O CEO que Eu Paguei
9 Gente Demais, Toque Demais
A porta se abriu com um leve rangido, e todas as conversas cessaram em segundos.
Os olhares se voltaram imediatamente para ele — não de maneira discreta, mas como quem espera por um artista no palco. Heitor entrou com a postura imponente de sempre, o relógio brilhando no pulso, os olhos atentos a cada detalhe.
A sala estava bem decorada, diferente do restante da filial. Havia lousas brancas com metas rabiscadas e palavras que pareciam compor briefings, gráficos emoldurados, post-its espalhados em um painel gigante e até algumas plantas penduradas por cordas. O contraste da equipe terceirizada se destaca do restante da empresa.
Mas ele não parecia particularmente impressionado.
— Gente, esse é o doutor Heitor Monteiro — anunciou Gaspar com uma empolgação quase infantil. — Nosso diretor-geral. Veio direto da sede do Rio visitar a gente.
— Só Heitor tá bom — ele disse, com um aceno breve e a expressão neutra.
— É um prazer tê-lo aqui — respondeu Clara, aproximando-se para cumprimentá-lo com um sorriso ensaiado e elegante. Era uma mulher de fala mansa, cabelo preso em um coque firme e olhar eficiente. — Eu sou a Clara, supervisora da equipe. Faço a ponte entre o time da Plano e os gestores das unidades. Nosso foco é organização estratégica e resultados operacionais. Tentamos tornar cada filial mais fluida dentro do modelo da Monteiro Inc., sem perder a identidade local. Além de revisar os projetos para os clientes. A equipe aqui é bem engajada.
Engajada.
Uma forma polida de dizer que falavam demais, tocavam demais, riam alto e esqueciam o que era formalidade corporativa. Pareciam até piores que os funcionários daquela filial.
— Hum. — Heitor apenas assentiu, olhando ao redor com discrição, notando os detalhes, absorvendo os nomes. Os funcionários pareciam não saber o que fazer com as mãos — alguns riam sem motivo, outros acenavam com entusiasmo, duas ou três moças pareciam corar ao vê-lo de perto.
“Pelo menos essa aqui tem alguma compostura.” Ele pensou, era a única do prédio que não o cumprimentou com um abraço. Já era motivo de comemorar.
Clara, ainda mantendo o tom formal, indicou para a direita.
— E esse é o Hugo. Especialista em segurança de projetos, tanto de dados quanto de execução física. Se o projeto é bom, ele verifica se é viável sem virar uma bomba.
Hugo, um rapaz de camisa da terceirizada com os botões estufados e uma barba bem aparada, se aproximou com um sorriso cheio do que parecia ser intenções.
— É um prazer, doutor... quer dizer, Heitor. Tudo que você precisar, pode contar comigo — disse, prolongando o aperto de mão, como se testasse alguma coisa invisível.
Heitor ergueu uma sobrancelha, “que porra é essa?” Ele já definiu os limites, nem mais um passo.
— Segurança é essencial. Especialmente com tanta gente olhando o que não devia.
Clara tossiu como se estivesse com algo na garganta, puxando o foco de volta com sutileza e o apresentando para o resto da equipe. Algumas pessoas riram nervosas. Clara estava prestes a apresentar o próximo funcionário, mas Gaspar interrompeu, ansioso.
— E tem a Ana Alice também. Você precisa conhecer. Ela é a responsável por projetar as adaptações operacionais nas filiais e tem feito um trabalho de excelência. Até parece que é da Monteiro Inc. desde o berço.
— Vamos lá — disse Heitor, seco, sem parecer muito animado.
O que ele queria mesmo era terminar tudo aquilo, dar um tchau educado e nunca mais voltar. A cidade já tinha o azedado desde o momento que conheceu Camila, quer dizer, desde o momento que Camila o abandonou. E esse entusiasmo excessivo estava piorando ainda mais o seu humor.
Mas ele seguiu.
Conforme Gaspar o conduzia entre as mesas até o fundo da sala, onde Ana Alice estava sentada, nenhum dos outros funcionários resistiam. Um aceno. Um "seja bem-vindo". Um sorriso maior do que o necessário. Cumprimentos de abracinhos, os que ele mais detestava.
A equipe da Plano parecia não ter noção de espaço pessoal, muito menos da frieza esperada no mundo corporativo.
Heitor respirou fundo, mantendo a compostura, e pensou:
"Isso aqui mais parece um grupo de teatro infantil do que uma equipe de projetos."
Gaspar, empolgado, parou ao lado da última mesa.
