O CEO que Eu Paguei
188 Nós Ainda Somos Nós
Heitor dirigia como um louco pelas ruas molhadas.
O motor roncava forte, quase gritando junto com o coração dele.
As buzinas soavam como sinos de alerta.
O volante rangia sob suas mãos firmes. O ombro latejava a cada curva, mas ele ignorava a dor.
Ignorava tudo.
Helena não atendia.
O nome dela piscava no painel, e ele apertava o botão de novo. E de novo.
A cada chamada não atendida, o pânico se infiltrava como veneno em sua garganta.
— Atende, amor… pelo amor de Deus, fala comigo vai…
Quando chegou ao prédio, o carro da mãe estava na porta.
Ele mal parou o próprio carro. Correu para o elevador — apertou o botão, mas não esperou, estava demorando demais. Subiu pelas escadas como se sua vida dependesse disso.
Porque dependia.
A porta do apartamento estava escancarada.
Ele entrou, ofegante, com o coração martelando no peito.
Celina andava de um lado para o outro, celular no ouvido, a testa encostada na mão.
— Mãe! Cadê a Helena??
A voz dele saiu rasgada, carregada de urgência.
Ela desligou o celular devagar.
— Ela não tá aqui, Heitor. O apartamento tava assim, aberto. Não sei pra onde ela foi.
Heitor passou a mão pelos cabelos, um pavor visceral invadindo cada centímetro do seu corpo.
O celular vibrou. Era o motorista.
— Fala! Fala logo, porra! É a Helena? Onde ela tá?!
— Senhor Monteiro... graças a Deus o senhor atendeu. A senhorita Helena está na residência dos Medeiros...
Ele nem deixou o homem terminar. Desligou.
— Ela tá na casa do Jonas. PUTA QUE PARIU! Ela deve ter encontrado a Lorena! — Ele se virou rapidamente indo em direção a porta aberta.
— Espera, filho! Eu vou com você.
O carro voava pelas ruas.
Dessa vez, ele era mais prudente, porque Celina estava ao lado, brigava com ele quando tentava avançar o sinal ou realizar uma ultrapassagem perigosa.
O coração de Heitor estava em puro desespero.
Chegaram.
O segurança liberou imediatamente a entrada.
Alguns carros parados na frente.
Heitor nem esperou.
Desceu correndo, disparado, como se o chão estivesse em chamas.
— HEITOR, ESPERA! — gritou Celina atrás.
Ele não ouviu. Não podia.
Subiu os degraus, o peito arfando.
Quando entrou no saguão…
Viu.
Uma funcionária limpando o chão.
E no pano…
sangue.
Ele correu até ela, agarrou pelos ombros.
— De quem é esse sangue?! Me diz! ME DIZ, PELO AMOR DE DEUS!
Ela gaguejou. O chefe dos funcionários o afastou com cuidado.
— Senhor, se acalme. A senhorita Helena está sendo atendida nos quartos da ala superior. O médico já chegou.
Helena. Sangrando.
O mundo rodou.
Mas ele não pensou. Apenas correu subindo para a ala dos convidados, conhecia aquela casa desde que era moleque..
No alto da escada da ala oposta, ouviu a voz familiar:
— Heitor!
Era Paulo.
Heitor parou, arfando e foi até ele pelo corredor superior.
— Paulo! Me diz que ela tá bem. Pelo amor de Deus, me diz que ela tá bem.
— Ela está... está sendo cuidada. Mas ela sangrou muito. Passou por um pico de estresse.
Heitor recuou um passo, como se tivesse levado um soco no estômago.
— Ela perdeu...? — a voz sumiu antes de terminar a frase.
— Não. O bebê está bem. — enquanto Paulo falava, Heitor respirou fundo e caiu sentado no chão, tentando recobrar o oxigênio.— Helena também está bem. Vamos só dar um tempo a ela.
Heitor levantou a mão esquerda em um sinal de "espera".Paulo colocou a mão no ombro dele.
— Mas ela precisa de você agora. Calmo. Presente.
— Ela viu a Lorena...?
Paulo assentiu.
Heitor, ainda sentado no chão, olhava o sogro com preocupação
— E foi muito ruim?
Paulo riu sem humor
— Foi péssimo.
Heitor passou a mão pelo rosto, tentando manter a compostura que o desespero arrancava.
Paulo esticou a mão para ele.
— Você tem que ser forte, não é o homem dela?
Ele fez que sim com a cabeça, pegou a mão do sogro e levantou.
Seguiram juntos até o corredor dos quartos.
