O CEO que Eu Paguei

284 Hoje eu namoro você direito


Na manhã de sábado, Helena ocupou boa parte do tempo no chão com Humberto.

Tinha estendido uma manta na sala, afastado alguns brinquedos para abrir espaço e começado com uma brincadeira que, nas últimas semanas, parecia capaz de entretê-lo indefinidamente.

Cobriu o próprio rosto com uma fraldinha.

— Cadê a mamãe?

Humberto ficou imóvel por um segundo com os olhos presos no tecido.

Helena puxou a fralda.

— Achou!

O sorriso veio inteiro. A boca se abriu, os braços se agitaram e as pernas bateram contra a manta.

Helena tornou a esconder o rosto.

— Cadê a mamãe?

Dessa vez, antes mesmo de ela aparecer, Humberto já sorria.

— Ah, você já sabe!

Ela surgiu pela direita.

Humberto deu um gritinho.

Na seguinte, Helena apareceu pela esquerda. Depois por cima da fraldinha. Na quarta vez, ele começou a rir antes que ela fizesse qualquer coisa, acompanhando o tecido com os olhos e esperando.

Helena riu junto.

— Não vale! Você está roubando.

— Aaaah… aaah…!

— Está, sim.

Ela se escondeu novamente, mas Humberto já se contorcia de expectativa.

Helena deixou a fraldinha cair e aproximou as mãos lentamente.

— Então eu vou pegar esse menino...

As pernas começaram a bater.

Ela diminuiu ainda mais o movimento.

— Eu vou pegar...

Humberto soltou um gritinho e encolheu o corpo, já sorrindo.

— ...esse menino!

Helena mergulhou sobre ele e encheu sua barriga de beijos.

A gargalhada de Humberto saiu alta, entrecortada pelos movimentos do corpo inteiro. Helena fez cócegas leves em sua lateral, recebeu um pezinho no braço e tornou a beijá-lo até ele ficar ofegante de tanto rir.

— De novo?

O sorriso respondeu antes dele.

E foram de novo.

Quando Helena percebeu, já tinha gravado três vídeos.

Pegou o celular para conferir e encontrou mais uma sequência de fotos praticamente iguais de Humberto sorrindo para a câmera. Não teve coragem de apagar nenhuma.

Havia comprado mais espaço na nuvem semanas antes.

O filho tinha apenas cinco meses e já ocupava uma quantidade absurda de armazenamento.

Helena considerava perfeitamente justificável.

Mais tarde, levou-o até o espelho.

Segurou Humberto de frente para o reflexo, apoiado contra seu corpo.

— Quem é esse bebê lindo?

Ele olhou fixamente para o outro bebê.

Depois virou o rosto para Helena.

Voltou para o espelho.

— E essa aqui? Quem é?

Humberto encarou a Helena refletida, tornou a olhar para a verdadeira e franziu a testa.

Ela precisou segurar o riso.

— Sou eu dos dois lados, meu amor.

A explicação evidentemente não ajudou.

Helena beijou sua bochecha olhando pelo espelho.

Humberto congelou.

Virou-se para ela.

Olhou o reflexo.

Virou-se novamente.

Helena começou a rir.

— Confundi sua cabeça?

Ele tocou o espelho com a palma aberta.

— É você.

Humberto tentou agarrar o próprio reflexo.

— E esse também é você.

Aparentemente, aquela informação era ainda mais absurda.

Helena gravou mais um vídeo.

O banho veio depois e banho, com Humberto, raramente continuava sendo apenas banho por muito tempo.

Helena já tinha lavado seu cabelo quando ele descobriu que bater as pernas na água produzia um efeito interessante.

Chutou e espirrou água para todo lado. Humberto parou, completamente intrigado. Olhou para a água e chutou novamente.

Dessa vez, acertou o rosto de Helena.

— Humberto!

Ele ficou olhando para ela, surpreso.

Por um instante, Helena teve a impressão de que ele não fazia a menor ideia de onde aquela água tinha vindo.

Então chutou outra vez.

Helena recebeu um novo respingo.

— Ah, foi você!

O sorriso começou e Humberto bateu as duas pernas.

A água voou.

— Não! — Helena tentou proteger o rosto, já rindo. — Não, senhor!

Aquilo foi suficiente para ele descobrir a parte realmente interessante da brincadeira.

A mãe reagia.

Humberto chutou com ainda mais vontade.

— Eh! Eh! Eh!! — disse rindo.

Helena riu junto.

— Você está fazendo de propósito agora.

Outro chute.

— Eu sabia!

A partir daí, acabou o banho tranquilo.

Humberto batia as pernas, esperava a reação dela e abria um sorriso enorme. Quando Helena demorava a responder, ele vocalizava e exigindo participação. Ela devolvia um pouco de água sobre sua barriga, ele se agitava inteiro e a brincadeira recomeçava.

No fim, Helena estava quase tão molhada quanto ele.

— Seu pai vai achar isso lindo até ser ele aqui tomando banho junto dessa maneira.

— Da!

— Exatamente. Joga água nele também.

Humberto bateu as mãos na água.

Helena beijou sua testa.

— Minha nossa, eu amo você.

Depois o enrolou na toalha e o levou para o quarto.

Escolheu uma roupa fresca para o calor daquele sábado, deu de mamar e ficou alguns minutos com ele quieto em seus braços. Humberto mamou até perder parte daquela energia toda da manhã, uma das mãos descansando sobre ela e os olhos cada vez mais pesados.

Helena aproveitou para acariciar seus cabelos.

Ao meio-dia precisava deixá-lo com Celina. Depois seguiria para a Monteiro Inc., buscaria Heitor, almoçariam juntos e finalmente teriam algumas horas só para os dois.

A ideia continuava parecendo boa. Ainda assim, Helena demorou um pouco antes de se levantar.

Quando colocou Humberto no carro, ele já estava sonolento.

Não demorou muito para dormir.

Helena dirigia ouvindo música baixa e, de tempos em tempos, o pequeno som ritmado da chupeta vindo da cadeirinha. Pelo retrovisor, conseguia enxergar parte do rosto dele, completamente relaxado no sono.

Aquilo lhe dava uma paz difícil de explicar.

Quando chegou à mansão dos sogros, Celina veio recebê-los.

— Ele dormiu?

Helena abriu a porta traseira com cuidado.

— Faz um tempinho.

Celina se aproximou para olhar o neto e imediatamente sorriu.

— Renato está ansioso desde cedo. Já perguntou umas três vezes que horas você vinha e ele estaria aqui quando ele chegasse.

Helena riu baixo para não acordá-lo.

— Ele vai ficar feliz quando acordar e encontrar o avô.

— Os dois vão.

Celina tinha razão.

Helena pegou a bolsa de Humberto e começou a repassar o necessário, sem transformar aquilo numa lista interminável. Celina conhecia a rotina do neto e já ficara com ele outras vezes.

— O leite está aqui, deixei separado. E qualquer coisa me liga.

— Pode deixar.

Helena olhou mais uma vez para o filho.

Era diferente deixá-lo ali.

Ela se preocupava porque era mãe e porque Humberto ainda era muito pequeno, mas não sentia necessidade de conferir cada gesto de Celina. Não precisava imaginar se perceberiam o choro certo, se saberiam confortá-lo, se ele procuraria por ela e não seria atendido.

Ali, Helena simplesmente sabia que seu filho estava bem.

Celina olhou para a roupa dela.

— Vai à praia? —

— Não. — Helena sorriu. — Vou buscar o Heitor e a gente vai pro clube.

— Ah, então aproveitem. — o sorriso de Celina aumentou. — Aproveitem muito, aliás. Vocês estão precisando.

Helena não discordou.

— E faz um favor pra mim.

— Qual?

— Lembra meu filho de passar protetor solar. Porque com quarenta anos ele ainda acha que não precisa.

Helena riu.

— Pode contar comigo.

— Em você eu confio.

Antes de ir, Helena se inclinou sobre Humberto.

Ele continuava dormindo, a chupeta fazendo movimentos pequenos entre os lábios. Helena beijou seus cabelos e deixou os dedos passarem devagar pelos fios macios.

Sentiu aquela vontade quase física de beijá-lo outra vez, e beijou.

Amava aquele menino de um jeito que às vezes ainda a surpreendia.

— Mamãe volta depois, meu amor.

Não houve aperto suficiente para fazê-la querer levá-lo de volta.

Só saudade antecipada.

Helena fechou a porta com cuidado e entregou a bolsa a Celina.

— Se precisar de qualquer coisa...

Celina sorriu.

— Eu ligo. Vai tranquila.

Helena assentiu e conseguiu ir.

No caminho para a Monteiro Inc., mandou uma mensagem para Heitor avisando que já tinha deixado Humberto e estava indo buscá-lo.

A mensagem foi entregue.

Nenhuma resposta.

Helena não estranhou.

Heitor tinha avisado desde a noite anterior que provavelmente ficaria difícil falar com ele naquela manhã. E tinha sido exatamente assim. As poucas mensagens que trocaram tinham vindo espaçadas, respostas curtas entre uma coisa e outra.

Ela colocou o celular de lado e continuou dirigindo. Se tudo tivesse corrido como ele queria, a reunião já estaria terminando.

Ela estava indo buscá-lo para um encontro.

Só os dois.

A constatação trouxe um sorriso pequeno aos seus lábios enquanto seguia em direção à empresa.

Quando entrou na avenida da Monteiro Inc., Helena olhou para si mesma e só então percebeu um detalhe que não tinha considerado quando saíra de casa.

Estava vestida para passar uma tarde no clube.

