O CEO que Eu Paguei
121 No voo
O silêncio na primeira classe era luxuoso. O ar-condicionado na temperatura certa.
Mas Helena já não estava tão à vontade desde a parada em São Paulo. O homem que agora ocupava a poltrona ao lado da dela mantinha os olhos quase sempre no tablet, às vezes olhando pela janela, mas vez ou outra... desviava o olhar para ela.
Ela fingia que não notava.
Acabou bisbilhotando o que ele via no tablet, eram gráficos. Ela não conseguiu ler sobre o que eram. Não queria ser enxerida, mas a tela parecia estar no brilho máximo. Ou ele queria a incomodar ou não se importava se incomodava alguém.
Até que ele quebrou o silêncio:
— Mineira, né?
Helena ergueu uma sobrancelha, virando o rosto devagar.
Ele estava com o braço apoiado no encosto, relaxado e o tablet descansando no colo. A voz era firme, sem exageros e com um sotaque carioca que ela reconheceria em qualquer lugar.
— Sou. — respondeu com neutralidade. — Por quê?
Ele virou o rosto na direção dela, com aquele sorriso que os homens fazem quando acham que estão sendo charmosos.
— Dá pra ver pela postura... e pelo jeito de falar, principalmente esse “por quê” — ele repete a última imitando o jeito dela falar.
Helena o olhou com atenção agora. O tom não parecia agressivo. Mas também não era um elogio óbvio.
— E isso é bom ou ruim?
— É só um fato. — ele respondeu com um ar contido — Gosto de observar as pessoas.
— Que bom. Eu gosto de mandar se catar, mas só quando preciso. — rebateu com o jeito afiado tão característico dela.
Ela se virou de volta para a janela, com uma expressão séria.
O homem soltou um riso curto, claramente surpreso com a resposta. Ele se ajeitou um pouco na poltrona.
— Gostei disso. Não é comum ouvir algo assim... — a voz dele começo a soar divertida — Bem diferente do que falam sobre os mineiros, achei que fossem gentis e receptivos.
Helena não riu. Nem moveu a cabeça. Mas o canto da boca subiu um milímetro.
— Sou do Rio. — ele continuou, como se quisesse manter a conversa. — Vim a São Paulo a negócios.
Ela assentiu levemente, ainda olhando pela janela.
— Imagino.
— E você? — ele perguntou, virando mais o corpo na direção dela. — Está indo ao Rio a passeio?
Helena virou só o suficiente pra encará-lo de novo, o cotovelo apoiado na janela e a mão no queixo.
— Estou indo encontrar meu namorado. E tratar de negócios também.
Foi educada e clara, mas seca.
Ele observou a resposta. Por um segundo, pareceu arquivar a informação como quem guarda um dado importante para usar depois.
Mas logo sorriu, como se estivesse apenas se divertindo.
— Equilíbrio entre vida pessoal e trabalho. Nada mal.
— É. Mas no meu caso, os dois são meio difíceis de equilibrar. — disse, cruzando as pernas com elegância.
Ela não gostava de como ele olhava.
Esse cara… olhava como quem avalia. E ela não era um produto pra avaliação.
Ele inclinou um pouco a cabeça, fingindo interesse casual.
— Trabalha com quê?
— Risco. — respondeu sem hesitar. — Analista de riscos. Mas também avalio projetos e operações. Coisas assim.
— Ah. — Ele parecia genuinamente surpreso. — Inteligente também.
Fez uma pausa.
— O mundo anda carente de mulheres inteligentes com senso de humor.
Helena deu um sorriso polido.
— E cheio de homens que acham que mulheres inteligentes estão aqui pra entreter o tédio deles.
O homem se recostou, quase rindo.
— Você realmente é diferente. Tudo que fala parece um ataque.
— Eu sou assim. — disse, olhando pela janela. — Eu tenho um faro bom para pessoas.
Ele a observou por um tempo, como se buscasse decorar as expressões dela.
— E o faro tá dizendo o quê agora?
Ela respirou fundo, o olhar deslizou até o dele.
— Que você é do tipo que tá acostumado a brincar de charmoso, mas não tá preparado quando a mulher não joga o mesmo jogo.
Ele manteve o sorriso.
Mas dessa vez… o olhar vacilou.
Helena voltou os olhos pro céu lá fora.
Mas, por dentro, pensava em outra coisa. Em outro homem.
O único que ela queria ver naquele momento.
