O silêncio na primeira classe era luxuoso. O ar-condicionado na temperatura certa.

Mas Helena já não estava tão à vontade desde a parada em São Paulo. O homem que agora ocupava a poltrona ao lado da dela mantinha os olhos quase sempre no tablet, às vezes olhando pela janela, mas vez ou outra... desviava o olhar para ela.

Ela fingia que não notava.

Acabou bisbilhotando o que ele via no tablet, eram gráficos. Ela não conseguiu ler sobre o que eram. Não queria ser enxerida, mas a tela parecia estar no brilho máximo. Ou ele queria a incomodar ou não se importava se incomodava alguém.

Até que ele quebrou o silêncio:

— Mineira, né?

Helena ergueu uma sobrancelha, virando o rosto devagar.

Ele estava com o braço apoiado no encosto, relaxado e o tablet descansando no colo. A voz era firme, sem exageros e com um sotaque carioca que ela reconheceria em qualquer lugar.

— Sou. — respondeu com neutralidade. — Por quê?

Ele virou o rosto na direção dela, com aquele sorriso que os homens fazem quando acham que estão sendo charmosos.

— Dá pra ver pela postura... e pelo jeito de falar, principalmente esse “por quê” — ele repete a última imitando o jeito dela falar.

Helena o olhou com atenção agora. O tom não parecia agressivo. Mas também não era um elogio óbvio.

— E isso é bom ou ruim?

— É só um fato. — ele respondeu com um ar contido — Gosto de observar as pessoas.

— Que bom. Eu gosto de mandar se catar, mas só quando preciso. — rebateu com o jeito afiado tão característico dela.

Ela se virou de volta para a janela, com uma expressão séria.

O homem soltou um riso curto, claramente surpreso com a resposta. Ele se ajeitou um pouco na poltrona.

— Gostei disso. Não é comum ouvir algo assim... — a voz dele começo a soar divertida — Bem diferente do que falam sobre os mineiros, achei que fossem gentis e receptivos.

Helena não riu. Nem moveu a cabeça. Mas o canto da boca subiu um milímetro.

— Sou do Rio. — ele continuou, como se quisesse manter a conversa. — Vim a São Paulo a negócios.

Ela assentiu levemente, ainda olhando pela janela.

— Imagino.

— E você? — ele perguntou, virando mais o corpo na direção dela. — Está indo ao Rio a passeio?

Helena virou só o suficiente pra encará-lo de novo, o cotovelo apoiado na janela e a mão no queixo.

— Estou indo encontrar meu namorado. E tratar de negócios também.

Foi educada e clara, mas seca.

Ele observou a resposta. Por um segundo, pareceu arquivar a informação como quem guarda um dado importante para usar depois.

Mas logo sorriu, como se estivesse apenas se divertindo.

— Equilíbrio entre vida pessoal e trabalho. Nada mal.

— É. Mas no meu caso, os dois são meio difíceis de equilibrar. — disse, cruzando as pernas com elegância.

Ela não gostava de como ele olhava.

Esse cara… olhava como quem avalia. E ela não era um produto pra avaliação.

Ele inclinou um pouco a cabeça, fingindo interesse casual.

— Trabalha com quê?

— Risco. — respondeu sem hesitar. — Analista de riscos. Mas também avalio projetos e operações. Coisas assim.

— Ah. — Ele parecia genuinamente surpreso. — Inteligente também.

Fez uma pausa.

— O mundo anda carente de mulheres inteligentes com senso de humor.

Helena deu um sorriso polido.

— E cheio de homens que acham que mulheres inteligentes estão aqui pra entreter o tédio deles.

O homem se recostou, quase rindo.

— Você realmente é diferente. Tudo que fala parece um ataque.

— Eu sou assim. — disse, olhando pela janela. — Eu tenho um faro bom para pessoas.

Ele a observou por um tempo, como se buscasse decorar as expressões dela.

— E o faro tá dizendo o quê agora?

Ela respirou fundo, o olhar deslizou até o dele.

— Que você é do tipo que tá acostumado a brincar de charmoso, mas não tá preparado quando a mulher não joga o mesmo jogo.

Ele manteve o sorriso.

Mas dessa vez… o olhar vacilou.

Helena voltou os olhos pro céu lá fora.

Mas, por dentro, pensava em outra coisa. Em outro homem.

O único que ela queria ver naquele momento.

O único que fazia o coração bater mais rápido só de ouvir a respiração do outro lado da linha.