A roupa leve por cima do biquíni era bonita, arrumada o suficiente para um restaurante, mas definitivamente não era o tipo de coisa com que entraria na sede da empresa. Bastou olhar para o prédio se aproximando para imaginar a recepção, os elevadores e os funcionários. Daqui a algum tempo voltaria a atravessar aquelas portas para trabalhar. Não queria que a lembrança de sua primeira aparição depois de tantos meses fosse entrando ali vestida para piscina.

Sentiu o rosto esquentar só de pensar.

O celular acendeu no suporte.

Heitor: Finalmente acabou. 🥹

Outra mensagem chegou logo depois.

Heitor: Tô doido pra te ver. 🥺❤️

Helena sorriu.

Antes que respondesse, veio mais uma.

Heitor: Terminaram a reforma do andar. Inclusive seu setor. Quero te mostrar.

Aquilo quase a fez mudar de ideia.

Helena estava curiosíssima. Desde que Heitor lhe contara sobre as mudanças, queria saber como tinha ficado, principalmente a área onde voltaria a trabalhar. Durante alguns segundos, chegou a olhar novamente para a própria roupa.

Não.

Helena: Depois eu vejo. Tô morrendo de fome.

A resposta veio rápido.

Heitor: Aí não. Não posso deixar o amor da minha vida com fome.

E, logo depois:

Heitor: Tô descendo pela entrada então.

Helena estacionou e permaneceu no carro.

Não demorou muito para vê-lo.

Heitor saiu do prédio ainda com a roupa de trabalho, camisa social, calça escura e o celular em uma das mãos. O corte de cabelo estava recente, com aquele degradê discreto nas laterais que Helena gostava mais do que admitia, e bastou vê-lo procurando seu carro para ela sorrir.

Ele estava bonito, muito bonito mesmo.

Quando Heitor a encontrou, a expressão dele mudou imediatamente. Guardou o celular e veio até o carro com um sorriso que não tinha absolutamente nada do presidente da Monteiro Inc. que devia ter passado a manhã inteira em reunião.

Bateu duas vezes no vidro do motorista.

Helena abaixou.

Olhou para ele de cima a baixo e assobiou.

— E aí, gatinha. Quer carona?

Heitor soltou uma gargalhada.

— Lá ele, Helê. Me estranha não.

Ela começou a rir.

— Qual é?

— Nada disso. A única gatinha aqui é você. — Ele se inclinou um pouco para enxergá-la melhor dentro do carro. — Muito gata, diga-se de passagem.

Helena sentiu o sorriso aumentar.

— Entra.

Heitor abriu a porta do passageiro, mas parou antes.

— Você realmente não vai me deixar dirigir?

Helena apenas olhou para ele.

— Você sabe que só eu dirijo esse carro.

Ele soltou um suspiro resignado.

— Eu ainda tento.

— E continua não funcionando.

— Um dia você baixa a guarda.

— Pode esperar sentado.

— Já estou indo sentar.

Ele entrou no banco do passageiro e, antes de qualquer outra coisa, inclinou-se sobre o console para beijá-la.

Não foi um selinho apressado de chegada. Heitor segurou de leve sua nuca e demorou o suficiente para Helena sentir que o “tô doido pra te ver” das mensagens não tinha sido força de expressão.

Quando se afastou, ela ainda sorria.

— Oi.

— Oi, Helê.

Heitor começou a recuar o banco.

Parou no meio do movimento.

— Isso me traz lembranças.

Helena ligou o carro.

— Do quê?

— De quando você me levou naquela inspeção.

Ela já começou a rir.

— O que tem?

— Você dirigindo, eu aqui... aquela viagem toda armada só pra dar uns pegas em mim.

Helena virou o rosto para ele, incrédula.

— Eu fui trabalhar.

— Sei.

— Eu fui fazer uma inspeção. Você que passou a viagem querendo me pegar.

Heitor franziu a testa como se procurasse a lembrança.

— Não me recordo dessa parte.

— Típico de você. — disse ela revirando os olhos.

— Minha memória costuma ser excelente.

— Quando te interessa.

— Exatamente.

Ela saiu com o carro da entrada ainda sorrindo.

Heitor sugeriu um restaurante próximo, e decidiram almoçar antes de seguir para o clube. Foi só quando se sentaram que Helena percebeu como sentia falta daquilo: os dois diante um do outro sem uma emergência entre eles, sem investigação, sem babás sendo entrevistadas, sem alguma decisão familiar urgente esperando no fim da conversa.

Heitor perguntou por Humberto antes mesmo de olharem direito o cardápio.

Helena contou da manhã, das brincadeiras, do banho que terminara com ela quase tão molhada quanto o filho e de como ele dormira durante o caminho até a casa dos avós.

— Minha mãe falou alguma coisa?

— Só disse que seu pai estava ansioso esperando o neto.

Heitor sorriu.

— Ele estava mesmo.

Contou rapidamente como tinha sido a manhã na empresa, sem transformar o almoço numa extensão da reunião. O necessário estava alinhado, a equipe estava pronta para viajar e, naquele momento, parecia satisfeito em deixar a Monteiro Inc. onde ela estava.

Depois disso, a atenção dele passou a se concentrar perigosamente em Helena.

Ela percebeu primeiro pelos olhos.

Heitor conversava normalmente, mas os olhos desciam de vez em quando pela roupa leve que ela usava.

— Para.

— O quê?

— Eu conheço essa cara.

— Estou olhando pra minha noiva.

— Está olhando demais.

— E eu não posso?

Helena tentou manter a expressão séria.

— Pode olhar.

— Obrigado.

O jeito satisfeito como ele respondeu a fez rir.

Algum tempo depois, quando ela se inclinou para pegar o copo, ouviu:

— Você está muito gostosa.

Helena quase se engasgou.

— Heitor.

— O quê?

Ela olhou ao redor.

— Fala baixo.

Ele diminuiu a voz imediatamente, mas não exatamente pelo motivo que ela queria.

— Você está muito gostosa.

Helena sentiu o rosto esquentar.

— Você é impossível.

— E ainda nem vi o biquíni.

— Come de uma vez.

— Você?

— Não! Esse alimento aí, servido no prato.

— Estou tentando me comportar.

— Não parece.

— Você não faz ideia do esforço.

Helena abaixou os olhos para o prato, sorrindo contra a própria vontade.

Adorava aquilo.

Não necessariamente as palavras — embora gostasse delas também —, mas o jeito como Heitor ainda olhava para ela. Como se não houvesse costume suficiente para diminuir o interesse. Como se, depois de tudo o que tinham vivido, ele ainda pudesse sentar do outro lado de uma mesa e fazê-la se sentir desejada simplesmente sustentando os olhos nela um pouco mais.

— Quero ver as marquinhas que esse biquíni vai deixar — ele acrescentou.

Helena o encarou.

— Você prometeu se comportar.

— Não lembro de ter prometido isso.

— Eu devia ter feito você assinar.

— Não ia adiantar.

Ela riu.

O almoço seguiu assim, leve e cada vez menos inocente. Depois do almoço, Helena colocou o endereço do clube no GPS e voltou para o volante.

Heitor abriu a porta do passageiro, mas ainda fez uma última tentativa:

— Tem certeza de que não vai me deixar dirigir?

— Absoluta.

— Você nem pensou.

— Pensei antes de você perguntar.

Ele entrou resignado, puxou o cinto e fechou a porta.

— Um dia você ainda vai confiar esse carro a mim.

— Eu confio muitas coisas a você.

— O carro não.

— O carro não.

Heitor riu.

Saíram falando sobre o restaurante, o caminho e o trânsito que o aplicativo já começava a marcar alguns quilômetros à frente. Nada particularmente importante. Era justamente isso que tornava aquela tarde tão gostosa.

Em algum momento, enquanto Helena falava, Heitor levou a mão à nuca dela e afastou os fios que o vento da janela tinha jogado sobre seu pescoço. Os dedos permaneceram ali, entrando de leve entre seus cabelos, fazendo um carinho distraído junto à raiz.

Helena se arrepiou.

Não havia segunda intenção nenhuma no gesto. Heitor estava olhando para a rua, ainda comentando alguma coisa que ela já nem ouvia direito, enquanto os dedos continuavam passeando por sua nuca como se aquele fosse um lugar conhecido demais para exigir atenção.

Helena inclinou discretamente a cabeça para o lado, dando mais espaço.

Heitor percebeu. Claro que percebeu.

— Gostou?

Ela sorriu sem tirar os olhos da rua.

— Continua.

A risada dele veio baixa.

— Manda em mim mesmo.

— Você perguntou.

— E vou continuar.

Quando pararam no sinal, Heitor virou-se para ela. A mão ainda estava em seus cabelos.

— Está bonito assim.

— Meu cabelo?

— É.

— Assim como?

Ele puxou delicadamente uma mecha entre os dedos.

— Assim.

— Grande explicação.

— Quer uma apresentação?

— Você tem experiência.

— Faço uns slides. Coloco gráfico, evidência e até conclusão...

Helena riu.

— Convincente?

Heitor inclinou-se e beijou sua têmpora.

— Pra caralho.

O sinal abriu.

Ela voltou a dirigir, ainda sorrindo.

A mão dele deixou sua nuca, percorreu seu ombro numa carícia lenta e desapareceu por alguns instantes. Helena continuou falando até sentir a palma quente pousar sobre sua coxa.

Nem olhou.

Aquilo também era Heitor.

A mão ficou ali enquanto conversavam, pesada e confortável sobre sua pele. O polegar fazia movimentos pequenos, quase preguiçosos. Às vezes parava. Depois recomeçava.

Helena gostava daquela familiaridade mais do que conseguia explicar. Heitor podia estar discutindo trabalho, reclamando do trânsito ou perguntando de Humberto e, ainda assim, alguma parte dele procurava por ela. A mão na cintura quando passavam por uma porta. Os dedos na nuca. Um beijo no alto da cabeça. A palma sobre sua perna no carro.