O único que fazia o coração bater mais rápido só de ouvir a respiração do outro lado da linha.
E ele... certamente não estava sentado ali ao lado.
Suspirou com um sorriso imaginando como Heitor agiria se estivesse ali, com toda certeza o homem inconveniente não a teria a abordado. Ela adoraria estar deitada no ombro dele.
Após um tempo, a janela já estava coberta.
Helena não queria ver o céu, nem o reflexo dele no vidro. Preferia manter a atenção na playlist que tocava nos fones de ouvido — ou fingir que mantinha. A presença dele ao lado era incômoda, e o pior era que ele sabia disso… e parecia gostar.
— Seu namorado é do Rio também? — ele perguntou, casual, como quem pergunta o tempo lá fora.
Helena tirou um lado do fone e soltou um suspiro sutil.
— É. E diferente de você, ele tem noção de espaço.
— Isso parece quase um elogio. — respondeu, rindo baixo.
— Ou uma ameaça. Vai saber.
Ela se virou bruscamente para ele.
— Sabe o que eu acho curioso? Até motorista de Uber entende quando o passageiro não quer conversar. Só que você parece ter dificuldade com isso.
— Talvez porque eu não seja motorista. — respondeu com aquele tom divertido, quase professoral — E talvez… porque você não é tão silenciosa quanto acha que é.
Helena bufou.
— Você tá se esforçando muito pra parecer interessante.
— E você… tá se esforçando muito pra fingir que não tá interessada. — ele rebateu com um olhar enviesado.
Ela se ajeitou na poltrona e cruzou os braços.
— Não tô aqui pra discutir isso com você.
— Nem parece.
Ele entrelaçou os dedos uns nos outros em cima da perna.
— Estou satisfeito. Precisava me distrair um pouco — a voz dele soou de forma alegre e ela revirou os olhos.
Houve silêncio por alguns segundos. Ela quase voltou a colocar os dois fones de volta quando ele soltou outra.
— Sabe, deve ser sorte do seu namorado…
— Hm? — não o olhou.
— Ter uma mulher que sabe morder com palavras. Imagina com a boca.
Helena virou de vez, agora com o olhar em chamas.
O sorriso debochado dele congelou por meio segundo.
— Escuta aqui. O meu namorado é muito bravo. Muito mesmo. E ele vai estar me esperando no aeroporto.
Ela pausou. O olhar afiado. E tentando não esganar o homem ali mesmo.
— Então a última coisa que você devia fazer é tentar jogar charme barato pra cima de mim, porque não é com ele que vai ter que se preocupar. É comigo, eu sou bem pior.
Ele a analisou, como se atualizasse internamente as reações dela. Havia algo no olhar...
Curiosidade? Satisfação? Helena não sabia. Mas não gostou.
— Falei só por falar. — respondeu. — Mas... sorte dele mesmo.
E se recostou de novo na poltrona, como se o silêncio fosse uma vitória.
Helena não entendia a insistência daquele homem. Ele não via a aliança na mão dela? O jeito que ela respondia? Era como diziam, “é só começar a namorar que aparece homem de todos os lados”. Normalmente aquele tipo de homem nunca falaria com ela. Provavelmente nem Heitor teria se interessado por ela se ela não tivesse o confundido naquele dia.
Uma pontada de dor atingiu o coração dela, será que se fosse em outra circunstância ele teria se interessado por ela? Tentou não prolongar o pensamento, não era o momento para insegurança. Mas, aquele sentimento ganhou um pequeno espaço nela e a cutucava de uma forma insistente.
O monitor para o assento dela se acendeu, navegou pelos títulos sem ter certeza do que estava procurando, o rosto iluminado pela luz azulada da tela.
Talvez ela precisasse rir um pouco, colocou “As Branquelas” e sincronizou o fone.
O homem se inclinou levemente o corpo para o lado, como quem não tem vergonha de bisbilhotar. Helena sentiu o sangue ferver.
— Vai escolher esse aí mesmo? — ele perguntou, com a voz baixa e arrastada, apontando com o queixo para a tela.
Helena respirou fundo antes de responder, sem virar o rosto:
— Vai assistir junto agora?
— Impossível, tá sem legenda. — ele sorri de canto — Mas eu sei quase todas as falas, posso narrar para você.
Helena revirou os olhos, colocou as legendas e respondeu seca:
— Pronto. Agora não precisa mais fingir que é dublador.
O homem riu baixo. Encostou a cabeça de lado, o braço firme apoiado no descanso entre eles.