— Ah! E essa aqui é a Ana Alice — anunciou Gaspar, com um sorriso exageradamente empolgado, quase como se estivesse orgulhoso de apresentar uma sobrinha prodígio.
Ana Alice levantou-se empinando demais para trás. A blusa vermelha justa demais. A saia curta demais. O salto alto demais para uma sala com ar-condicionado. Era a única que não usava a camisa social da Plano & Forma. Unhas vermelhas, maquiagem pesada. Estava quase no limite do aceitável para o horário — e a quilômetros do adequado.
Ela sorriu, um sorriso que não chegava aos olhos, mas dançava no canto da boca.
— Doutor Heitor... — disse, arrastando as sílabas como quem lê poesia.
Ela o cumprimentou como todos os outros, com um abraço. Mas então, beijou o rosto dele, sem permissão, como quem marca território.
Heitor quase não conseguiu segurar a cara de descontentamento.
O perfume feminino que ela usava era conhecido por ele, Miss Dior, doce sem ser enjoativo — comum para ele, que já teria sentido tantas outras vezes em eventos.
— Um prazer imenso ter você aqui — ela disse, a mão ainda pousada de leve no braço dele.
Heitor deu dois passos discretos pra trás. O suficiente pra marcar o limite.
— Obrigado — respondeu, seco.
“Interior. Eles encostam. Tocam. Abraçam. Beijam. Ninguém avisa que a informalidade por aqui virou epidemia? Não apenas isso, até me arrastaram para um quarto de hotel. Não, apenas ela, aquela desgraçada da Camila.”
Gaspar ria. Ana Alice mantinha a pose. As costas eretas, o quadril ligeiramente jogado pra um lado. O sorrisinho continuava. E o sangue de Heitor fervia.
Ana Alice fingiu que não notou.
— Eu acompanho os projetos de adaptação da matriz pras filiais. Tento ajustar o operacional às realidades locais. Claro, mantendo a identidade da Monteiro — disse, inclinando o corpo levemente, como quem se apoiava na própria sensualidade pra sustentar o discurso.
Heitor observava com frieza cirúrgica.
— E qual a previsão de entrega da filial de Porto Alegre? — perguntou, com o tom técnico que ele usava quando queria matar qualquer clima.
Surpreendentemente, ela respondeu com precisão. Falou de datas, fornecedores, estrutura de TI, prazos apertados e problemas contornados. Usou palavras certas. Certezas firmes.
Heitor assentiu e a observou com frieza.
Sim, ela era atraente. Inteligente também. Não era só bonita, mas também entendida do processo. Devia ser por isso que Gaspar era louco por ela.
— Bom. É bom ver que tem gente aqui mais preocupada com a execução do que com a recepção.
Ana Alice sorriu de novo, como se aquilo tivesse sido um flerte.
Mas ele não sorriu de volta.
Ele não estava ali para isso.
— Gostaria de ver os números oficiais, Ana Alice. Se não se importar. — respondeu, com um leve arquejo de sobrancelha.
Ela riu. Uma risadinha afetada, como se aquilo fosse parte do jogo.
Gaspar tentou aliviar o clima:
— Ah, Heitor... o pessoal aqui é assim mesmo. Todo mundo de casa, sabe? Quase uma família.
Heitor inspirou fundo.
“Família que não entende limites. Que se abraça em reunião. Que passa perfume como se fosse sair pra balada.”
— Talvez esse seja o problema — murmurou, baixo demais pra ouvirem.
Seus olhos varreram a sala enquanto fingia prestar atenção no que Gaspar e Ana Alice diziam. Cada canto carregava aquela energia espalhafatosa, quase invasiva. Era tudo exagerado. As paredes coloridas, os potes de balas, os copos de personagens de desenho animado nas mesas.
“Essa filial precisa de freio. De controle. De comando.”
E então, num lapso de silêncio, o pensamento voltou para a noite anterior.
Camila.
A mulher que ainda parecia desenhada na memória como uma tatuagem nova.
O jeito dela jogar o cabelo, a forma como falava com desprezo e desejo na mesma frase, os olhos que brilhavam de desafio.
A boca. Aquela boca.
“Você não vai esquecer de mim”, ela tinha dito.
E não tinha mesmo.
Era só lembrar e o corpo respondia, como se um sensor fosse ativado.
“Puta que pariu Camila. Quem some sem deixar nenhum contato?”
Ele sentiu o maxilar travar por um segundo.
“Mulher maldita e deliciosa…”
Gaspar puxou ele de volta.
— Vamos te mostrar a sala dos contratos?
Heitor assentiu com um leve movimento de cabeça, mas, por dentro, queria fugir.
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