No sinal seguinte, Helena pousou a mão sobre a dele.

Heitor imediatamente virou a palma e entrelaçou seus dedos. Ele levou a mão dela à boca e beijou seus dedos, depois a palma. Helena sentiu o calor subir pelo braço.

— Está feliz? — ele perguntou.

A pergunta veio sem brincadeira.

Helena olhou para a rua à frente, para o sábado claro do lado de fora, depois novamente para ele.

— Muito.

Heitor sorriu.

— Eu também, Helê.

Beijou sua mão mais uma vez antes de soltá-la.

Quando o trânsito voltou a andar, a palma dele encontrou novamente sua coxa.

Dessa vez, porém, Heitor pareceu notar os pequenos arrepios que ainda marcavam a pele dela.

O polegar passou sobre eles. Uma vez. Depois outra.

Helena sentiu os dedos dele deslizarem lentamente pela lateral de sua coxa, subirem até a barra da roupa e retornarem. Na passagem seguinte, a mão não voltou pelo mesmo caminho. Moveu-se alguns centímetros para dentro.

Helena respirou mais fundo.

Heitor olhou para ela.

Não disse nada.

A mão também parou.

Foi esse pequeno cuidado que fez Helena sorrir. Ela poderia afastá-la. Poderia simplesmente empurrar os dedos dele para o lugar anterior.

Em vez disso, continuou dirigindo.

O canto da boca de Heitor subiu.

— Não fala nada.

— Não falei.

— Mas fez essa cara.

— Que cara?

Os dedos voltaram a se mover, devagar, agora pela parte interna de sua coxa.

— Essa.

Helena sentiu outro arrepio correr pela pele.

— Você começou fazendo carinho.

— Continuo fazendo carinho.

— Sei.

— Estou mentindo?

Ela lançou um olhar rápido para ele.

— Ainda não.

Heitor riu.

A mão apertou sua coxa com carinho, e por alguns segundos ficou quieta outra vez. Era isso que acabava com Helena. Ele não tinha pressa. Nunca parecia tocar seu corpo como se precisasse chegar imediatamente a algum lugar.

Às vezes simplesmente gostava de senti-la e Helena gostava de ser tocada por ele.

— Vem cá — Heitor murmurou quando pararam novamente.

— Eu estou dirigindo.

— O carro está parado.

Os dedos deixaram sua coxa e subiram até a nuca. Heitor a trouxe apenas o suficiente para beijar sua têmpora, depois a lateral do rosto.

Helena fechou os olhos por um segundo quando a boca dele chegou perto de sua orelha.

— Você está cheirosa.

Ela sorriu.

— Tomei banho.

— Que bom. Estava preocupado.

Helena abriu os olhos e empurrou o rosto dele com a mão.

— Palhaço.

Heitor riu, beijou a palma que tentava afastá-lo e voltou ao próprio banco.

O sinal abriu.

A mão retornou à coxa dela como se nunca tivesse saído.

Helena balançou a cabeça, sorrindo.

— Você não consegue ficar quieto?

— Consigo.

A mão permaneceu imóvel. Por três segundos. Então o polegar voltou a acariciá-la.

Helena riu.

— Impressionante.

— Eu gosto de você.

A simplicidade da resposta a pegou desprevenida.

Ela olhou para ele.

Heitor deu de ombros, como se fosse óbvio.

— Gosto de encostar em você.

Helena sentiu o peito aquecer.

— Pode continuar.

— Obrigado pela autorização.

E continuou.

Talvez fosse justamente aquela mistura que mexesse tanto com ela. O mesmo homem que fazia carinho em sua nuca sem perceber era capaz de deixar os dedos deslizarem pela parte interna de sua coxa e saber, pelo modo como a pele dela reagia, exatamente o que estava provocando.

E Helena conhecia os sinais dele também.

Por isso, no sinal seguinte, quando olhou para Heitor, deixou os olhos passearem deliberadamente por ele.

A camisa social ainda estava impecável o suficiente para esconder a manhã cansativa. As mangas deixavam parte dos antebraços à mostra, o cabelo continuava arrumado e a barba por fazer só piorava uma situação que Helena já considerava bastante complicada.

Heitor acompanhou o olhar dela.

— Que foi?

— Nada.

— Helê…

Ela voltou os olhos para a rua.

— Estou olhando meu noivo.

Ele ficou em silêncio por um instante.

— Ah, é?

Helena mordeu o sorriso.

— Uhum.

— Então olha direito.

Ela riu.

— Convencido.

— Você que começou a me secar no sinal.

— Secar?

— Eu vi.

— Você vê o que quer.

A mão em sua coxa apertou um pouco.

— Quer mesmo brincar comigo?

O tom mudou alguma coisa no ar.

Helena olhou para ele outra vez e dessa vez demorou.

E, quando seus olhos desceram, percebeu que o corpo de Heitor já tinha respondido àquela brincadeira muito antes de ele dizer qualquer coisa. A calça social deixava evidente o volume entre suas pernas.

Helena voltou os olhos para a frente.

O rosto esquentou imediatamente.

Heitor soltou uma risada baixa.

— Não olha e finge que não viu.

— Eu não falei nada.

— Nem precisa. Ficou vermelha.

— Cala a boca.

— Linda.

A palavra veio acompanhada dos dedos voltando lentamente pela parte interna de sua coxa.

Helena apertou o volante.

— Heitor...

— Hum?

Ela sabia que ele estava sorrindo.

— Você está piorando a situação.

— Eu?

— Você.

— Helê, olha pra mim.

— Estou dirigindo.

— Então continua dirigindo. Melhor.

Helena começou a rir.

— Por quê?

Heitor respirou fundo e ajeitou-se no banco.

— Porque se você continuar me olhando daquele jeito, eu vou começar a questionar seriamente esse nosso planejamento.

— Nosso planejamento?

— Clube.

Helena já sabia aonde aquilo chegaria.

— Nem começa.

— Motel.

Ela gargalhou.

— Não.

— Pensa.

— Já pensei.

— Impossível. Foi muito rápido.

— Continua sendo não.

A mão dele deslizou mais uma vez pela coxa dela.

— Uma hora.

— Não.

— Meia.

— Heitor.

— Vinte minutos. Faço valer.

Helena sentiu o rosto queimar.

— Você não tem vergonha?

Ele olhou para ela.

A brincadeira permaneceu em seus olhos, mas a resposta veio simples.

— De querer você? Nenhuma.

Aquilo a atingiu muito mais do que as provocações anteriores.

Helena conhecia o desejo de Heitor. Conhecia a intensidade, o descaramento, a forma como ele nunca fizera questão de esconder o efeito que ela tinha sobre ele. Mas, depois de todo aquele tempo juntos, ainda havia algo profundamente íntimo em ser olhada daquela maneira pelo homem que conhecia seu pior humor, suas inseguranças, seu corpo transformado pela gravidez, seus medos e suas manias, e continuava parecendo incapaz de se cansar dela.

Ela tocou o rosto dele quando pararam no próximo sinal.

Heitor imediatamente virou a cabeça e beijou sua palma.

— Para de fazer essa cara.

— Que cara?

— De quem está sofrendo.

— Mas eu estou sofrendo.

Helena riu e passou o polegar pela barba por fazer.

— Você vai sobreviver.

— Não promete o que não pode garantir.

Ela acariciou seu rosto mais uma vez.

— Depois eu cuido de você.

O olhar de Heitor mudou na mesma hora.

Helena percebeu tarde demais o que tinha acabado de dizer.

— Não começa.

— Porra, Helê.

Ela começou a rir.

— O quê?

— Você me manda esperar e depois fala isso?

— Falei com carinho.

— Pior ainda.

Ele segurou sua mão antes que Helena a afastasse e beijou lentamente a parte interna de seu pulso.

— Vou cobrar.

— Eu sei.

O sinal abriu.

Helena recuperou a mão e voltou a dirigir.

Queria ceder.

Mais do que deixaria Heitor perceber naquele momento.

Mas fazia tempo demais que não tinham aquilo: um sábado, um almoço, algumas horas sem um problema esperando para ser resolvido. Queria entrar naquela piscina com ele, conversar, rir, ficar agarrada ao homem que amava e simplesmente namorá-lo.

O resto podia esperar.

Talvez não muito.

Mas podia.

Heitor pareceu finalmente aceitar a derrota temporária. Recostou-se no banco e deixou a mão voltar para a coxa dela.

Dessa vez não subiu, não provocou, não tentou convencê-la de nada.

Apenas pousou a palma quente sobre sua pele.

Helena olhou para ele de relance.

Heitor estava olhando pela janela.

Ela sorriu.

Gostava também disso.

Depois do arrepio, da provocação, do desejo evidente e das propostas indecentes, a mão continuava ali.

Porque, no fim, Heitor não precisava querer alguma coisa para querer tocá-la.

Quando chegaram ao clube, Helena já estava começando a questionar a própria força de vontade.

Ainda assim, estacionou, desligou o carro e olhou para Heitor.

— Chegamos.

Ele permaneceu sentado.

— Estou vendo.

— Então desce.

— Ainda dá tempo de mudar de ideia.

Helena começou a rir.

— Não dá.

— Dá, sim. O carro ainda está aqui.

— Monteiro!

Heitor soltou o cinto com a resignação de quem estava sendo submetido a uma grande injustiça.

— Eu tentei.

— Muito.

— Não o suficiente, aparentemente.

Helena abriu a porta.

— Anda.

Heitor saiu, pegou a bolsa dos dois no banco de trás e a encontrou do outro lado do carro. Helena mal teve tempo de fechar a porta antes de sentir a mão dele em sua cintura, puxando-a para perto.

— Você não desiste mesmo.

— De você? Nunca.