— Achei que fosse do tipo que escolhe o idioma original. Mineira inteligente, mas com refinamento. Ou errei?
Helena solta um risinho forçado, cruza as pernas e ajeita o lenço no colo.
— Tá jogando charme ou fazendo um levantamento sociocultural?
— Só tentando entender como você equilibra esse sotaque doce com esse olhar matador. Vou te dar um desconto, impossível ver esse filme em alguma língua que não seja o português.
Ela girou devagar a cabeça para encará-lo.
— Dá pra ver que você tá acostumado com mulher que ri de qualquer coisa que você fala mesmo.
— E você parece acostumada a dar murro em gente que tenta ser simpático.
— Simpático não. Inconveniente. E tem uma diferença enorme.
O homem não perde o tom de voz, mas agora o olhar pesa um pouco mais.
— Já me disseram que eu passo do ponto às vezes.
— Devia começar a ouvir, então.
Helena finge voltar os olhos para a tela, mesmo não gostando do homem, tinha que admitir que era uma excelente distração. Ele sorria com os lábios, o tipo de sorriso de quem está se divertindo sendo odiado.
Assistiram um pouco do filme, de certa forma, assistiram juntos. Riram nos mesmos momentos e das mesmas piadas. E por algum tempo, Helena até esqueceu que detestava aquele cara.
Então ele se inclinou um pouco, a voz quase confidencial:
— Posso te contar um segredo?
Ela hesitou, antes de falar:
— Melhor não.
— Você me lembra alguém. Mas não sei quem. É estranhamente familiar. Seu rosto sabe?
— Provavelmente alguém que não aguentou esse papo chato seu.
O homem soltou uma risada seca, como se tivesse levado um tapa de luva.
— Você é afiada, moça.
— E você é insistente.
— No meu mundo… quem não insiste, perde. — ele diz, erguendo a garrafa de água oferecido pela comissária.
Helena cruzou os braços, os olhos presos na tela como quem força a atenção.
Mas lá no fundo… ela também sorriu, só um pouquinho. Como quem reconhece um bom jogo de cintura — mesmo que não vá jogar junto.
Pensou em Heitor e apertou levemente o braço do assento, como se pudesse senti-lo ali. Estava com saudade.
Foi quando ouviu uma voz vindo de trás de seu banco:
— Moça… com licença. Acho que meu fone caiu aí pra baixo do seu assento.
Helena se virou, viu o homem — um senhor distinto, de cabelo grisalho bem arrumado e óculos finos — tentando espiar pelo vão entre as poltronas.
— Claro, sem problema — ela respondeu, abaixando-se de leve.
Abaixou-se com elegância, puxou a mochila para o lado e, com a mão rápida, pegou o pequeno estojo do fone. Voltou-se para ele com um sorriso gentil, como quem aprendeu desde cedo a ser educada com todo mundo.
— Aqui está. Ainda bem que não escorregou muito. — Ela estendeu o estojo.
— Obrigado, minha querida. Muito gentil. — Ele sorriu de volta. Depois lançou um olhar para o homem ao lado dela, assentindo como quem reconhece alguém do mesmo nível social — Parabéns, viu? Sua esposa é muito bem criada.
Helena congelou.
— Desculpa...?
O homem percebeu tarde demais. Helena já estava o olhando com a sobrancelha arqueada e o sorrisinho torto no canto da boca — o famoso “sorriso de raiva” que anunciava tempestade.
Antes que ela falasse qualquer coisa, seu ‘companheiro’ de viagem interveio:
— É… Eu tenho sorte, né? — disse ele, com um sorrisinho satisfeito, quase preguiçoso — Além de bonita, brava, é educada. O pacote completo.
Helena virou lentamente a cabeça pra ele, com um olhar de fúria contida.
— Quer morrer?
O homem deu uma risada baixa, de quem se diverte no perigo.
— Só se for pela sua mão, amor.
Helena estalou a língua com irritação e se virou para o senhor:
— Não sou esposa de ninguém aqui, senhor. Só sou educada. Mas obrigada.
— Perdão, perdão. Foi só impressão… — disse o homem, envergonhado, ajeitando o paletó. — Vocês têm um… entrosamento. Desculpe o mal-entendido.
Helena forçou um sorriso, educada como sempre. Mas voltou a encostar no banco, bufando pelo nariz. Cruzou os braços, e então:
— Você devia ter desmentido. — disse sem olhar pra ele.
