O CEO que Eu Paguei

6 Nada Além de Uma Coincidência


O prédio da Monteiro Inc. parecia brilhar mais naquela manhã. As janelas espelhadas refletiam o céu limpo, e o ar carregava aquela tensão silenciosa típica de dias importantes. Helena subiu os últimos degraus da entrada com passos firmes, os olhos escondidos atrás dos óculos escuros e o maxilar tenso. A moto estava no mecânico, então veio de Uber — o que a obrigava a atravessar o estacionamento enorme com a cabeça erguida e a paciência curta.

Estava impecável. Calça de alfaiataria preta, salto fino que realçava sua postura, uma blusa branca com o logo da Plano & Forma — a terceirizada para a qual trabalhava — e um blazer marrom ajustado. Usava um batom vermelho suave e um lápis nos olhos — só o necessário para parecer profissional. O cabelo preto volumoso, como sempre, fazia o que queria: rebelde entre ondas longas e cachos que nunca se completavam, era a única coisa que ela jamais conseguia controlar na vida. E estava justo na sua cabeça.

Não usava crachá da Monteiro Inc. Mas amava trabalhar ali.

A sala onde Helena atuava ficava em um setor separado, mas ainda dentro do prédio luxuoso da Monteiro Inc. O ambiente era sofisticado, com cadeiras ergonômicas, quatro telas por estação de trabalho e iluminação impecável. Tudo o que uma empresa de cidade grande teria, mas ali — no interior, onde nem shopping existia — aquilo era quase surreal.

Helena era analista de Gestão de Riscos e fazia parte da equipe de nove pessoas que compunham aquela terceirizada. A maioria era composta por mulheres. O normal era irem trabalhar com roupas simples, às vezes até calça jeans e camiseta. Mas hoje era exceção.

Clara, a supervisora, tinha mandado todo mundo se arrumar como se fossem encontrar um príncipe.

No corredor, só se falava do mesmo assunto:

— O diretor geral tá vindo!

— Hoje é o dia dele aparecer. É a primeira vez dele na filial.

— Dizem que ele nunca nem pisou aqui.

— Nem sei o que esperar do Doutor Heitor.

Helena ouviu o nome “Heitor” e sorriu de canto, sem querer. Um sorriso curto, bonito. Que coincidência. Justo o nome do homem com quem quase transou no hotel no dia anterior. Coincidência… ou um recado do destino para não esquecer daquele momento?

Não seja ridícula, pensou, e imediatamente fechou a cara, voltando à sua pose habitual.

Aquilo foi uma exceção.

Um erro controlado.

Entrou na sala com expressão fechada. Cumprimentou com um aceno rápido, foi direto ao fundo e se sentou. Puxou da bolsa os óculos de leitura para telas e os colocou no rosto. Estava oficialmente de volta ao seu papel: Helena Ribeiro Campos, analista eficiente, centrada, prática.

Aquela mulher da noite passada? Não existia mais. Foi só uma exceção em um momento de fraqueza hormonal. Adeus, Camila F.

As conversas não paravam. Todos estavam animados, fazendo piada, rindo como se estivessem em um episódio especial de comédia corporativa.

— Tá todo mundo tão arrumadinho que parece até reunião de condomínio de elite — comentou Júlia, sempre debochada.

— O Hugo, inclusive, veio com gel no cabelo hoje — disse Ana Alice, cruzando as pernas e ajeitando o decote.

— E você, veio com a saia dois dedos acima do aceitável pra ver se arruma um marido rico? — retrucou Júlia sem nem piscar.

— Talvez. Vai que ele se apaixona e me leva embora daqui — Ana Alice respondeu com um sorrisinho afetado. — Diferente de certas pessoas que vêm vestidas de mulher de sucesso e continuam solteiras.

— É que tem gente que prefere ser respeitada, não só olhada — devolveu Helena, sem levantar o olhar da tela.

— Ui, começou cedo hoje — Ana Alice resmungou. — Nem dei bom dia e já levei coice.

— Ih, gente, se a Helena tá mais azeda que o normal, o negócio é sério — disse Júlia.

— TPM ou mágoa de amor? — provocou Hugo, piscando pra Helena.

— Nenhum dos dois. Tô só cercada de gente barulhenta — respondeu ela, com o tom ranzinza de quem não tem paciência pra rodeios.

Clara, que terminava de tomar água na garrafinha, entrou na conversa:

— Aposto que esse homem nem vem aqui pra nada. Só pra tirar foto com algum gerente e sumir. Nunca entrou em nenhuma reunião. Nunca deu uma palavra.

— Isso é um “não quero opinar” com cara de “tô pensando em coisa pior” — murmurou Hugo, com aquele sorriso de provocação. — Lêlê, o que cê acha?

Helena largou a caneta na mesa com um estalo.

— Acho que deve ser do tipo que acorda às cinco da manhã pra correr, mas não sabe pegar no volante sem buzinar em cada esquina. Usa terno só pra mostrar que malha. Perfume forte. Desse que entra no nariz e fica grudado por dois dias. A barba é daquelas esculpidas demais. E o cabelo com gel igual o Ken da Barbie.

— Gente! — Júlia riu alto. — Ela tá descrevendo um vilão de novela turca!

— Ai, fala mais! — Hugo estava animadíssimo. — Tô adorando o hate gratuito.

— E aposto que é do tipo que trata mulher igual planta: água de vez em quando, e de longe. Nunca olha no olho. E quando olha, parece que tá vendo um relatório.

— Misericórdia — Clara riu. — O cara nem chegou e já tá cancelado.

— Tá, mas e fisicamente, Helena? — insistiu Hugo. — Aposta aí!

Ela cruzou os braços, impaciente.

— Deve ser branco pálido, alto e seco que nem galho. Cabelo castanho escuro lambido pro lado. Sobrancelha que parece desenhada com régua. E deve usar aquelas calças que mostram a meia quando senta.

— Que horror! — Júlia ria alto. — Você tem certeza que não viu uma prévia dele escondido?

— Tenho certeza que não quero ver.

— Certeza que você não tá com recalque porque ele é rico e vai ser o seu chefe indireto? — cutucou Ana Alice, venenosa.

— Ele não é meu chefe, minha chefe é a Clara. E não confio em homem que nunca aparece, mas quer assinar tudo. Esse tipo é o que finge que manda — respondeu Helena seca.

E então completou, mordaz:

— Aliás, foi por causa desse “diretor decorativo” que eu fui incomodada no meio da minha folga de ontem. Imagina se esse evento corporativo tivesse sido cancelado? Eu podia ter feito várias coisas. Ou melhor… dormido.

— Opa! — Hugo deu risada. — Isso foi pessoal.

Helena apenas bufou, mexendo nos papéis com irritação. O humor estava péssimo. Talvez fosse TPM. Talvez fosse o fato de que ela queria, mais do que tudo naquele momento… voltar.

Voltar pro quarto abafado de ontem. Pro calor das mãos grandes. Pro beijo que tirou o ar. Pro homem que a fez sorrir sem precisar de uma palavra doce.

Heitor.

Droga.

Que inferno.

Ela apertou os olhos, como se isso fosse apagar a memória do toque dele em sua pele. Mas não adiantava.

O mundo podia estar girando ao redor da Monteiro Inc. naquele dia.

Mas dentro dela, tudo o que girava… era a lembrança daquele corpo entre as pernas — e o gosto dele ainda quente na boca da memória.