A mala estava pronta. A mochila no ombro. E o coração dela parecendo que ia sair pela boca.

Helena respirou fundo na porta de casa.

Dona Olívia ficou ali, segurando Tótó no colo, os olhos marejados e o sorriso firme.

Helena não chorou. Não podia.

Mas o coração dela… ficou com a avó naquela varanda.

— Você vai viver, menina. Vai ser feliz. — disse Dona Olívia, com a voz embargada.

Helena assentiu.

— Eu volto, vó. A senhora sabe que eu volto.

Então, partiu.

Foram algumas horas de ônibus até Uberlândia com os amigos.

Julia, Ana Alice e Hugo estavam uma mistura de animação, piada e teorias malucas sobre o Rio.

— Eu ouvi dizer que se você pedir um café num quiosque de Ipanema, eles te dão um expresso com glitter. — Hugo dizia com pose de especialista.

— Ai, cala a boca. — Julia riu. — Vai ser bom demais. Mas alguém me explica por que a gente tá com roupas tão sem graça?

— Porque se chegar de tênis branco, acham que é turista. — Ana Alice rebateu com seriedade exagerada — Você não estudou nada sobre o Rio?

— Estudar o que? Só quero curtir — ela cruzou as pernas e bocejou — só quero encontrar o meu carioca, posso aceitar até uma carioca se o sotaque dela for bem arrastado.

Helena apenas ria, o rosto encostado no vidro, sentindo. Estava ali com eles, mas parte dela… já estava no Rio, junto a ele.

Ela pegou o celular, respirou fundo e escreveu:

Helena :

tô indo. me espera só mais um pouquinho.


Só de digitar, sentiu o rosto esquentar.

Como se o toque dele já estivesse ali, mesmo que só em pensamento.

Após a viagem de ônibus, foram para o aeroporto, eles nunca tinham ido a um antes, era incrível. Era grande, gelado e bonito demais.

Julia fez questão de filmar tudo. Hugo carregava os snacks e Ana Alice coordenava as filas como se fosse chefe de excursão.

Quando foram retirar os bilhetes, tudo seguiu normal… até Helena ver o dela.

— Ué…

— O que foi? — perguntou Ana Alice, encostando no balcão.

— Minha poltrona é… 1A? — Helena franziu o cenho. — Isso é na frente, né?

A atendente confirmou com um sorriso.

— Primeira classe, senhorita Helena Ribeiro Campos.

— COMO É QUE É?! — Julia quase gritou.

— Você tá indo de primeira classe? — Hugo soltou um assovio. — Eu tô trabalhando errado, pô.

Helena ficou vermelha como pimenta.

— Eu… eu juro que não sabia disso, gente. Deve ser engano.

— Aham. — disse Ana Alice, revirando os olhos com um sorrisinho cínico. — CEO mimando a funcionária é outro nível. Mas, SÓ uma funcionária.

— Ele nem me falou nada. — Helena rebateu, ajeitando o moletom e o cabelo.

Mas o rosto já estava completamente corado.

Julia abraçou ela.

— Amiga, se eles te oferecerem champanhe, aceita por nós três, tá?

— Leva a gente na bagagem de mão — brincou Hugo, empurrando ela.

Helena se despediu dos três com um abraço apertado.

Então foi.

A primeira classe era outra realidade.

O corredor era mais largo. O banco… não era banco. Era quase uma cama.

Tinha uma tela gigante. Luz baixa. Tudo silencioso, perfumado e elegante.

O comissário a chamou pelo sobrenome e ofereceu uma bebida.

Ela se sentou na janela.

Do lado… ninguém.

Sozinha. Mas estranhamente feliz.

Ela pegou o celular e digitou:


Helena :

eu não faço ideia como fui parar na primeira classe…

Demorou menos de um minuto.

Heitor🥰💖 :

a econômica tava lotada, amor.

tive que me virar. 🤷🏻‍♂️


Ela mordeu o lábio, segurando o sorriso.

Digitou:


Helena :

sei…

Heitor🥰💖 :

🕊️

não sei do que tu tá falando.

Helena :

anjo demais você.

Heitor🥰💖 :

aproveita cada detalhe.

tu merece o melhor.

te espero aqui. já contando os segundos.


Helena encostou a cabeça na poltrona. As turbinas começaram a roncar e ela segurou firme no apoio lateral. Estava com medo. Ela estava indo para outro estado, outro mundo, o mundo de Heitor. Aquilo era motivo o suficiente para ter medo. Mas, não era todo o motivo, também havia a nova função, era o projeto dela afinal e também era a primeira vez dela em um voo.

Mas, ela tinha uma certeza, “Ele vai estar lá”.

Helena sentia o cheiro do seu perfume favorito e isso trouxe familiaridade.

Era o perfume que ele gostava. Aquele floral com um fundo doce, que Heitor sempre dizia que dava vontade de "morder ela todinha".

Ela deu um sorrisinho só de lembrar da voz dele dizendo aquilo. Aquela voz grossa com sotaque carioca e as intenções escondidas por trás de cada palavra.

Vestia uma calça pantalona de linho clara — elegante, fluida, que marcava a cintura e alongava as pernas.