Heitor viu Jonas escorado em uma parada, de cabeça baixa. À medida que iam se aproximando, Jonas quando viu Heitor, se endireitou. Os olhos do rapaz se encheram e ele se aproximou deles com passos pesados. Heitor arregalou os olhos, vendo Jonas com a roupa toda suja de sangue sangue.
— Heitor... Eu… — Jonas tentava encontrar as palavras, mas não conseguiu.
Heitor foi até ele. A mão forte pousou nos ombros do amigo.
— Você protegeu ela. Obrigado. De verdade. Você é o cara.
Jonas levantou o olhar e viu os olhos azuis de heitor brilharem.
— Eu sempre vou proteger ela. Ela é... ela é a minha irmã.
Heitor sorriu. Um meio sorriso, triste, mas grato.
— É. Ela é mesmo. Vai ter que cuidar dela, igual eu cuidei de vocês.
Jonas assentiu, os olhos vermelhos.
Então a porta abriu antes que Jonas pudesse responder.
— Governador.
— Sim? Esse é meu genro, Heitor Monteiro. Namorado da Helena.
O médico se virou para ele e estendeu a mão com cordialidade:
— Ótimo. É um prazer conhecê-lo.
— O que aconteceu com a Helena? — Heitor interrompeu, tenso.
— Ela passou por um estresse emocional muito forte. Isso causou um aumento súbito da pressão arterial e acabou provocando o rompimento de vasos no endométrio.
— O que isso significa exatamente? — ele perguntou, o coração disparado.
— Houve uma perda significativa de sangue, mas, felizmente, isso não representa risco para o bebê. Usei o ultrassom portátil, e o neném está bem.
— Graças a Deus... — Heitor sussurrou, fechando os olhos por um instante. — Mas... e a Helena?
— Ela está sendo monitorada por outra médica. Nosso foco agora é estabilizar a pressão arterial dela. Estamos medindo em intervalos curtos, e também coletamos sangue para analisar o nível de cortisol.
— Vocês têm tudo o que precisam aqui? — perguntou Heitor, impaciente, mas tentando se manter firme.
— Temos, sim. E se me permite, senhor Monteiro... seu papel no tratamento dela é essencial. Evite qualquer discussão, qualquer notícia que possa afetá-la emocionalmente. Ela precisa de estabilidade — e, neste momento, você é o pilar disso.
— Pode deixar comigo.
— Se puder me passar o contato da obstetra dela, quero envolvê-la o quanto antes. De forma geral, ela precisa de repouso absoluto, em um ambiente calmo, silencioso. A aromaterapia pode ajudar, assim como música clássica, é recomendada para gestantes com hipertensão.
— Certo.
— Quem cuida da fisioterapia dela? Ou há um enfermeiro acompanhando? Ela vai precisar de massagens terapêuticas nos pés e nas mãos, para ajudar na circulação. E seria bom aumentar a frequência das sessões com a psicóloga nesse período.
Heitor assentiu, engolindo em seco.
— Eu... eu posso vê-la?
— Claro. Mas por enquanto, apenas uma pessoa por vez.
Jonas soltou um suspiro cansado.
— Eu vou tomar um banho. Já que ela está fora de perigo, vou me trocar.
— E eu vou ver a Lorena. Isaac está com ela. — disse Paulo.
— Eu preciso vê-la. — disse Heitor, determinado.
O médico permitiu e ele entrou devagar.
Helena estava deitada, um lençol sobre o corpo.
Uma médica massageava os pés dela. A assistente media a pressão com cuidado.
Quando os olhos dela o encontraram...
O os olhos delas encheram de água e ela virou o rosto.
O mundo de Heitor caiu.
— Helê... tá tudo bem...?
— Podem me deixar a sós com ele? Por favor…
As médicas se entreolharam e saíram.
Heitor se aproximou devagar, como se o chão estivesse rachando.
Sentou-se ao lado dela, na beirada da cama.
Tentou segurar sua mão.
Ela tirou.
Tentou se aproximar.
Ela encolheu.
— Você sabia.
A voz dela era um sussurro rachado.
— Você sabia e dormia do meu lado. Você dizia que éramos um time. Eu confiei em você mais do que em qualquer um...
— Amor...
— NÃO ME CHAMA ASSIM! — ela gritou com os olhos marejados. — Você me TRAIU. Eu acreditei em você… Eu te amei tanto, mais tanto… cegamente… — ela levou as mãos no rosto enquanto as lágrimas desciam. — Eu me entreguei a você, confiei em você mais do que em qualquer outra pessoa.
Heitor sentiu que as palavras pesavam toneladas.
— Eu descobri no dia em que você me contou da gravidez. Eu queria te contar, mas tive medo. Medo de te machucar. E olha só... te machuquei mesmo assim.
