O CEO que Eu Paguei
7 Camila, o nome que grudou
Heitor estava puto.
Após 5 horas dirigindo de BH até aquela cidade por aquelas estradas horrorosas de Minas Gerais. Ele resolveu sair discretamente no dia anterior, sem carro chique, e sem crachá no peito. Só queria respirar um pouco. Tomar um café fora da empresa, fingir que era um turista qualquer naquela cidade perdida no interior de Minas.
Mas não.
Ele foi reconhecido.
Por uma mulher maluca. E gostosa. Que sabia exatamente quem ele era.
Camila — ou pelo menos era isso que dizia a assinatura “Camila F.” no cadastro do hotel. A mulher que o abordou do nada, arrastou ele pro quarto como se fosse a coisa mais normal do mundo, quase o matou de tesão… e saiu no meio, depois de deixá-lo com o pau latejando e algumas notinhas gastas de dinheiro em cima da cômoda.
Desde então, Heitor dirigia devagar.
Mais devagar do que devia.
O rádio tocava qualquer coisa que ele não ouvia, porque seus olhos estavam atentos às calçadas.
Vai que ela aparecia. Vai que o universo tinha senso de humor.
Ela era a mulata mais linda que ele já tinha visto. E olha que ele já tinha visto muita mulher até aquela altura da vida.
Cabelos castanhos escuros até a altura do busto, sobrancelha cheia e natural, como se tivesse sido colocada por anjos. Tinha um ar arrogante, como quem sabia que estava sempre certa — e isso só deixava tudo pior. Ou melhor. Dependia da parte do corpo dele que você perguntasse.
A boca... puta que pariu, aquela boca carnuda era pecado com batom.
Ele só conseguia lembrar do gosto dela e imaginar que caberia gostoso o pau dele.
Os quadris largos, os seios pequenos— do tamanho exato pra caber na boca dele, direitinho. Uma pena que ele nem teve a chance de tentar. Mas, ele ainda lembrava de todas as pintinhas que decoravam o corpo dela. A raba enorme redondinha e durinha, algo que só se consegue com boa genética, só de pensar ele já sentia o sangue descer para o pau.
E o sotaque…
Mineirinha metida, falando como se tivesse todo o tempo do mundo.
Diziam que marrom era a cor do pecado e ele tinha que concordar.
Estava doido pra se deliciar naquele pecado de novo e com gosto.
Passou a noite revirando o Instagram, o LinkedIn, o Facebook. Procurando por alguma Camila F. que se parecesse com ela.
Nenhuma foto, nenhum perfil suspeito.
A maldita nem completou o nome para ele saber.
Testou “Fernandes”, “Freitas”, “Fagundes”, até “Farias”.
Nada.
E isso o deixava mais louco ainda.
O sinal fechou à frente. Heitor ajeitou os punhos da camisa, impaciente. Esticou a mão pra trocar a estação do rádio — mas foi surpreendido por uma daquelas musiquinhas místicas, com sininhos e fundo celestial.
Ia mudar, quando ouviu:
— Você está procurando alguém que mexeu com você? Uma conexão inexplicável? Uma pessoa que apareceu, te enlouqueceu... e sumiu?
Heitor soltou um riso sem vontade.
— Tá de sacanagem...
— Se o nome dela não sai da sua cabeça… se seu corpo ainda sente a falta dela...
Ele apoiou a testa na mão do braço apoiado na janela, rindo de raiva.
— Isso é alguma pegadinha, porra?
— Então esse chamado é pra você. Vamos realizar um pedido para o universo. Vamos rezar para a prosperidade amorosa e mental.
Feche os olhos. Pense no nome da pessoa por um minuto.
— Não vou... — murmurou indignado. Mas, logo acalmou um pouco o semblante. E se fosse a chance??
O sinal verde apareceu, ele suspirou rendido e deu seta para estacionar ao lado.
Fechou os olhos. Pensou nela. No som das calças caindo das coxas grossas. No olhar cheio de intenção. Na voz dizendo que não precisavam se conhecer — que bastava lembrar.
Camila.
Inferno particular. Gozo inacabado.
— Agora, para selar essa oração sagrada, faça um Pix de R$50 para o número 3793872...
— Hein?! — ele franziu a testa. — Cê tá falando sério?
— Repito: 3793872. A pessoa que você pensou será tocada por Deus. E vai aparecer em até 24 horas. Gratidão, guerreiro de luz.
Heitor bufou, mas puxou o celular e abriu o aplicativo do banco.
Fez o Pix.
— Pronto. Agora aparece, sua desgraçada.
Ele voltou a deslocar o veículo.
Era a última.
Última cidade. Última filial. Último teste de paciência ali no Brasil.
Heitor entrou na rua principal com o Audi A7 preto deslizando pelas curvas como um animal de luxo numa jaula simples. Onde ele passava todos olhavam e apontavam para o carro como se ele fosse retirado de uma review do Youtube. A cidade parecia parada no tempo. Postos antigos, casas com telhado de amianto, placas desbotadas e nenhuma chance de ele conseguir um expresso decente sem ser numa garrafa térmica de plástico.
Era o fim da linha.
A única unidade da Monteiro Inc. que ele deixou por último no roteiro das visitas exigidas pelo avô. Não porque fazia mais sentido.
Mas porque era a que ele mais detestava.
Uma cidadezinha do interior de Minas Gerais, sem aeroporto, sem estrutura e sem nenhuma razão comercial estratégica. Só estava ali porque o avô, há décadas, achou que o lugar tinha “charme”. E quando o velho gostava de algo, ninguém mudava.
Heitor não se lembrava da história por trás daquela filial, na verdade ele nem prestou atenção quando seu avô o contou, só sabia o importante que aquilo ali não era motivo de investimento.
Suspirou ao virar a última esquina e ver a construção se destacando no horizonte.
A Monteiro Inc.
Um prédio de cinco andares, moderno, de vidros refletivos azulados, com logo dourado, fachada espelhada e jardim bem cuidado — um pedaço de São Paulo plantado no meio de uma cidade que nem shopping tinha. A construção destoava tanto do entorno que parecia que o Google tinha colado aquilo por engano na paisagem.
A empresa é o coração da cidade, a transformou, atraiu pessoas eficientes, aumentou a renda dos comerciantes, recebia doações para vários eventos. Realmente fazia a diferença na vida das pessoas.
Ele não precisou se identificar na portaria, o portão já abriu automaticamente.
Heitor encostou o carro na vaga reservada. Estava com a camisa social azul-clara, com dois botões abertos e as mangas dobradas até o antebraço, o suficiente para mostrar os braços firmes, o relógio caríssimo e a falta de paciência com o clima. Não usava gravata, nem precisava. A postura dizia tudo.
A porta do carro nem tinha fechado direito e uma comitiva já o esperava.
Entre eles, quem mais se destacava era Gaspar, o gerente regional. Cabelos grisalhos, óculos redondos, barriga avantajada de quem tomava cervejinha todo dia após o trabalho e um sorriso de quem já estava feliz só de ver gente nova.
— Doutor Heitor! Que alegria ter o senhor aqui! — disse, estendendo a mão com entusiasmo.
Heitor apertou com firmeza.
— Não precisa do “doutor”, Gaspar. Eu vim, né? Contra a minha vontade, mas vim.
Gaspar riu, nervoso.
— Seu avô faz questão… Ele está bem?
— Está. Aproveitando a aposentadoria no Rio, ainda contrariado com isso. Mas agora sou eu que estou aqui. Vamos lá?
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