A porta se abriu.

Helena entrou carregando sua garrafa de água como quem voltava de um simples intervalo — mas congelou no primeiro passo.

Todo mundo tinha parado de rir.

Estavam olhando... para um homem. De costas. Tão grande que parecia uma geladeira Electrolux de duas portas e, além disso, tem uns 2,00m fácil de altura. Braços fortes, camisa ajustada com as mangas dobradas até o antebraço, mãos grandes e um relógio que provavelmente valia mais que a casa dela.

A voz dele ecoava baixa e segura:

— Vamos então para a sala de contratos…

Helena franziu o cenho, sem pressa de conectar os pontos.

Aquele era o diretor? Falando com Ana Alice, ainda por cima?

— Aff… mais um executivo padrão que adora mulher de saia justa. Nada novo — murmurou baixinho. E começou a andar até sua mesa.

Mas, então ele se virou.

E o mundo perdeu o som.

Os olhos dele encontraram os dela. Primeiro surpresos. Depois apertados, como se precisassem de mais nitidez.

Helena parou no lugar. Ficou pálida, como se estivesse vendo um fantasma. Todos os músculos do corpo dela endureceram. A postura, o rosto, até o sangue parecia hesitar.

Era ele. O cara que ela pagou.

O homem que ela jurou que nunca mais veria — e que agora estava ali, com pinta de CEO da FORBES, cheiro de poder e um sorrisinho no canto da boca como se lembrasse muito bem de quem ela era.

— Chegou bem na hora Helena. — disse Clara sorrindo em direção a ela.

Heitor arqueou uma sobrancelha, confuso por um segundo.

— Helena?

A sala ficou em silêncio.

Gaspar, sem entender a tensão, completou com entusiasmo:

— Isso, essa é a Helena! Analista de gestão de riscos. Uma das melhores da equipe. Organizada, direta, um pouco brava de vez em quando… e muita gente aqui tem medo dela, então funciona.

Helena forçou um sorriso sem mostrar os dentes. Estava branca.

Heitor a encarava como se algo tivesse acabado de cair perfeitamente no lugar dentro da cabeça dele.

Ela sentiu o olhar dele percorrer o seu corpo como quem lia um texto conhecido. Os olhos azuis pareciam mais escuros enquanto desciam por cada detalhe dela e quando chegaram aos pés, subiram cobertos de desejo, que ela conhecia bem. Ela sentiu um calor subir pelo seu corpo. Ela se sentiu despida. Ele abriu um largo sorriso.

— Helena — repetiu ele, como se saboreasse o nome. O sorriso parecia largo demais. — Agora entendi.

Deu dois passos na direção dela, o suficiente para que todos na sala se calassem.

Estendeu os braços, tão naturalmente, como se ela fosse uma velha conhecida. Ou mais que isso.

Helena piscou, sem reação.

Ele a puxou para um abraço elegante, educado — mas firme o bastante para ela sentir o peso, o calor e o mesmo perfume do dia anterior que não tinha como esquecer. Um segundo só. Dois. O corpo grande dele a cobrindo e envolvendo, parecia que ele a estava queimando. E o toque das mãos dele quase fizeram seu corpo amolecer.

— É um grande prazer te conhecer. — A voz dele saiu baixa, quase íntima. — Eu sou Heitor Monteiro.

E então se afastou meio passo, ainda sorrindo.

— Diretor geral e herdeiro da Monteiro Inc.

O olhar dele mergulhou no dela por um instante. Tinha gozo não terminado, deboche, e algo mais — algo que dizia "agora a gente joga no meu campo."

Helena, por fora, estava tentando manter a compostura.

Por dentro, era um incêndio controlado por pura força de vontade. Quase maior que a vergonha que ela tentava sustentar.

E então Ana Alice sussurrou, encantada:

— Meu Deus… ele é gato demais. Não tem motivo para estar sendo tão atencioso com ela.

Helena quis matá-la pelo comentário. Ou se esconder. Ou os dois.

Mas era tarde.

Heitor estava ali. O cara que ela quase trans0u.

— Que tal… — disse Heitor, com o timbre grave e a frase alongada, como se estivesse apenas começando um jogo que esperava há muito tempo — …me mostrar o que a sua função faz aqui na minha empresa, Helena?

O nome dela saiu de sua boca com intenção. Um sussurro a mais. Um açoite elegante.

Ele não precisava de mais do que isso.

Mas quis mais.

— Tenho a impressão de que você é muito boa no que faz.

A sala ficou em silêncio por dois segundos.

Só dois.

Mas, pra Helena, pareceu que o mundo tinha parado.

Aquela frase.

Aquela maldita frase.

Era exatamente o que ela tinha dito ontem à tarde, no quarto 12, antes de apontar para pau duro na calça dele como se fosse um presente mal embrulhado. E agora... ele repetia como se tivesse ensaiado. Como se estivesse devolvendo o presente — só que em praça pública.

Foi como um tapa.

O rosto dela esquentou, e a nuca latejou em resposta.

— Ótima ideia! — disse Clara, animada, inocente, sorrindo ao lado — A Helena realmente é muito boa no que faz. A melhor da área. Heitor manteve o sorriso.

— Eu não duvido nem um pouco disso — murmurou, com os olhos presos nela. A voz parecia uma carícia de navalha.

Helena inspirou fundo. Uma vez e contou mentalmente até cinco.

Tentava manter a compostura, mas o corpo inteiro parecia tenso. A pele queimava, o pescoço ardia, os pensamentos corriam soltos feito uma procissão desgovernada.

Maldito.

Desgraçado.

Desgraçadamente lindo.

Começou a andar até sua mesa com passos duros, braços colados ao corpo, como se tivesse engessada. O queixo erguido era a única armadura que lhe restava. Se era pra morrer por dentro, ao menos morreria com dignidade.

Sentou-se com um suspiro contido e ligou o computador.

Heitor ficou ao lado dela, próximo demais. Tão perto que o calor do corpo dele parecia ocupar o mesmo espaço do dela. E ele não dizia nada — mas também não precisava. A simples presença dele era como um lembrete:

“Você me teve ontem. Agora sou eu quem te tem aqui.”

Ela errou a senha.

Digitou de novo.

Errou de novo.

Respirou fundo.

Tentou disfarçar — e errou pela terceira vez.

— Droga — murmurou com a voz baixa e irritada, como se xingasse a si mesma.

Na cabeça dela passavam todas as possibilidades: Como esse homem está aqui? Porque ele era garoto de programa? Ou melhor, o garoto de programa que ela contratou. Um acaso? Um castigo divino por ter saído da linha?

E quando finalmente conseguiu acessar o sistema, ouviu o som dele se inclinando.

Chegou mais perto.

O calor do corpo dele colou nas costas dela, e aquele maldito perfume amadeirado invadiu seus sentidos de novo.

Heitor sussurrou bem perto do ouvido dela, com aquele sorriso que parecia ter nascido só pra provocar:

— Pode ir com calma… Tenho certeza que você não está nervosa por minha causa. É por tudo que quer me mostrar, né?

Helena mordeu a própria bochecha.

A vontade era xingar em voz alta. Ou levantar e ir embora. Ou beijá-lo de novo, só pra calar a boca dele, espera, mas não ali no trabalho dela, definitivamente, ali não.

Mas se manteve firme. Ela estava queimando por dentro, uma mistura de vergonha e desejo.

Como se dissesse:

“É, você também não esqueceu.”

Helena engoliu em seco.

Precisava sair dali. Ou que ele saísse.

Ou explodiria.

Notas finais
Adoro o fato do Heitor reclamar que todo mundo toca demais, mas aproveita isso para abraçar ela.