A resposta veio tão simples que Helena virou o rosto para olhá-lo. Heitor apenas beijou sua têmpora.

— Vamos.

Ela passou o braço pelas costas dele e seguiram assim.

A entrada do clube já fez Helena diminuir um pouco o passo.

Era bonito de uma forma diferente dos lugares luxuosos aos quais Heitor a levara nos últimos anos. Não havia ali aquela tentativa de parecer moderno a qualquer custo. O prédio tinha história. Arcos largos, pedra clara, madeira escura, colunas trabalhadas, luminárias ornamentadas e um pé-direito alto que fazia seus olhos subirem naturalmente. Havia uma influência barroca nos detalhes, elegante sem parecer excessiva, misturada a espaços abertos que deixavam entrar a luz forte daquela tarde de sábado.

Helena virou a cabeça para observar um dos salões enquanto caminhavam.

Heitor acompanhou o movimento.

— Bonito?

— Muito.

Ela apertou de leve a mão que ainda estava em sua cintura.

— Parece que toda vez que eu olho pra algum lugar tem outra coisa pra ver.

— Tem mesmo.

Não explicou mais.

Também não precisava. Seguiu com ela até a recepção com a segurança de quem sabia exatamente para onde ir.

Antes que Heitor dissesse qualquer coisa, uma das funcionárias sorriu ao reconhecê-lo.

— Boa tarde, senhor Monteiro.

— Boa tarde.

O olhar da mulher passou para Helena.

— Senhorita Campos, seja muito bem-vinda.

Helena sorriu de volta, um pouco surpresa.

— Obrigada.

Heitor olhou para ela de lado.

— Senhorita Campos…

Havia alguma coisa naquele tom. Helena estreitou os olhos.

— O quê?

— Nada.

— Heitor…

Ele se inclinou um pouco em sua direção.

— Não vejo a hora de isso virar senhora Monteiro.

O coração de Helena deu aquela pequena e ridícula apertada que ela se recusou a demonstrar na frente dele.

Em vez disso, manteve a expressão mais neutra que conseguiu.

— É mesmo?

— Muito.

Heitor ainda a olhava.

Helena sabia que ele a conhecia bem demais para aquela tentativa de indiferença funcionar por completo, então voltou a atenção para a funcionária antes que o sorriso escapasse.

— Podemos fazer as pulseiras?

Sentiu os dedos de Heitor apertarem sua cintura.

A funcionária confirmou rapidamente os dados que já estavam no sistema. Heitor havia feito o cadastro de Helena no dia anterior como sua noiva e incluído Humberto como dependente. Não houve formulário para preencher nem espera; outro funcionário já se aproximava com as pulseiras.

— Com licença, senhorita.

Helena estendeu o braço.

A pulseira foi ajustada em seu pulso e, como aquela era sua primeira visita, a funcionária explicou brevemente como funcionavam os consumos, os serviços e os acessos. Indicou a direção das piscinas, restaurantes, vestiários e áreas de descanso, sem transformar aquilo numa apresentação interminável.

— E, por favor, se precisar de qualquer informação durante o dia, pode chamar qualquer um de nós.

— Obrigada.

— Fique à vontade. Esperamos que aproveite bastante sua primeira visita.

— Tenho certeza de que vou aproveitar.

Heitor estendeu o próprio braço para receber a pulseira e, assim que terminaram, agradeceu. Pegou novamente a bolsa e ofereceu a mão a Helena.

Ela entrelaçou os dedos nos dele.

Só quando já estavam se afastando da recepção, olhou para ele.

— Você cadastrou o Humberto.

— Claro.

— Ele tem cinco meses.

— Continua sendo meu filho.

Helena riu.

— Eu sei.

— E eu pretendia trazer vocês dois hoje.

— Eu sei disso também.

Heitor levou a mão dela à boca e beijou seus dedos.

— Domingo a gente testa a boia na nossa piscina.

— Na nossa piscina eu topo.

— E as aulas de natação?

— Continuo querendo.

— Com você dentro.

— Comigo dentro.

— Fechado.

Ele soltou a mão dela apenas para passar o braço por sua cintura quando precisaram desviar de um casal vindo na direção contrária. Helena deixou a palma descansar nas costas dele.

Conforme avançavam, a arquitetura antiga se abria para os jardins e para uma área externa ampla, cercada de verde. Mais adiante, Helena já conseguia enxergar o azul das piscinas entre os ombrelones, espreguiçadeiras e mesas. O clube estava movimentado, mas não havia aquela sensação de excesso de gente, música alta ou disputa por espaço. Tudo parecia funcionar numa tranquilidade quase própria.

Helena percebeu que estava sorrindo.

Heitor percebeu também.

— Gostou?

Helena olhou para ele.

— Estou feliz de ter vindo.

A provocação desapareceu por um instante dos olhos dele.

— Eu também, Helê.

Heitor inclinou a cabeça e beijou sua têmpora. Helena apertou os dedos nos dele e continuaram andando.

Era bom. Simplesmente bom.

Chegar a algum lugar de mãos dadas. Sentir o polegar dele acariciando o dorso de sua mão enquanto caminhavam. Encostar o braço no dele. Parar para olhar alguma coisa sem pressa. Não ter ninguém esperando uma decisão, uma explicação ou uma solução.

Quando chegaram à área que dava acesso aos vestiários e às suítes reservadas aos membros, Heitor parou.

— Vou me trocar. Não demoro.

— Eu fico por aqui.

— Tá.

Ele deu dois passos.

Parou.

Helena fechou os olhos.

Sabia.

— Heitor...

Ele olhou por cima do ombro.

— O quê?

— Vai se trocar.

— Eu vou.

Mas voltou.

Helena começou a rir antes mesmo de ele chegar.

— Você é muito insistente.

— Estou pensando numa coisa.

— Claro que está.

Heitor parou diante dela.

— A gente podia pegar uma suíte.

Helena ergueu as sobrancelhas.

— Podia.

O sorriso dele apareceu.

— Podia?

— Você pode.

— Eu e você.

— Você.

— Pra deixar as coisas.

— Excelente.

— Tomar um banho depois.

— Muito útil.

— Ter um pouco de privacidade...

Helena mordeu o sorriso.

— Aí começou a aparecer o verdadeiro motivo.

— Eu estava construindo o argumento.

— Construiu mal.

— Posso melhorar.

— Sozinho na suíte.

Heitor ficou olhando para ela.

— Helê!

— O quê?

Ele se aproximou.

Helena deu um passo para trás, ainda sorrindo. Depois outro. As costas encontraram a parede.

O sorriso dela diminuiu.

Heitor parou diante dela.

Não havia mais do que alguns centímetros entre os dois, mas ele não os eliminou. Apenas apoiou uma das mãos na parede, ao lado da cabeça dela, e ficou ali.

Perto demais.

Helena precisou erguer o rosto e encontrou os olhos azuis dele.

Aquilo ainda era uma covardia.

Depois de todo aquele tempo, de tudo que conhecia naquele rosto, os olhos de Heitor ainda conseguiam prendê-la por um segundo a mais do que deveriam. Talvez porque ela conhecesse também as diferenças. Quando ele estava distraído, a expressão dura que assumiam quando se irritava, o brilho quase infantil quando estava com Humberto.

E aquele olhar.

Aquele ela conhecia muito bem. O que começava nos olhos antes de chegar à boca.

Helena sentiu um arrepio nascer na nuca quando Heitor levou a mão livre até sua cintura.

O polegar acariciou sua lateral uma vez, devagar.

— Vai comigo.

A voz baixa piorou tudo.

— Não.

— Nem pra conhecer?

— Principalmente não.

Heitor inclinou ligeiramente a cabeça.

Helena sentiu o perfume dele. Sentiu o calor do corpo tão próximo do seu. Sentiu os dedos em sua cintura se moverem de novo, num carinho preguiçoso que não tinha nada de apressado. E, pior, sentiu o próprio corpo reconhecê-lo.

O arrepio desceu pelos braços.

Heitor percebeu.

Os olhos azuis baixaram por um instante para sua pele antes de voltarem ao rosto dela.

O canto da boca dele se ergueu.

— Está arrepiada.

Helena odiou o quanto gostou de ouvi-lo dizer aquilo.

— Ar-condicionado.

Heitor olhou ao redor e depois voltou para ela.

— Claro.

Helena começou a rir.

— Nem começa.

A mão dele deslizou um pouco pelas costas dela, trazendo-a para mais perto.

— Vem comigo.

— Eu quero ir pra piscina.

— Depois.

— Agora.

— Quinze minutos.

— Não.

— Meia hora.

Helena soltou uma risada.

— Você está aumentando.

— Estou sendo mais honesto.

Ela pousou as duas mãos no peito dele.

Não para afastá-lo de verdade.

Sentiu sob as palmas o tecido da camisa e o calor do corpo dele. Heitor olhou para suas mãos, depois novamente para ela.

— Você está me expulsando muito mal.

— Estou tentando.

— Não está.

Helena passou os dedos distraidamente pela camisa dele.

— O coelho não vai onde a raposa mora.

Heitor ficou imóvel.

Ela soube imediatamente que tinha cometido um erro.

— O coelho?

— Não começa.

— Não. Volta. — o sorriso dele cresceu. — Você é o coelho?

— Ninguém é o coelho.

— Helê, você acabou de estabelecer toda uma dinâmica aqui.

Helena tentou escapar pelo lado. Heitor acompanhou o movimento, rindo, e a mão voltou à cintura dela.

— E eu sou a raposa?

— Você definitivamente é a raposa.

— Gostei.

— Eu sabia que ia gostar.

Ele aproximou o rosto.

— E você sabe o que acontece quando o coelho entra na toca da raposa?

O calor subiu pelo rosto de Helena.

— Você não presta.

— Você criou a metáfora.

— Me arrependi.