O homem deu de ombros, com um meio sorriso no rosto.
— E perder a chance de te ver assim? Brava de verdade? Nem pensar. Com meu sincero respeito, você continua linda.
— Nossa, você é tão... nojento.
— E você é linda até com raiva. O que me deixa muito em desvantagem aqui.
Helena o olhou de soslaio, os olhos semicerrados. Não respondeu. Preferiu apenas se inclinar mais na poltrona e ajustar o fone de ouvido.
O restante do voo seguiu em silêncio.
Helena, firme no que realmente importava, passou a revisar os arquivos do projeto no celular, lendo as anotações que fizera nas últimas semanas. Abriu o bloco de notas, reorganizou argumentos, releu os tópicos de apresentação. Sabia que o impacto daquele relatório no Rio poderia alavancar sua carreira, e não ia deixar nenhum homem inconveniente estragar o foco dela.
Mesmo assim… aproveitou tudo que a primeira classe oferecia. A bebida gelada. A refeição bem servida. O espaço para esticar as pernas. O ‘silêncio’. E, principalmente, a possibilidade de responder à mensagem de Heitor com calma, em privacidade.
“Tô quase aí… já tô arrumando o cabelo”, escreveu.
“Estou morto de saudades desse seu cabelo cheiroso”, ele respondeu. “Quero te ver. A mulher mais linda do aeroporto inteiro, e que é inteiramente minha.”
Ela sorriu para si mesma.
Quando o piloto avisou que estavam em processo de descida no Aeroporto Santos Dumont, o coração de Helena bateu mais forte.
A ansiedade subiu pela garganta de um jeito doce e quente.
Ela tirou o moletom, ajeitou a blusa de alça mais ajustada ao corpo. Passou um pouco de gloss nos lábios e ajeitou o cabelo. Os fios caíram em ondas, de jeito que ela sabia que o faria engolir em seco.
Ao lado, o homem misterioso — que não havia desistido completamente — observava tudo, rindo consigo.
— Tá se arrumando pra mim, né? — ele brincou, com aquele sorriso entortado de quem já sabia a resposta, mas não se importava.
Helena revirou os olhos.
— Não. Tô me arrumando pro meu namorado. — falou sem tirar os olhos do espelhinho.
Ele soltou uma risada abafada, voltando a cadeira.
— Gosto desse seu jeito. Brava.
— Ótimo. Então guarda de lembrança. Porque a gente nunca mais vai se ver.
O avião começou a perder altitude e uma sensação inundou o estomago de Helena, os ouvidos pareciam estar tampados. Aquilo não parecia normal, o corpo enrijeceu e ela segurou com força o encosto. A respiração ficou ofegante.
Sentiu então sua mão ser desgrudada do encosto. O homem ao seu lado a segurou entre as duas mãos e a massageou de uma forma que a fez esquecer que podia estar morrendo agora. Ela o olhou com dificuldade, o pescoço ainda duro da tensão.
— Essa sensação, é normal — ele disse enquanto olhava e massageava as mãos dela, a voz dele parecia trazer certa segurança — a primeira vez é assustadora mesmo, depois você se acostuma.
Ele enfim a olhou nos olhos, o polegar dele deslizava entre a palma da mão dela.
— Minha mãe fez isso com a minha mão na primeira vez que eu voei. — o sorriso dele agora era gentil e acolhedor — Percebeu? Você nem está se concentrando mais na sensação.
Quando o avião finalmente pousou, Helena puxou a mão rapidamente.
— Obrigada...
— Não precisa agradecer, você foi muito corajosa por voar sozinha pela primeira vez.
Ela balançou o rosto e se levantou.
Pegou a mochila e fez um gesto para o homem encolher as pernas. Quando saiu enfim do assento, o homem ao lado se inclinou um pouco.
— Posso saber seu nome agora?
Helena se virou devagar. Olhou bem nos olhos dele — friamente — e disse:
— Não.
Ele deu um sorriso torto, não se ofendendo como a maioria.
— Entendi.
Ele ajeitou a jaqueta, pegou o próprio celular e, com um aceno breve e sem expressão, disse:
— Boa sorte com o que vier pela frente.
Helena respondeu com o mesmo tom:
— Obrigada. E, sinceramente? Achei que a primeira classe seria melhor.
Virou-se antes que ele dissesse qualquer coisa.
Ela não olhou para trás.
Porque já sabia quem estava à frente.
E era por ele que o coração dela estava batendo tão forte agora.
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