Ela continuava imóvel.
Ele tirou os sapatos.
Deitou-se devagar, ao lado dela.
— Helê… eu te amo. — a voz dele saiu embargada. — E não são palavras vazias. Eu sei que te machuquei. Sei que doeu. Mas nunca foi essa a intenção. Você é tudo pra mim. Você… e o nosso filho.
Ele respirou fundo, tentando se manter firme.
— Você tá com raiva de mim. E com razão. Mas… pensa comigo: se fosse o contrário, se você estivesse no meu lugar… como contaria isso pra sua esposa grávida? Como faria isso sem machucá-la?
Helena tentou. De verdade, tentou imaginar. Mas quanto mais pensava, mais percebia que não havia uma forma indolor. Que aquilo machucaria de qualquer jeito. Sua respiração ainda vinha em soluços curtos, o rosto molhado de choro.
Heitor observou o franzido no rosto dela e, por um segundo, sorriu de canto. Ela era a mulher da vida dele. Até chorando, até furiosa, ele a amava de um jeito que nenhuma palavra alcançava.
— Você não me deixa escolha… — murmurou, quase como quem se rende.
Ela o olhou de lado, desconfiada, os olhos ainda marejados.
Heitor enfiou a mão no bolso, tirou a carteira e, de dentro dela, puxou um papel dobrado com cuidado. O famoso voucher que Helena tinha feito pra ele de presente de aniversário.
O olhar dela se estreitou.
— O que você tá fazendo?
— Desistindo. — ele respondeu, teatral. — Desistindo do anal delicioso que eu queria fazer em você. Já que você não libera, eu ia usar o voucher.
Helena arregalou os olhos, incrédula. Estava magoada, partida… mas aquele homem era um idiota tão sem noção que ela não conseguiu impedir um riso fraco escapar, de canto. Baixinho. Involuntário.
Heitor manteve a cara mais séria que conseguiu, mas seus olhos brilhavam.
— Aqui ó — mostrou o papel — Eu tô oficialmente usando meu direito. E o que eu quero é que você me perdoe.
— Você não pode usar o voucher pra isso. — ela rebateu, limpando uma lágrima.
— Posso sim. — ele virou o papel de um lado, do outro, leu como se estivesse diante de um contrato importante. — Tá aqui, ó: “vale um pedido sem recusa”. Não tem exceções. Eu escolho. E o que eu quero é o seu perdão.
— Heitor… o que você fez foi muito grave.
— Eu sei. E eu juro que ia te contar. Mas eu fiquei com medo… medo de te abalar, de algo acontecer com o nosso filho.
— E quando você ia me contar, hein? Quando?
— Depois que o Humberto nascesse…
Ele segurou a mão dela com as duas, com cuidado.
— Me perdoa. Me perdoa por não saber como te proteger disso. Por ter feito você passar por isso sozinha.
Helena voltou a chorar. Mas agora o choro era mais mole, mais fundo — um choro infantil, como se toda a força que ela tinha estivesse esgotada.
Heitor a puxou devagar para o peito, como se ela fosse de vidro. Encostou os lábios na têmpora dela e ficou ali, beijando, acariciando seus cabelos com os dedos.
Ele queria arrancar a dor dela com as próprias mãos. Queria trocar de lugar, levar tudo embora. Mas sabia que não podia.
Então faria o que podia: ficaria ali. Até aquela ferida deixar de sangrar.
E, quando doesse de novo — porque ele sabia que ia doer —, ele estaria ali de novo. Para cuidar dela.
— Helena, amor… eu não menti. E nunca te traí. — a voz de Heitor era baixa, mas firme. — Eu sempre vou estar do seu lado. A gente é um time. Um casal. E nem mesmo a morte me afastaria de você.
Ela soltou uma risada fraca, com o rosto ainda encharcado de lágrimas, os olhos vermelhos de tanto chorar.
— Que idiotice… você viraria um morto-vivo?
— Não. — ele respondeu com um meio sorriso. — Eu seria um fantasma bem chato. Daqueles que puxam seu pé à noite só pra te lembrar que você é minha.
Helena riu de verdade, abafado, e então desabou no peito dele de novo — o riso se misturando ao choro num soluço mole, dolorido e real.
Heitor a embalou nos braços como quem protege o que tem de mais precioso no mundo. Beijou o topo da cabeça dela com ternura.
Ele estaria ali.
Para ela.
Sempre.
Mesmo quando ela não o quisesse por perto.
Mesmo quando doesse.
Mesmo que o mundo inteiro desabasse ao redor — ele seguraria firme. Porque ela era o lar dele.
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