— Eu não.

Heitor baixou o rosto até a boca ficar perto da dela. Helena sentiu a respiração dele tocar seus lábios e ele não a beijou.

Aquilo era pior.

— Não faz isso — ela murmurou.

— O quê?

— Você sabe.

Os olhos dele desceram até sua boca.

A mão que estava em sua cintura se espalhou por suas costas. Sem pressa. Quase um carinho.

Helena levou os dedos até a nuca dele e sentiu o cabelo curto do degradê contra a palma.

Heitor fechou os olhos por um instante ao receber o carinho.

Foi uma reação mínima.

Mas era dele.

E isso mexeu com Helena ainda mais.

Não era apenas ela sendo desejada por um homem absurdamente bonito contra uma parede.

Era o Heitor.

O homem que dormia ao lado dela. O pai do filho dela. O homem que roubava beijos enquanto ela fazia café, que procurava sua mão debaixo da mesa, que sabia onde ela sentia cócegas e como gostava de receber carinho na nuca. Aquele que ainda conseguia fazê-la perder a linha apenas chegando perto e que, sob seus dedos, também reagia a ela.

Helena acariciou a nuca dele outra vez.

— Faz tempo que a gente não sai assim.

Heitor abriu os olhos.

A provocação não desapareceu completamente, mas cedeu espaço para atenção.

— Assim como?

— Pra namorar.

A mão dele continuou em suas costas.

— Só nós dois. Sem alguma coisa ruim ter acontecido antes. Sem precisar resolver problema de ninguém. Sem hospital, investigação, trabalho… — Helena sorriu de leve. — Eu quero entrar na piscina com você. Conversar besteira. Ficar agarrada com você. Quero ter um encontro com meu noivo.

Heitor a observou por alguns segundos. O polegar dele começou a acariciar suas costas.

— Você quer namorar comigo?

Helena sorriu.

— Quero.

— Porra. Ainda bem.

Ela riu.

— Convencido.

— Fiquei preocupado por uns três segundos.

Helena puxou de leve os cabelos de sua nuca.

— Bobo.

Heitor sorriu e finalmente a beijou.

Helena fechou os olhos.

A mão dele a trouxe contra seu corpo, enquanto a dela deixou a nuca e subiu até seus cabelos. O beijo ainda carregava tudo que tinham provocado um no outro desde o carro, mas não havia pressa nele. Heitor beijou sua boca como gostava de fazer quando tinha tempo, demorando-se, interrompendo apenas o suficiente para voltar.

Quando se afastou, Helena ainda ficou perto.

Heitor roçou o nariz no dela.

— Tá bom, Helê.

— Tá bom?

— Hoje eu namoro você direito.

Ela sorriu.

— Era isso que eu queria.

— Eu também quero.

Ele deu outro beijo nela, menor.

— Só continuo querendo você dentro daquela suíte.

Helena riu contra sua boca.

— Eu sei.

— Muito.

— Eu também sei.

— Depois?

Helena passou o polegar pelo maxilar dele, sentindo a barba por fazer.

— Depois.

Heitor estreitou os olhos.

— Promete?

— Prometo.

O sorriso que surgiu no rosto dele fez Helena se arrepender por aproximadamente meio segundo.

— Agora vai se trocar.

— Tô indo.

Ele beijou sua testa, depois sua boca mais uma vez, pegou a bolsa e finalmente se afastou.

Deu dois passos e se virou novamente para ela

Helena apontou imediatamente para o corredor.

— Heitor.

— Eu só ia falar uma coisa.

— Fala.

Ele ergueu o pulso.

— Se quiser alguma coisa enquanto eu me troco, pede. Tudo vai pra pulseira.

— Tem certeza de que quer me dar essa liberdade?

Heitor pareceu genuinamente confuso.

— Helê, pega o que você quiser.

Ela sorriu.

— Depois não reclama.

— De você gastar? Nunca. — os olhos azuis dele passearam lentamente por ela. — Só não foge, minha coelhinha.

Helena arregalou os olhos.

— Heitor!

Ele já estava andando.

— Você começou!

— Eu me arrependo!

— Tarde demais.

Helena ficou olhando enquanto ele se afastava, balançando a cabeça. Mas sorria muito e percebeu que talvez fosse justamente daquilo que sentira falta.

Não de sair. Não de um clube bonito ou de uma tarde livre.

Deles.

Da mão dele procurando a sua enquanto caminhavam. Do beijo inesperado na têmpora. De poder alisar a nuca dele e sentir Heitor fechar os olhos por um segundo. De provocá-lo e ser provocada. De rir. De ficar arrepiada porque ele chegara perto demais e, minutos depois, simplesmente caminhar de mãos dadas com o mesmo homem.

Sentia falta de Humberto. Claro que sentia. Já se perguntava se ele tinha acordado, se Renato estava com ele no colo, se mamaria bem.

Mas a saudade não estragava aquela felicidade.

Helena amava ser mãe.

Só não tinha deixado de ser mulher quando Humberto nasceu. E, naquela tarde, estava gostando demais de ser a mulher por quem Heitor Monteiro ainda parecia completamente louco.

Helena pegou o celular assim que Heitor desapareceu pelo corredor.

Mandou uma mensagem para Celina perguntando por Humberto e recebeu uma foto poucos minutos depois.

Renato estava no sofá, com o neto acomodado nos braços e a mamadeira na boca. Humberto segurava um dos dedos do avô enquanto mamava, os olhos ainda pesados de sono.

Helena ampliou a foto.

Sorriu imediatamente.

Celina contou que ele havia acordado fazia pouco tempo, estava bem e que Renato já tinha praticamente tomado posse do neto pelo restante da tarde.

Helena respondeu que, se acontecesse qualquer coisa, era só ligar.

“Vai aproveitar seu noivo.”

Helena riu sozinha e guardou o celular.

O atendimento do clube continuava chamando sua atenção. Não porque os funcionários estivessem o tempo inteiro ao redor dela, mas justamente porque pareciam saber quando se aproximar. De tempos em tempos alguém oferecia uma bebida, algum petisco ou perguntava discretamente se estava tudo bem.

Uma funcionária veio até ela.

— Senhorita Campos?

— Sim.

— O senhor Monteiro está na suíte de apoio vinte. Caso queira se trocar, pode encontrá-lo lá. Mas, se preferir, podemos disponibilizar outra suíte para a senhora. Também há vestiários próximos às piscinas.

Helena quase sorriu com a opção cuidadosamente oferecida de não entrar na suíte onde estava Heitor. Mal sabia aquela mulher o risco que corria se entrasse na vinte.

— Obrigada.

— Claro. E, como é sua primeira visita, se precisar de qualquer informação, pode procurar qualquer pessoa da nossa equipe. Teremos prazer em ajudá-la.

— Obrigada mesmo.

A funcionária se afastou.

Helena olhou para a própria pulseira.

Nem sequer tinham pedido para vê-la.

Como sabiam quem ela era?

Talvez houvesse alguma indicação no cadastro que Heitor fizera no dia anterior. Talvez alguém da recepção tivesse avisado. Ou talvez aquele nível de atenção simplesmente fizesse parte do clube.

De qualquer forma, gostou.

Pediu uma bebida sem álcool e se acomodou enquanto esperava.

Dali conseguia observar melhor o lugar. Quanto mais olhava, mais detalhes encontrava. Arcos, colunas, relevos, pedra clara, ornamentos antigos. Algumas das esculturas lembravam figuras gregas, e Helena estava tentando decidir se uma delas era realmente antiga ou apenas parecia quando ouviu:

— Que coincidência, Helena.

Ela virou o rosto.

O homem que se aproximava era alto. Não tanto quanto Heitor, mas alto o bastante para que Helena precisasse levantar um pouco o rosto quando ele parou diante dela. Tinha os cabelos castanhos, curtos nas laterais e mais compridos no topo, penteados para trás de um jeito que já começava a perder a forma por causa da água. Algumas mechas ainda úmidas tinham caído sobre a testa.

Usava apenas um calção de banho e um roupão claro completamente aberto

O corpo não tinha a imponência de Heitor, mas era claramente cuidado: ombros largos, abdômen definido, braços fortes e a pele já ligeiramente dourada de quem não estava vendo o sol pela primeira vez naquele verão.

Era um homem charmoso.

Helena registrou isso com a mesma neutralidade com que teria constatado que uma estátua era bonita.

Foi ali que alguma coisa pareceu familiar.

Os olhos eram castanhos, mas não inteiramente. Dependendo da luz, aparecia um fundo verde, principalmente ao redor da íris. Bonitos também, embora houvesse neles uma coisa difícil de definir.

Não era tristeza exatamente.

Ao menos não enquanto ele sorria.

Era algo mais permanente. Uma espécie de cansaço no olhar que não combinava com o restante daquele homem tão bem cuidado.

Helena tinha certeza de que já o vira.

Só não fazia ideia de onde.

Sorriu.

— Oi.

— Coincidência feliz. Está sozinha ou o Monteiro também veio?

— Está aqui. Foi trocar a roupa do trabalho. Já deve estar voltando.

O homem soltou um riso baixo. Não era expansivo; o sorriso aparecia mais de um lado da boca do que do outro.

— Fico feliz de encontrar você de novo. Da última vez, acho que não deixei uma impressão muito boa.

Helena continuou olhando para ele.

Nada.

O homem percebeu, as sobrancelhas subiram ligeiramente.

— Você não lembra de mim.

— Seu rosto é familiar.

— Essa foi educada.

Helena riu, um pouco constrangida.

Ele estendeu a mão.

— Otávio Brandão. Amigo do Heitor desde a adolescência. A gente se encontrou no dia daquele jogo na chácara do Raul.