E ele... certamente não estava sentado ali ao lado.

Suspirou com um sorriso imaginando como Heitor agiria se estivesse ali, com toda certeza o homem inconveniente não a teria a abordado. Ela adoraria estar deitada no ombro dele.

Após um tempo, a janela já estava coberta.

Helena não queria ver o céu, nem o reflexo dele no vidro. Preferia manter a atenção na playlist que tocava nos fones de ouvido — ou fingir que mantinha. A presença dele ao lado era incômoda, e o pior era que ele sabia disso… e parecia gostar.

— Seu namorado é do Rio também? — ele perguntou, casual, como quem pergunta o tempo lá fora.

Helena tirou um lado do fone e soltou um suspiro sutil.

— É. E diferente de você, ele tem noção de espaço.

— Isso parece quase um elogio. — respondeu, rindo baixo.

— Ou uma ameaça. Vai saber.

Ela se virou bruscamente para ele.

— Sabe o que eu acho curioso? Até motorista de Uber entende quando o passageiro não quer conversar. Só que você parece ter dificuldade com isso.

— Talvez porque eu não seja motorista. — respondeu com aquele tom divertido, quase professoral — E talvez… porque você não é tão silenciosa quanto acha que é.

Helena bufou.

— Você tá se esforçando muito pra parecer interessante.

— E você… tá se esforçando muito pra fingir que não tá interessada. — ele rebateu com um olhar enviesado.

Ela se ajeitou na poltrona e cruzou os braços.

— Não tô aqui pra discutir isso com você.

— Nem parece.

Ele entrelaçou os dedos uns nos outros em cima da perna.

— Estou satisfeito. Precisava me distrair um pouco — a voz dele soou de forma alegre e ela revirou os olhos.

Houve silêncio por alguns segundos. Ela quase voltou a colocar os dois fones de volta quando ele soltou outra.

— Sabe, deve ser sorte do seu namorado…

— Hm? — não o olhou.

— Ter uma mulher que sabe morder com palavras. Imagina com a boca.

Helena virou de vez, agora com o olhar em chamas.

O sorriso debochado dele congelou por meio segundo.

— Escuta aqui. O meu namorado é muito bravo. Muito mesmo. E ele vai estar me esperando no aeroporto.

Ela pausou. O olhar afiado. E tentando não esganar o homem ali mesmo.

— Então a última coisa que você devia fazer é tentar jogar charme barato pra cima de mim, porque não é com ele que vai ter que se preocupar. É comigo, eu sou bem pior.

Ele a analisou, como se atualizasse internamente as reações dela. Havia algo no olhar...

Curiosidade? Satisfação? Helena não sabia. Mas não gostou.

— Falei só por falar. — respondeu. — Mas... sorte dele mesmo.

E se recostou de novo na poltrona, como se o silêncio fosse uma vitória.

Helena não entendia a insistência daquele homem. Ele não via a aliança na mão dela? O jeito que ela respondia? Era como diziam, “é só começar a namorar que aparece homem de todos os lados”. Normalmente aquele tipo de homem nunca falaria com ela. Provavelmente nem Heitor teria se interessado por ela se ela não tivesse o confundido naquele dia.

Uma pontada de dor atingiu o coração dela, será que se fosse em outra circunstância ele teria se interessado por ela? Tentou não prolongar o pensamento, não era o momento para insegurança. Mas, aquele sentimento ganhou um pequeno espaço nela e a cutucava de uma forma insistente.

O monitor para o assento dela se acendeu, navegou pelos títulos sem ter certeza do que estava procurando, o rosto iluminado pela luz azulada da tela.

Talvez ela precisasse rir um pouco, colocou “As Branquelas” e sincronizou o fone.

O homem se inclinou levemente o corpo para o lado, como quem não tem vergonha de bisbilhotar. Helena sentiu o sangue ferver.

— Vai escolher esse aí mesmo? — ele perguntou, com a voz baixa e arrastada, apontando com o queixo para a tela.

Helena respirou fundo antes de responder, sem virar o rosto:

— Vai assistir junto agora?

— Impossível, tá sem legenda. — ele sorri de canto — Mas eu sei quase todas as falas, posso narrar para você.

Helena revirou os olhos, colocou as legendas e respondeu seca:

— Pronto. Agora não precisa mais fingir que é dublador.

O homem riu baixo. Encostou a cabeça de lado, o braço firme apoiado no descanso entre eles.

