E tinha mesmo.
— HEITOR.
O nome do neto ecoou com peso.
Heitor fechou os olhos um segundo e soltou o ar com controle.
— Lá vamos nós.
Se virou e foi até ele, sem pressa, mas com a postura ereta.
Afonso não sorriu. Seu olhar avaliou o neto da cabeça aos pés.
— Veio vestido tão desleixado.
— Boa noite pro senhor também, vovô.
— Economizou no cinto? Tô vendo mais tecido do que precisaria.
Heitor sorriu de lado. Sabia jogar.
— O senhor ainda tem bom olho.
Afonso bufou.
— Pelo menos tem cara de homem. Diferente desse bando de almofadinhas que a gente sustenta.
Heitor percebeu o leve gesto que o avô fez com a cabeça: queria conversar.
— Vamos dar uma volta. — Afonso disse, virando sem esperar resposta.
Jonas deu um tapa leve nas costas de Heitor quando ele passou.
— Se ele te bater com o bastão, grita alto.
Heitor riu.
— Se eu voltar sem um rim, joga minhas cinzas em Ipanema.
Jonas soltou o comentário com aquele riso que sempre usava para disfarçar tensão:
— Seu avô parece mais forte do que nunca… sangue puro de escorpião, né?
Antes que Heitor pudesse responder, Afonso surgiu mais perto do que se esperava, apoiado na bengala como se ela fizesse parte do próprio corpo. Sem aviso, desferiu uma bengalada certeira na batata da perna de Jonas, que se encolheu com um palavrão contido.
— Projetinho de neto de merda — rosnou Afonso, encarando Jonas como se o desrespeito tivesse sido calculado. — Fala da minha idade de novo e eu troco essa bengala por um cabo de vassoura nas suas costas. E sem misericórdia.
Jonas abaixou a cabeça, sem graça, massageando discretamente a perna. Heitor segurou um sorriso, mas seus olhos buscaram os de Jonas — havia algo ali. Um incômodo. Algo mais que vergonha pela bengalada. Eles trocaram um olhar rápido, e Heitor entendeu. Jonas estava esquisito. De novo. Mas aquilo ficaria para depois.
— Comigo, Heitor. — Afonso não pediu. Ordenou.
Heitor o acompanhou em silêncio, ouvindo o som cadenciado da bengala batendo no chão de mármore da mansão. Os dois atravessaram o salão, ignorando convidados, garçons e sorrisos falsos. Entraram numa sala menor, mais sóbria, com estantes embutidas, sofá de couro e duas poltronas pesadas herdadas sabe-se lá de qual geração.
Afonso se sentou com um resmungo, como se a idade pesasse só naquele momento. Fez um gesto brusco com a cabeça para que Heitor se sentasse também. O herdeiro obedeceu, ajeitando as mangas da camisa vinho escuro com calma, mas atento.
— Dez meses pra conhecer meia dúzia de prédio? — a voz do avô soou como uma navalha desafiando a couraça de Heitor. — É isso que virou um Monteiro?
— Foi uma experiência valiosa. Conhecer cada operação, de dentro, falando com cada responsável, ouvindo — Heitor mantinha a postura. Sabia que Afonso não aceitava justificativas. Mas também sabia que precisava se colocar.
— Valiosa? — Afonso grunhiu. — A lição era simples: ir, ver, aprender. Três meses no máximo. Dez é pra vagabundo.
Heitor firmou a mandíbula.
— Eu aprendi. E fui bem recebido em todos os lugares. Inclusive pelo Gaspar na filial do interior.
Afonso levantou o olhar — pela primeira vez, sem desprezo. Mas havia algo mais ali. Algo mais velho do que ele mesmo.
— Gaspar... — repetiu, como se o nome tivesse gosto na boca. — Esse nome me lembra da minha filial favorita. O único lugar que ainda tem cheiro de barro depois da chuva. O café da varanda do Hotel do Centro. O pãozinho de queijo daquela vendinha na esquina que já fechou. A vista do alto da torre da matriz. E as janelas da sede… — ele silenciou por um segundo. — Sabe o que era aquela sede, antes de virar nossa?
Heitor meneou a cabeça, respeitoso.
— Escola pública. Abandonada. Eu comprei com o coração, não com os olhos de empresário. E transformei em uma das nossas primeiras bases fora das capitais. Aquilo é meu sangue.
Heitor tentou se conectar ao tom:
— Eu entendo, e por isso levei o tempo que levei ali. Para realmente conhecer. As pessoas são diferentes. Mais simples, mas comprometidas.
— Simples demais pra você, talvez. — Afonso cortou como uma faca. — Lá não se aprende a dominar, se aprende a escutar. E você… ainda não aprendeu o que escutar significa.
Heitor respirou fundo, tentando manter o respeito sem abaixar tanto a cabeça.
— Eu conheci pessoas ali que me ensinaram mais do que qualquer CEO. Gente que trabalha com vontade, que cuida dos próprios.
Afonso estreitou os olhos. Não falou nada de imediato. Mas a mudança em seu olhar dizia tudo: ele entendeu. Havia alguém específico. E ele não precisava perguntar quem.
Mas não ia deixar barato.