O aperto de mão foi firme e breve. Assim que a soltou, Otávio levou a mão ao bolso do roupão por puro hábito, pareceu lembrar que não havia bolso onde procurava e deixou o braço cair ao lado do corpo.

O jogo…

Aquilo ainda não ajudava muito. Helena tinha conhecido gente demais naquele dia, além de toda a confusão com Ana Alice.

Otávio inclinou um pouco a cabeça enquanto a observava tentando lembrar. Não parecia ofendido. Se alguma coisa, parecia discretamente entretido.

— Pai da pequena Helena.

— Ahhh!

Agora veio.

A menininha asiática que tinha o mesmo nome que ela. O bullying na escola. A conversa sobre os olhos e o pai. O homem que tinha dito que era ocupado demais para passar mais tempo com a filha enquanto mantinha aquele corpo de quem claramente encontrava tempo para academia.

Helena se lembrou até da irritação que sentira.

— Lembrei de você.

Otávio inclinou a cabeça.

— Não gostei muito dessa expressão.

Ela segurou o sorriso.

— Tudo bem? E a Helena? Como ela está?

— Está bem. Na piscina infantil com uma das babás. — Ele fez uma pequena pausa. — E, antes que você pergunte, fui à escola.

Helena ergueu as sobrancelhas.

— Foi?

— Fui. Conversei com a coordenação e com a professora. Estou acompanhando. Aquilo foi resolvido.

Enquanto falava, Otávio fechou um pouco o roupão sobre o peito, sem chegar a amarrá-lo. Tinha um jeito tranquilo de permanecer parado, sem os pequenos movimentos de quem precisava preencher cada silêncio. Quando terminava uma frase, simplesmente esperava.

O sorriso de Helena veio sincero.

— Fico feliz de saber.

— Imaginei.

— E vocês estão passando mais tempo juntos?

A mudança foi pequena. Otávio desviou os olhos e passou o polegar pela lateral da mandíbula.

— Mais…

Helena esperou.

Ele continuou olhando para algum ponto atrás dela antes de acrescentar:

— …Ainda não tanto quanto eu gostaria.

Aquilo continuava não sendo uma resposta que a satisfazia.

E Helena continuava achando que uma criança daquela idade precisava muito mais do pai do que Otávio parecia ter entendido durante os primeiros anos.

Ia dizer alguma coisa quando uma palavra anterior finalmente voltou à sua cabeça.

— Espera. Você falou “uma das babás”.

Otávio voltou os olhos para ela.

— Falei.

— Quantas ela tem?

— Duas.

— Duas?

Otávio confirmou com a cabeça.

Helena esqueceu a bronca por um instante.

— Desde bebê?

— Praticamente.

Aquilo despertou sua curiosidade imediatamente.

— Eu estou escolhendo uma babá para o Humberto.

— Está?

— Estamos. Entrevistamos cinco, ficaram três e eu fiz um dia de experiência com cada uma.

Otávio indicou a poltrona diante dela.

— Posso?

— Claro.

Ele se sentou.

Mesmo sentado, manteve uma postura naturalmente ereta. Apoiou um dos tornozelos sobre o joelho oposto e deixou um braço no encosto, sem parecer particularmente preocupado em tornar a conversa íntima.

— E?

Helena soltou o ar.

— E eu continuo com três.

— Então as três foram bem.

— Muito.

— Complicado.

— Bastante. — Helena mexeu o canudo dentro do copo. — Como você escolheu as suas?

— Experiência.

A resposta veio sem hesitação.

— Experiência com criança ou especificamente com bebê?

— Bebê. Recém-nascido, principalmente. Primeiros socorros, alimentação, sono... esse tipo de coisa.

Helena assentiu.

Aquilo parecia muito mais próximo do que Heitor valorizava em Patrícia e Denise.

— E você fez as entrevistas?

A pequena pausa respondeu antes dele. Otávio descruzou a perna. Os dedos passaram uma vez pela nuca antes de ele responder:

— Minha família participou mais dessa parte.

— Sua mãe?

— Minha mãe, meus sogros... minha irmã também ajudou em algumas coisas.

Helena observou seu rosto.

— Então os currículos já chegaram filtrados para você.

— Sim.

— E você escolheu os melhores.

— Os mais completos.

A correção chamou sua atenção.

— Para você, era isso que importava.

Otávio olhou para o próprio joelho por alguns segundos.

O sorriso tinha desaparecido completamente.

— Naquele momento, sim. O resto não tinha relevância no contexto.

Helena percebeu a mudança.

Não foi preciso muito para entender a que momento ele se referia.

A pequena Helena tinha acabado de nascer e a mãe dela tinha acabado de morrer.

Otávio não continuou. Helena também não perguntou. Não porque tivesse deixado de ser curiosa, mas porque havia coisas que não pertenciam a ela.

— Então você contratou duas mulheres com bastante experiência.

— Sim.

— Por segurança?

Ele demorou um pouco. O maxilar se contraiu uma única vez.

— Também.

A resposta curta ficou entre os dois.

Otávio passou a mão pelo queixo antes de acrescentar:

— Eu precisava que soubessem o que estavam fazendo.

Outra pausa. Dessa vez, quando levantou os olhos, aquela tonalidade esverdeada parecia menos evidente. A melancolia que Helena tinha percebido quando ele chegou estava ali outra vez, muito mais fácil de enxergar quando Otávio não sorria.

— Eu não sabia.

E encerrou ali.

Helena entendeu.

Talvez mais do que ele pretendesse dizer.

Não havia apenas pragmatismo naquela escolha. Havia um homem com uma recém-nascida nos braços depois de perder a mulher no parto, cercado por uma família tentando manter as coisas funcionando.

Helena não conseguia imaginar aquela dor. Mas também não romantizava o resultado.

Otávio tivera ajuda. Muita. Tivera duas profissionais experientes, avós e família. Tudo isso provavelmente garantira que a pequena Helena fosse muito bem cuidada. Ainda assim, quando Helena a conhecera, aquela menina estava sentindo falta do pai.

Uma coisa não anulava a outra.

— Elas têm perfis parecidos? — perguntou.

A tensão nos ombros dele pareceu diminuir assim que a conversa voltou para as babás.

— Bastante.

— Isso foi intencional?

— Acho que sim.

Helena sorriu.

— “Acho”?

Um dos cantos da boca dele se levantou.

— Eu avisei que não fui a pessoa mais envolvida na seleção.

— E deu certo ter duas?

— Para nós, deu.

Para nós.

Helena gostou daquela resposta. Não “é melhor”. Não “você deveria”. Apenas funcionara naquela casa.

— Heitor chegou a cogitar duas.

— E você?

— Acho demais para o que eu quero agora.

Otávio assentiu.

Não tentou convencê-la.

Helena continuou:

— Eu quero voltar a trabalhar, então preciso de alguém em quem consiga confiar de verdade. Mas também não quero uma estrutura em que o Humberto passe de uma pessoa para outra o dia inteiro.

— Então duas talvez não façam sentido pra você.

— Talvez mais para frente. Se nossa rotina mudar.

— Pode ser.

Helena tomou mais um gole.

— Para vocês fazia sentido porque você precisava de cobertura?

Otávio pensou.

— Cobertura, horários, viagens às vezes... e eu preferia não depender de uma pessoa só.

Helena assentiu.

Aquilo fazia sentido para ele.

Não necessariamente para ela.

Se contratasse Denise, por exemplo, não queria outra profissional dividindo aquele vínculo desde o início apenas porque parecia mais sofisticado ter duas. Se escolhesse Patrícia, queria conhecer a forma como ela se encaixaria na rotina antes de adicionar outra pessoa. E, com Lívia, talvez a própria falta de tantos anos de experiência fizesse Helena querer estar ainda mais presente nos primeiros meses.

Ela já tinha preferências.

O problema era que tinha três preferências diferentes para três qualidades diferentes.

— As minhas finalistas não se parecem em nada — comentou.

— Não?

Otávio esperou.

Helena percebeu que ele não pediria detalhes apenas por educação. Mas ela queria falar.

— A Denise é a mais velha. Muito experiente, muito carinhosa. Tem um jeito... — Helena procurou a palavra. — Acolhedor. O Humberto gostou dela imediatamente.

— Isso é bom.

— É.

Helena não acrescentou que também tinha sido justamente aquilo que lhe dera uma fisgada absurda de ciúme.

Otávio não precisava saber de tudo.

— A Patrícia é técnica de enfermagem. Trabalhou em maternidade e UTI neonatal. Ela me passa uma segurança enorme. É aquela pessoa que eu imagino mantendo a cabeça no lugar se alguma coisa der errado.

Otávio assentiu uma vez.

— Eu provavelmente teria olhado primeiro para essa.

Helena sorriu.

— Imaginei.

— Pelo que acabei de te contar, não era difícil.

— Não.

E aquilo foi interessante.

Patrícia talvez tivesse sido exatamente a mulher que Otávio escolheria anos atrás.

Não porque fosse objetivamente melhor. Porque segurança era o que ele precisava desesperadamente naquele momento.

— E a terceira? — perguntou.

— Lívia. Pedagoga. Tem especialização em desenvolvimento infantil, fala inglês, primeiros socorros... mas tem menos experiência como babá.

— Quanto menos?

Helena explicou por alto.

Otávio ouviu sem interromper. Tinha esse hábito: quando outra pessoa falava, sustentava o olhar por alguns segundos, depois o deixava vagar, mas não parecia ansioso para preparar a própria resposta.

— E você gostou dela.

Não foi uma pergunta.

Helena olhou para ele.

— Gostei muito.

— Então o currículo não eliminou.

— Não.

— Pronto.

Helena franziu a testa.

— Pronto o quê?

— Nada. Só estou acompanhando.

Ela riu.

— Achei que vinha uma conclusão.

— Não conheço nenhuma das três.