— Achei que fosse do tipo que escolhe o idioma original. Mineira inteligente, mas com refinamento. Ou errei?

Helena solta um risinho forçado, cruza as pernas e ajeita o lenço no colo.

— Tá jogando charme ou fazendo um levantamento sociocultural?

— Só tentando entender como você equilibra esse sotaque doce com esse olhar matador. Vou te dar um desconto, impossível ver esse filme em alguma língua que não seja o português.

Ela girou devagar a cabeça para encará-lo.

— Dá pra ver que você tá acostumado com mulher que ri de qualquer coisa que você fala mesmo.

— E você parece acostumada a dar murro em gente que tenta ser simpático.

— Simpático não. Inconveniente. E tem uma diferença enorme.

O homem não perde o tom de voz, mas agora o olhar pesa um pouco mais.

— Já me disseram que eu passo do ponto às vezes.

— Devia começar a ouvir, então.

Helena finge voltar os olhos para a tela, mesmo não gostando do homem, tinha que admitir que era uma excelente distração. Ele sorria com os lábios, o tipo de sorriso de quem está se divertindo sendo odiado.

Assistiram um pouco do filme, de certa forma, assistiram juntos. Riram nos mesmos momentos e das mesmas piadas. E por algum tempo, Helena até esqueceu que detestava aquele cara.

Então ele se inclinou um pouco, a voz quase confidencial:

— Posso te contar um segredo?

Ela hesitou, antes de falar:

— Melhor não.

— Você me lembra alguém. Mas não sei quem. É estranhamente familiar. Seu rosto sabe?

— Provavelmente alguém que não aguentou esse papo chato seu.

O homem soltou uma risada seca, como se tivesse levado um tapa de luva.

— Você é afiada, moça.

— E você é insistente.

— No meu mundo… quem não insiste, perde. — ele diz, erguendo a garrafa de água oferecido pela comissária.

Helena cruzou os braços, os olhos presos na tela como quem força a atenção.

Mas lá no fundo… ela também sorriu, só um pouquinho. Como quem reconhece um bom jogo de cintura — mesmo que não vá jogar junto.

Pensou em Heitor e apertou levemente o braço do assento, como se pudesse senti-lo ali. Estava com saudade.

Foi quando ouviu uma voz vindo de trás de seu banco:

— Moça… com licença. Acho que meu fone caiu aí pra baixo do seu assento.

Helena se virou, viu o homem — um senhor distinto, de cabelo grisalho bem arrumado e óculos finos — tentando espiar pelo vão entre as poltronas.

— Claro, sem problema — ela respondeu, abaixando-se de leve.

Abaixou-se com elegância, puxou a mochila para o lado e, com a mão rápida, pegou o pequeno estojo do fone. Voltou-se para ele com um sorriso gentil, como quem aprendeu desde cedo a ser educada com todo mundo.

— Aqui está. Ainda bem que não escorregou muito. — Ela estendeu o estojo.

— Obrigado, minha querida. Muito gentil. — Ele sorriu de volta. Depois lançou um olhar para o homem ao lado dela, assentindo como quem reconhece alguém do mesmo nível social — Parabéns, viu? Sua esposa é muito bem criada.

Helena congelou.

— Desculpa...?

O homem percebeu tarde demais. Helena já estava o olhando com a sobrancelha arqueada e o sorrisinho torto no canto da boca — o famoso “sorriso de raiva” que anunciava tempestade.

Antes que ela falasse qualquer coisa, seu ‘companheiro’ de viagem interveio:

— É… Eu tenho sorte, né? — disse ele, com um sorrisinho satisfeito, quase preguiçoso — Além de bonita, brava, é educada. O pacote completo.

Helena virou lentamente a cabeça pra ele, com um olhar de fúria contida.

— Quer morrer?

O homem deu uma risada baixa, de quem se diverte no perigo.

— Só se for pela sua mão, amor.

Helena estalou a língua com irritação e se virou para o senhor:

— Não sou esposa de ninguém aqui, senhor. Só sou educada. Mas obrigada.

— Perdão, perdão. Foi só impressão… — disse o homem, envergonhado, ajeitando o paletó. — Vocês têm um… entrosamento. Desculpe o mal-entendido.

Helena forçou um sorriso, educada como sempre. Mas voltou a encostar no banco, bufando pelo nariz. Cruzou os braços, e então:

— Você devia ter desmentido. — disse sem olhar pra ele.

