O CEO que Eu Paguei

85 Mais Um Dia Sem Ele


Helena chegou cedo.

O salto cruzando o chão da Monteiro Inc. tinha o mesmo som de sempre, mas nada ali estava no lugar certo.

Ou melhor... ele não estava.

A sala dele seguia vazia.

A cadeira giratória com o blazer pendurado já não estava mais ali.

O silêncio do andar parecia mais pesado sem a presença dele provocando, rindo, chamando alguém de “patroa” ou discutindo sobre café sem açúcar.

Helena se sentou, ligou o computador.

Abriu os e-mails.

Tentou fingir costume.

Clara passou mais cedo pra falar de uma reunião.

Hugo puxou assunto.

Júlia fez piada.

E ela riu.

Riu como quem engole um espinho antes de sorrir.

Na hora do café, olhou para a sala de reuniões.

Lá dentro, ninguém.

Nenhum terno vinho.

Nenhum relógio de pulseira larga.

Nenhum olhar azul afiado.

Ao meio-dia, ela cedeu.

Pegou o celular e digitou no WhatsApp:

“Tá de home hoje?”

Esperou.

Viu o “online” piscar.

E sumir.

Nenhuma resposta.

O tempo passou.

Reuniões.

Relatórios.

Pessoas entrando e saindo.

E a ausência dele ali… presente em tudo.

Era como estar num lugar onde todas as paredes tinham o nome dele escrito com tinta invisível — e só ela conseguia ler.

Helena tentou disfarçar.

Disse para si mesma que não importava.

Que ela estava ocupada.

Que ele estava ocupado.

Mas quando o relógio apontou 17h46, e ela já estava guardando o notebook, o celular vibrou.

“Tô sim. Resolvi ficar o resto da semana em home. Tem bastante coisa pra organizar.”

Só isso.

Sem pergunta.

Sem “e você?”.

Sem saudade.

Sem gosto.

Helena ficou olhando a tela por um tempo.

E murmurou pra si mesma:

— Tudo bem... você fica aí. Eu fico aqui… tentando não te querer tanto.

Mas o coração?

O coração não ouve essas frases.

Ele só sente.

E ela estava sentindo demais.

Então já era noite.

Helena se olhou no espelho uma última vez.

Vestido justo, aquele que moldava o corpo do jeito que ele adorava.

A maquiagem leve, mas feita com intenção.

Cabelo solto, ondas naturais, e o perfume que ele elogiava sempre que se aproximava demais.

Era sexta.

Estariam de folga no sábado.

Não havia desculpa.

Só a saudade.

Desceu de Uber, o coração batendo alto demais.

Chegou ao condomínio, mostrou a identidade.

— O senhor Monteiro não avisou que a senhorita viria.

Helena sentiu o sangue subir. O orgulho doer.

— Ele não sabia que eu viria. Mas… ele vai me receber.

Os porteiros se entreolharam.

— Um minuto. Vamos ligar.

Ela manteve o rosto firme.

Mas por dentro… tudo tremia.

Foram segundos.

Depois:

— Pode subir, senhorita Helena.

O Uber a deixou.

Ela caminhou pelas ruas calmas do condomínio como se estivesse invadindo um lugar que não lhe pertencia mais.

E ali estava ele.

O casarão.

A fachada imponente.

As luzes amareladas acesas.

A lembrança do capô do carro, do banho, da cama…

Ela tocou a campainha.

Com a alma na ponta do dedo.

A porta abriu.

E ele.

Sem sorriso.

Sem “Oi, amor”.

Sem abraço.

Apenas:

— Helena? O que você tá fazendo aqui?

A voz dele era baixa.

Sem raiva.

Mas fria o suficiente pra quebrar alguma coisa dentro dela.

Helena respirou fundo.

Engoliu a vontade de voltar correndo pro Uber.

— Eu… tava pensando em você. E resolvi vir conversar.

Heitor ficou em silêncio.

Depois se afastou da porta.

— Entra.

Ela passou pela entrada com passos cuidadosos, como se pisasse em gelo.

— Licença… — murmurou, quase num sussurro.

A casa estava igual.

Mas o clima era outro.

Na sala, o notebook aberto na mesa.

Uma taça de vinho vazia.

A TV ligada num reality qualquer, com o som baixo.