Melhor ainda.

— A Lívia foi diferente — Helena continuou. — Ela observou muito o Humberto. Não chegou tentando mostrar tudo que sabia. Parecia querer entender quem ele era antes.

Otávio assentiu.

— Parece bom.

— Foi.

— Mas você está preocupada com a experiência.

— Estou. E Heitor também.

— Faz sentido.

Helena olhou para ele.

— Você concorda com tudo?

Otávio soltou um riso curto, quase pelo nariz.

— Você quer que eu escolha uma?

— Não.

— Ótimo, porque eu não faço ideia.

Helena riu.

Aquilo era muito mais útil do que alguém lhe dizendo qual contratar.

— É engraçado — ela comentou depois de alguns segundos.

— O quê?

— Se eu te entregasse os três currículos sem falar nada, você provavelmente escolheria Patrícia.

Otávio pensou.

— Provavelmente.

— Heitor fica entre ela e Denise porque são as duas mais experientes com bebê pequeno.

— Também faz sentido.

— E eu continuo olhando para a Lívia e pensando em tudo que ela poderia acrescentar ao desenvolvimento dele.

Otávio deu de ombros.

— Então vocês estão procurando coisas diferentes.

Helena abriu a boca para responder.

Parou.

Não exatamente.

Ela e Heitor queriam a mesma coisa: Humberto bem cuidado, seguro, amado e estimulado. Mas talvez estivessem atribuindo pesos diferentes às formas de chegar lá.

E Otávio… Otávio tinha procurado outra coisa. Segurança quase absoluta. Gente que soubesse fazer o que ele não sabia. Não porque fosse frio. Não porque amasse menos a filha. Porque aquela era a família que existia naquele momento. Uma família que tinha acabado de perder alguém.

Helena olhou para ele.

— E hoje?

— Hoje o quê?

— Se você precisasse escolher alguém para a Helena agora. O que seria importante?

Otávio demorou.

O olhar foi quase automaticamente para a direção das piscinas.

— Ela gostar.

Helena sorriu.

— Só?

— Não. Mas bastante.

Ele continuou olhando naquela direção.

— Ela tem cinco anos. Já sabe quem quer perto.

Havia uma distância estranha naquela frase. Como se ele respeitasse muito o mundo da filha, mas nem sempre soubesse entrar nele. Helena sentiu uma pontada de tristeza.

Não por pena dele. Pela menina.

— E você sabe do que ela gosta nas duas?

Otávio demorou um pouco mais do que Helena esperava.

Pela primeira vez desde que se sentara, pareceu desconfortável não por causa da esposa, mas pela própria resposta.

— A Márcia é mais... tranquila. Ela procura a Márcia quando está cansada.

Fez outra pausa.

— A Gleice brinca mais com ela.

Era pouco.

Helena percebeu.

Talvez a babá pudesse descrever dezenas de diferenças. Talvez soubesse qual penteado a menina preferia, que história pedia antes de dormir, qual comida recusava quando estava irritada.

Otávio sabia algumas coisas.

Mas ainda parecia observar parte da vida da filha de fora.

Helena não disse nada.

Já o tinha repreendido uma vez. Não era sua função educar um homem adulto toda vez que o encontrasse. E, principalmente, ele não tinha lhe pedido isso.

— Ela é muito apegada às duas? — perguntou.

— É.

— Você já teve problema com isso?

— Não.

A resposta veio rápida demais.

Otávio desviou os olhos. Os dedos foram novamente à nuca, esfregando uma vez a pele ainda úmida.

— Sempre achei bom ela ter gente em quem confiasse.

Helena ficou quieta.

Por um instante, alguma coisa mudou no rosto dele.

— A mãe dela teria...

Parou.

Foi quase brusco. A mandíbula endureceu. Os olhos castanhos esverdeados baixaram e permaneceram assim por alguns segundos.

Helena viu o peito dele se expandir numa inspiração mais funda.

— Enfim.

Não terminou.

E aquela palavra incompleta pareceu dizer muito mais sobre Otávio do que tudo que ele tinha contado até ali.

Helena sentiu o peito apertar.

Ele ficou alguns segundos em silêncio antes de continuar, já em outro tom:

— As duas cuidam muito bem dela.

E Helena deixou que ele mudasse de assunto.

Não precisava puxar uma dor que ele claramente ainda não sabia onde colocar.

— Acho que estou tentando encontrar uma pessoa que tenha um pouco das três — disse Helena.

Otávio soltou um riso baixo.

— Aí você complicou.

— Eu sei.

— Talvez essa pessoa não exista.

— Provavelmente não.

Helena olhou para a bebida.

Sabia disso.

Denise não se transformaria em Patrícia.

Patrícia não teria a espontaneidade de Lívia.

Lívia não acordaria na segunda-feira com vinte anos de experiência.

Escolher significaria também aceitar aquilo que a escolhida não tinha e Helena não gostava daquela parte.

— Acho que eu queria ter certeza — admitiu.

— De quê?

— De que estou fazendo a escolha certa.

Otávio pensou por alguns segundos.

— Eu não tive.

Helena levantou os olhos.

— Não?

— Não.

Ele não pareceu disposto a explicar mais. Apenas puxou um pouco as duas abas do roupão, aproximando-as sobre o peito.

— Deu certo?

Otávio olhou na direção das piscinas.

— Com elas? Deu.

Helena percebeu imediatamente o recorte.

Com elas.

As babás tinham dado certo.

Aquilo não significava que todo o resto tivesse dado e talvez essa fosse justamente a parte mais importante daquela conversa.

Uma excelente babá podia oferecer segurança, afeto, rotina e estabilidade.

Não podia ocupar o lugar dos pais.

Nem deveria.

Helena jamais quis isso.

Queria trabalhar. Queria voltar para a Monteiro, participar de projetos, crescer, ter algo que também fosse dela. Queria poder almoçar com Heitor num sábado e deixar Humberto algumas horas com os avós sem sentir que estava cometendo um crime.

Mas também queria chegar em casa e saber quem seu filho tinha sido naquele dia.

Queria que ele procurasse por ela.

Queria continuar conhecendo cada som, cada mania, cada mudança daquele menino.

A babá precisava entrar na vida deles.

Não assumir a vida deles.

— Helena?

Ela reconheceu a voz antes mesmo de olhar.

Virou o rosto na direção dela e sentiu o calor subir imediatamente pelo pescoço.

Ah, não.

Era ridículo. Moravam juntos. Dormiam juntos. Tinham um filho. Helena conhecia aquele homem vestido, sem roupa, de sono, doente, irritado, suado depois da academia e recém-saído do banho. Conhecia o corpo dele tão bem que saberia encontrá-lo no escuro.

Ainda assim, às vezes Heitor aparecia e parecia pegá-la desprevenida.

E naquele momento pegou.

Ele vinha pelo corredor com as mãos enfiadas nos bolsos do calção que Helena reconheceu imediatamente. Preto e branco, estampado com pequenos coqueiros nas mesmas cores. Ela tinha comprado aquele calção para ele.

Nos pés, chinelos brancos.

Só isso.

E era um absurdo o que aquele homem conseguia fazer com tão pouca roupa.

O cabelo escuro estava diferente do que estivera quando saíra da empresa. O degradê recente deixava a lateral e a nuca mais curtas, enquanto o topo, um pouco maior, tinha perdido o arranjo cuidadoso do trabalho e caía texturizado, ligeiramente desalinhado. A barba por fazer sombreava o maxilar.

Helena gostava demais daquela barba.

Mas foram os ombros que fizeram seu olhar descer.

Heitor sempre parecera grande vestido; sem camisa, ficava evidente que não era efeito da alfaiataria. O peito largo, os braços fortes, o abdômen sem aquela definição artificial de quem passava a vida contando percentual de gordura. O corpo de um homem grande, forte, de quarenta anos, que treinava porque gostava e porque sempre gostara.

E havia as marcas.

No ombro direito, a cicatriz interrompia a pele onde antes não havia nada. Já não tinha o aspecto recente que fizera Helena se preocupar durante a recuperação. Agora era apenas uma linha irregular, mais clara, incorporada ao corpo dele. No antebraço, outras marcas menores permaneciam.

Os olhos de Helena continuaram descendo.

Na lateral direita do abdômen, pouco acima da cintura do calção, estava a tatuagem.

O H, maior, na caligrafia dele.

O restante do nome, menor e delicado, na dela.

Helena.

Seu nome naquele corpo.

Ela já tinha visto aquilo incontáveis vezes.

Não ajudava em absolutamente nada.

Quando conseguiu voltar ao rosto de Heitor, encontrou os olhos azuis fixos em Otávio.

Ah… Aquela cara.

As mãos continuavam casualmente dentro dos bolsos, os passos tranquilos, mas Helena conhecia cada versão daqueles olhos. E aquela não era exatamente a expressão do homem mais feliz do mundo por encontrar um amigo sentado sozinho com sua noiva.

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Antes que ela respondesse, Otávio se levantou.

Puxou as duas abas do roupão um pouco mais para perto do corpo e cumprimentou Heitor.

— Monteiro.

A expressão de Heitor mudou o suficiente para um sorriso aparecer de lado.

— Brandão.

Os dois apertaram as mãos com a familiaridade de quem fazia aquilo havia anos.

— Pelo jeito você já conheceu minha noiva.

Helena ergueu ligeiramente uma sobrancelha.

Minha noiva.

Otávio também pareceu perceber a escolha das palavras, porque um canto da boca se levantou.

— Já tinha conhecido. Estava fazendo ela lembrar de mim enquanto esperava você.

Heitor finalmente tirou a outra mão do bolso.

Veio até Helena, apoiou a palma grande no encosto da poltrona e se inclinou sobre ela.

