O CEO que Eu Paguei
8 A Última Porta
Os corredores eram claros, organizados, com uma decoração sóbria e funcional. Tudo limpo, tudo como se esperava de uma filial Monteiro — com o detalhe de que aqui, todos se cumprimentavam como se fossem primos de segundo grau. Ele não entendeu metade dos "bom dia, viu?" que ouviu, os de todos os abraços, tudo muito próximo.
Foram direto para a sala de reuniões. A equipe de liderança local aguardava com tudo pronto: tela ligada, gráficos abertos, relatórios impressos, copinhos com água, como se estivessem prestando contas a um fiscal da Receita Federal.
Heitor sentou-se à cabeceira da mesa, ajeitou as mangas e falou com calma, mas firmeza.
— Não gosto de enrolação. A ideia é conhecer a estrutura, as pessoas e, principalmente, os números. Se tiverem algo pra dizer, digam. Não me vendam uma filial de ouro se ela mal paga as contas. Minha estadia será breve, apenas o necessário.
O silêncio foi absoluto por três segundos. Depois, começaram a falar — nervosos, formais, tentando parecer descontraídos.
Heitor apenas escutava.
Anotava mentalmente os que tremiam demais, os que falavam demais, os que olhavam pouco. Ele lia aquela gente com a mesma facilidade com que outros liam e-mail.
Meia hora depois, a reunião acabou.
— Quer conhecer o resto? — perguntou Gaspar, sorrindo.
— Tô aqui, né? Vamos andar.
Foram passando pelos setores. RH, Logística, Financeiro, Marketing. As salas eram modernas, bem equipadas, com o melhor ar-condicionado. Os funcionários se ajeitavam nas cadeiras, uns até seguravam a respiração, tentando parecer eficientes por osmose.
Além disso, todos tinham um ritmo arrastado, como se os prazos não existissem. Simpáticos e receptivos, como se fossem velhos amigos.
Em cada sala, alguém tentava fazer piada, outro mostrava alguma planilha importante. Heitor ouvia, observava, e às vezes soltava um “hmm” que podia significar tudo ou nada.
No meio do tour, Gaspar cochichou, sorridente:
— Pedi pra trazerem uma coisa típica. Pro senhor sentir o carinho da cidade...
Minutos depois, chegaram na copa de reuniões onde os líderes aguardavam com uma cesta de pães de queijo fumegantes e um bule de café recém-passado. Uma mesa montada com guardanapos bordados, um toque de capricho que dizia mais sobre o interior do que qualquer gráfico.
Heitor pegou um pão de queijo. Mordeu.
— Tá quente — comentou, surpreso. — E bom. É diferente dos outros que já comi.
— O queijo do interior é diferente do da cidade grande — Gaspar sorriu, orgulhoso.
Mas aí ele tomou o café.
Fez uma careta discreta e murmurou:
— Porra. Alguém tentou me adoçar ou me matar?
— Aqui é assim, doutor. Café tem que ser doce, senão levanta defunto — respondeu uma das líderes, rindo.
Heitor balançou a cabeça e deu mais um gole. Por educação. Só por isso.
Gaspar observava com orgulho bovino. O tipo de alegria de quem acredita que um pão de queijo quente e um café doce resolvem qualquer tensão. Mas Heitor continuava ali, na cadeira, sentindo o tempo se arrastar. E pior: com a mente voltando, sem querer, pro dia anterior.
A boca de Camila.
A respiração.
O olhar atrevido e aquele som... aquele maldito som que ela fez de pura entrega.
Passou a mão pelo rosto e inspirou fundo. Irritado. Excitado. Ressentido.
Tudo ao mesmo tempo.
— A gente percebe que o senhor é diferente — comentou Gaspar, tentando quebrar o silêncio. — As filiais nas capitais funcionam em outro ritmo. Aqui é mais tranquilo. Mas a gente entrega, viu? Eu entendo o nervosismo do senhor...
Heitor riu. Baixo. Um riso desacreditado.
— Não sei se entende, Gaspar.
O outro coçou a cabeça, sem graça.
— Bom... já vimos tudo, então? — cortou Heitor, já levantando.
— Quase tudo! — respondeu Gaspar, animado. — Falta só a sala dos terceiros. O senhor vai gostar.
Heitor arqueou uma sobrancelha.
— Aquela equipe que você vive elogiando?
— A própria. Os meninos da Plano. Ou melhor… quase as meninas, né? Porque agora são maioria. Mas são bons. Muito bons. Estão com a gente em quase todas as reestruturações da rede no Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Uma empresa parceira de projeto, planejamento e execução. Funcionam bem aqui dentro, parece que até nasceram Monteiro Inc. . E tem uma menina em especial...
Gaspar diminuiu o tom e deu uma leve risadinha, desviando os olhos como se procurasse cumplicidade.
— Tem que conhecer a Ana Alice. Inteligente, rápida, gente boa. Um pouco... exagerada, talvez. Mas é o charme dela.
Heitor soltou um “hmm” sem grande emoção, mas os olhos estreitaram de leve. Observava Gaspar com atenção, mais pelo subtexto do que pelas palavras.
— Ela se joga muito, sabe? — continuou Gaspar, tentando parecer indiferente. — Daquelas que falam com a mão, com o corpo. Mas eficiente. Ah, se é.
Heitor não respondeu. Apenas ajeitou os punhos da camisa de novo e disse, seco:
— Vamos, então.
Foram caminhando por um corredor lateral, onde o piso trocava de cor e o ar ficava um pouco mais fresco. O andar parecia mais silencioso, como se tivesse uma vibração diferente — um pouco mais solta, um pouco mais viva. Chegaram à porta com a placa “Sala da Equipe de Projetos – Plano & Forma”.
Gaspar sorriu e ajeitou os óculos.
— Aqui é onde a mágica acontece.
Heitor passou os olhos pela placa, depois para a porta. De dentro, dava pra ouvir vozes abafadas, risadas contidas, o som rápido de teclas.
Ele passou a mão no queixo, pensativo, e murmurou para si mesmo:
— Deve aparecer outra maluca, com toda certeza.
Gaspar, sem entender, deu dois toques leves na porta.
Estava na hora de conhecer a tal equipe.
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