O homem deu de ombros, com um meio sorriso no rosto.

— E perder a chance de te ver assim? Brava de verdade? Nem pensar. Com meu sincero respeito, você continua linda.

— Nossa, você é tão... nojento.

— E você é linda até com raiva. O que me deixa muito em desvantagem aqui.

Helena o olhou de soslaio, os olhos semicerrados. Não respondeu. Preferiu apenas se inclinar mais na poltrona e ajustar o fone de ouvido.

O restante do voo seguiu em silêncio.

Helena, firme no que realmente importava, passou a revisar os arquivos do projeto no celular, lendo as anotações que fizera nas últimas semanas. Abriu o bloco de notas, reorganizou argumentos, releu os tópicos de apresentação. Sabia que o impacto daquele relatório no Rio poderia alavancar sua carreira, e não ia deixar nenhum homem inconveniente estragar o foco dela.

Mesmo assim… aproveitou tudo que a primeira classe oferecia. A bebida gelada. A refeição bem servida. O espaço para esticar as pernas. O ‘silêncio’. E, principalmente, a possibilidade de responder à mensagem de Heitor com calma, em privacidade.

“Tô quase aí… já tô arrumando o cabelo”, escreveu.

“Estou morto de saudades desse seu cabelo cheiroso”, ele respondeu. “Quero te ver. A mulher mais linda do aeroporto inteiro, e que é inteiramente minha.”

Ela sorriu para si mesma.

Quando o piloto avisou que estavam em processo de descida no Aeroporto Santos Dumont, o coração de Helena bateu mais forte.

A ansiedade subiu pela garganta de um jeito doce e quente.

Ela tirou o moletom, ajeitou a blusa de alça mais ajustada ao corpo. Passou um pouco de gloss nos lábios e ajeitou o cabelo. Os fios caíram em ondas, de jeito que ela sabia que o faria engolir em seco.

Ao lado, o homem misterioso — que não havia desistido completamente — observava tudo, rindo consigo.

— Tá se arrumando pra mim, né? — ele brincou, com aquele sorriso entortado de quem já sabia a resposta, mas não se importava.

Helena revirou os olhos.

— Não. Tô me arrumando pro meu namorado. — falou sem tirar os olhos do espelhinho.

Ele soltou uma risada abafada, voltando a cadeira.

— Gosto desse seu jeito. Brava.

— Ótimo. Então guarda de lembrança. Porque a gente nunca mais vai se ver.

O avião começou a perder altitude e uma sensação inundou o estomago de Helena, os ouvidos pareciam estar tampados. Aquilo não parecia normal, o corpo enrijeceu e ela segurou com força o encosto. A respiração ficou ofegante.

Sentiu então sua mão ser desgrudada do encosto. O homem ao seu lado a segurou entre as duas mãos e a massageou de uma forma que a fez esquecer que podia estar morrendo agora. Ela o olhou com dificuldade, o pescoço ainda duro da tensão.

— Essa sensação, é normal — ele disse enquanto olhava e massageava as mãos dela, a voz dele parecia trazer certa segurança — a primeira vez é assustadora mesmo, depois você se acostuma.

Ele enfim a olhou nos olhos, o polegar dele deslizava entre a palma da mão dela.

— Minha mãe fez isso com a minha mão na primeira vez que eu voei. — o sorriso dele agora era gentil e acolhedor — Percebeu? Você nem está se concentrando mais na sensação.

Quando o avião finalmente pousou, Helena puxou a mão rapidamente.

— Obrigada...

— Não precisa agradecer, você foi muito corajosa por voar sozinha pela primeira vez.

Ela balançou o rosto e se levantou.

Pegou a mochila e fez um gesto para o homem encolher as pernas. Quando saiu enfim do assento, o homem ao lado se inclinou um pouco.

— Posso saber seu nome agora?

Helena se virou devagar. Olhou bem nos olhos dele — friamente — e disse:

— Não.

Ele deu um sorriso torto, não se ofendendo como a maioria.

— Entendi.

Ele ajeitou a jaqueta, pegou o próprio celular e, com um aceno breve e sem expressão, disse:

— Boa sorte com o que vier pela frente.

Helena respondeu com o mesmo tom:

— Obrigada. E, sinceramente? Achei que a primeira classe seria melhor.

Virou-se antes que ele dissesse qualquer coisa.

Ela não olhou para trás.

Porque já sabia quem estava à frente.

E era por ele que o coração dela estava batendo tão forte agora.