— Você se esqueceu que nasceu com as costas retas pra não ter que se curvar por afeto, Heitor. Essa geração molenga se apaixona por qualquer coisa que sorria e cheire a shampoo caro. Mas a gente... — ele bateu de leve com a bengala no próprio joelho — a gente não nasceu pra amar. A gente nasceu pra sustentar o que ama.
Heitor o olhou por um instante. Em silêncio. Depois falou com firmeza:
— E é isso que eu tô fazendo, vô.
O silêncio que se seguiu foi quase respeitoso. Afonso ajeitou a bengala. Olhou para o neto com o canto dos olhos.
A bengala descansava encostada no braço da poltrona como uma extensão natural do corpo de Afonso Monteiro. Ele ajeitou o corpo magro, os ossos sob a camisa impecável marcando a estrutura reta que o tempo não curvou. Os olhos — um cinza azulado que lembrava mar de ressaca — estavam cravados em Heitor como se pudessem ler os recônditos da alma do neto. Heitor segurava o olhar, mas havia algo nele — um certo peso no peito, quase imperceptível — que sempre surgia quando ficava sozinho com o avô.
Afonso o observou em silêncio por longos segundos antes de soltar, com sua voz rouca:
— Você tá velho.
Heitor arqueou a sobrancelha, o canto da boca repuxando num sorriso respeitoso.
— Cinquenta e cinco? Sessenta?
— Trinta e nove.
— Isso. Velho.
Heitor respirou fundo, sabendo que viria mais.
— Já devia ter feito uns dez moleques pra garantir. Tua avó queria uma casa cheia. Eu fui burro. Dei só dois. Um morreu de meningite, tua tia. Mas você… — ele riu seco — você fica viajando por aí, apaixonadinho por número de auditoria.
— Eu tô muito bem pra idade, vô.
— Tão bem que me aparece aqui de tênis — respondeu com desdém. — Tem que ser homem… homem que deixa legado. E até agora você só deixou relatório, Heitor.
A língua afiada do velho acertava onde queria. E Heitor, mesmo com o sangue quente que herdara dele, aprendia a conter.
— A auditoria foi um sucesso. Em todas as filiais. A margem líquida subiu em seis das nove unidades. Identificamos onde estavam os gargalos e corrigimos, com plano de sustentação de doze meses.
Afonso soltou um "tch" de desprezo.
— Isso é o mínimo. Você acha que eu levantei a Monteiro pra você me trazer porcentagem de lucro? Eu quero permanência. Eu quero sangue. Quero história. Quando eu morrer, quero saber que o nome vai seguir. E não com um bastardo qualquer. Nem com mulher que quer o sobrenome Monteiro só pra aparecer na p0rra da revista de fim de ano.
Heitor engoliu a raiva. Ela subia como ferro quente, mas ele sabia que não valia a pena. Falou baixo, firme, com um respeito que não apagava o incômodo:
— Eu sei o peso que uma criança carrega, vô. E é por isso que agora… agora eu tenho certeza. Encontrei a mulher certa.
Por um momento, Afonso parou. Os olhos vasculharam Heitor com a precisão de um caçador. E só então notaram o brilho discreto da aliança no dedo.
Silêncio.
Afonso estendeu a mão trêmula — não para tocá-lo, mas para apontar com o queixo:
— Isso aí?
— Isso.
Afonso encostou as costas na poltrona e soltou o ar como se engolisse alguma emoção que não admitiria nem diante da morte. Mas a próxima frase veio como um murro no estômago:
— Espero que tu não tenha trocado o império que eu construí por um b0quete bem-feito.
Antes que Heitor pudesse responder, a porta se abriu.
— Com licença. — A voz de Celina soou melódica demais para aquele ambiente carregado.
Renato veio atrás, como um ministro em comitiva. Os dois pararam ao ver Afonso sentado, as sobrancelhas franzidas, os olhos cerrados.
— A festa… os convidados perguntaram do senhor. — disse Renato, como quem escolhe as palavras com pinça.
Afonso bateu a bengala no chão com força.
— E vocês acham que podem entrar aqui no meio da minha conversa como dois adolescentes entrando no quarto dos pais? A porra da etiqueta morreu junto com o bom senso?
Renato fechou os lábios. Celina, experiente, manteve o sorriso social, mesmo com o rubor subindo na pele branca e fina.
Afonso se levantou com dificuldade, mas sozinho. A bengala bateu firme no chão e ele olhou para Heitor por cima do ombro, deixando a última frase pairar no ar como um testamento:
— Vamos ver se você é Monteiro até o fim… ou só mais um nome bonito na folha de pagamento.
E então passou pelos dois, saindo como entrou: com o peso de quem moldou a história de uma dinastia — e cobra o preço com juros compostos.
Heitor permaneceu sentado por mais alguns segundos, encarando o ponto onde o avô estivera. O ar parecia mais leve agora, mas a pressão continuava ali, viva.
Ele soltou um suspiro contido, olhou para a porta… e pensou em Helena.
Helena, com as sardas espalhadas e os olhos castanhos mais bonitos que ele já viu. Aquela mulher valia tudo.
Até aguentar Afonso Monteiro.
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