O cheiro dele chegou primeiro. Banho recente misturado ao perfume amadeirado que ainda permanecia discretamente na pele.

— Oi, amor.

O beijo foi curto, macio. Um selinho que deveria ter sido completamente inocente.

Helena continuou olhando para ele quando Heitor se afastou alguns centímetros.

De perto era pior.

A barba escura começando a crescer. O azul dos olhos muito mais evidente naquela claridade. Uma pequena mecha do cabelo que não tinha decidido para que lado ficar.

— Desculpa a demora.

Helena piscou. Precisou lembrar que ele tinha falado alguma coisa.

— Oi.

Heitor estreitou um pouco os olhos. O canto da boca começou a subir.

Helena percebeu tarde demais que ainda estava olhando para o peito dele.

Subiu os olhos rapidamente.

O sorriso dele aumentou.

Droga.

Otávio salvou o pouco de dignidade que ainda lhe restava.

— Helena me contou da seleção das babás. Estava falando um pouco da minha experiência.

Heitor desviou os olhos dela.

— Ah, sim. Obrigado.

— Não fiz muita coisa.

— Melhor. Se tivesse escolhido uma, a gente ia ter problema.

Otávio riu.

— Fiz questão de não escolher.

— Conheço você há tempo suficiente para saber que foi a decisão certa.

— Vai se ferrar.

Heitor riu baixo.

Era diferente vê-los juntos agora que Helena sabia há quanto tempo se conheciam. Não havia esforço entre os dois. Nem aquela necessidade de amigos recentes de demonstrar intimidade o tempo inteiro. As frases eram curtas, os silêncios confortáveis.

Heitor deu um tapinha no braço dele.

— Foi bom te ver, cara. Depois a gente conversa direito. Hoje eu estou ocupado.

Otávio olhou para os dois

— Percebi.

Heitor nem fingiu constrangimento.

— Tenho um encontro.

— Então aproveitem.

— Pode deixar.

Otávio olhou para Helena.

— Boa sorte com as três.

— Obrigada. E obrigada pela conversa.

— Não sei se ajudei.

— Ajudou.

Ele assentiu.

— Ótimo.

Otávio se despediu dos dois e seguiu pelo corredor em direção às piscinas.

Helena acompanhou por alguns segundos. Havia uma coisa que tinha percebido durante aquele último minuto. Otávio não era submisso a Heitor. Muito menos intimidado por ele. Eram amigos antigos demais para aquilo.

Mas existia respeito. Um respeito muito claro. Talvez por conhecer Heitor desde antes da Monteiro Inc., antes de Helena, antes de quase tudo que constituía o homem que ele era agora.

Heitor permaneceu olhando na direção em que Otávio desaparecera. O sorriso tinha sumido.

Helena observou o perfil dele.

— O que foi?

Heitor virou lentamente o rosto para ela.

— Eu sabia que não podia deixar você sozinha.

Helena soltou uma risada.

— Heitor!

Ele tirou a outra mão do bolso.

— Cinco minutos.

— Ele é seu amigo.

— Exatamente.

— Vocês se conhecem desde adolescentes.

— Exatamente!

Helena começou a rir mais.

— Essa lógica é péssima.

— Minha lógica é excelente.

— Você confia nele.

— Confio.

— Então?

Heitor fez uma expressão como se aquilo fosse absolutamente óbvio.

— Homem é homem, Helê.

— Meu Deus…

— E eu conheço aquele ali.

Helena ainda estava sentada, olhando para cima.

— Pelo que parece, ele não sai com ninguém desde que a esposa morreu.

A brincadeira diminuiu no rosto de Heitor.

— Não sai.

A resposta veio simples. Ele olhou por um instante na direção por onde Otávio tinha ido.

— Nem tentou de verdade.

Helena se lembrou dos olhos castanho-esverdeados perdendo o foco toda vez que a conversa chegava perto demais da falecida esposa.

— Acho que ele ainda não superou.

— Não superou.

Heitor não hesitou. Havia tristeza na resposta, mas ele não se demorou nela.

— E o Otávio nunca foi um cara que se encanta porque apareceu uma mulher bonita na frente dele. Se fosse só isso, eu estava tranquilo.

Helena arqueou uma sobrancelha.

— Ah, é?

Os olhos azuis voltaram para ela.

— É.

— Então por que você não está tranquilo?

Heitor se inclinou um pouco.

— Porque você é bonita pra caralho e ainda vem com esse problema enorme aí.

Helena franziu a testa.

— Que problema?

Ele apontou vagamente para ela inteira.

— Personalidade.

Helena abriu a boca, indignada.

— Minha personalidade é um problema?

— Para mim, não. Para os outros homens, é um risco.

Ela começou a rir.

— Você é muito bobo.

— Não estou brincando.

— Está, sim.

— Só uns quarenta por cento.

— Monteiro!

Ele sorriu.

Helena se levantou.

De pé diante dele, a diferença de tamanho ficou ainda mais evidente. Precisou erguer o rosto para encontrá-lo e, sem pensar muito, passou os braços ao redor do pescoço dele.

Ficou um pouco na ponta dos pés.

As mãos de Heitor foram imediatamente para sua lombar.

Grandes e quentes, deslizando até se acomodarem ali como se conhecessem aquele lugar havia muito mais tempo do que realmente conheciam.

Helena passou os dedos pela nuca dele, sentindo sob as pontas o cabelo curtinho do degradê.

— Você não precisa se preocupar.

Heitor a olhava de cima. Tão perto, Helena conseguia perceber pequenas variações naquele azul que de longe desapareciam. E conhecia aquele olhar.

Conhecia muito bem.

Ela sorriu.

— Eu amo você.

A expressão dele mudou. Foi sutil, mas Helena viu.

As mãos apertaram um pouco sua cintura.

— Eu sei, Helê.

Ele inclinou a cabeça.

Helena o encontrou no meio do caminho.

O beijo começou devagar. Familiar. Sem pressa.

A boca que ela conhecia. A barba roçando seu rosto. As mãos dele firmes em sua lombar, trazendo-a alguns centímetros mais para perto.

Helena deslizou uma das mãos da nuca para o cabelo e sentiu Heitor respirar mais fundo contra sua boca. Aquilo ainda lhe dava uma satisfação quase infantil. Saber exatamente onde tocar. Exatamente do que ele gostava.

Quando se afastaram, Heitor deixou um último beijo no canto da boca dela.

— Vamos?

Helena assentiu. Mas não saiu do lugar.

Os olhos desceram novamente. Agora sem nenhuma vergonha.

Passaram pelo peito, pela cicatriz no ombro, pelo abdômen e encontraram seu próprio nome quase encostando no cós do calção.

Heitor acompanhou o percurso.

— Que foi?

Helena levantou os olhos.

— Nada.

— Helena.

Ela sorriu.

— Adorei o visual.

Heitor abriu os braços ligeiramente e olhou para si mesmo.

— Esse calção?

— Eu tenho excelente gosto.

Ele riu.

Helena chegou um pouco mais perto e baixou a voz.

— Na verdade...

— Hum?

Ela aproximou a boca do ouvido dele.

— Fiquei molhadinha só de olhar pra você.

Heitor ficou absolutamente imóvel.

Helena precisou morder o lábio para não rir antes da hora.

Ele virou o rosto muito devagar. Os olhos azuis se arregalaram primeiro. Depois estreitaram.

— Você falou o quê?

Helena já estava rindo.

— Nada.

— Não, não. Vem cá.

Heitor segurou sua mão e começou imediatamente a puxá-la na direção do corredor de onde tinha acabado de vir.

— Heitor!

— Suíte, a mais próxima possível.

Helena quase tropeçou de tanto rir.

— Não!

— Você acabou de—

— Era brincadeira!

Heitor parou e virou para ela.

— Brincadeira?

— Era.

Ele ficou olhando.

Helena tentou sustentar uma expressão séria.

Não conseguiu.

— Helê...

— O quê?

Heitor aproximou-se outra vez.

— Você está cutucando a onça com a vara curta.

— Você não é uma onça.

— Agora eu sou.

— Há cinco minutos você era uma raposa.

— Posso ser versátil.

Helena soltou uma gargalhada.

— Vem, vamos para a piscina.

— Não gostei dessa brincadeira.

— Gostou, sim.

— Gostei pra caralho. Esse é o problema.

Ele passou um braço ao redor da cintura dela e a puxou contra o corpo.

Helena ainda ria quando sentiu a boca dele no ombro.

— Heitor...

Ele deu uma mordida leve na pele. Não forte o suficiente para doer. Só o suficiente para fazê-la encolher o ombro e sentir um arrepio correr pelos braços.

— Ei!

Heitor levantou o rosto. A expressão satisfeita fez Helena estreitar os olhos.

— Estou de olho em você.

— Em mim?

— Muito.

Ela colocou a palma no peito dele e o empurrou sem força.

— Ciumento.

— Preventivo.

— Ridículo.

— Seu gostoso.

Helena parou.

Heitor ergueu uma sobrancelha.

Ela tentou segurar.

Tentou mesmo.

Acabou rindo.

— Convencido.

— Você acabou de me dar evidência.

E passou o braço novamente pela cintura dela, conduzindo-a em direção às piscinas como se tivesse acabado de vencer uma discussão que só existia na cabeça dele.

Helena deixou.

Mas, depois de dois passos, sua mão escorregou pelas costas nuas de Heitor e ficou ali.

A pele quente sob sua palma.

A cicatriz no ombro aparecendo quando ele movimentava o braço.

Seu nome tatuado logo abaixo, surgindo e desaparecendo conforme o corpo dele se movia.

Heitor olhou de lado para ela.

Não disse nada.

Só sorriu.

E Helena pensou que talvez fosse profundamente injusto um homem ficar ainda mais bonito depois de ela já ter se apaixonado por ele.