Helena parou ali.

A mochila dele encostada no sofá.

Um par de tênis largado num canto.

Tudo parecia... doméstico.

Menos ela.

Ele se aproximou, com o mesmo rosto calmo.

Mas com os olhos… diferentes.

— Você quer vinho?

Ela hesitou.

— Se tiver… eu aceito.

Heitor foi até a adega.

E ela?

Ficou parada no meio da sala.

Se perguntando como alguém podia estar tão perto…

E ainda assim parecer tão longe.

Ele voltou, entregou uma taça para ela, abriu a o vinho e a serviu.

Helena segurava a taça com as duas mãos.

O vinho estava bom.

Seco, intenso. Como ele sempre escolhia.

Mas o gosto… amargo.

Heitor se sentou do outro lado do sofá.

Não ao lado.

Do outro lado.

O silêncio da casa era educado demais.

Como se até as paredes tivessem posto gravata pra essa conversa.

— Eu achei que… você fosse falar comigo — ela disse, por fim. Baixo, como se estivesse testando o peso da própria voz.

Ele deu um leve sorriso — sem alegria nenhuma.

— Eu também achei que você fosse me ouvir.

Helena abaixou os olhos.

— Eu tô aqui, Heitor.

— Agora.

A resposta bateu mais forte do que ele pretendia.

Mas já estava dita.

Ela respirou fundo, tentando não rebater com raiva.

Estava ali por escolha.

Estava ali porque sentia falta.

Estava ali porque... não conseguia não estar.

— Eu fiquei pensando muito nesses dois dias. Não sei explicar. Tudo foi rápido. Intenso. Eu não tô acostumada a me sentir assim. E você… você sente muito. O tempo todo.

Heitor encostou o corpo no sofá, a taça na mão firme.

Mas os olhos... cansados.

— Sabe qual é o problema? Você pensa demais. E eu… sinto demais. A gente se desencontra no meio.

— E mesmo assim, você me quis?

— Quis não. Quero. Só não sei se ainda posso.

Helena sentiu o estômago afundar.

— Por quê?

Heitor bebeu mais um gole.

Olhou pra ela com aquela intensidade que queimava.

— Porque quando eu me joguei… você ficou na margem. E agora que eu tô voltando, você vem nadar.

Silêncio.

O vinho desceu arranhando na garganta.

— Eu vim porque... porque eu sinto a sua falta. Porque eu me arrependi. Porque... eu queria te ver.

— Você se arrumou toda pra isso? — ele perguntou, e a voz vinha mais baixa agora, mais grave, com aquele sotaque forte arrastado do Rio que só aparecia quando ele tava perdendo o controle.

Ela o encarou.

— E se foi?

Heitor apoiou a taça na mesa.

Se inclinou, os olhos passeando pelo corpo dela.

O vestido, o perfume, a respiração descompassada.

— Tu veio aqui pra me dizer que sentiu falta? Ou pra me deixar maluco de novo? Porque, Helena... com você assim, desse jeito… eu não sei se consigo te ouvir sem querer te foder.

Ela se aproximou.

O olhar vacilando entre orgulho e entrega.

— Talvez eu queira os dois.

Ele passou a língua pelos lábios, fechou os olhos por um segundo.

— Fala isso de novo. Mas me olha.

Ela o olhou.

— Eu quero os dois.

Heitor se levantou, se sentou ao lado dela. E então… ele a puxou.

Com uma mão só, firme na nuca dela. A outra deslizando pela cintura como se reencontrasse o lugar que mais doía de tanta saudade.

O beijo veio cheio de raiva, de desejo, de desculpa não dita.

Helena gemeu baixo quando ele puxou seu quadril pra cima do colo dele.

Heitor afastou os lábios, a respiração descompassada:

— Tu sabe o que isso aqui faz comigo, né?

Ela assentiu, encostando a testa na dele.

— E mesmo assim vem… com esse vestido... com essa boca...

— Eu só quero você, Heitor. Hoje… agora.

— Então me diz que é só hoje. Porque se não for, eu não sei se vou conseguir sair disso depois.

Helena não respondeu.

Ela o beijou de novo.

Com força.

Com entrega.

Com medo.

Mas também com a coragem de quem, pela primeira vez, tava deixando de fugir.