Por baixo do moletom, uma regata de seda preta com alcinhas finas e decote suave.

Nada vulgar, mas também nada comportado demais.

Ela puxou o moletom para baixo, sorriu vendo o moletom branco felpudo da RALPH LAUREN com o urso de óculos e segurando uma pasta. Era muito fofo e confortável, e mesmo ela já tendo se apossado do moletom, parecia que ainda tinha o cheiro dele.

A pele estava bonita, com brilho natural. As sardinhas tão raras no tom da pele dela no nariz e nas bochechas que Heitor tanto gostava.

Ela ajeitou o cabelo até ele formar aquelas ondas volumosas do jeito que gostava, valeu a pena todo o esforço que ela teve em realizar o cronograma certinho no cabelo, ele parecia até menos rebelde agora. Os lábios brilhavam com o gloss, que ela estava ansiosa para que saísse todo com o beijo.

Ela não estava exagerada.

Ela só queria estar linda. Pra ele.

E ela sabia que estava.

Quando o avião se preparou pra decolar, Helena segurou a poltrona de couro como quem segura a mão de alguém invisível.

Fechou os olhos por segundos.

O coração bateu mais rápido — era medo, era ansiedade, era saudade e tudo ao mesmo tempo.

A sensação do avião subir foi de uma sensação ruim que ela nunca imaginou sentir. Mas logo o avião estabilizou e ela também.

A primeira classe era um universo à parte.

Ela recebeu um cardápio, um espumante rosé numa taça de verdade, e um fone de ouvido tão macio que parecia travesseiro. Ela conseguia esticar as pernas e estava muito confortável, como se estivesse no sofá da casa de Heitor.

Tirou algumas fotos discretas — da comida, da poltrona, do champanhe, da cabine e da paisagem a cima das nuvens.

Mandou no grupo dos amigos:


Helena :

tô virando elite, viu.

vem alguém me buscar antes que eu comece a pedir água com gás e fatias de limão siciliano.

Juju Perigosa :

JÁ ERA. Helena Monteiro.

Huguinho Beleza :

Por mim, tudo bem. Só manda champanhe pela janelinha. 😭

Ana Alice :

A próxima foto que enviar o, eu denuncio pro compliance.


Ela riu, de verdade.

Se sentia leve.

Contente.

E principalmente… ansiosa.

Fechou os olhos um pouco e ficou pensando no rosto dele.

No jeito que ele a olhava como se tivesse encontrado algo precioso demais no meio do mundo.

Era isso. Era por isso que ela estava ali.

O avião tocou o chão em São Paulo para a parada programada.

A primeira classe manteve a luz baixa. Os comissários conversavam em tom quase de biblioteca.

Helena mexia no celular, vendo fotos antigas dos dois, com o coração quente.

Foi quando percebeu um movimento à frente.

Alguém novo entrou.

Um homem.

Ele passou pelo corredor com passos firmes, mas despreocupados. O tipo de passo de quem sabe que pode ocupar qualquer espaço.

Era alto e não parecia ser forte.

Cabelos loiros curtos, muito bem cortados, penteados para o lado.

Barba cheia, impecavelmente alinhada, com alguns fios brancos que davam um charme experiente.

A pele era tão branca que tinha até uns vergões vermelhos, o nariz bem traçado e os olhos verdes muito claros.

Tinha uma cicatriz fina, profunda e marcante: descia da sobrancelha direita até a parte alta da maçã do rosto — cortando o olhar de um jeito quase ameaçador.

Vestia jeans escuro, camisa branca por dentro e uma jaqueta de couro marrom clara discreta.

Nos pés, sapatênis italianos de couro. No pulso, um relógio que lembrava os que Heitor usava.

Ele olhou ao redor.

Seus olhos passaram pelos dela, foram rápidos e afiados. Com um toque de julgamento.

Helena, por educação, deu um leve aceno com a cabeça e murmurou:

— Boa tarde.

Ele retribuiu com o que parecia um quase-sorriso de canto de boca.

— Boa tarde.

Sua voz era firme e baixa.

Cortante como gelo bem servido num copo de cristal.

Helena não gostou da presença ali.

Algo nele… pesava.

Não era feio. Muito pelo contrário. Era charmoso e confiante, do tipo que todas as revistas masculinas colocam como modelo.

Mas era o olhar.

O jeito de sentar com os joelhos afastados demais.

O silêncio pretensioso.

Como se dissesse: “Eu sei quem sou. E todos também sabem.”

Ele ocupou a poltrona ao lado dela.

Helena se ajeitou no banco. Passou o dedo na tela do celular e tentou não parecer incomodada. Mas, o incômodo era enorme.

Desconforto por estar dividindo o espaço que, até segundos atrás, parecia só dela. E de Heitor, mesmo que à distância. Agora um outro homem estava ali.

Mas tudo bem.

Ela ajeitou o cabelo.

Desviou o olhar.

E pensou nele de novo.

No sorriso largo, nos olhos azuis que a despem com carinho, na voz que a chama de Helê, no toque firme e carinhoso, e os beijos, aquele jeito de beijar que a fazia se entregar na mesma hora.

Ela mal podia esperar pra descer daquele avião e cair direto nos braços dele.